 O Vu
Willian Nascimento
       ~2~
                             O vu
                           Ano: 2009
              Autoria: Willian da Silva Nascimento
               Capa: Willian da Silva Nascimento
Direitos reservados ao autor pelo Escritrio de Direitos Autorais 
       Fundao Biblioteca Nacional  Rio de Janeiro - RJ
     Obra liberada para livre divulgao sem fins lucrativos
                             ~3~
      Para Nathlia, pois
      nenhum livro 
      escrito sem ter
      aquele interessado
      em ler.
~4~
   Agradecimentos:
   Existem vrias pessoas a quem devo a chance de realizar esse
trabalho.
   Mesmo no contribuindo diretamente com o livro, suas aes, por
menos importantes que possam parecer, foram as linhas fundamentais
que permitiram tecer O vu.
   Primeiramente, devo muitos agradecimentos a minha famlia,
principalmente a meu pai Jurandy, minha me Estefania e minha irm
Michelle, que foram pessoas que no mediram esforos para me dar a
melhor educao possvel.
   Muito obrigado.
   Em segundo, gostaria de mandar um grande beijo para Ftima, uma
grande amiga que me iniciou no mundo da leitura e me mostrou as
coisas fantsticas por trs das letras.
   Tia Ftima, grande parte dos livros que voc me emprestou ajudaram
a compor essa obra.
   Obrigado.
    Nada seria de mim sem esse grupo.
    Eles me acompanharam por grande parte de minha vida e com eles
tive a chance de viver muitas aventuras. Foram graas h nossas horas
gastas em RPG, que eu consegui desenvolver a imaginao que me
permitiu criar histrias prprias.
    Obrigado a Jorge, Marcelo, Marcos, Mariana, Rafael, Renata, e
Renan.
    Amigos na realidade e na virtualidade.
    E por ltimo, vale lembrar que nada sai sem um propsito.
    Nenhuma msica  composta sem algum para ouvir e nenhuma
pintura e trabalhada se no tem quem possa ver.
    Assim tambm, nenhum livro pode ser escrito se no h pessoas
interessadas em ler.
    Ento, muito obrigado a Nathlia, pois sua animao e incentivo me
deram a coragem de me sentar na frente do computador e escrever.
    Obrigado por confiar em mim.
                               ~5~
Sumrio
Prefcio. Pg. 08
Prlogo - Histrias em volta da fogueira Pg. 09
1 - Um dia na fossa. Pg. 16
2 - Operao cupido. Pg. 27
3 - Aliana. Pg. 37
4 - Carncia. Pg. 42
5 - Excludo. Pg. 47
6 - Olhos azuis. Pg. 51
7 - Um grito na noite. Pg. 64
8 - Flashback. Pg. 74
9 - Ponte. Pg. 88
10 - O prodgio. Pg. 94
11 - Vencendo o ceticismo Pg. 102
12 - Perdo. Pg. 108
13 - O Beijo. Pg. 111
14 - Jogo da verdade. Pg. 116
15 - Estudos. Pg. 128
16 - O vu. Pg. 139
17 - Quintessncia. Pg. 146
18 - A Bssola de Ins. Pg. 155
19 - Mestre. Pg. 157
20 - Jogo perigoso. Pg. 164
21 - Kalish. Pg. 170
22 - Lucien. Pg. 184
23 - A Besta. Pg. 195
24 - Ian. Pg. 204
25 - Numa noite chuvosa. Pg. 212
26  Plano de fuga. Pg. 213
27 - A especialista em sonhos. Pg. 227
28 - Revirando o passado. Pg. 234
29 - Caa ao demnio. Pg. 240
30 - Boa o bastante. Pg. 244
31 - Compreenso. Pg. 254
32 - Possesso encubada. Pg. 263
33 - A Testemunha. Pg. 269
                           ~6~
34 - Decises. Pg. 278
35 - A discpula das fadas. Pg. 280
36 - No quartel. Pg. 290
37 - Primeiras aulas. Pg. 296
38 - O confronto. Pg. 309
39 - Ataque surpresa. Pg. 316
40 - Um novo mundo. 324
41 - Traio. Pg. 328
42 - Os guardies do segredo. Pg. 331
43 - Pacincia. Pg. 336
44 - Adeus Tias. Pg. 338
45 - O caador de magos. Pg. 345
46 - ltima noite. Pg. 353
47 - Volta. Pg. 358
48 - Liberdade. Pg. 364
49 - Sexto sentido. Pg. 370
50 - Ombro Amigo. Pg. 376
51 - A hospedeira. Pg. 379
52 - Armadilha do diabo. Pg. 384
53 - A perda da f. Pg. 389
54 - A arma secreta. Pg. 393
55 - Acerto de contas. Pg. 399
56 - O Reencontro. Pg. 405
57 - Dever de casa. Pg. 409
58 - Conto de Fadas. Pg. 412
59 - O segredo dos Garows. Pg. 416
60 - O arrependimento do velho mago. Pg. 422
61 -  procura da Nova Gnesis. Pg. 430
62 - O Retorno. Pg. 438
63 - Paixo. Pg. 439
64 - Uma pequena esperana. Pg. 444
65 - A segunda viso da histria. Pg. 450
66 - Brincando com fogo. Pg. 458
67 - Cronos. Pg. 464
68 - Besta liberada. Pg. 469
Eplogo - Novos comeos. - Pg. 476
                         ~7~
  Prefcio
   Ao que parece a literatura fantstica ganhou muito espao
nesse inicio de sculo XXI. Iniciando-se com Anne Rice
(ainda em finais do vinte), consumando-se com J. K.
Rowling, e sendo mantido por Stephenie Meyer e outros,
seres como vampiros, bruxos e outras entidades vm
conseguindo retomar o espao que tinham no sc. XVIII, nos
auges do romantismo.
   Eu, como f desse tipo de literatura, nada mais pude fazer
do que agradecer a esse ambiente frtil que hoje se forma e
tambm me sentir tentado a dar eu tambm a minha
contribuio.
   O vu  meu romance de estria que estou
disponibilizando on-line para os fs de literatura fantstica
que no se cansam de ler mais e mais sobre o assunto, assim
como eu. Esse trabalho est liberado para livre divulgao
sem fins lucrativos e eu espero que curtam bastante a leitura
e a passem a diante para amigos, familiares, conhecidos e
desconhecidos.
   Desejo a todos uma tima leitura e desculpem pelos erros
que podem vir a aparecer ao longo da obra, pois, eu
reconheo que ela ainda necessite de uma reviso
profissional.
                                        Willian Nascimento
                           ~8~
   Prlogo - Histrias em volta da fogueira
    De todas as frias que passava, no havia nenhuma melhor para Ana
do que as que ocorriam no stio dos avs em Trs Coraes, interior de
Minas Gerais. O Estado mineiro  famoso por suas lendas locais e
supersties dos mais variados tipos, mas Ana gostava especialmente
desta cidade aonde havia as lendas de bruxas que ela tanto amava.
    Suas tias, que tambm moravam na regio, tinham o costume de lhe
contar inmeras historias enquanto assavam marshmallows em volta da
fogueira no quintal da casa delas. Teresa e Samanta eram suas melhores
amigas e sempre se diziam bruxas de alto poder, coisa que Ana jamais
duvidou. Tal crena sempre foi forte no corao da garota e certos
acontecimentos s fortaleciam sua f no poder delas.
    Ela ainda conseguia se lembrar muito bem da noite em que acordara
doente com o termmetro marcando quarenta graus de febre. Tia Teresa
lhe trouxe um ch de ervas que, segundo ela, era capaz de curar quase
todos os tipos de enfermidades. Com apenas oito anos na poca a menina
no teve receios em acreditar com todas as foras na cura milagrosa e
aparentemente os cus recompensaram sua f, pois no dia seguinte estava
curada. Esse e outros casos s serviam para confirmar para Ana o poder
que aquelas duas mulheres possuam.
    Slvio e Marieta, seus avs, reforavam suas crenas. Sempre
confirmaram para Ana o poder de suas filhas, contando casos em que
elas conseguiram mexer com as foras da natureza. Numa certa ocasio,
eles contaram, uma onda de calor atacou o Municpio de Trs Coraes,
trazendo algumas doenas de carter misterioso. Eles se recordam que
numa semana as irms Samanta e Teresa saram de casa alegando que
iriam para o interior da floresta onde havia um local especial onde elas
poderiam realizar um ritual que poria um fim no problema. Logicamente
seus pais foram contra tal empreitada, principalmente pelo fato das duas
irms apenas terem doze e quatorze anos, respectivamente, na poca.
Mas a proibio no adiantou muito e naquela noite as duas haviam
fugido as escondidas e ficaram desaparecidas por uma semana. Seus pais
procuraram por elas de todas as formas possveis sem obter resultados
vantajosos. Mandaram inmeros grupos de busca para a floresta, mas
todos voltaram sem resultados e a policia comeava a cogitar a idia de
um seqestro. Porm, exatamente uma semana depois, as duas irms
reapareceram. Ilesas e aparentemente saudveis, elas diziam que foram
bem sucedidas no ritual mgico.
                                ~9~
    Slvio e Marieta ficaram irritados, mas depois que tiveram suas filhas
de volta, foram capazes de perceber que de fato as coisas haviam mudado
e que o clima estava bastante ameno. Sem saber o que fazer, deixaram
aquela passar, mas no sem antes arrancarem uma promessa das duas de
que jamais fariam aquilo novamente.
    Ao contrario de seus avs, sua me, no concordava com tais
comportamentos de suas irms. Helena era na poca professora Adjunta
da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde lecionava biologia. Ela
no compartilhava das crenas de Ana. Para Helena, mgica no existia.
Na verdade, para ela nada que no pudesse ter uma explicao baseada
em tomos, enzimas ou teorias da fsica no existiam.
    "Por isso no arrumam maridos", era o comentrio que sempre fazia.
    Apesar dessa opinio, Helena nunca forou Ana a seguir suas idias,
embora no gostasse da influncia que suas irms tinham sobre a menina.
    Seu pai, apesar de tambm ser descrente, em nada se importava. Ele
sempre dizia que crianas deviam ter o direito de sonhar. Para ele, que
era psiclogo, essas fantasias eram importantes para o desenvolvimento
infantil. "Crianas devem ser crianas", ele sempre dizia.
    Com essa famlia, Ana nunca teve dificuldades em deixar sua
imaginao correr. E sempre que cabia a ela escolher aonde seriam as
prximas frias, a resposta j estava gravada em sua lngua: para Trs
Coraes.
    Porm, as suas frias de meio de ano, prximas da data de comemorar
seu dcimo segundo aniversrio, poriam um fim a esse mundo de magia.
    *
    Era Inverno e mais uma vez Ana tinha decidido passar seus dias de
frias na casa dos avs. As trs primeiras noites que passou, ela ouviu
timas histrias de bruxas e magos em volta da fogueira no quintal da
casa de suas tias. Samanta lhe contou uma lenda antiga, sobre uma
famlia de magos muito antigos que habitava as regies do norte do
Canad: a famlia Garow.
    "De acordo com a lenda, essa famlia, diferentes dos demais magos
existentes, possua uma forte ligao com a natureza da regio, sendo
capazes at mesmo de controlar o clima gelado e os lupinos locais. Alm
dos poderes incomuns, seus traos fsicos eram muito peculiares e em
muito lembravam aspectos candeos. Dizem at mesmo que a lenda dos
lobisomens nasceu devido a esse cl.
    "Durante a caa s bruxas, inmeras foram as tentativas dos
inquisidores europeus de erradicar esse grupo. Porm, devido ao seu
                                ~ 10 ~
grande poder e sua afinidade com a natureza local, nunca foram
derrotados, obrigando os colonizadores a no adentrar seus territrios e
mantendo a regio conservada.
    "Como os Garows no demonstravam instintos expansionistas,
viveram em paz com os russos que vieram a habitar essa regio nos anos
seguintes. At que desapareceram."
    - Mas como tia Samanta? - a garota ficou pasma - Os russos
finalmente conseguiram derrotar os Garows?
    - Possivelmente no. - respondeu Teresa  Apesar de a Rssia possuir
excelentes grupos inquisidores na poca e seu povo j ser acostumado ao
clima gelado, duvido que fossem capazes de deter a afinidade dos
Garows em sua terra.
    - Mas ento como eles puderam desaparecer?
    - Ningum sabe  agora era Samanta quem dizia  esse  um dos
maiores mistrios do mundo mgico. Como um cl to poderoso pde
simplesmente ser erradicado? - ela deu de ombros - A noticia correu o
mundo quando comeou a circular na Europa o dirio de um colono
Russo que habitava a regio e tinha relaes com os membros do cl. Seu
dirio continha alguns relatos da dizimao dos Garows. Esses relatos
mostram o grau de destruio em que a aldeia foi encontrada. Todos os
moradores foram brutalmente assassinados, provavelmente por um grupo
mais feroz que eles, devido aos tipos de ferimentos encontrados nos
corpos.
    Ana ouvia cada detalhe com muita ateno, tendo at mesmo que se
lembrar de respirar em algumas seqncias.
    - Nossa! - exclamou - Quando crescer vou descobrir o que aconteceu
com o cl Garow.
    - Claro que vai querida  encorajou Samanta com um sorriso  mas
agora voc vai  voltar para casa da vov para dormir.
    - Exatamente.  completou Teresa  J est tarde e se voc se atrasar
mais meus pais vo nos mandar para a fogueira.
    Ana riu e concordou.
    - Vou indo sim. Mas posso fazer uma ltima pergunta?
    - Claro  encorajou Samanta
    - Como eles eram? Digo, eram humanos?
    - Claro que sim. Todos os magos so humanos, querida. Magia  para
todos e aposto que as habilidades dos Garow, apesar de incomuns, foram
fruto de um intimo contato com sua terra. Afinal, eles moraram naquela
regio por cerca de mil anos e nesse tempo aprenderam muitas coisas.
    - Claro que tem a questo da aparncia  lembrou Teresa.
                               ~ 11 ~
    - Como assim?  a garota se interessou.
    Bem, contam as lendas que a grande afinidade que os Garow tinham
com a sua terra acabou mudando a sua prpria fisionomia.  e fez uma
pausa para acrescentar um ar de mistrio a narrativa  Parece que a
ligao deles com os candeos deram a este grupo algumas caractersticas
bem bestiais como unhas em forma de garras e caninos pontiagudos.
Outra caracterstica forte no cl eram seus intensos olhos azuis. Todos os
relatos sobre os Garows falam desses olhos. Parece que o efeito que
causa em quem v  impactante.
    - Eles deviam ser bem bonitos  comentou Ana.
    - Bem, tem gosto pra tudo  riu-se Teresa no concordando por
completo  Ento, vai querer companhia pra casa?
    - No Tia. J sou crescida.
    - Que timo.  felicitou Samanta  Ento vai logo. Amanh fazemos
outro programa.  e, de repente, ela deu um pulo lembrando-se de uma
coisa  Espere. Eu quero que leve isso contigo.
    Samanta remexeu o bolso do casaco  procura de algo, at que enfim
encontrou um pedao de pano, aparentemente muito velho.
    - O que  isto?  perguntou a garota um tanto enojada pela sujeira do
tecido.
    - Abra  recomendou Samanta.
    Aps desdobrar o pano sujo, Ana encontrou uma mancha. Ela olhou
para as tias interrogativamente e depois focalizou a ateno novamente
no presente. Aos poucos foi identificando os aspectos da estranha
mancha e percebeu que tinha um padro ali. Logo percebeu se tratar, no
de uma mancha, mas sim de um desenho de aparncia bem rstica.
Depois de poucos segundos a garota conseguiu identificar a cabea de
um lobo estampada no tecido. A face do animal, toda em estilo tribal, se
encontrava de frente e com um olhar ameaador. O desenho no tinha
muitos traos, mas era bonito assim mesmo.
    - Esse  o smbolo da famlia Garow.  explicou tia Teresa   uma
relquia, talvez uma das poucas que um dia pertenceu  tribo.
    O rosto da garota se iluminou com a informao.
    - Serio! Obrigado!  Exclamou enquanto voava no pescoo das tias
num forte abrao  Mas como voc conseguiu?
    - Bem, como voc sabe, fomos ao Canad algumas vezes na nossa
vida. Numa dessas viagens participamos de uma excurso pelas tribos
indgenas da regio e encontramos essa relquia num desses lugares. Ela
estava sendo vendida como lembrana por pessoas que provavelmente
saquearam o lugar antes de ns chegarmos. - e completou com um
                                ~ 12 ~
sorriso amarelo - Reconhecemos a autenticidade do smbolo e
conseguimos pechinch-lo fazendo o vendedor acreditar que no era
nada de valor.
    - Legal  repetiu a garota sem se importar com a trapaa das tias
    Quando Ana as largou, Teresa disse:
    - Sabemos o quanto voc gostou desse tipo de cl em particular, ento
resolvemos lhe dar isso.  e alertou  mas, cuide bem dele. Temos esse
smbolo h anos. - brincou.
    E depois de se despedir de Teresa e Samanta, Ana saiu para a casa
dos avs. Estava escuro e deserto no caminho que levava at o sitio de
Slvio, mas Ana adorava a sensao de perigo que envolvia andar
sozinha  noite. Apesar do distrito de Trs Coraes no ser violento e as
chances de que algo acontea com ela durante os dez minutos de trajeto
da casa de suas tias at a casa de seus avs serem de uma em um milho,
Ana gostava de se sentir destemida e encarando o desconhecido.
    O vento comeava a soprar com fora fazendo os cabelos curtos da
menina esvoaar. Era um fenmeno normal nas noites da regio e que
Ana adorava. Alm de gostar da sensao do vento acariciando seu rosto,
essa corrente noturna aumentava o ar sobrenatural da regio que sempre
a deixava de pelos arrepiados.
    Mas a brisa comeou a soprar com mais fora exigindo que ela
levasse o brao  frente do rosto para proteger os olhos. Um som
comeava a ser produzido em seus ouvidos e ela se lembrou de suas tias
dizendo que os ventos muitas vezes carregavam mensagens distantes,
embora Ana nunca tenha conseguido interpretar nenhuma.  medida que
chegava perto de casa, Ana sentia que o vento em seus ouvidos
comeava a ganhar forma, at finalmente se tornar uma mensagem clara
que Ana pde interpretar.
    E ficou aterrorizada com o que escutou.
    Matar
    Quando ouviu isso, o medo tomou conta da jovem garota. Ela olhava
desesperadamente em sua volta tentando localizar a boca que emitia tal
mensagem. Aquela voz glida parecia pertencer a algum cruel, que
talvez nem humana fosse.
    Matar
    De novo e as lgrimas comearam a querer sair de seus olhos, mas ela
as segurou. No gostava de chorar na frente dos outros e muito menos
daquilo que tentava apavor-la.
    - Quem est a?  ela gritava para o escuro. Sem resposta. Ela tentou
juntar toda a coragem que tinha para continuar falando  Eu sou sobrinha
                                ~ 13 ~
das duas maiores bruxas da regio. No se meta comigo ou voc est
frito!
    Agora o vento ria do comentrio da jovem menina. Mas ao invs de
responder, ele foi sendo levado para longe. Porm, os sussurros
continuavam soando em seus ouvidos e desaparecendo aos poucos.
Sussurros que continuavam a dizer:
    Matar, matar, matar. Matar as duas.
    O vento agora era levado em direo ao caminho por onde Ana havia
vindo.
    Tias, um medo atravessou o corao da pequena e conseguindo se
livrar da paralisia em seus msculos causada pelo medo, ela correu como
nunca na vida em direo a casa dos avs. Quando chegou, entrou
gritando desesperada:
    - V! V! Rpido! As minhas tias esto em perigo!
    - O Que houve minha filha? - perguntou sua av largando a revista
que lia e se erguendo da poltrona ao notar seu desespero.
    - V. Eu ouvi algum dizer que vai matar a tia Teresa e a tia Samanta.
    - Onde voc ouviu isso? Quem te disse? - a velha comeava a ficar
preocupada.
    - Eu ouvi. O Vento me disse.
    - Como?
    - Por favor, vov! Chame a polcia, alguma coisa. Chame o vov!
    - Seu av saiu Ana. Vai demorar um pouco para chegar.
    - Mas vo matar as tias!  Agora Ana no conseguia segurar as
lgrimas em seus olhos e foi ento que se iniciou um choro soluante que
impedia Ana de continuar a falar com preciso.
    Vendo a situao desesperadora da neta, a av a abraou e disse:
    - Calma minha filha.  e vendo que no conseguia acalmar a garota,
props  Vamos l na casa das suas tias. Veremos se esto bem. Vou
levar o celular caso acontea algo. Ta bem?
    A garota concordou saindo em disparada at a casa das tias. Mesmo
limitada pela idade, Marieta lutava para acompanhar os paos da garota.
Quando finalmente chegaram, tudo estava transpirando uma enorme paz.
    - Viu queria? Est tudo bem.
    Mas Ana ainda no estava completamente convencida. Ela tinha que
entrar e conferir. Porm, no teve tempo para isso, pois logo um claro
surgiu do interior da casa e um estrondo de exploso derruba a ela e a sua
av no cho. Ana sente o ouvido zumbir devido ao barulho e quando
consegue abrir os olhos s consegue ver chamas no local onde antes
                                ~ 14 ~
havia uma casa. O fogo conseguiu se espalhar com uma velocidade
nunca imaginada e toda a casa ardia em meio s chamas.
    - Tia!  Ana sentia seus pulmes arderem a cada grito  Tia Samanta!
Tia Teresa!
    Ana gritava sem obter respostas at que chegou uma prxima viso
que fez sua voz se calar num engasgo. Pois no meio das chamas a
menina pode identificar uma silhueta que se encontrava na janela.
    Tia? Ela pensou, mas no fundo sabia que no era. A silhueta parecia
pertencer a um homem. Era alta e forte. Mas como algum sobreviveria
no meio daquele inferno? Apesar de no poder enxergar o rosto daquilo
que estava na janela da casa, sabia que aquilo a encarava. Ento o medo
voltou a brotar no fundo de seu corpo, assim como acontecera quando ela
ouvira a voz na estrada de terra. Um medo to forte que toda a sua voz
era sufocada quando tentava alertar sua av do que ela via.
    Mais um estrondo. E a ltima imagem na cabea de Ana ficou sendo
a da casa e do ser misterioso desaparecendo num segundo claro.
    *
    Ana acordou duas semanas depois. Descobriu que o corpo de
bombeiros local acusou um escapamento de gs como a causa da
exploso. E apesar de tentar, no importava o que Ana dissesse ou o
quanto gritasse, pois ningum acreditava na sua verso sobre ventos
malignos. Seus relatos sobre a noite no eram levados a srio e com o
tempo nem sequer eram ouvidos, servindo apenas para que Ana ganhasse
anos de visitas  psiquiatras de diferentes estados do pas e remdios com
nomes cada vez mais complicados.
    Anos se passaram e aos poucos Ana foi desistindo de sua verso. Na
verdade, o tratamento devia estar funcionando, pois nem mesmo ela
conseguia mais acreditar no que tinha testemunhado. O fato de no
acreditarem nela e o medo de acabar como a av  que foi internada num
hospcio ao enlouquecer aps o acidente com as filhas -, fizeram Ana
finalmente se calar.
     medida que foi crescendo, Ana foi tambm esquecendo. Esqueceu-
se das antigas histrias que lhe contavam suas tias, das horas passadas
em volta da fogueira. Magia e bruxas eram agora para ela apenas sonhos
de uma garotinha, que morreram junto com suas tias naquele terrvel
acidente.
                                ~ 15 ~
   1 - Um dia na fossa.
    Uma msica tocava ao longe. Apesar de pertencer a uma de suas
bandas favoritas, naquele momento aquele rock pesado lhe trazia uma
mensagem muito triste: era hora de acordar.
    Ana abriu os olhos. Enquanto tentava se acostumar a claridade do
dia, tateou a cmoda atrs do aparelho celular para poder desligar o
despertador. Sem nenhuma pressa, sentou-se e no saiu da cama at que
garantisse que todas as juntas do corpo haviam sido estaladas e todos os
msculos espreguiados. No tinha o menor nimo de se levantar. Sabia
que um forte interrogatrio a esperava na escola. Todas as suas amigas
iriam querer detalhes do ltimo acontecimento do Bairro Vila da Penha:
o fim de seu romance com Lucas.
    E por falar nele, Ana agarrou o porta-retrato ao lado da cama e tirou a
sua foto com o ex-namorado e a rasgou.
    Menos mal, pensou, eu tinha ficado horrvel na foto mesmo.
    Talvez estivesse no comum estado ps-fim-de-namoro, mas Ana no
sabia se era verdade. Estava triste sim, mas no tanto quanto imaginou
que seria. Ela sempre pensou que se um dia terminasse. Esse seria um
acontecimento terrvel onde ela choraria horrores e se sentiria pssima,
mas no era to ruim assim. Estava triste sim, mas nem tanto pelo fim,
mas sim pelo modo como aconteceu.
    Talvez se ela chorasse conseguiria aliviar um pouco seu peito da
angustia, mas nem isso acontecia. Desde muito tempo que suas lgrimas
haviam secado. Ana j havia chorado muito desde... No queria voltar a
pensar nisso. No agora. Quem sabe um dia na fossa fosse resolver. No
tinha muita experincia nisso a no ser o que tinha visto em um seriado
de televiso, Gilmore Girls, e era com essa base que se permitiria realizar
todos os rituais comuns a esse estado: desde filmes tristes at o sorvete.
    Quando finalmente conseguiu se levantar, se dirigiu at a cmoda
para se olhar no espelho. Com certeza seu estado de esprito se refletia no
corpo, pois naquele momento, ela no gostava de nada do que estava
vendo. A garota do outro lado tinha seus olhos castanhos cansados e
fundos por passar a noite anterior em claro; uma pele morena que talvez
precisasse de um creme e os cabelos negros e lisos na altura do queixo
pareciam um tanto malcuidados.
    Bem, eu acabei de acordar, se consolou.
    Porm, o que mais a incomodava no momento era a pequena mecha
de fios rebeldes que insistia em no abandon-la. Aquele era um pequeno
                                ~ 16 ~
grupo de fios que fazia parte de sua franja, s que ao contrario dos
demais cabelos que ficavam bem penteados ao lado do rosto, aquela
insistia em cortar seu rosto ao meio e no importava como penteasse ou
cortasse o cabelo, aquela mexa era sempre sua companheira. Ana j
havia aprendido a se conviver com ela, porm, hoje a garota a odiava em
especial.
    Quando acabou a auto-avaliao do prprio rosto, resolveu descer os
olhos e fitar o prprio corpo. Talvez eu esteja gorda, pensou estufando a
barriga como que para comprovar sua teoria. Ana percebeu que no
estava num humor muito agradvel para se olhar. S conseguiria ficar
mais pra baixo se continuasse.
    Talvez no tenha nada de errado comigo, pensou. Lucas s me trocou
por ser um idiota, tentou se convencer. Azar o dele. Ento, a garota
resolveu se atentar na nica coisa que em nenhuma situao conseguiria
encontrar defeito. Era um objeto sim, mas ficava tanto com ela que j
podia ser considerado como parte de seu corpo. Tratava-se de um colar
de ouro com um pingente em formato circular. Era um daqueles
pingentes que se abrem permitindo se guardar fotos em seu interior.
Nesse colar, em especial, trs imagens. Uma foto de Teresa e outra de
Samanta, suas duas tias mortas num - como todos acreditavam e ela
tambm - acidente domstico.
    Dentro do pingente havia outra coisa tambm, que assim como as
fotos servia de ponte entre Ana e seus entes queridos, mas ela no queria
abri-lo no momento. J se sentia bastante depressiva para ficar
alimentando esse momento com recordaes to pesadas. Esquecendo
ento do assunto, tomou banho, se arrumou e desceu para o caf e ir para
a escola.
    - Bom dia Ana  cumprimentou sua me com seu habitual bom
humor.
    Como sempre sua me conseguia ficar muito bem logo de manh.
Aquela mulher no parecia viver momentos ruins e mesmo s sete da
manh conseguia estar deslumbrante fazendo o caf. Ana sempre
admirou a beleza da me, mas naquele momento aquilo a incomodava.
Torcia para sair de seu estado de morbidez o mais depressa possvel. No
agentava essa Ana que agora tomava conta dela.
    Helena era professora universitria e se vestia a altura. Seu blazer
branco e bem passado contrastava com a pele morena que Ana herdara.
Seus cabelos eram lisos como os da filha, mas Helena os conservava
assim mais curtos. Dizia que os mantinha assim porque Oscar adorava.
                               ~ 17 ~
    Pensando bem, Ana era a imagem refletida da me, com os mesmos
olhos castanhos e rosto fino. Engraado conseguir achar a me to bonita
quando se sentia to feia.
    - Bom dia me  respondeu, tentando dissimular a voz.
    - Fiz sanduches para o seu caf. - ela tratou de dizer com sua pressa
habitual - Eles esto em cima da mesa. - ela falava rapidamente enquanto
pegava as coisas na mesa da cozinha - Seu pai saiu mais cedo e eu terei
de sair agora tambm. Desculpe no podermos tomar caf com voc
hoje.
    -Tudo bem. - ela sorriu cansada
    - Tchau filha.
    - Obrigado.
    A me saiu em disparada da casa. Dentre as muitas qualidades que
Helena tinha, pontualidade no era uma e todo o dia de manh era aquela
correria.
    Ana, no fundo, sentia-se muito mais aliviada com isso. Pelo menos
nenhum de seus pais perguntaria logo de manh pelo namorado. A
notcia sobre o fim da relao era uma coisa que Ana adiaria para seus
pais o tempo que conseguisse. Ento, sentou-se a mesa e comeu com a
maior calma que conseguia. Olhando o relgio, percebeu que no se
incomodaria de chegar um pouco atrasada.
    Quando abriu a geladeira para pegar um suco para beber com os
sanduches que a me fizera, notou o bolo de seu aniversrio de
dezessete anos que sobrou da noite anterior Com todo o desfecho da
daquele dia, Ana at havia se esquecido de que foi noite de seu
aniversrio.
    A cena da briga com Lucas passava por sua mente o tempo todo. O
flagra, a discusso a tremenda cara de pau dele. Belo presente de
aniversrio esse, irritou-se. Com um pouco mais de mau humor,
terminou de comer, pegou a mochila e foi embora para o seu destino.
    Ana morava na Rua Feliciano Pena que ficava no Bairro Vila da
Penha, nos subrbios do Rio de Janeiro. Um lugar calmo e
freqentemente desanimado, apesar de o bairro possuir alguns atrativos,
como um Shopping cinema e algumas boates. Andando em passos cada
vez mais lentos em direo ao colgio ela tentava deixar sua mente voar,
mas logo descobriu que tal desejo no era possvel. Cada vez que
deixava seus pensamentos a guiarem era para Lucas que eles a levavam.
    Saco.
    - Ana!
                                ~ 18 ~
    Seu corao deu um salto ao ouvir seu nome e ela se virou com receio
de ver quem a chamava, porm, quando se virou viu que era Ian, sua paz
de esprito voltou.
    - Graas a Deus.  sua voz demonstrava o alivio que sentia  pensei
que fosse o...
    - Eu sei  ele riu oferecendo pra ela uma bala de menta. Esse j era
um ritual clssico do garoto. Ele podia viver sem oxignio ou gua,
talvez at sem comida, mas nunca sem suas balas de menta  Quer
companhia?
    - Lgico!  respondeu aceitando a bala e agarrando-se ao brao do
garoto. Passaram a caminhar juntos ento.  Eu precisava de algum pra
conversar de algum assunto que no envolva ontem.
    Ian era um jovem de dezesseis anos, de estatura mdia, embora mais
alto que ela. Ele era seu vizinho e melhor amigo desde que se mudara
para aquela rua h quatro anos, logo depois da tragdia em Trs
Coraes.
    As janelas de seus quartos davam de frente uma para outra e eles
tinham o hbito de ficarem horas conversando por ali. Na verdade, foi o
que tinha acontecido na noite anterior, onde ela recorrera a Ian para
desabafar sobre seu trmino. Os dois acabaram conversando at as trs
da manh e esse era o motivo de estar se sentindo to cansada.
    Ian tambm parecia estar sentindo o desgaste da noite anterior. Seus
olhos negros como um cu noturno estavam fundos tambm. Porm,
observando melhor, ele parecia estar sem dormir por muito mais noites e
parecia estar dez vezes mais cansado que Ana. Seus cabelos eram
extremamente despenteados e negros, iguais a cor de seus olhos e
contrastavam com sua pele muito branca. Ian sempre dizia que eles
faziam parte de seu estilo largado, mas Ana desconfiava que o real
motivo fosse relaxamento esttico mesmo. Era comum v-lo de cala
jeans e casaco, suas vestimentas habituais, mesmo num tempo no to
frio como era o daquele dia. Era julho e inverno, mas como todo o
inverno no Rio de Janeiro, no estava exatamente frio.
    -Vai ser difcil. Esse ser o assunto do momento hoje.  ele falou
enquanto andava com a garota em seu brao.
    - Eu sei. Eu sei  respondeu com um sorriso desanimado.
    - Mas ento. O que pretende fazer agora com dezessete?
    - No sei. Acho que nada muda?
    - Eu sei.
    - Como sabe se voc ainda no fez?
    - Bem... - ele revirou os olhos - nunca faz diferena, no ?
                               ~ 19 ~
    - Verdade  ela riu
    Ana olhou para as olheiras do amigo.
    - No tem dormido direito?  interrogou.
    - No muito  assumiu - tenho feito umas coisas importantes  disse
com falso ar de mistrio.
    - Sei... - Ana assumiu um ar desconfiado  Importantes. Com quem?
    - No  nada disso  riu-se o garoto
    O caminho at o colgio foi bem calmo. Conversar com Ian era
sempre agradvel independente do assunto. Eles dois eram vizinhos
desde que ela tinha doze anos. Na verdade ele foi o primeiro amigo que
ela conseguiu depois do acontecimento em Trs Coraes. Aps o
incndio sua famlia se mudou devido s especulaes dos vizinhos de
que ela havia enlouquecido.
    Embora tal atitude no tenha adiantado muito, pois, mesmo depois de
mudarem para a Vila da Penha seu apelido, InsANA, ainda andava pela
boca as pessoas nos primeiros dias. E foi nesse perodo que Ian foi seu
porto seguro. Era agradvel ter algum com quem conversar e Ian
escutava todas as suas histrias: de como ela ouviu a voz no vento, de
como viu a forma nas chamas. Ele parecia ser o nico que, se no
acreditava nela, pelo menos no demonstrava desconfiar de sua sanidade.
E quando ela finalmente tirou da cabea a loucura das suas histrias de
bruxas, Ian nunca mais tocou no assunto e mesmo assim sempre foram
amigos.
    Chegando ao colgio Santa Teresa, ela soltou o seu brao e eles se
viraram de frente um ao outro.
    - Bem,  comeou Ian  tenho que ajudar o Carlos com um trabalho
antes que comece as aulas. Vai ficar bem sozinha?
    Ana olhou em volta dando de ombros.
    - No, mas pode ir. Vou tentar sobreviver.
    - Tente. - ele sorriu - Ento tchau  despediu-se passando a mo no
seu rosto arrastando a mexa rebelde para junto das demais e lhe deu um
beijo na testa
    - Tchau  Ana fechou os olhos ao receber o carinho. Ela sempre
gostou desse gesto. Apesar de ser completamente intil, pois o cabelo
anarquista sempre retornaria ao meio da testa, era agradvel essa
dedicao de Ian.
    Agora a garota se virou, encarando a entrada a sua frente e com um
forte suspiro entrou. Andando pelos corredores, no encontrou ningum
prximo. Foi rpido e entrou na sala e ali aguardou o inicio da aula de
biologia. Dez minutos depois, viu entrar Fernanda. Ao v-la, a garota
                              ~ 20 ~
acenou e veio se sentar junto de Ana. Fernanda era uma garota alta e
esguia. Tinha a pele muito branca  mais at que a de Ian - e sempre
usava roupas muito discretas e conservava os longos e encaracolados
cabelos castanhos claros, presos.
    Fernanda  ou F  era uma garota reservada e muito tmida, embora
de vez em quando pudesse dar uns surtos de adrenalina que eram
extremamente assustadores.
    - Oi. Tudo legal?  Perguntou Fernanda, solcita.
    - Sim. Tudo legal  respondeu, tentando parecer convincente.
    Fernanda no perguntou mais nada e se sentou de frente para o
quadro. Ana percebeu que ela estava doida para saber do caso da noite
anterior, mas vendo que ela no estava muito interessada em falar sobre
o ocorrido, ficou calada. Gostava desse respeito que Fernanda tinha pela
vida dos outros e comeou a pensar em conversar com ela. Mas no sabia
como comear um assunto sem que ele fosse desviado para Lucas.
    Se bem que no fundo, ela precisava desabafar com algum do mesmo
sexo. Algum que tivesse mais facilidade de entend-la. E no teria
problema em falar com Fernanda, afinal, conhecia a amiga e sabia que
no era fofoqueira e o que fosse falado ali seria levado ao tmulo com a
garota se fosse preciso.
    - Bem, - comeou, e viu que a garota se inclinara rapidamente para
ela muito interessada  ontem eu fui ter uma conversa com Lucas. Tinha
uns assuntos que eu tinha de tratar com ele e no poderiam esperar. A
ns brigamos e eu resolvi terminar.
    - Eu estou sabendo, mas por qu? O que ele fez?  comeava o
interrogatrio.
    - Eu descobri que ele no era completamente sincero comigo.
    - Tinha outra garota?
    - Sim.
    Fernanda levou as mos at a boca num gesto um tanto exagerado
para se mostrar perplexa.
    - Gente. Eu nunca imaginei isso. Ele parecia to...
    - Certinho?  Ana arriscou
    -   concordou a amiga  bem, minha me sempre dizia que esses
so os piores, mas... mesmo assim.
    Ana deu uma risada desanimada e concordou com a cabea.
    - Pode crer. Eu tambm no esperava.
    O sinal tocou e logo a sala estaria cheia de gente. Antes, porm,
Fernanda tentou mais uma pergunta.
    - Mas como voc descobriu?
                               ~ 21 ~
    - Eu o peguei uma vez perto do clube onde ele pratica futebol.
    - Que sorte. - e corrigiu rpido  q... quero dizer. Pelo menos voc
descobriu, n? Maior acaso.
    - ...  Ana, porm, no diria que foi acaso. Foi mais um sexto
sentido. Na verdade ela preferia esquecer isso, pois a coisa lhe trazia
lembranas que ela h muito tempo tentava enterrar.
    Porm o pensamento era uma coisa difcil de controlar e ela logo
estava de volta para a Avenida Tejup aonde tentava ligar para Lucas
enquanto se dirigia a escola onde ele tinha aulas de futebol.
    -  serio.  era Lucas que tinha atendido ao telefone depois da quinta
ligao - Vou ficar ocupado por algumas horas aqui. Depois eu te ligo.
De noite.
    - Francamente,  mais fcil conseguir marcar hora num hospital
pblico do que falar com voc. - Ana estava um pouco irritada com a
distncia que o garoto tomava dela  Depois temos de conversar.
    - Tudo bem, tudo bem. Depois eu te ligo - sua voz demonstrava
enorme impacincia.
    - Bem, voc vai ao meu aniversrio amanh, espero. - no era um
convite.
    - Claro  respondeu rpido demais
    - At  e desligou.
    Ana parou no meio do caminho. Havia pensado em fazer uma
surpresa, mas desistiu. Seu namoro no ia bem e talvez algo de diferente
pudesse salvar a relao, porm aps ligar para o namorado descobriu
que ele no foi para o treino por ter de ajudar o pai com uma coisa que
ele no explicou.
    Alguma coisa a incomodava naquilo. Era uma sensao de que algo
estava errado. Pensou em voltar para casa e esperar a ligao at que
comeou a ventar muito. O que comeou com uma leve brisa, ganhou
fora at fazerem seus cabelos bater no rosto. Mas o que mais a
incomodava era que o som produzido em seus ouvidos que comeava a
ganhar forma. Uma voz comeava a poder ser ouvida junto com o som
da brisa. Uma voz diferente da que ela ouviu anos atrs em Trs
Coraes, mas uma voz mesmo assim. Ela tentou tampar os ouvidos, mas
a mensagem j havia sido dada:
   Ele est mentindo pra voc
   Ana pensou em simplesmente ignorar o aviso, correr para casa e fugir
daquela voz que tantas lembranas ruins lhe traziam, mas no fundo se
sentiu tentada a fazer o que ela lhe falou. Tinha parado de ventar e o
aviso, somado a prpria desconfiana que ela j sentia a fizeram
                                ~ 22 ~
continuar at o clube. Chegando l, a primeira coisa que pde ver foi
Lucas com uma garota, se atracando em pblico, encostados na grade
que cercava o campo onde ocorriam os treinos.
    Ela no soube o que fazer naquele instante. Sentiu raiva do namorado,
queria tirar satisfaes, discutir, bater e xingar se fosse preciso, mas o
raciocnio lgico a impediu. Isso s o faria se sentir melhor. Ter duas
mulheres brigando por ele. Pensou com nojo.
    E refletindo assim, deu meia volta e foi embora. Em casa socou o
travesseiro, tacou ursos pelas paredes, mas no chorou. Era uma dor no
peito o que sentia, uma raiva por ter sido trada, enganada, mas no foi
forte o suficiente para fazer lgrimas verterem de seus olhos.
     Naquela noite Lucas no ligou e s o viu no dia seguinte na sua festa
de aniversrio, onde tiveram a ltima briga.
    - Ana? Acorda  uma voz a tirava de seus devaneios e a trazia de
volta a Terra.
    Era Ian, que j estava ao seu lado na sala e a cutucava enquanto
olhava para a direo do quadro.
    Ana olhou e viu que a professora j estava em sala, encarando-a com
uma irritada interrogao na expresso do rosto.
    - Ento Ana? Qual a resposta? - ela perguntou.
    - Protocooperao- soprou Ian.
    - Protocooperao!  Ana se ps a responder.
    - Sim  concordou a professora com ar de desaprovao.
    - Obrigado. - sussurrou em resposta
    - No por isso  o amigo riu.
    *
    Depois desse momento a aula ocorreu tranqilamente. Saindo da sala,
houve o intervalo onde trs novas pessoas pareciam interessadas em
saber detalhes da separao, que Ana respondeu o bsico do que
perguntava cada vez mais resumida em seu relato. Depois, houve mais
um tempo de matemtica e dois de Literatura brasileira. Enfim, quando o
dia terminou Ana pde tentar voltar a passos rpidos para casa.
    - Ah no!  gemeu quando saiu da escola e viu quem a esperava.
    Do lado de fora do colgio, encostado em sua motocicleta, Lucas
parecia aguardar algum. Infelizmente Ana sabia quem era. Lucas era um
garoto de dezoito anos, alto e forte. Tinha cabelos castanhos e
encaracolados que pareciam cachos de anjos. Seu rosto tinha traos
fortes e Ana sempre o considerou bonito demais pra ela. Isso at hoje,
pois agora sentia nojo dele.
                                ~ 23 ~
   A garota tentou fingir que no o viu e passar direto, mas o rapaz era
rpido e a alcanou segurando seu brao.
   - Me larga! - disse controlando a repulsa que aquele toque lhe
causava.
   - Precisamos conversar - Lucas a virou para encar-lo.
   - J falamos de tudo ontem. - ela forou um sorriso irnico.
   - No falamos nada.
   - Voc ainda vai negar? - e deu um pigarro de descrena - Vai negar
que estava no campo naquela hora, quando me disse que no estava? Vai
me negar que estava acompanhado?  sua voz saia mais alta do que
queria e ela logo a controlou.
   - Claro. Eu no estava l. Estava com meu tio, ajudando ele.
   - No era seu pai? - ela lanou um olhar inquisidor.
   - ... meu pai. - gaguejou.
   - Francamente, nem na mentira voc se decide. - e riu se virando.
   - Ana... escuta. Voc provavelmente viu coisas. - o garoto a segurou
novamente.
   - Ento estou ficando maluca, tambm? - ela no podia acreditar na
tamanha cada de pau dele.
   - No seria a primeira vez. - brincou rodando o dedo em volta do
ouvido num sinal de loucura  InsANA, lembra  brincou.
   Agora ele havia pegado pesado demais. A garota fez meno de bater
nele, mas ele segurou sua mo a puxando para perto dele.
   - Me larga! - mas no houve tempo para respostas, pois uma nova
mo, aparentemente surgida do nada, o acertou bem no meio do rosto
   Naquele momento ela ficou sem palavras e antes que pudesse
recuper-las viu Lucas ir ao cho com o soco.
   Ian agora se colocara entre os dois encarando Lucas com o tronco um
tanto curvado parecendo um pouco perigoso. Era estranho v-lo naquela
postura to ameaadora.
   - Acho que ela no quer falar com voc meu amigo  falou em tom
calmo apesar de sua voz parecer um pouco mais rouca que o normal.
   Ana conhecia bem Ian e ele no era do tipo que gostava de briga e
pior ainda: era do tipo que no sabia brigar. Sabendo disso, ela tentava
afastar o garoto do lugar o mais rpido possvel.
   - Ian! Calma! T tudo bem.  Ana tentava puxar Ian
desesperadamente para longe do ex.
   Lucas se levantou num salto com os olhos faiscando. Ele j ia
erguendo os punhos para bater quando foi interrompido pela voz do
supervisor da escola.
                               ~ 24 ~
    - Que palhaada  essa a? - berrava o velho zelador.
    O senhor Carmino j era um senhor mais sabia impor respeito dos
alunos e at mesmo dos visitantes. Lucas concertou a postura e limpou a
boca por onde escorria uma linha de sangue. Ana no sabia que a
pancada havia sido to forte.
    - Nada senhor  disse Lucas, mas sua voz expressava sua fria. Ele
lanou um olhar para Ian e depois para Ana e saiu na moto.
    Quando os nimos se acalmaram, Ana falou com Ian.
    - Voc no devia ter feito isso e...  pensou um pouco - obrigado.
    - No por isso - ele respondeu lanando-lhe um meio sorriso. Era
incrvel como conseguia recuperar a calma to rapidamente depois de
tudo.
    - Mas voc no devia ter feito isso.  repreendeu - Sabe como o Lucas
 brigo. Vai querer arrumar confuso com voc.
    - No tenho medo.  respondeu relaxado.
    - Ian! - ela o repreendeu - Voc  a pessoa que menos sabe brigar que
eu conheo. Ele vai machucar voc.
    O garoto fez uma careta de ofendido.
    - Ento  assim que voc me v?
    - Desculpe  falou dando uma leve risada  mas puxa voc realmente
no sabe brigar.  e completou  embora esse soco tenha sido muito
bom.
    O garoto riu com ela.
    - Que bom ver voc rindo de novo  ele disse
    -   concordou   bom rir de novo.
    - Est tudo bem agora?  perguntou - Eu vi a sua cara. O que foi que
ele disse?
    - Nada. S me chamou de insANA.
    - Imaginei que esse apelido no te incomodava mais.
    - O apelido em si no. Mas o que ele me faz lembrar sim.
    O garoto ficou em silncio processando o que foi dito.
    - Entendo. - disse limpando novamente seu cabelo afastando a franja
rebelde  Mas antes que eu me esquea. Sei de um programa legal para o
fim de semana.
    - Serio, qual? - Ela tentava se mostrar mais interessada do que estava.
Ainda estava cogitando a idia do sorvete e do filme.
    - A Laila vai comemorar o aniversrio dela no sitio da famlia. Ela vai
convidar pouca gente para passar o sbado e o domingo l e voc est na
lista.
    - Nossa. E quem vai?
                                ~ 25 ~
   - Bem, ela, Amanda, eu, voc, Rodrigo, Fernanda e Antnio.
   - Nenhum responsvel?
   - S a me dela.
   - Bem ela no  bem uma responsvel  riu-se Ana.
   - Eu sei, mas nossos pais no precisam saber.
   Ela riu mais alto.
   -  verdade. Mas eu imaginei que ela no ia querer comemorar o
aniversrio  lembrou Ana  pelo menos depois que o pai dela morreu.
   - Bem, voc conhece a Laila, no se deixa abalar por nada. -
comentou -  um poo de alegria.
   - Eu sei  concordou Ana  eu sei que ela  assim, mas  que h
alguns dias mesmo ela estava horrvel.
   - Eu lembro  Ian assentiu  Mas j parece melhor. E ainda tem o fato
que essa seria uma boa chance de se aproximar do Rodrigo.
   - Ela e o Rodrigo?
   - . E  por isso que ela no convidou a Samara. Pois sabe que ela
tambm  afim dele.
   -  mesmo. - concordou - Mas que bom que ela est melhor, mas... 
e pensou - eu no sei se vou.
   - Ah que isso! Vai sim! No vou deixar voc ficar sentada vendo
"Um amor pra recordar" comendo sorvete. - e a olhou nos olhos - Deixe
o pote pra mim - completou com um sorriso amarelo.
   Ana riu mais uma vez. Era to bom poder dar risadas como aquelas.
   - T bom  respondeu por fim  mas vou falar com meus pais.
   - J avisei. - cortou Ian - Ontem na festa e eles concordaram. Sabe
que eles confiam em mim.
   - Claro  a garota respondeu  Minha me pensa que voc  um bom
menino e meu pai acha que voc  gay.
   Mais uma vez Ian fez uma careta.
   - Nossa! - gemeu com o orgulho ferido.
   -   Ana concordou  fazer o que?
                               ~ 26 ~
   2 - Operao cupido.
    Ana confirmou naquela mesma tarde que Ian j havia avisado aos
seus pais e eles concordaram. Ento ela se preocupou em arrumar a
bagagem para a viagem, no por necessidade, mas porque isso a
mantinha ocupada. A viagem seria na sexta  noite e ainda era quarta.
    Tudo era vlido para matar o tempo e Ana aproveitou a grande onda
de motivao para o trabalho e ajudou nas tarefas do lar e colocou todas
as lies em dia. Durante o perodo que antecedeu a viagem, o trabalho a
ajudava a manter a mente ocupada e aos poucos o fantasma de Lucas ia
sumindo de sua cabea, mais rpido do que podia esperar.
    Na verdade, outras preocupaes surgiam a todo o momento. A voz
misteriosa que h muito tempo no escutava; o fato de Lucas estar muito
irritado com Ian, o que poderia lev-lo a tentar algo de ruim contra o
amigo; e o fato de temer que as pessoas voltem a lembrar da poca em
que ela era considerada a estranha por suas histrias de bruxas e vozes
malignas.
    At por que, o prprio fato de escutar coisas a fazia pensar que estava
realmente pirando. Balanou a cabea tentando fazer a idia ser arrastada
pra longe, pois no era saudvel pensar naquilo de novo. Para se sentir
mais segura com relao ao amigo, Ana convidava Ian para a sua casa
todos os dias. Pelo menos assim ela tinha garantia de que ele se
encontrava bem, o que a ajudou bastante, pois o amigo era sempre uma
tima companhia.
    Nesse perodo sua me havia descoberto que ela e Lucas enfim
tinham terminado o namoro.
    - Mas Ana, por qu? Achei que vocs formavam um casal to bonito.
    -  me, mas deu errado.  se limitou a responder.
    - Por qu?
    - Me, eu preferia no falar disso com voc. Ainda.
    A me no ficou nada feliz com isso. Para ela, Lucas era o par
perfeito para a filha e ela no queria estragar a imagem que tinha dele.
Apesar de ele ser um canalha, ela no queria magoar a me. Seu pai era
mais seguro. Ele no gostava nada do namoro da filha, ento se ele
perguntasse, poderia contar tudo - excluindo o detalhe da voz.
    - Mas ele deve estar arrasado. Coitado.  disse a me com profundo
pesar  mas que azar. Primeiro o fim do namoro e depois o acidente.
    - Acidente?  perguntou Ana com interesse.
    - ! Parece que ele teve um acidente de moto. T bem quebrado o
coitadinho.
                                ~ 27 ~
    Apesar de monstruoso, Ana no pde evitar sentir certa alegria por
dentro, que ela tentou reprimir, pois no gostava de desejar o mal dos
outros, mas...
    Deus, perdo, mas isso  to bom. Desabafou consigo mesmo. Afinal,
ele estava fora de perigo.
    - E ele est muito machucado?  tentou parecer preocupada.
    - No muito  a me respondeu - ele deu sorte nesse caso. Por isso
seu pai no gosta de motos e ficava irado quando voc saia com ele.
    Ana ficou calada.
    Por outro lado estava aliviada por causa de Ian. Afinal, quebrado
como estava, Lucas no ia querer implicar com o amigo e isso o deixava
longe de encrenca.
    - Bem feito - disse o garoto quando ela lhe contou sobre Lucas numa
de suas visitas na quinta-feira  ele bem que mereceu.
    - Pelo menos assim ele te deixa em paz  ela dizia enquanto arrumava
a mala pela quinta vez. Acostumou-se a fazer isso para passar o tempo.
Sempre que se imaginava esquecendo algo ou tendo que tirar alguma
coisa, ela desfazia e refazia toda a bagagem.
    - Ai dele se quisesse se meter comigo  Ian tinha um ar presunoso,
mas Ana sentia mais que eram mais palavras do que possibilidades de
ao.
    - Est bem  ironizou  ele ia acabar com voc.
    - Acho que voc no me conhece nada  falou com um ar desafiador.
    - Pelo contrrio  corrigiu Ana  conheo voc bem demais e sei que
no faria mal a ningum. No porque no  capaz, mas porque no
suportaria.  bonzinho demais. - brincou.
    - Voc se engana  sua voz havia baixado um pouco e Ana pde
reparar que seus olhos focalizaram o nada, como se estivesse tendo
alguma lembrana ruim, mas logo voltou ao normal e a garota resolveu
ignorar.
    - Para de baboseira e me ajuda a abrir isso aqui  e lanou uma mala
pra ele abrir  o fecho ta emperrado.
   *
   Finalmente chegou a sexta-feira. Todos os convidados chegaram e se
acomodando no Fiat Dobl da me de Laila e embarcaram na viagem.
Toda a gangue estava reunida, como costumava dizer Laila.
   Laila era uma mulata exuberante. Sempre foi muito vaidosa e gostava
de se sentir atraente. Com seus cabelos cheios de cachos volumosos e um
corpo bonito desde os doze anos, ela sempre foi alvo dos garotos mais
                               ~ 28 ~
velhos. Seu bom humor sempre fez bem a ela mesma, deixando-a mais
atraente e sempre foi garantia de sua popularidade. A nica coisa que
Ana no gostava nela era que no podia evitar se sentir feia perto da
amiga. Mas esse era um defeito perdovel.
    Rodrigo era um rapaz forte no tronco, mas deficiente nas pernas. Ele
era mulato mdio de olhos cor de mel e cabelos, de cor preta, arrepiados
e era um pouco mais alto que Ana.
    Fernanda estava no seu canto, com seu jeito apagado de sempre, mas
muito animada com a viagem.
    Antnio fazia o estilo intelectual com seus eternos culos. Era um
rapaz ruivo e tinha algumas sardas no rosto branco. Era alto e magro,
mas sempre andava com excelente postura e falava polidamente, o que
lhe rendera o apelido de Professor.
    Eram trinta minutos em mdia para se chegar at o sitio da Famlia de
Laila e eles aproveitaram o tempo para cantar o maior nmero de
msicas antigas que conseguiam se lembrar, atitude essa que deixaria
qualquer motorista louco, com exceo de Mnica, me de Laila, que at
acompanhou algumas.
    Na parte da frente, ia apenas a Mnica. Na parte de trs as pessoas
formaram casais. Na primeira fileira vieram Laila e Rodrigo, cuja toda a
conspirao foi para que os dois ficassem juntos. A segunda fileira do
automvel foi ocupada por Antnio e Fernanda, sobrando Ian e Ana nos
fundos do carro.
    Quando todos j estavam cansados de cantar na viagem, se
preocuparam em manter conversas com seus parceiros. Ana encostou a
cabea no ombro de Ian e relaxou. Aceitou uma nova bala de menta
oferecida e como sentia frio, deixou seus braos entrelaarem pelo tronco
do garoto fazendo-o estremecer. Ela sorriu com a reao dele. Ian era
sempre muito carinhoso, mas no era muito aberto a receber afagos dos
outros.
    Ela fechava os olhos enquanto deixava que o vento que entrava pelas
frestas da janela acariciasse seu rosto. Depois de um tempo relaxando ali,
Ana fitou o rosto cansado do amigo e sugeriu:
    - Porque no dorme um pouco. Voc ainda est com uma cara de
morto.
    Ian riu cansado.
     Tem razo. Vou tentar - prometeu
    Ela abraou o garoto com mais fora sentindo uma carncia profunda
e Ian comeou a acariciar sua cabea massageando seus cabelos o que
                                ~ 29 ~
fez Ana se sentir muito bem. Naquele momento, se viu em tanta paz que
acabou adormecendo.
    *
    - Acorda dorminhoca!
    O grito fez Ana acordar num salto. Ao despertar por completo notou
que j haviam chegado. Ela tinha um grave problema de dormir em
viagens, principalmente quando tinha vento batendo em seu rosto.
     Dona Mnica, me de Laila, estacionou o carro e no bastou o motor
desligar por um segundo que logo as portas se abriram como se o veculo
tivesse explodido de dentro para fora e todos os passageiros pularam para
admirar o lugar. Depois de passados os primeiros momentos de
contemplao, logo eles saram em disparada para jogar as malas num
dos quartos para depois irem a toda velocidade para a piscina da casa.
    A casa de campo de Mnica era um lugar muito bom de viver. Era
um terreno muito bem espaado com um grande campo de grama sempre
muito bem aparada pelo zelador da casa. Mais ao longe, se via uma rea
onde se podiam distinguir algumas rvores que seguiam at os muros da
propriedade.
    Aquele lugar despertava um sentimento infantil em Ana e ela morria
de vontade de brincar de pique no meio daquelas rvores. A piscina tinha
uns vinte metros por trinta de comprimento e sua profundidade chegava a
dois metros na parte funda e um e meio na rasa. A casa era de uma
arquitetura antiga que Laila dizia pertencer a um antigo cafeicultor sendo
mantida assim quando seus pais a compraram.
    No fim, todos foram correndo em direo a piscina e pularam de
roupas mesmo. Ana foi somente at a borda e colocou o p na gua.
Estava gelada. E quando ela ia se preparando para entrar, no notou que
Antnio vinha por trs a toda a velocidade a derrubando na gua com
tudo.
    - Cara... Filho da...! - Exclamou a garota ao sentir o frio lhe
perfurando o corpo.
    Ian veio se reunir ao pessoal, porm, no entrou na gua preferindo se
sentar a borda com os ps no interior da piscina.
    - Anda logo cara!  chamou Rodrigo  mergulha.
    - . Hoje  sexta. Pode tomar banho  zombou Laila.
    - No obrigado  disse Ian em tom formal  no quero...
    Mas antes que pudesse completar a frase uma enxurrada de gua foi-
lhe arremessada de todos os lados pelos integrantes da piscina. Ana
includa.
                                ~ 30 ~
    O garoto ficou imvel por uns segundos com os cabelos encharcados
cobrindo o rosto. Depois, sacudiu a cabea espalhando gua para os
lados e sorriu. Ana sorriu tambm quando Ian olhou em sua direo,
acusando-a.
    - Ento  desafiou  vai entrar?
    - Ainda no.  ele respondeu com o cabelo pingando
    Nova enxurrada.
    - Ainda no. - se manteve forte.
    De novo.
    - Agora chega!  e pulou na direo de Rodrigo afundando-o na
piscina. Logo Antnio se reuniu a dupla e iniciaram um combate
aqutico.
    - Ai meu Deus!  exclamou Fernanda, se reunindo as duas garotas 
Agora eles vo ficar ali por horas.
    -  verdade  concordou Laila  vo querer decidir quem  o Macho-
Alfa.
    - Bem e ento  interrompeu Ana tentando mudar de assunto  como
vai com o Rodrigo?
    - Ele  meio tapadinho  falou a garota sorrindo  lento sabe. Mas
ainda tenho dois dias. E voc?
    - Eu o que?  perguntou sem entender.
    - Ora, voc e o Ian? Vai me dizer que no rolou nada no caminho pra
c.
    - Que nada. - ela riu - S amizade.
    - At parece  se intrometeu Fernanda  S se for pra voc, porque
pra ele deve ter algo alm.
    Ana se surpreendeu com o fato de Fernanda ter dado uma opinio a
respeito do assunto. Tentando dissimular, falou:
    - Que nada.
    Mas Laila ainda no ia desistir.
    - Fala srio Ana. - e jogou um pouco de gua da cara da garota -
Aproveita. Ta solteira agora e o Ian te sempre do seu lado e Seis  par. 
Completou.
    - Como? - ela riu incrdula.
    - Ora. Porque voc acha que chamei exatamente trs casais? A F ta
dando o maior mole para o Antnio e a voc, bem... faria bem uns
beijinhos no Ian.
    Fernanda ficou vermelha, comprovando que Laila estava certa.
    - Mas e sua me? - tentou contra-argumentar.
                                ~ 31 ~
    - Ela?  Se espantou Laila, como se fosse uma pergunta absurda  A
mulher que me ensinou sobre sexo com doze anos e me deu minha
primeira camisinha com quatorze. No esquenta, ela  bem liberal.
    E antes de a misso cupido continuar a me de Laila se aproximou da
piscina.
    - Bem crianas  ela gritou pedindo ateno  S quero comunicar a
vocs as duas regras desse final de semana:
    "A primeira  no me incomodem e a segunda, no se matem, ou seus
pais vo me incomodar depois. Fora isso, divirtam-se. Estou aqui para
relaxar e devo ficar com meus livros e meus DVDs o dia inteiro. E
querida?  falou para Laila  Feliz aniversrio e a vocs  disse
apontando para os garotos  Juzo.
    E assim saiu
    - No falei  disse Laila com ar de triunfo.
    *
    Depois da piscina, os residentes foram arrumar a bagagem. Havia trs
quartos na casa. Um ficaria com Mnica e o outro seria dividido por
todos deixando um vazio.
    Como estavam cansados da viagem, resolveram comer e dormir cedo
mesmo. Arrumaram os colchonetes por todo o cho de um dos quartos da
casa e ficaram conversando at, um por um, carem no sono.
    Por ter dormido na viajem, Ana acordou no meio da noite. Tinha
perdido o sono e ao olhar a sua volta, percebeu que estava sozinha com
Antnio e Rodrigo. As garotas e Ian haviam sumido.
    Ao sair do aposento, notou uma luz vinda da sala e percebeu o som da
televiso ligada. Caminhando sem fazer barulho, ela consegue ver Ian
sentado, assistindo TV. A garota pensou em entrar, mas nesse instante,
sentiu uma mo a agarrando pela cintura, fazendo-a pular de susto.
    Levando a mo  boca, conseguindo evitar por pouco um grito que
acordaria todos da casa, ela se virou encarando Laila e Fernanda que
tentavam segurar as risadas. O rosto de Fernanda estava completamente
vermelho e Laila parecia que ia morrer por insuficincia respiratria.
    - Hilrio  debochou Ana.
    - Foi no ?  concordou Laila ainda rindo
    - Quer?  ofereceu F, estendendo um pote de sorvete pra ela.
    - No obrigado.
    - Ia fazer o que? Ver um filminho com o Ian?  perguntou Laila
curiosa.
                               ~ 32 ~
    - No. S vim saber o que metade das pessoas que deveriam estar
dormindo, esto fazendo fora do quarto.
    - O Ian perdeu o sono e veio ver televiso - explicou Fernanda dando
mais uma colherada no pote  a Laila teve um desejo e veio tomar
sorvete.
    - E voc?  perguntou Ana para Fernanda.
    - No pude deix-la encarar a escurido da noite sozinha.  disse
levando mais uma colher at a boca.
    - Muito prestativa  disse Laila em tom de sarcasmo.
    - Obrigado.
    - No muda de assunto  continuou Laila se virando pra Ana 
Quando voc vai l?
    - Eu no vou l  replicou a garota. No acreditava que voltariam
aquele assunto.
    - Por qu? - ela apontou para a sala - ele t l sozinho.
    - E?
    - E que vocs so perfeitos um para o outro. - ela insistiu  Vocs
dois so chatos e desanimados, gostam das mesmas msicas e no so
muito normais. - explicou como se tudo fosse obvio  acho que dariam
certo.
    - Obrigado  ela no tinha certeza se queria agradecer.
    - De nada. - respondeu Laila sorrindo - Agora vai  e empurrou a
garota, mas ela fincou o p impedindo o corpo de entrar na sala.
    - Gente  ela acenou como se as duas no estivessem prestando
ateno nela. Ainda sorria, mas comeava a se incomodar com a
insistncia de Laila. - eu acabei de terminar sabia? No seria melhor
esperar um pouco?
    - Pra que? - ela parecia ofendida com a pergunta  voc est solteira e
eu no acho que deva ter alguma considerao pelo seu ex.
    Ana ia responder, mas se calou. No tinha como discutir com essa
lgica
    - Tambm acho que voc devia tentar  Disse Fernanda tomando
mais uma colherada de sorvete.
    - Pra onde vai isso tudo?  Ana tentou mudar o assunto
    - Sei l  respondeu a amiga em tom divertido  tenho metabolismo
bom.
    - Mudando de assunto de novo, no?  disse Laila astuta.
    - Olha Gente. - ela cortou as duas quando pareciam querer continuar -
Valeu! Srio mesmo, to gostando do que vocs esto fazendo, mas no
rola. Acabei de sair de um caso no muito legal e me meter em outro no
                                ~ 33 ~
seria uma boa idia.  e continuou desta vez andando de costas em
direo a porta do quarto - Alm do mais. Se eu ficasse com o Ian pra
isso seria covardia. Seria como se eu o estivesse usando e isso arriscaria
a nossa amizade que eu prezo muito.
    - Acho que ele no se importaria em ser usado  contra-argumentou
Laila  ele  doido por voc, sabia?
    -  verdade - concordou Fernanda.
    - Francamente - continuou Laila - essa  a desculpa mais velha de
todas  e a parodiou  Ele  s meu amigo.
    Ana chegava mais perto da porta como se estivesse se afastando de
duas feras selvagens.
    - Ah t. Tudo bem gente  tentou ainda argumentar  Digamos que
ele seja afim de mim. Se fosse isso, ento porque no me disse anda
ainda? Chances ele teve.
    - Ora. Ele deve ser mais lento que voc. Fala Srio, voc vive
agarrada nele, gosta de conversar com ele, sempre corre pra ele quando
tem alguma dvida ou problema. - ela contava as coisas nos dedos - T
na cara, no queira negar.  insultante.
    - Porque ele  meu amigo  insistiu Ana como se fosse algo bvio.
    - E  gatinho. - comentou Laila maldosamente olhando pra sala.
    - Bonito? O Ian? - ela parou na porta erguendo as sobrancelhas.
    -  sim  concordou F
    - Olha voc mesmo  sugeriu Laila e dizendo isso, abriu caminho
para ela estendendo os braos em direo a sala, convidando-a a passar.
    Ao olhar para ela, Ana sentiu a armadilha naquilo, permanecendo
onde estava e evitando ser empurrada para a sala de novo.
    - Calma Ana, agente no vai te empurrar - prometeu Laila  s quero
que voc veja como ele est bonitinho ali.
    Com certa impacincia, e ao mesmo tempo querendo acabar logo com
o assunto, ela avanou e meteu a cara dentro da sala vendo o garoto de
sempre ali, nada de diferente.
    Ian estava agora sentado na janela da sala olhando a noite. Nem tinha
reparado que ele havia desligado a televiso e comeou a se perguntar se
ele havia escutado a conversa. Preferia acreditar que no, pois morreria
de vergonha se acontecesse. Mas ele parecia no perceber que estava
sendo observado e continuava a fitar o horizonte com a ateno fixa.
Parecia que sua mente no estava no mesmo lugar que o corpo.
Olhando-o dessa forma o garoto at ganhava um ar de seriedade um tanto
incompatvel com o ar despreocupado que sempre demonstrava. Estava
longe do Ian brincalho que conhecia e parecia at mesmo mais maduro.
                                ~ 34 ~
    Mas voltando a anlise...
    Ian at podia ser de certa forma atraente, mas ele era um tanto
descuidado consigo mesmo. O rapaz parecia terminado definitivamente
suas relaes com o pente, pois seus cabelos estavam sempre
despenteados. Por sorte eles eram bem lisos. Caso contrrio, seria uma
coisa bem assustadora de se ver. At que eram bonitos assim como
estavam. O fato  que a garota no o imaginava diferente e estranharia se
um dia o visse penteado.
    Seus olhos eram bem negros, era uma cor que Ana achava bonita e
agora pareciam um pouco mais belos devido  expresso de profunda
reflexo do garoto. Uma coisa positiva naqueles olhos  que
combinavam perfeitamente com o negro dos cabelos e contrastava com o
branco da pele. Comeou ento a reparar em seu rosto. O garoto tinha
traos bem fortes que somadas s madeixas revoltosas lhe concediam um
ar selvagem, msculo talvez, mas bonito? Seria? Pensou inclinando a
cabea para poder ter outra perspectiva.
    Decidindo mudar de foco, passou a olhar o corpo do amigo. Ian era
alto e magro, mas tinha certas definies nos braos e um pouco de
msculos se deixavam transparecer na camisa. Ian tinha msculos?
Nisso ela nunca reparara.
    Resolveu voltar ao rosto. Olhar penetrante e misterioso. Era
engraado que apesar de conhecer Ian a pelo menos cinco anos sempre
parecia que tinha muitas coisas dele que no sabia. Alm desse ar de
mistrio, ele tambm era carinhoso e sempre a fazia rir quando precisava.
Eram uma boa dupla, mas s amigos.
    Ana comeou a lembrar de seus anos de amizade. Quando era motivo
de riso das outras crianas por suas histrias absurdas e Ian era o nico
que a ouvia sem zombar dela. Lembrou-se de quando tinha dvidas na
escola e Ian sempre lhe explicava o que no entendia. Era timo ouvi-lo
falar. Ela se lembrou tambm de quantas vezes ele a defendeu na vida.
Como quando tinha treze anos e alguns garotos roubaram seu colar e no
a deixavam peg-la, gritando ofensas alegando que ela era louca ou ento
imitando ataques de histeria como e fosse Ana.
    Aquele era o bem mais precioso da garota e ela lutava para recuper-
lo, mas era intil. Ela se lembrou ainda que naquele dia Ian voou em um
dos garotos que segurava seu cordo e lhe tomou a fora. O problema 
que logo depois ele apanhou feio. Ian no era um bom lutador e no tinha
chance contra os trs que implicavam com ela. Por sorte ele no tinha se
machucado bastante e no dia seguinte j havia melhorado. Lembrou de
                               ~ 35 ~
Lucas e como ele a defendia na sada do colgio e como ele sempre
mudava quando alguma coisa a ameaava.
    - Ana? Ana? - chamou Laila
    Ana comeou a sair de seus devaneios e voltou para a cozinha como
se tivesse cado de uma altura considervel.
    - Voc t aqui garota?  brincou Laila.
    - Ah Sim... To bem. - respondeu ainda tentando se acostumar com o
presente.
    - Pensando em que? - interrogou Laila.
    - Nada - mentiu  nada mesmo.
    - Ento?
    - To com sono.  e se apressou em ir para o quarto  tenho de dormir.
    Ela ento atravessou a porta e correu para se deitar, deixando Laila e
Fernanda pra trs. A garota pde ver, antes de fechar a porta, o sorriso
presunoso de Laila com sua atitude.
                                ~ 36 ~
   3  Aliana
    O Centro da Cidade do Rio de Janeiro, apesar de sua arquitetura
moderna como os imensos arranha-cus, ainda conserva muitas
construes pertencentes aos scs. XVIII e XIX, como  o caso de alguns
patrimnios como o Museu da Repblica, o Palcio Tiradentes e o
Instituto de Filosofia e Cincias Sociais
    E assim tambm  com a Igreja da Iluminao, que ficava em no
Largo So Francisco Paula.
    Construda em 1970, aproximadamente, a igreja  um lugar de culto
muito restrito. Suas missas ocorrem apenas uma vez aos domingos e nas
comemoraes dos dias santos. O que se faz por l nos demais dias,
nenhum morador local sabe dizer. So poucas as pessoas que ali
freqentam em dias de missa e menos ainda so aqueles que aparecem
entrando e saindo de l quando no se est nesses dias.
    Hoje, porm, era um desses raros dias em que um visitante chegava
perto da igreja. Andando pelas ruas escuras e fedidas a urina da
Uruguaiana, com seus mendigos e suas praas, vinha um jovem magro e
de rosto macilento. Ele tinha cabelos louros e de aparncia oleosa e olhos
muito azuis. Esse talvez fosse o nico trao em sua aparncia que o
salvava.
    Ele chegou at as portas gigantes da Igreja da Iluminao e encostou
sua mo na madeira. Olhou em volta a procura de algum, mas ali ele s
tinha a companhia dos mendigos que naquele momento pareciam todos
adormecidos. Ento, voltou sua ateno  enorme porta de madeira e
fechou os olhos ouvindo as trancas do interior se destravando e, logo
depois, as portas se abriram. Ao entrar no templo, as portas se fecharam
novamente sem que ele tivesse de tocar na madeira.
    Ali, ele deu uma boa olhada na arquitetura que era muito mais
impressionante por dentro do que por fora. Enquanto a sua estrutura
externa era decadente, parecendo poder cair aos pedaos a qualquer
momento, com seus pedaos faltando, suas pichaes horrendas e seu
forte cheiro de urina, no interior a decorao renascentista do lugar
enchia os olhos de qualquer amante de arte. Apesar de sua falta de luxo,
sua decorao em madeira e mrmore era de um capricho inigualvel.
    No  preciso luxo para agradar o senhor, pensou o jovem enquanto
se permitiu admirar por mais alguns minutos as imagens santas do
interior da igreja e depois apressou o passo at o altar principal aonde,
atrs dele, se encontrava um enorme quadro retratando a Virgem Maria
segurando Jesus Cristo no colo.
                                ~ 37 ~
    Ele se aproximou da imagem e antes que pudesse toc-la, ouviu um
som por trs dela e logo o quadro girou, revelando uma gruta por trs da
imagem.
    Uma voz rouca saiu do interior do tnel:
    - Entre filho.
    Ele entrou.
    Passou por um extenso corredor que mais parecia o interior de uma
mina abandonada. Mas bastou andar um pouco para sair em uma sala
bem luxuosa. Nesse lugar, beleza e magia andavam juntas. Havia uma
lareira com chamas prpuras queimando em seu interior banhando o belo
aposento com uma luz espectral e enchendo os ouvidos com o crepitar da
lenha. Os mveis eram feitos de boa madeira e adereos de ouro estavam
em todas as estantes e competiam com as imagens de santos do local.
    Sentado em uma poltrona de frente para a lareira estava um senhor
um pouco acima do peso, vestindo uma manda cor de pele e um crucifixo
de ouro em volta do pescoo quase invisvel. O homem tinha uma
expresso calma, porm divertida, no rosto. Olhando-o assim, aparentava
ser um velho sedentrio e provavelmente inofensivo, mas o garoto sabia
que no podia confiar na aparncia ao julg-lo.
    - Bem vindo ngelo.  saudou o senhor com uma voz rouca. Dava
para ver que ele fazia um grande esforo pra falar.
    - Nem me deixou abrir a passagem  observou o jovem  estava
ansioso me esperando ou tentando me surpreender?
    - Eu no conseguiria isso mesmo que quisesse.  respondeu forando
um sorriso  olhe o meu estado.
    ngelo via que no tinha como discordar. O eminente bispo Csar,
que at outrora era um dos mais respeitados e temidos magos da Ordem
dos Iluminados fora reduzida a quase runa. Doa o corao de ngelo
ver seu mestre naquele estado.
    O bispo Csar havia contrado uma forma de cncer que nem os
maiores especialistas tinham noo de como se tratar. Um tumor em sua
garganta havia brotado e alcanado propores gigantescas em poucas
semanas. O bispo se recusou a procurar qualquer especialista , seja na
rea mdica ou mgica, acreditando que isso o faria se afastar de suas
funes. Faltar com suas responsabilidades era uma coisa que o bispo
no tolerava, principalmente num momento to delicado como o que se
passava. E era justamente disso que ngelo vinha tratar com ele aquela
noite.
                               ~ 38 ~
    No momento, Csar sobrevivia com medicamentos trazidos por um
amigo que ngelo pouco conhecia e escolheu o leito tranqilo da Igreja
da Iluminao, o que ele considera sua ltima funo na terra.
    - Bispo, eu... - tentou ir direto ao assunto.
    - Tenha calma, ngelo  interrompeu o bispo com a voz um pouco
mais alta do que queria e teve que levar a mo  garganta, massageando-
a  eu nem lhe ofereci nada.
    - No quero nada, obrigado  apressou-se o garoto a responder
    - Ento, sente-se.
    ngelo puxou uma cadeira para perto da poltrona do bispo, sentando-
se.
    - Bispo! Vim expressar meu desagrado pela sua recente deciso. -
falou em tom polido e o Bispo riu como pde.
    - No precisamos ser to formais meu pupilo  disse amavelmente 
Eu entendo suas dvidas, mas essa questo no envolve voc.
    - Perdo dizer isso, mas envolve toda a Ordem dos Iluminados,
senhor. Ento me envolve. - e se apressou em continuar antes que fosse
interrompido - No v o risco que corre fazendo acordos com esse tipo
de gente? - ngelo tentava manter a voz o mais baixa possvel, pois sabia
que o bispo no suportava gritaria
    - Entendo sua preocupao, meu filho. Mas tenho que repetir que os
nicos envolvidos nisso somos eu e o frade Henrique. - depois lanou um
olhar astuto para o garoto - E voc, porque resolveu fuar onde no
deve?
    ngelo abaixou a cabea. E depois, recobrou a confiana e continuou
a falar em tom polido:
    - Ento o senhor no pretendia me contar nada. - no foi uma
pergunta.
    - No  respondeu o bispo com sinceridade  e sabia que voc seria
contra.
    - E sou.
    O bispo ficou calado. Sabia que aquela discusso no tinha acabado e
como sua garganta doa, preferia deixar o garoto falar.
    - Senhor! Desculpe continuar insistindo, mas negociar com os
Inquisidores  suicdio. Eles vivem a vida a nos caar. No acredito que
tenhamos alguma coisa que eles querem.
    - Na verdade temos sim  o bispo Casar tentou rir de novo, mas sua
garganta no permitiu  e vale lembra-lhe que ns e os inquisidores j
fomos aliados.
                               ~ 39 ~
    - Isso foi a uns cinco sculos bispo!  rebateu o jovem  Esse pacto
foi quebrado h muito tempo, e hoje ns somos to caados quanto os
demais magos.
    - Eu sei. E tambm duvido que esse nosso casamento dure muito
tempo. Mas no momento  de vital importncia a ajuda deles.
    E foi quando se iniciou uma tosse que fez a cabea do bispo tender
para frente enquanto tentava erguer a mo e pegar o remdio na mesa
prxima a sua cadeira. Vendo a dificuldade e sabendo o quanto aquelas
tosses eram dolorosas para Csar em seu estado, ngelo se precipitou
para abrir o frasco colocando um comprimido na boca do velho.
    Logo a tosse se cessou.
    - Essas tosses me causam uma dor horrvel  disse o bispo com os
olhos cheios de lgrimas  ainda bem que tenho esses comprimidos. Eles
so milagrosos.
    - De que so feitos?  tentou dar uma pausa no assunto.
    - No sei na verdade.  arte indianista. Feito de uma erva amaznica.
Especialidade do frade. Mas funcionam e  isso que importa.
    Ele encarou o discpulo
    - Est vendo o porqu de temos de agir rapidamente. No vou durar
muito.  continuou o velho bispo  Como voc sabe, o perodo em que
vivemos hoje  muito delicado. O tabuleiro est dividido em trs partes
com os magos, os demnios e os inquisidores ocupando capa ponta. Ns
estamos bem no meio deles e somos odiados por todos. Temos que
garantir alianas para sobrevivermos.
    - Eu sei, mas logo com eles?
    - Sim.  necessrio. - confessou o velho  at porque, a informao
que demos a eles vai ser de grande importncia pra ambos os lados. Vo
ser dois cachorros com um s tiro  e fez uma pausa para pensar se era
esse mesmo o ditado.
    - Quando o senhor vai me dizer o que esta negociando com eles
mestre?  disse o garoto num tom mais de splica do que de
interrogao.
    - Quando for  hora  respondeu o velho  at l, quanto menos
pessoas souberem melhor. Eu e Henrique daremos conta. Agora saia!
    O jovem se surpreendeu:
    - Como?
    - Tenho de receber o frade Henrique para que discutamos assuntos
que no lhe dizem respeito. Agora saia!
    Um pouco ofendido, o garoto se levantou e saiu pela passagem por
aonde veio.
                               ~ 40 ~
    *
    Pobre ngelo. Perdo! Pediu silenciosamente o bispo quando o
garoto saiu.
    ngelo era seu aluno mais novo, e tambm o mais promissor. Com
apenas cinco anos de aprendizagem havia alcanado um nvel de controle
mgico formidvel. Era um prodgio com certeza. O que a natureza havia
lhe economizado em dotes fsicos, havia compensado em miolos.
    Mas esse assunto o Bispo Csar preferia no envolver seu protegido.
No ainda. ngelo seria seu herdeiro no futuro. Todo seu legado estaria
guardado a ele quando o bispo, enfim, partisse consumido pelo cncer.
Mas no momento, justamente para que ngelo vivesse para receber essa
herana, ele tinha de mant-lo longe.
    Csar recentemente descobriu um segredo que havia lhe garantido um
poder de barganha inimaginvel. Uma presena, ou um pressgio, no
sabia a diferena, lhe invadiu os sonhos numa noite, mostrando o
prenuncio de um retorno. As portas do inferno estavam se abrindo e
impedir a volta da criatura era uma misso para todos, Magos ou
Caadores. Tal noticia era um prato cheio para os Inquisidores. Pois se
tratava de um ser mgico centenrio ou talvez milenar, com um poder
que fez o bispo tremer. Com certeza os caadores iriam querer por as
mos nele antes que conseguisse conquistar todos os seus poderes.
    Por outro lado, alm de conseguir aliana com os Inquisidores, a
morte deste ser tambm interessava toda a Ordem dos Iluminados.
Afinal, sua maior misso quando esta organizao foi construda sempre
foi a de destruir os demnios. Negociar com os Inquisidores seria algo
que a Ordem no toleraria como o bispo j previa. Ento, resolveu tomar
as rdeas da situao e ir em frente sozinho. Era um mal necessrio.
    Os fins justificam os meios.
    Mas ngelo tinha de se manter fora disso. Pelo menos at estar tudo
acertado. O garoto era jovem e tinha que viver muito. Csar, pelo
contrrio, estava condenado. Sabia disso. Mas antes de morrer seria o
responsvel pela salvao de milhares de pessoas e tambm de garantir
uma aliana de vital importncia para a sobrevivncia da Ordem.
    Sairia por cima no fim.
                              ~ 41 ~
   4  Carncia.
    Ana tratou de se deitar na cama o mais rpido que pde. No estava
com sono, mas fingir dormir era a melhor maneira de fugir de Laila e
Fernanda. O que havia sido aquilo? Ela havia deixado Laila falar demais
e agora estava comeando a pensar besteiras. A ltima coisa da qual
precisava agora era um novo relacionamento. Seu corao j havia sido
ferido demais e outro golpe no seria suportvel.
    Ela e Ian. Ana riu do absurdo
    Iria dormir e amanh j voltaria ao normal. Pelo menos era isso que
esperava. E foi com esse pensamento que ela se cobriu esfregando os
braos para ver se os pelos paravam de ficar ouriados.
    *
    Laila e Fernanda continuaram a se deliciar com o sorvete enquanto
conversavam sobre a reao de Ana.
    - No disse que ela estava a fim?  comemorou Laila.
    - Verdade  concordou Fernanda lavando seu pote.
    - Agora falta s o Ian. Acho que ele vai ser mais fcil.
    - Voc est realmente animada com isso  comentou Fernanda
    - Eles realmente formam um belo casal. - refletiu Laila ignorando o
comentrio.
    - Pena que ainda no tenham se ligado nisso. - Fernanda completou.
    -  verdade  riu-se Laila.
    Ao terminaram de lavar os potes de sorvete, Fernanda deu um longo
bocejo comeando a sentir que o sono vinha com toda a fora.
    - Vou dormir. - anunciou - Vem?
    Laila passou em direo ao quarto, mas viu que Ian ainda estava na
sala. Ele continuava sentado na janela e desta vez estava acariciando a
orelha de Rex, um de seus rottweilers que tomavam conta da casa.
    - Eu vou sim.  respondeu Laila - Mas antes vou atacar na outra
ponta.
    - Bem, eu estou com muito sono - desculpou-se a garota - No vou
ajudar nessa.
    - T certo. Boa noite  disse Laila dando dois beijos no rosto da
amiga.
    - Boa noite  e entrou no quarto.
   Aps a amiga sair do mesmo cmodo que ela, Laila respirou fundo e
avanou, aproximando-se do garoto sem fazer barulho. Porm, quando
                              ~ 42 ~
chegou a uma distncia curta ele virou o rosto para encar-la o que a fez
pular.
    - Nossa!  segurou o grito levando a mo ao corao  e eu que
queria te dar um susto.
    - Desculpe  Ian sorriu pra ela.
    Ela olhou mais uma vez ele acariciando o cachorro e comentou:
    - Voc  um dos poucos que no tem medo dele.
    Ian se virou de volta para o animal.
    - Eles no so to maus assim.
    - Bem, com voc. Acho que com outro ele teria arrancado a mo 
comentou com naturalidade  E bem... - ela pensava no que dizer - voc
no tem sono no?
    - Hoje no. Resolvi assistir televiso para se me dava, mas nada.
    - Podia ter vindo tomar sorvete com a gente. Estvamos eu, a F e a
Ana.
    - A Ana est acordada? - e Laila sorriu com essa manifestao de
interesse
    - No. Foi dormir j.
    - Ah...
    Ian voltou a prestar ateno no cachorro. Depois, lembrando-se de
algo, ele voltou o rosto para Laila e disse:
      Eu quase me esqueci. - e voltou a olh-la - Obrigado por me
convidar.
    - Que isso!  disse a garota com um gesto de pouco caso.
    - No,  srio. Voc chamou muito pouca gente e ns nem somos
muito ntimos
    - Amigo da minha amiga  meu amigo.
    Ele riu
    - Valeu.
    - E por falar em Ana  insinuou a garota  como ela t indo por causa
do Lucas?
    - Acho que ela vai sobreviver  respondeu sem dar muito caso. Mas
Laila pde perceber que quando o nome do ex de Ana foi citado, o lbio
superior do garoto deu uma tremida.
    - Ento?  continuou investindo  E o que voc acha desse fim?
    - Eu? - Ian pareceu surpreso com a pergunta - Acho... bom. -
concluiu.
    - Por qu?
    - Por que eu acho que ela merece coisa melhor.
    - Por qu? - ela arregalava mais os olhos a cada Por que.
                               ~ 43 ~
   - Por que ele  um boal.
   - Por qu?
   - Quantos porqus voc vai me fazer ainda?
   - O suficiente at voc me responder o que eu quero?
   - E o que seria?
   - Porque voc gostou tanto desse fim.
   - Eu j falei.
   - No a verdade. - cortou.
   - Que verdade?
   - A de que voc est feliz porque agora tem uma chance com ela.
   O garoto tomou um susto com a acusao.
   - Ah? - e soltou um pigarro  O que voc est falando?
   Laila riu alto, depois levou a mo  boca para abafar.
   - Voc  demais  ela continuou aps parar de rir  at parece que no
 nem um pouco afim da Ana.
   - Como assim?
   - Vai continuar se fazendo de sonso?  acusou.
   O garoto ficou calado por um tempo.
   - Somos amigos apenas  disse finalmente, voltando sua ateno ao
cachorro.
   - Infelizmente pra voc  assim. - ela continuou e viu ele evitava
olh-la nos olhos. - Mas isso  questo de tempo.
   Ian riu em deboche;
   -Srio! Ela tambm  louca por voc.
   - Eu no sou louco por ela. - corrigiu.
   - Tudo bem. Digamos que no. - Ela ergueu as mos em sinal de
rendio - Mas ento voc no se importaria se ela arranjasse outro, no
?
   - Como assim?  o garoto se virou pra ela.
   - Ora! Simples. A Aninha est carente, coitada. Precisa de um
consolo pra se reerguer e como voc no se candidata. - ela lanou um
olhar astuto pra ele -  bom que ela arranje algum. No acha?
   O garoto ficou pensante, depois voltou sua ateno pra fora e disse:
   - Acho que sim.
   Laila deu um forte suspiro de impacincia.
   - Ento t  consentiu  mas, no diga que eu no avisei. A Ana
precisa de algum que a faa esquecer o Lucas. E voc seria o candidato
perfeito. Eu votaria em voc - e deu de ombros  Eu j lhe avisei meu
amigo. Se voc queria uma chance,  esta.
   Ian no respondeu.
                               ~ 44 ~
   - Bem. Ao contrrio de voc, eu durmo. Boa noite. - a garota agora se
virou para sair da sala.
   - Boa noite - respondeu Ian.
   - E v se dorme  recomendou numa virada rpida - voc est com
uma cara horrvel.
    E saiu deixando o garoto sozinho com coisas para se pensar.
    *
    Ana despertou com o barulho da porta do quarto se abrindo. Ao olhar
para a direo da entrada do quarto, viu que Ian finalmente entrara para
dormir. Ele se achegou para perto dela e deitou ao seu lado. Ela
continuou a fingir dormir, mas estava com vontade de se virar para falar
com ele. Ficou nesta posio por algum tempo, sem escutar nenhum som
vindo do garoto ao seu lado.
    Naquele momento ela se encontrava de costas para o amigo e no
conseguia ver se Ian j estava ou no dormindo. Vencendo a inibio, se
virou para ficar de frente para o ele e ao fazer isso levou um susto, pois o
garoto estava virado pra ela e a olhava fixamente.
    Ana sentiu um arrepio na espinha pelo peso daqueles olhos. Por
algum motivo no era o olhar habitual que Ian dava para ela. Havia algo
de diferente. Esperana talvez.
    - Que bom que est acordada  ele disse em voz baixa e Ana sentiu
um calor leve lhe subir o corpo.
    - Oi - ela respondeu sentindo o rosto corar. Droga, porque isso
agora?
    - Eu s gostaria de dizer uma coisa. - e falou encurtando a distncia
que os separavam - E acho que se no falar agora no vou conseguir
mais.
    - O... q... que? - ela pensou em se afastar um pouco, mas no o fez.
Continuando deitada com as mos encostadas no peito.
    - Fico feliz que tenha terminado com o Lucas. - falou rpido.
    - P... por qu?  droga, ela tinha de parar de gaguejar.
    - Porque ele era um lixo e no a merecia.
    - S?  perguntou Ana, mesmo sabendo que no era s.
    - No  e respondendo isso, se aproximou mais de Ana, fazendo seus
corpos se tocarem. Uma sensao parecida com a de uma corrente
eltrica atravessando suas costas acometeu a garota. Ela no conseguia
falar nada e ficava parada fitando aqueles olhos escuros.
    O garoto ajeitou sua franja, limpando seu rosto e se aproximou mais.
Ela agora fitava seus olhos negros a uma distncia de poucos
                                 ~ 45 ~
centmetros. A respirao de Ian atingia seu rosto como uma brisa,
permitindo que ela conseguisse sentir seu hlito. Um forte cheiro de bala
de mente adentrou suas narinas. Eram as balas favoritas do amigo.
   A sensao de fitar aqueles olhos negros era a de como olhar para um
poo sem fundo. Havia certo medo, mas tambm uma curiosidade nisso.
A partir daquele momento, tudo que se seguiu passou como um efeito em
cmera lenta. Ele foi aproximando o rosto para perto do dela com
lentido e por mais tempo que se passasse, a distncia entre os dois no
era vencida. Ana no conseguiu fazer com que seu crebro processasse
qualquer reao para o que estava prestes a acontecer. Na verdade, ela
no conseguia nem mesmo crer no que ela achava que estava prestes a
acontecer. At que, faltando apenas um milmetro para que seus lbios se
encostassem, ela sentiu um gosto parecido com o de pano penetrar a sua
boca.
   Ana despertou e se pegou beijando o prprio travesseiro, enchendo-o
de saliva. No susto, se ergueu rapidamente, olhando em volta. Mas
apenas Fernanda e Laila haviam voltado. Ian nem estava ali.
   - T de sacanagem  suspirou consigo mesma.
   Sem saber o que fazer, pensou em ir ver o que estava fazendo com
Ian para ele se manter acordado a noite inteira, mas desistiu da idia
achando melhor no. No era bom encontrar com ele naquele estado. Ao
invs disso, virou o travesseiro e tentou voltar a dormir.
                               ~ 46 ~
   5  Excludo.
    ngelo continuou na Igreja da Iluminao mesmo aps ser expulso
por seu mentor. No foi abandonar o local com tantas coisas o
inquietando. A idia do bispo ainda parecia absurda perante seus
ouvidos.
    Aliar-se com os Inquisidores novamente? Loucura.
    ngelo conhecia bem a histria de sua ordem mgica para saber que
as chances daquele plano dar certo eram extremamente limitadas.
Durante a Idade Mdia, a magia experimentou seu momento de apogeu e
queda numa transio muito rpida. Devido ao alto poder alcanado por
inmeros grupos mgicos, tanto da Europa quanto dos demais
continentes do velho mundo, logo a ambio comeou a tomar conta dos
praticantes de Magia e guerras foram sendo travadas entre diferentes
tribos, a fim de alcanar uma hegemonia no planeta. Foi o perodo em
que a realeza e o clero comearam temer a ameaa mgica.
    Nesse contexto, a igreja catlica comeou a arquitetar contra essa
ameaa em conjunto com os reis e lordes feudais da poca, fundando a
sociedade secreta conhecida como Os Inquisidores. Os iluminados eram,
no perodo, a esquadra mgica de Roma e seu brao direito para assuntos
referentes  magia. Usando a mgica contra a mgica, anos de guerras
foram travados entre os Inquisidores e todas as organizaes de bruxos
que havia espalhadas pelo planeta.
    Devido a pouca organizao e falta de sentido de unio entre os
magos, estes foram gradativamente derrotados, restando muito poucos no
mundo de hoje. Porm, com o passar dos anos a prpria Ordem dos
Iluminados comeou e ser vista como uma profunda ameaa para a nova
ordem. Pois agora, no s os magos eram condenados, mas toda a magia
em si tornou-se sinnimo de ferramenta do mal, desvirtuando e
corrompendo as pessoas. Enquanto, em contrapartida, o avano cientfico
ganhava as escolas do sc. XVIII tornando-a, alm de profana,
ultrapassada.
    No demorou e os Iluminados passaram a ser vistos como uma pedra
no sapado e foram excomungados entrando para a lista negra dos
Inquisidores. Assim como os demais magos, eles sofreram graves perdas
e agora o grupo de ngelo se encontrava numa situao ainda mais
delicada que a dos outros. Como o prprio Bispo Csar havia falado,
todos j estavam em seus lados do tabuleiro. Uma guerra acontecia por
debaixo dos panos no planeta e o mundo estava dividido em trs grandes
extremos: em um, os inquisidores, que lutavam para acabar com os
                              ~ 47 ~
ltimos resqucios mgicos existentes na Idade Contempornea; de outro,
as ltimas organizaes mgicas que tentavam sobreviver em um mundo
cada vez mais ctico; e no ltimo extremo, outra espcie de criaturas que
mesmo mortas ainda atormentavam a vida das pessoas vivas. Possuindo
corpos de inocentes e comandando um exercito de bruxos que se
vendiam para eles em troca de poderes, os demnios eram a maior
ameaa de todas. E eram tambm os principais inimigos dos Iluminados.
    Na verdade, a luta contra os filhos das trevas foi o que causou a
adeso dos Iluminados nas fileiras da inquisio nos primeiros anos de
caa s bruxas. Pois na Idade Mdia, o nmero de bruxos que
compactuavam com as foras obscuras para conseguir poder havia
aumentado assustadoramente. Naquele momento, o ataque dos
Inquisidores estava completamente direcionado contra a "m magia",
porm,  medida que foram ganhando mais poder e adeptos, passaram a
lutar contra toda a forma de fora oculta, incluindo os Iluminados.
    ngelo sabia que na atual situao eles estavam bem no centro da
guerra, pois no conseguiam formar alianas com nenhum dos trs
grandes grupos. Eles jamais juntariam foras com os filhos das trevas e
os demais magos estavam ressentidos demais para aceitar a ajuda dos
Iluminados. Logo, os Inquisidores eram a ltima chance, levando-se em
considerao que j foram aliados no passado.
    Mas ngelo no acreditava que fosse possvel reviver tais tempos.
Com a vitria esmagadora da cincia sobre a superstio, no havia mais
espao para acordo entre os Inquisidores com os Iluminados. Eles j
eram os vencedores da guerra e a nica coisa que faltavam fazer era
pescar os pequenos peixes que insistiam em nadar num rio que aos
poucos secava.
    Para ngelo, ainda era melhor a tentativa de renegociar com os
grupos de magos remanescentes, mas o alto conselho do grupo nunca
ratificava tal deciso.
    Sentado em um dos inmeros bancos da igreja, contemplando sua
imagem favorita, aonde mostrava a da Virgem Maria subjugando a
serpente com seus ps descalos, ngelo se ps a esperar, enquanto
tentava enxergar alguma sada mais favorvel para aquela situao. Mas
estava difcil ver uma luz nos tempos de escurido da atualidade, com a
magia quase morta e com os Inquisidores e os filhos das trevas com
poderes cada vez maiores.
    ngelo respirou fundo e comeou a rezar para recuperar a f, e foi
quando lhe ocorreu uma duvida: que informao o bispo havia obtido
                               ~ 48 ~
que interessava tanto os Inquisidores? Seria ela to importante que faria
os dois grupos esquecerem anos de lutas e mortes? O bispo no quis lhe
dizer do que se tratava.
    Mas os pensamentos do jovem iluminado foram cortados pelo som
das pesadas portas da igreja se abrindo. Ao se virar ele v o Frade
Henrique adentrando a igreja. Henrique era um homem de trinta anos
bem vividos. O pouco que ngelo conhecia dele  que no passado
trabalhava como intermedirio entre a Ordem e os demais grupos
mgicos existentes. Henrique tinha sempre uma postura impecvel assim
como seu visual, com unhas e cabelos sempre bem cortados e cuidados.
    Ele vinha andando em direo ao garoto e vestia sua habitual batina
preta e trazia um embrulho embaixo do brao. ngelo sentiu um
profundo alvio ao ver Henrique e se levantou par receber o visitante:
    - Bem vindo frade Henrique.
    O homem se surpreendeu ao ver o garoto ali no escuro.
    - O que faz aqui to tarde, ngelo?
    - Precisava falar com o bispo Csar sobre um assunto urgente. -
respondeu.
    - Posso saber do que se trata?  o frade tinha um ar de preocupao.
    - Claro frade!  se apressou em responder  na verdade, o assunto
tambm convm ao senhor. J estou ciente dos encontros do senhor e do
bispo Csar com alguns setores dos Inquisidores.
    O frade ficou ligeiramente surpreso com tal afirmativa e tentando
conter a palidez de seu rosto, ele perguntou:
    - Mas como voc sabe disso?  um assunto confidencial.
    - Eu escutei uma vez a conversa do senhor com o bispo. - admitiu -
Estou ciente que vocs tm se encontrado com gente da inquisio e que
tambm possuem uma informao de vital importncia para este grupo,
porm, o bispo no me quis por a par de que tipo de informao  esta.
    - Nem deveria  concordou o frade srio  voc j sabe demais
ngelo. Esse tipo de empreitada deveria ficar apenas entre mim e o
bispo.
    - Eu entendo bem o porqu - desculpou-se - Mas agora eu j sei. Sou
contra essa deciso, mas no contra o bispo.
    - timo. O que voc quer ento?
    - Eu gostaria que o senhor me colocasse a par de tudo.  pediu.
    - Infelizmente no posso.  respondeu se desculpando com os olhos 
Essa  uma empreitada muito perigosa e quanto menos pessoas da
Ordem se envolverem, melhor. Ns confiamos em voc ngelo, no
pense o contrario, mas no queremos que voc corra riscos.
                               ~ 49 ~
   - Ento no confiam em mim. - interpretou o garoto - Pois no acham
que sou capaz de lidar com a situao.
   - Pare de agir como criana ngelo  replicou o frade  Eu disse para
o bispo ontem mesmo o quanto voc era maduro e competente apesar de
sua idade. No me faa sentir nojo do que disse.
   - Mas...
   - Sem mas! Estamos tentando te proteger de tudo isso e seria bom de
sua parte reconhecer isso.
   O garoto ficou calado. Henrique era seu superior e ele lhe devia
respeito. O frade continuava enrgico quando continuou o sermo:
   - Voc j sabe demais sobre o assunto e espero que concorde em
desistir de saber mais. Pelo menos por enquanto. - e depois olhou o
garoto de cabea baixa se acalmando um pouco - Acredite. Quando
chegar a hora voc saber de tudo. Agora eu gostaria que voc fosse para
casa. No quero voc escutando por trs da porta de novo.
   O frade estava visivelmente irritado, apesar de usar uma voz calma.
Por isso ngelo achou melhor no contrari-lo.
   - Agora v.  continuou o frade  Tenho muita coisa a discutir com o
bispo e tenho que dar seu remdio ainda.
   Mesmo de m vontade, ele saiu, mas aquilo ainda estava longe de
acabar.
                               ~ 50 ~
   6  Olhos azuis
    Foi muito difcil para Ana recuperar o sono na noite anterior. Aquele
sonho passou a se repetir em sua cabea durante toda a passagem do
tempo e o fato de Ian no voltar mais para o quarto no a ajudou, pois,
apesar de no deix-la constrangida, enchia-a de curiosidade de saber o
que ele estava fazendo do lado de for at to tarde. Porm, depois de
muito insistir, conseguiu adormecer para logo depois despertar, deixando
a sensao em Ana de que ela havia apenas piscados os olhos para fazer
amanhecer.
    Erguendo o corpo, ela olhou em e notou que estava sozinha. Todos os
seus companheiros de quarto j haviam se levantado, o que a deixou
curiosa por saber que horas eram. Espreguiando-se, ela se levantou da
cama e, passando rapidamente pelo banheiro anexo ao quarto s para
ajeitar levemente o cabelo, se dirigiu para o quintal, onde todos j
estavam sentados tomando caf da manh. At dona Mnica, que possua
a fama de dormir at tarde j estava de p.
    - Bom dia dorminhoca  saudou Laila, convidando-a a se sentar ao
seu lado na mesa  Sonhou gostoso hoje?
    - Como? Ana acabou respondendo depressa demais, deixando uma
pontada de espanto refletida em seu tom de voz. Sem querer, seu rosto
enrubesceu. E se ela falou algo enquanto dormia?
    - S fora de expresso  explicou Laila constrangida com a reao 
Sabe como . Voc dormiu pra caramba.
    - Ah... sim  respondeu um tanto ausente. Agora a vergonha havia
aumentado, mas parecia que ningum, com exceo de Laila, havia
notado seu ataque. Ento, sentou-se a mesa, servindo-se de uma fatia de
po.
    Assim que seus olhos correram pela mesa, ela pde ver Ian sentado
bem na sua frente. Ainda estava receosa em olhar diretamente para ele
depois do sonho que teve, porm, bastou ela encar-lo por um leve
segundo que seus olhos se encontraram fazendo seu corpo estremecer de
leve.
    - O que foi?  perguntou o garoto.
    - Nada  apressou-se em dizer  S pensei... - tentou encontrar algo
para dizer  Bem, voc no dormiu a noite de novo, no ?
    - Dormi sim. - respondeu sorrindo  S que bem tarde.
    - Eu no vi  se meteu Laila
    - Foi bem tarde. Bem depois que vocs voltaram pra cama.
    E voltaram a comer.
                               ~ 51 ~
    - Bem, qual o plano de vocs hoje, jovens  perguntou Mnica com ar
divertido.
    - Na verdade viemos sem planejar nada  respondeu Fernanda
sinceramente. Ela se servia do segundo pedao de bolo desde que Ana
chegou e a garota no sabia o quanto a amiga j tinha comido antes.
Parecia que ela e Ian competiam pelo prmio poo sem fundo. Para onde
iria tanta comida?
    - Fale por voc  corrigiu Laila olhando disfarada pra Rodrigo, mas
o garoto nem notou.
    - Isso que  bom.  continuou Mnica  J sabem as nicas duas
regras, ento, divirtam-se.  e saiu da mesa  com licena.
    - Minha me  meio doida  esclareceu Laila.
    Quando acabaram de comer, eles arrumaram a mesa, escovaram os
dentes e foram para a piscina mais uma vez, para aproveitar o tempo bom
que fazia.
    Nos primeiros momentos, Ana se manteve isolada dos demais,
permitindo-se relaxar enquanto submergia na gua e ficava alguns
segundos no fundo procurando tirar os pensamentos da noite anterior da
cabea. Porm, em um dos momentos onde ela emergiu de volta para a
superfcie, seu rosto quase acerta o de Ian que a aguardava, parecendo
interessado em falar com ela.
    - Ah... oi.  ele riu com a quase coliso - Est com algum problema,
Ana? .
    - Como?  respondeu limpando a gua do rosto.
    - No sei. To te achando diferente, no falou comigo desde que
acordou.
    - No, que isso. - ela fez um gesto de pouco caso  impresso sua.
    - Que bom  Disse Ian com um sorriso enquanto ajeitava seu cabelo
mais uma vez. O garoto nem percebeu, mas aquele toque leve havia feito
os msculos de Ana se enrijecer, e sem notar, ele se aproximou dando
um beijo na sua testa novamente. Ana mas uma vez fechou os olhos ao
receber o carinho e j ia se afastar percebendo a periculosidade daquela
proximidade quando sentiu uma enxurrada de gua atingir seu rosto
entrando em seu nariz.
    - Filho da...  Ao abrir os olhos depois de tossir a gua atirada,
encarou o amigo que tinha um sorriso traquinas na face. Naquele
momento, ela se esqueceu de todo o perigo em se aproximar dele e pulou
em torno de seu pescoo tentando afund-lo na gua.
    Utilizando todo o peso de seu corpo, ela conseguiu fazer com que a
cabea de Ian afundasse por pouco mais de um segundo, mas ele nem
                               ~ 52 ~
teve tempo de comemorar, pois logo seu p  puxado por ele do fundo e
Ana  levada ao cho da piscina. Ao voltar para a superfcie, ela sorri e
investe novamente contra o amigo e ento se inicia uma batalha aqutica
entre os dois que ningum se atreveu a interferir. Na luta, cada um levava
uma vantagem sobre o outro. Ian era mais forte que a garota, porm,
tentava ao mximo no machuc-la. Atitude com a qual Ana no se
preocupava.
    Continuaram a brincar se esquecendo totalmente das pessoas a sua
volta. Ian afundava Ana e Ana beliscava Ian e os dois se divertiam.
Pareciam crianas de novo naquele momento. Isso pelo menos, at um
dado momento do jogo em que ele conseguiu imprens-la contra a borda
da piscina. Seus corpos tinham se colado e suas faces agora estavam
mais prximas que o normal. Ana pde at mesmo sentir o cheiro de
menta entrando em suas narinas que era incrivelmente similar ao seu
sonho. Mais uma vez seu corpo entrou em defensiva sentindo o calor do
corpo dele esmagando o seu. Por um segundo, foi como se todo o tempo
tivesse parado e toda a forma de pensamento se esvaiu da cabea da
garota fazendo com que um silncio paradisaco se instalasse sobre ela.
     E foi ento que, olhando a face do amigo, ela percebeu que uma
dvida se instalara nele e Ian parecia se digladiar em seu ntimo para
tomar a prxima deciso. Hesitante, ele aproximou o rosto. Seus olhos
estavam ligados aos de Ana como que por uma linha invisvel, aonde
nenhum dos dois parecia capaz de vencer a fora que os atraia um para o
outro. Instintivamente, a garota Ana engoliu em seco e foi fechando os
olhos deixando seus outros quatro sentidos a manterem conectados ao
mundo.
    Tudo estava to parecido com os filmes, porm, algum parece ter
resolvido dar stop na fita, pois, tudo acabou num piscar de olhos. Eles
nem tinham se tocado e Ian tratou de se afastar rapidamente deixando
Ana beijando o vento. A garota sentiu sua face ficar vermelha, mas Ian
no parecia estar sentindo a mesma coisa. O rosto dele demonstrava
algum outro tipo de sentimento, algo que Ana ainda no conseguia
identificar. Mas podia jurar que era alguma espcie dor, ou medo, no
sabia ao certo. Ela o teria machucado em algum momento?
    Mas no foi isso, pois logo ele se reuniu com os demais membros
sem olhar para Ana. Era como se ela no existisse para ele naquele
momento.
    - Se voc queria um momento ideal para o primeiro beijo. Foi esse a
 comentou Laila passando ao seu lado, dando um susto na garota.
    - Ai meu Deus. - ela levou a mo ao rosto envergonhada.
                                ~ 53 ~
    - No se preocupe.  tranqilizou a amiga  Acho que s eu notei.
    - Notou o que?  Ela tentava assumir a postura de antes, mas j tinha
sido descoberta.
    - Francamente amiga. J estou pensando que voc acha que eu sou
trouxa.
    - Me ajuda.  pediu quase sem flego  Preciso conversar.
    - Vamos para meu escritrio.  Convidou a garota animada enquanto
saia da piscina, sendo seguida por Ana. As duas meninas foram para o
quarto onde passaram a noite. Laila fechou a porta atrs de si e se virou
para a amiga.
    - Ento?  perguntou.
    - Eu no sei o que est acontecendo. Eu s...  comeou Ana sem
saber controlar o tom de voz.
    - Relaxa!  interrompeu Laila segurando seus ombros  no  nada
demais.
    - Mas...  a garota deu um suspiro para relaxar  mas eu no sei o que
est acontecendo. Nunca senti isso por ele antes e agora  como se do
nada... Porque agora?
    - Carncia  triste fofa  respondeu sorrindo amigavelmente
    - Como?
    - Ora Ana, voc terminou um namoro agora e de forma no muito
boa. - ela fez fora nos ombros da amiga para que ela se sentasse de
frente pra ela no cho   normal isso que voc est sentindo. J passei
por isso tambm.
    - Srio?
    - Sim. Voc est num momento um tanto vulnervel. O Lucas feriu
voc e agora est desiludida com relao aos homens.
    Ana laou um olhar de dvida para Laila, mas ficou em silncio
esperando que ela continuasse. Apesar de ela nunca ter se considerado
carente depois do trmino com Lucas, tinha que admitir que houvesse
algum sentido o que Laila falava.
    - Mas existe uma coisa lhe incomodando nisso tudo.  Laila
continuou e Ana pde sentir um discurso tendencioso em seu tom de voz
 Pois ao mesmo em que voc acreditar no querer olhar para a cara de
nenhum homem, seu corpo precisa se acostumar novamente com a
solido. E nisso, voc acaba se interessando por qualquer um mesmo sem
querer.
    - Como voc pode ter tanta certeza?
    - Ora, eu j fui deixada pra escanteio tambm - respondeu Laila, mas
se apressou em corrigir ao ver a cara de Ana pelo comentrio - Foi mal!
                                ~ 54 ~
 e continuou  Sei como , bate uma carncia na hora. Acaba que para
se curar disso voc corre o risco de cair nos braos de qualquer um. Sabe
como .
    - Eu no sabia  comoveu-se a garota.
    - Relaxa, eu to bem agora. Faz muito tempo e eu no to afim de entrar
em detalhes. Infelizmente eu no tive a chance que voc tem quando isso
me aconteceu.
    - Que chance? - surpreendeu-se Ana.
    - Ora, a de ter algum a quem se atirar. Um porto seguro. Algum que
conhece e assim voc pode perder o controle um pouquinho. No seu caso
 comum voc vir a se interessar pelo Ian. Afinal, ele est sempre ao seu
lado e vocs so amigos. No fundo voc acredita que de todos, ele  o
nico que no vai te magoar.
    - No to entendendo aonde voc quer chegar.
    - Voc  burra, hein!  revoltou-se, mas riu depois mostrando que no
falava srio  Estou falando que voc tem algum para se curar dessa
carncia. Eu acho que voc deveria dar uma chance a si mesma.
    Laila falava com tanta convico que Ana no conseguiu discutir com
a lgica dela. No imaginava que a amiga fosse to sensvel assim.
    - Melhores amigos so timos nessas horas. - comentou por fim  eles
nos ajudam a superar.
    - Ento o Ian seria essa pessoa?
    - Bingo! - Laila explodiu em alegria.
    - No sei se seria capaz de fazer isso. No seria justo... us-lo dessa
forma.
    - O que?  se exaltou a garota  como assim no  justo? Ele 
homem, no vai se importar.
    - Que coisa horrvel de se dizer - riu Ana.
    -  no ?  concordou Laila rindo mais alto ainda  brincadeira. S
digo que voc usando o Ian, s estaria fazendo um favor a voc e a ele
mesmo. Consegue me entender?
    - Fala srio. - respondeu descrente.
    - Serio! Mesmo! Ele quer tanto quanto voc.  assim mesmo.
Geralmente quem est dentro nunca percebe. Acredite, ele  louco por
voc.
    - Ento porque ele nunca disse nada?
    - Ele  lerdo n, tadinho?  lerdo.  respondeu Laila como se tivesse
diagnosticando uma doena terminal.
    - No sei...
                                ~ 55 ~
    - Pensa bem Ana  atiou Laila  Voc nunca teve curiosidade de
tentar, saber como ? Se ele beija bem? E quem sabe, no ? -refletiu 
E se ele for o certo desde o comeo? Quem vai dizer? Agora o que voc
no pode fazer  deixar de tentar. Por que voc no d o primeiro passo?
    Ana preferiu permanecer, pois no queria admitir que estivesse dando
o brao a torcer para aquela possibilidade. No fundo, mesmo contra a sua
vontade, aquilo era tentador. Parecendo perceber que o efeito de suas
palavras faziam efeito, Laila de calou por um tempo, aguardando.
    - Belo colar  ela comentou mudando o assunto.
    - Ah, como? - ela levou a mo ao cordo mecanicamente  Ah, sim.
Foi presente. Herana de famlia. - ela estava feliz que o foco do assunto
tinha sido mudado, embora acreditasse no fundo que aquilo era apenas
uma ferramenta de retrica usada pela amiga.
    - Voc deve gostar muito dele  disse sorrindo  Voc no o tira nem
para tomar banho.
    - Foi presente de minhas falecidas tias. No consigo me desfazer dele.
    Ela ficou admirando a prpria jia para fugir do olhar de Laila. Ela
era realmente muito bonita. E nesse momento a porta do quarto se abriu e
Laila deu um pulo do cho. Era Ian quem entrava.
    - Sabia que se bate na porta antes de entrar/ - replicou a garota -
Poderamos estar nuas.
    - Desculpe - pediu Ian, sem graa -  que o pessoal est pensando em
jogar cartas agora. To afim?
    - Eu j vou  prometeu Ana e se levantou.
    Laila parecia um pouco frustrada com sua deciso e quando saram,
falou ao seu ouvido:
    - Pensa no que eu te disse.
    E saram do quarto.
   *
   As coisas continuaram normais no sitio de Mnica ao passar da tarde.
Os hspedes almoaram, brincaram, conversaram, fizeram baguna
enquanto Mnica relaxava com seus filmes e suas comidas no quarto.
Aparecendo apenas de vez em algumas situaes, como quando os
garotos queriam jogar baralho e ela entrou na brincadeira, Mnica
demonstrava grande capacidade em interagir com pessoas muito mais
jovens que ela.
    hora passou normalmente at que a noite chegou e Laila reuniu o
pessoal no quarto para uma brincadeira.
                                ~ 56 ~
    - Verdade ou conseqncia. - anunciou para todos, alguns riram e
outros, como Fernanda, ficaram um tanto apreensivos. Ana olhou bem a
garota tendo uma estranha impresso que a maioria das garrafas acabaria
apontando para ela e Ian. Conhecia a amiga e sabia que ela era bem
capaz disso.
    Ana olhou para Ian e ele no parecia estar ali. Pelo menos no em
esprito. O garoto mantinha os olhos focados em algum canto distante do
quarto e parecia muito concentrado em seus pensamentos. Ao se
questionar sobre o que ele estava pensando, notou que o seu lbio
superior estava tremendo levemente.
    Estranho, refletiu.
    - No vou brincar no galera - foi tudo o que ele falou antes de se
levantar ameaando sair. Sua atitude foi to rpida que Ana at levou um
susto quando ele saltou do cho.
    - Ah fala srio Ian. Senta a  reclamou Antnio.
    - Eu no gosto dessa brincadeira  alegou o garoto ainda olhando para
a rua sem dar muita ateno ao companheiro.
    - Tem medo que descubramos seus segredinhos?  desafiou Laila
    Sem dar importncia aos comentrios, o garoto saiu do quarto
escutando as vaias dos ocupantes do quarto. Com isso, Ana tinha ficado
em maus lenis, pois, sair significava ouvir comentrios maldosos e
ficar seria estar de vela. Sem muitas escolhas, ela se levantou dizendo
no estar muito disposta ao jogo.
    No caso dela, no houve represlias e alguns at olharam-na como os
olhos arregalados como se houvessem compreendido toda a verdade.
    Sem olhar para os demais, ela saiu do quarto e foi at a sala.
    Ningum.
    Notou que a porta estava aberta a atravessou, adentrando o quintal.
Ao sair, sentiu uma brisa gelada e agradvel passar pela sua pele.
Correndo os olhos pelo lugar, viu o garoto sentado na borda da piscina da
casa com os ps dentro d'gua. Daquela posio, Ana no foi capaz de
ver seu rosto, mas percebeu pela sua imobilidade que ele devia estar
perdido em pensamentos. Sem fazer barulho, Ana se aproximou com
calma at que um rosnar atrs de si a fez parar.
    Com a sensao de que sua espinha havia congelado, Ana se virou
calmamente para encarar a fonte dos rosnados e deu de cara com trs dos
cachorros que tomavam conta da casa, que a encaravam como se s ela
existisse no mundo dos animais. Ah no, praguejou. Tinha esquecido que
 noite os animais eram soltos. O primeiro cachorro deu um passo 
frente enquanto exibia seus dentes afiados para ela.  medida que
                               ~ 57 ~
chegavam perto, o rosnar ia aumentando de volume e Ana comeou a
sentir medo e, como sempre acontecia quando ficava apavorada, suas
pernas resolviam no cooperar. Ela queria entrar na casa, queria correr
para perto de Ian, no fazia diferena, ela s queria sair dali, mas estava
paralisada e sem voz para gritar enquanto olhava aqueles caninos
expostos.
     - Chega! Vem!  escutou a voz de Ian atrs dela. Subitamente, os
ces pararam de rosnar e foram de encontro do garoto na piscina. Os
animais se sentaram ao seu lado dele como se fossem dceis, filando
afagos do garoto. Aquela transformao, digna de O mdico e o monstro,
deixou Ana perplexa por alguns segundos.
    - Voc est bem?  Ele perguntou e Ana confirmou com a cabea,
pois ainda no tinha recuperado o dom da fala.  Pode ficar tranqila.
Eles no vo fazer nada  acalmou-a.
    Sentindo novamente a sensibilidade nas pernas, Ana se aproximou
ainda receosa do amigo e dos cachorros. Mas seu medo agora parecia
completamente infundado, pois os animais se tornaram estranhamente
dceis.
    Ao chegar  borda da piscina, Ana se sentou ao lado do amigo
mergulhando as pernas na gua gelada e se acomodando. Ainda precisou
de um tempo para poder falar, coisa que s conseguiu depois de garantir
que no havia possibilidades de levar uma dentada.
    Mais relaxada, voltou sua ateno para o amigo, que parecia
estranhamente incomodado com sua presena, embora tentasse sorrir
para dissimular.
    - O que a trs aqui? - ele tentou parecer casual, mas alguma
entonao em sua voz acusou o desconforto  Pensei que estaria l
jogando.
    - No gosto desse tipo de jogo.  respondeu sentindo-se estranha por
ser repelida por Ian. Aquilo nunca havia ocorrido antes. Pelo menos no
antes de ter vindo para aquele stio. Pensando melhor, j era a segunda
vez que algo semelhante acontecia  E voc? O que faz aqui, sozinho? 
arriscou um assunto.
    - Admirando o cu. - ele pareceu responder a primeira coisa que veio
em sua cabea. Reparando melhor, ela no sentia mais que o problema
era com ela. O garoto estava um tanto estranho. Seus olhos percorriam
disfaradamente o terreno como que procurando algo. Ele mantinha a
cabea imvel, deixando apenas seus olhos seguirem, como que tentando
impedir que Ana percebesse o que estava fazendo.
                                ~ 58 ~
    Procurando ignorar a estranheza, ela olhou para cima e viu o cu todo
estrelado.
    - Tinha me esquecido que aqui as estrelas so to bonitas.
    - Verdade  concordou Ian, olhando pela primeira vez para o cu.
    - Lembra quando agente ficava brincando de desenhar nas estrelas 
tentou manter o assunto.
    - Lembro  concordou o garoto  eu lhe inventava umas histrias bem
doidas para cada uma delas. Era quando voc ainda acreditava em
bruxas.  apesar de ainda evasivo, Ana sentiu que comeava a atrair a
ateno dele para ela.
    - E eu adorava  concordou a garota apoiando com cuidado a cabea
no ombro do amigo, fazendo o corpo dele estremecer.
    Lerdo, lembrou Laila dizer e achou graa.
    - Naquele tempo eu era muito feliz.
    - Por qu?  questionou o garoto  No  agora?
    - No  isso - disse em tom de desculpas  Me expressei mal. Eu quis
dizer  que, apesar de tudo de ruim que aconteceu na minha vida, eu era
feliz, porque... bem... eu tinha encontrado algum igual a mim. Algum
que acreditava no que eu acreditava.
    - At que voc parou de acreditar  comentou e Ana sentiu certa
acusao naquilo.
    - Mas mesmo assim continuamos ntimos  rebateu
    -  verdade.  concordou  Ns formvamos uma bela dupla.
    - Formamos  corrigiu a garota sorrindo.
    - .  Ian forou um sorriso consolador. - Mas fico feliz que tenha
conseguido superar isso.  ele disse logo depois  Voc fica mais bonita
quando est feliz. - e sorriu pra ela.
    Ana sentiu o rosto corar e o corao bater mais depressa com aquele
elogio. No se lembrava de Ian dizendo pra ela que era bonita antes.
    - Voc acha que eu fico bonita quando estou feliz?
    - Que voc fica ainda mais bonita  corrigiu.
    - Ele finalmente parecia ter desistido de olhar a paisagem e comeou
a prestar ateno nela. Os dois se olharam por um longo tempo aonde
Ana conseguiu contemplar com perfeio aqueles olhos negros e mais
uma vez, se deixou viajar pelo seu interior que realava mistrio. Mas o
tempo para contemplar acabou rpido, pois, logo depois, Ian voltou sua
ateno para a gua fugindo de seu olhar.
    - Algum problema? - perguntou.
    - No, por qu?  se defendeu o garoto.
    - No sei. Voc parece estar me evitando.
                               ~ 59 ~
    - Impresso sua  e sorriu, mas continuava a olhar para a gua.
    - Voc poderia me olhar enquanto fala comigo?  pediu a garota.
    E ele se virou
    - Perdo.
    Ela riu
    - O que foi?  perguntou Ian
    - Nada  ela respondeu  s que... parece que voc est tentando me
expulsar daqui.
    - Como assim?  ele ergueu as sobrancelhas.
    - No sei. Primeiro voc parece desconfortvel com minha presena e
depois, no me olha, no me d ateno.
    - Perdo. - pediu de novo e depois ficou calado
    - Agente se conhece h tanto tempo - ela continuou agora se
aproximando mais dele  mas sinto que ainda tem coisas que me falta
descobrir em voc.
    Meu Deus, o que  que eu to fazendo? Parecia que seu corpo havia
dar inicio a algo que nem mesmo sua mente havia processado direito. O
frio da gua contrastava com o calor da pele de Ian, fazendo com que ela
fosse atrada para perto do amigo atrs de conforto. E foi quando sua
circulao se acelerou.
    - Nem sempre temos que descobrir tudo um do outro. - ele falou.
Apesar do corte, Ana sentia que no fundo eles no estavam falando da
mesma coisa. - Podem haver coisas ruins nas pessoas que s vezes 
melhor nem se descobrir.
    - Mas s vezes, h coisas maravilhosas tambm que nos passam
despercebidas. - rebateu
    Mais uma vez eles estavam se olhando nos olhos. A distncia entre os
dois era curta e poderia ser facilmente vencida. Era apenas questo de um
dar o primeiro passo e esse pensamento tentou Ana pelo um longo
minuto em que eles voltaram a se olhar, fazendo a garota se sentir uma
estranha dentro do prprio corpo.
    Ela no era acostumada a tomar as rdeas da situao como estava
fazendo naquele momento. Sempre fora passiva aos acontecimentos e ter
que tomar decises a deixava um tanto apreensiva. Mas naquele instante,
aonde os desejos apreciam falar mais alto que a racionalidade, estava
sinceramente gostando daquilo. Era bom poder tomar a iniciativa um
pouco e quanto mais olhava o amigo, mais tinha certeza de que Laila
estava certa. Ele gostava dela.
    Os olhos de Ian agora eram completamente incapazes de desviar a
ateno dela. O garoto demonstrava certo receio do que estava prestes a
                               ~ 60 ~
acontecer e que ambos sabiam sem ningum falar nada. E foi quando
Ana sentiu o desejo neles. Um anseio controlado, como se ele estivesse
usando toda a fora do seu se, para se impedir de ir mais longe. Nunca
tinha recebido um olhar to profundo quanto aquele por um momento
Ana experimentou o que Laila deveria se sentir todos os dias: a sensao
de ser desejada. E isso era muito bom.
    Se ele se seguraria por mais tempo, ela decidiu que no tinha que
fazer o mesmo e sem dizer nada, foi aproximando seu rosto do dele. Os
dois estavam de lado um para o outro e Ana percebeu que Ian tentava se
afastar, mas a garota o segurou pela face com a mo. Um toque simples e
sem fora, mas que foi o suficiente para impedi-lo de se afastar mais. O
amigo segurou suas mos como que tentando afast-la, mas ela percebeu
que ele no queria isso de verdade, do contrrio teria conseguido, pois
era muito mais forte.
    Ento, quando os lbios estavam to curtos que nem mesmo uma
corrente de ar era capaz de passar entre eles, Ana fechou os olhos fitando
pela ltima vez aqueles olhos negros.
    E foi quando eles se tocaram. No princpio, muito tmidos. O corpo
do garoto estava duro e ele no se mexia, como se estivesse paralisado da
mesma forma que Ana ficara ao se confrontar com os cachorros. Mas
Ana, ao contrrio, estava completamente solta, e esquecendo-se de
qualquer inibio, permitiu sua mo passar pelas costas do amigo,
puxando-as para mais perto e ele tremeu novamente.
    Apesar de se sentir ousada demais, ela no se importou e continuou a
seguir em frente. Aquela sensao de poder nunca antes experimentado
deixou-a arrepiada e ela queria poder sentir mais. E Foi quando o beijo,
que antes era suave, ganhou intensidade quando as barreiras impostas por
Ian foram cedendo.
    Alm dos lbios, as mos comearam a entrar no jogo. Ana passou a
alisar os braos dele enquanto Ian perdia a inibio e passava a mo por
sua cintura, obrigando-a a chegar mais perto ainda, at que estavam
completamente ligados. Enfim, enlaando os braos em volta de seu
pescoo, Ana retirou os ps molhados da gua e o amarrou tambm pela
cintura de modo que pudessem ficar de frente um para o outro.
    E ento o beijo pde finalmente ser experimentado com toda a
intensidade exigida, mas durou pouco. Ian parecia recuperar a vergonha
inicial e segurou seus braos impedindo-a de continuar. Mesmo cortada
de seu prazer, Ana sentiu-se satisfeita por aquele momento e foi abrindo
os olhos para encar-lo. Enquanto sentia as bufadas de ar em seu rosto
recorrentes da respirao afobada de Ian, ela o fitou sorrindo de leve,
                                ~ 61 ~
mas o que viu ao enxergar o rosto do amigo fez o sorriso em sua face
sumir dando lugar a um olhar de espanto.
    Naquele instante ele havia feito o mesmo, fazendo com que seus
olhos se cruzassem. Mas ao olhar para Ian, Ana no encontrou o que
esperava ver. Imaginando ver um par de olhos negros  sua frente, ela
sentiu um arrepio quando dois grandes globos azuis estavam olhando pra
ela. Ana ficou imvel, vendo aqueles olhos azuis no rosto do amigo.
Olhos que ela no se lembrava de ter visto antes, nem em Ian nem em
nenhuma outra pessoa que conhecia. Havia algo de sobrenatural na
colorao deles. Eram muito claros e pareciam repletos de energia. Mas
o que mais a assustou, no foi a cor em si, mas sim o desejo que parecia
vir deles. No era a mais a paixo retrada de Ian. Era algo muito mais
intenso, mais carnal, mais obsessivo.
    Mas esse desejo logo se dissipou e eles pareciam estar apavorados
agora. Um profundo medo era visvel no rosto do garoto e nesse
momento ambos se empurraram. Ian virou o corpo ficando de costas para
ela. Sua respirao estava completamente descompassada e ele se
agarrava na borda da piscina com muita fora, como se tivesse medo de a
qualquer momento cair na gua. Seus msculos tremiam e Ana olhava o
amigo com espanto sem saber como se fazia para formar palavras em sua
boca.
    Ela levou a mo ao ombro de Ian tentando vira-lo, mas o garoto
resistiu, permanecendo de costas.
    - Ian? - conseguiu finalmente falar  O... q... que houve?
    O garoto continuou calado.
    - Fala comigo!  insistiu a garota tentando vira-lo inutilmente.
    Quando enfim ele a encarou, seu rosto ainda estava muito perturbado.
Ele olhava pra ela como se estivesse suplicando seu perdo. Seus olhos
voltaram ao preto habitual, embora estivessem um tanto vermelhos e
pareciam prximos a transbordarem lgrimas.
    - Ian?...  mas no houve tempo para Ana falar nada, pois, ele tinha se
levantado e sado s presas para o interior da casa.
    A garota ainda teve que ficar parada algum tempo para tentar digerir
o que tinha acabado de acontecer. Assim como ela, os cachorros tambm
olhavam fixamente para Ian enquanto ele entrava.
    Agora que Ana havia dado pela presena dos animais a sua volta.
Quando finalmente estavam a ss, eles viraram seu olhar para a garota e
ela viu que era hora de entrar. Correu at a sala e viu que continuava
vazia e se dirigiu aos quartos da casa. S haveria um aonde Ian poderia
estar.
                                ~ 62 ~
    Ao se aproximar da porta do nico quarto desocupado ela pde ouvir
algo um tanto estranho. Ao levar a mo  maaneta, parou devido ao som
da respirao ofegante de Ian que sada do interior do aposento. Mas no
era apenas a respirao, havia algo mais. Gemido, choro. Na verdade
pareciam mais ganidos do que sons propriamente produzidos por um ser
humano e tudo era muito curioso.
    Ana no conseguia imaginar o que estava se passando dentro daquele
aposento. Ela manteve a mo na maaneta, mas se recusou a abrir a
porta. Podia sentir o tormento que o garoto passava ali dentro. Parecia at
que o estavam machucando fisicamente e ela no sabia se era melhor ir
at ele ou deix-lo sozinho.
    Acabou optando pela segunda. Ainda se lembrava da forma como ele
fugiu dela e decidiu respeitar sua vontade de ficar sozinho. Sem opes
de onde dormir, ela foi voltou  sala e ali permaneceu sentada no sof,
esperando o dia clarear.
                                ~ 63 ~
   7  Um grito na noite
    Sem perceber, Ana havia dormido no sof e o local desconfortvel
aonde havia passado a noite, se fez sentir na manh seguinte quando sua
cabea latejou aps despertar. Num flash, ela conseguiu se lembrar de
tudo o que tinha acontecido na noite anterior, do jogo, do beijo e
principalmente, dos olhos azuis.
    Olhou em volta e percebeu que o lugar estava calmo, viu o relgio e
ainda eram seis da manh. Todos deviam estar dormindo. Levantou-se e
decidiu ir at a porta do quarto comunitrio. Ao abrir, notou quatro
vultos deitados. Ele realmente havia passado  noite sozinho. Ento, ela
se dirigiu at o outro quarto e parou de frente para a porta. Pensou bem
se devia ou no entrar. Segurou firmemente a maaneta, mas no a
mexeu de novo.
    Olhos Azuis. Pensou, no conseguindo tir-los da cabea desde ento.
Como aquilo era possvel?
    Tudo era muito confuso. Sabia o que tinha visto. Mas ao mesmo
tempo no sabia explicar. Precisava falar com o garoto, saber o que tinha
acontecido e porque ele fugiu dela. Mas ainda ficou um tempo imvel
diante da porta, e foi quando a outra porta, ao lado, se abriu. Era Mnica
saindo de seu quarto. A mulher estava bocejando ao sair e quando viu a
garota, levou um susto.
    - J acordada querida? Caiu da cama?  perguntou sorrindo meio
constrangida por ter sido pega num momento to intimo.
    - Eu diria o mesmo  rebateu a garota retribuindo o sorriso.
    - Touch  riu-se a mulher  Mas o que est fazendo a? Achei que
vocs estivessem dormindo no outro quarto.
    - Sim  que...
    Mas ela no teve tempo de responder, pois naquele momento ela
sentiu a sua mo que segurava a maaneta ser puxada para frente quando
a porta se abriu. Do quarto escuro, surgiu Ian que estava bem  vontade
trajando apenas a bermuda que usava na noite anterior. Os olhos do
garoto estavam mais fundos do que nunca, o que mostrava que passou
mais uma noite em claro e, apesar do frio que fazia de manh, tinha o
corpo completamente suado.
    Um silncio constrangedor se fez presente naquele instante. Ana
olhava o rosto pasmo da me de Laila e no sabia como desfazer o mal
entendido. Em contrapartida, ela olhava para Ian a procura de socorro,
mas o garoto ainda no parecia estar a par do que acontecia em sua volta,
lanando olhares interrogativos para as duas mulheres a sua frente.
                                ~ 64 ~
    - Nossa!  exclamou Monica - Bem...  disse procurando se
recompuser. Seu rosto estava muito corado  vocs so jovens... e... 
desistiu saindo rapidamente para o quintal.
    - No  isso o que...  mas no houve tempo de Ana se explicar, pois
a me de Laila j tinha sado. A garota no sabia onde enfiar a cara, mas
logo ignorou ao se lembrar do amigo. Porm, quando voltou sua ateno
para Ian, ele j havia passado por ela e se distanciara em direo a sada.
    Que rpido? Ela nem tinha o visto passar.
    Ana teve de correr um pouco para alcanar o amigo se colocando na
frente dele, bloqueando o caminho.
    - Precisamos conversar  ela se apressou em dizer.
    - Eu sei. - ele respondeu rpido e Ana sentiu-se aliviada por no ter
que ser ela a entrar em detalhes - Desculpe, no era pra ter acontecido 
ele procurava o que dizer  ento, tchau - e tentou se desviar dela.
    - O que? S isso? - ela o bloqueou novamente - No  disso que estou
falando. Aconteceu alguma coisa errada ontem.
    - Sim. Nos beijamos. - ele evitava olh-la nos olhos, desviando-os
constantemente - Desculpe-me. No era pra ter acontecido. - e tentou
mais uma vez em vo passar por ela.
    - No  isso. Para de se fazer de sonso. Eu quero dizer que aconteceu
algo estranho ontem  noite.
    - O que? - ele no conseguia se fazer de inocente to bem quanto
queria.
    - No sei. Gostaria que voc me explicasse.
    - Explicar: Mas explicar o que?
    Ana bufou de impacincia. No queria ser ela a puxar esse assunto.
Parecia ridculo demais falar.
    - Como seus olhos ficaram azuis por exemplo. - ela sentiu a idiotice
daquelas palavras, mas no parou de encar-lo com convico.
    O garoto soltou uma risada leve e Ana no gostou nada daquele
sarcasmo.
    - Meus o que? Ana, como isso iria acontecer?
    -  isso que eu gostaria que voc me explicasse. Eu vi seus olhos
mudarem de cor ontem  noite  ela se preocupou em reduzir o volume
da voz ao falar essa ultima frase.
    - Voc pode ter visto coisas.  props.
    - Ento voc tambm vai querer dizer que estou ficando louca? 
disse a garota em clera - eu j escutei isso de muita gente Ian, no
precisava escutar de voc tambm.
                                ~ 65 ~
   - No  isso  tentou se desculpar  s que voc... pode ter se
enganado.
   - Eu sei o que vi.  replicou.
   - No sabe no.
   - Vai ficar negando? Ian, qual o problema? Sou sua amiga. Pode me
contar o que foi.
   Ian olhou em volta impaciente antes de falar.
   - E o que voc quer que eu lhe explique?
   Ela no esperava tal pergunta.
   - Sei l! Algo que me faa entender o que aconteceu. - ela tentava
responder. Realmente no fazia a menor idia do que estava havendo - O
porqu de voc ter corrido de mim, o porqu de voc estar me evitando
agora e o porqu de seus olhos mudarem de cor. Qualquer explicao
serve.
   - Eu fugi de voc porque no foi certo o que fizemos.
   - Isso eu imaginei. Mas porque, eu no sei.
   - Porque somos amigos - ele respondeu como se fosse bvio  isso
arruinaria nossa amizade  mas ele no parecia ter certeza no que dizia -
E estou lhe evitando porque no quero que acontea de novo.
   Ela fez sinal de quem se rendia.
   - T bom, mas e a pergunta principal?
   - Os meus olhos?
   - .
   Ele pensou um pouco cantes de responder.
   -  alguma doena?  arriscou apesar de no saber de nenhum caso
assim. Talvez fosse raro.
    Sim! - ele parecia feliz com essa concluso  um caso raro. Nada
grave  tratou de se apressar  mas...  isso.
   Mas naquele instante Ian havia se trado. No intencionalmente.
Provavelmente ningum, exceto Ana, haveria de reparar naquilo. Mas no
momento em que ele falou aquilo, levou instintivamente a mo at o
rosto e comeou a coar o nariz com a palma. Esse gesto, Ana conhecia
muito bem. Durante os anos que estiveram juntos, sempre reconheceu
esse sinal de Ian: Ele estava mentindo. Devia ser um tique dele, mas
sempre que mentia, sua mo ia instintivamente at o nariz.
   - Quer saber? T bom. Esquece. Obrigado pela informao. - ela se
virou e saiu para o quintal.
   Atrs de si, ouviu o som da porta do quarto se abrir e os demais
moradores sarem para o caf da manh.
                               ~ 66 ~
    *
    Na mesa do caf, todos pareciam muito animados, apenas Ian e Ana
no compartilhavam do mesmo esprito. O garoto estava desanimado e a
menina, furiosa.
    No meio da refeio, Laila se achegou para perto da amiga e lhe
perguntou ao ouvido:
    - Que cara  essa amiga? No foi boa  noite ontem?
    - Eu no quero falar disso  respondeu Ana em tom rspido.
    -  que eu pensei, que... - a garota parecia ofendida - por vocs no
terem ficado com agente...
    - Eu no quero falar sobre isso. - repetiu, mas no achou justo
descontar nela e tentou consertar as coisas  Desculpe  disse num tom
mais amvel  s no me pergunte, t?
    T bom. Desculpe  e voltou para o seu caf.
    *
    O resto do dia passou a correr lentamente para Ana no stio. A garota
ainda estava irritada com o silncio de Ian e o clima de paixo que
reinava na casa desde a noite anterior, no estava ajudando. Ela no via 
hora de chegar o dia seguinte em que eles sairiam daquele lugar e
voltariam para a Vila da Penha, onde Ana poderia se trancar no quarto
fechando sua janela e no seria obrigada a olhar o amigo. E s para
completar sua fria contra Ian, ele tinha escolhido dar uma de autista
naquele dia. Ficava horas olhando o horizonte ou perdia a ateno
quando conversavam juntos e mantinha-se fitando o nada. Ana entendia
isso como uma maneira de evit-la e isso a irritava mais.
    Que infantil, pensou trincando os dentes.
    Ao cair da noite, Mnica adentrou a sala anunciando aos residentes:
    - Bem queridos companheiros. Eu fiz um clculo errado nas compras
e descobri que nos faltam refrigerantes e arroz para o jantar. Por acaso
temos algum candidato aqui interessado em andar vinte minutos at a
venda mais prxima?
    Ao dizer isso, ela aguardou a reao que foi negativa em sua grande
maioria, fazendo um gemido de desnimo ecoar por todo o aposento.
Porm, ao contrrio dos demais companheiros, Ana no hesitou em se
colocar logo de p.
    - Pode deixar. Eu vou  disse com deciso. Afinal, ela precisava de
um pouco de tempo longe daquele lugar.
    - No sei  duvidou Mnica, meio apreensiva  J  tarde para voc
andar sozinha. O lugar no  perigoso, mas mesmo assim...
                                ~ 67 ~
    - Eu vou com ela!  escutou Ian se prontificar
    No, gemeu por dentro.
    - Sim! - respondeu Mnica  Assim  melhor.
    Ana percebeu com o canto do olho que Laila ia se prontificar a ir com
ela, mas desistiu rpido quando Ian se ofereceu. No fundo, ela at
preferia que fosse a amiga que a acompanhasse, mas o mal j estava
feito. Mnica deu o dinheiro na mo de Ana e ela calou os tnis
enquanto Ian vestia um casaco e sem trocar palavras, saram.
    A caminhada por uma estrada de terra, mal iluminada e cercada de
mato at a mercearia era longa, e o fato dos dois andarem calados e o
clima entre eles no estar muito bom, deixava o percurso ainda mais
maante.
    Sem nem ao menos olhar para a cara um do outro, eles chegaram 
mercearia, compraram as coisas pedidas e voltaram ainda mudos. Depois
de muito tempo, quando o som do vento j estava por demais
insuportvel, Ian resolveu quebrar o gelo:
    - Quer uma bala?  disse estendendo o pacote pra ela.
    - Porque veio comigo?  perguntou a garota sem rodeios  Achei que
no quisesse falar comigo.
    - Para te proteger  respondeu, ignorando o comentrio.
    - Obrigado, mas no precisava.  disse  At por que, quem iria me
proteger de voc? Quem iria te proteger da raiva que sinto de voc
agora?
    - Por que tanta agressividade?  disse sorrindo pra ela
    - Ian, esse tom de deboche no est ajudando  cortou.
    - Desculpa.  pediu assumindo uma postura mais sria  Achei que
amigos podiam brincar uns com os outros.
    - Achou?  rebateu com sarcasmo  E voc sabe o que eu achei?
Achei que amigos podiam contar coisas uns para os outros, achei que
amigos no tinham segredos uns com os outros. Eu nunca escondi nada
de voc, mas agora parece que eu no sei nada de voc.  acusou
elevando o tom de voz.
    - Ana, eu no estou escondendo nada. Juro.
    A garota deu um pigarro alto e o olhou descrente.
    - No esconde nada? Ento porque  incapaz de responder uma
simples pergunta que te fiz? Porque no me diz que aconteceu com seus
olhos ontem  noite.
    - De novo esses olhos? - gemeu  Meu Deus, mas como  possvel? -
ele olhava espantado para ela procurando palavras para descrever o que
vinha em sua cabea - Cara! Por que voc se fixa tanto nisso? Digo...
                               ~ 68 ~
Eu... eu te dei um toco. Voc veio pra mim e eu te rejeitei, ento... por
que voc insiste em se prender a essa questo?
    Ele havia tocado no ponto da questo.
    - Porque eu preciso de uma explicao coerente  falou
simplesmente.
    - Por qu?  se exaltou o garoto  porque "voc imaginou" no  o
bastante.
    - Porque eu preciso de uma explicao que no diga que eu estou
louca  Apesar de ainda estar com raiva, Ana agora comeava a se sentir
como que sedada ao perceber que provavelmente aquela discusso no
levaria a nada. Por mais que ela falasse e argumentasse, parecia que a
barreira que Ian havia erguido era forte demais e ele continuaria a negar
o fato.  eu no quero mais ser tratada assim.  disse num suspiro,
abaixando novamente o tom de voz  estou farta das pessoas quererem
dizer o que foi que eu vi ou o que eu no vi, no que posso ou no
acreditar, no que eu sei ou no.
    Ambos se calaram deixando apenas o som do vento quebrar o silncio
daquele caminho de terra. Ana sentia que estava muito alterada. Mesmo
tentando evitar que os fantasmas do passado voltassem, eles estavam ali
 espreita. Por algum motivo, tudo aquilo que estava acontecendo,
parecia ter uma ligao muito estreita com o que ocorreu h quatro anos.
Fazia anos que ela no se permitia perder o controle daquele jeito.
    - Que tipo de explicao voc quer?  o garoto disse depois de um
tempo. Ao olhar par ele, Ana viu seus ombros baixarem como algum
que desiste de um combate e se rende ao inimigo. Fitando bem seus
olhos, Ian agora parecia to sedado quanto ela.
    - Apenas uma explicao sensata.  pediu.
    Ele suspirou fundo e seu rosto se contorceu numa espcie de agonia,
como se ele estivesse travando uma intensa batalha em seu ntimo.
    - E se a explicao no for sensata?  falou.
    - Que?
    - E se no for?  repetiu - E se for algo mais... complicado. Algo...
irracional? No natural?
    - Por favor, Ian  ela suspirou  no vem com essas histrias. No
somos mais crianas
    - . Eu sei  e ficaram mudos novamente.
    Mas aquele minuto de silncio foi cortado pelo barulho de algo
passando pela folhagem que cobria os lados da estrada de terra. Num
movimento instintivo, ambos encararam a direo do rudo, apreensivos.
O que ser que estava ali? Seria algum animal?
                               ~ 69 ~
    - O que foi isso?  a garota olhava em volta a procura de alguma
coisa, mas nada se mostrou.
    O mato a sua volta comeava a se mexer mais. Vrios pontos
diferentes da vegetao que os cercavam estavam oscilavam a cada
momento, o que dava a entender que se tratava de muitas criaturas que os
cercavam. Ana olhava em volta tentando ver alguma coisa, mas tudo o
que conseguia distinguir eram vultos disformes, que desapareciam antes
que ela pudesse sequer arriscar um palpite da identidade daquilo.
    Sem receber respostas, ela olhou para o companheiro para saber o que
ele estava fazendo e foi quando seu corao deu um novo solavanco.
Agora, a sua frente, no era mais Ian quem ali estava. Pelo menos no
totalmente. O garoto agora assumira uma postura diferente de tudo o que
Ana j havia visto na vida. Com o tronco um tanto inclinado para frente,
ele mantinha as mos abertas para os lados com seus dedos em forma de
garras. Ao fitar seu rosto, Ana viu um retrato de raiva na face de Ian.
Com o cenho enrugado e o lbio superior tremendo, ela via seu olhar
vigilante percorrer por toda a extenso do ligar.
    E foi quando ela viu seus olhos, que agora, sem sombra de dvidas,
percebera que no estava louca. Pois ali, dentro dos globos oculares de
Ian, estavam os mesmos olhos azuis que vira antes. Intensos, alertas e,
acima de tudo, fascinantes. A mudana foi acontecendo de forma sutil,
mas perceptvel: o preto ia dando lugar ao azul vagarosamente. Uma
pequena dose de medo comeou a se aflorar dentro do peito da garota,
que agora no sabia se voltava sua ateno para a criatura que os cercava
ou se para o amigo que parecia se transformar diante de seus olhos.
    Mas agora o vento passou a soprar mais forte que nunca e Ana no
foi mais capaz de focar sua ateno em Ian, pois a poeira comeava a ser
soprada para todos os lados ameaando sua vista. E junto com a areia que
era arremessada, aquela ventania trouxe tambm algo que gelou seu
corao. Pois, da mesma fora que acontecera h quatro anos, o som
produzido foi ganhando forma at se tornar uma palavra clara nos
ouvidos de Ana. Apesar de tampar as orelhas a fim de evitar escutar o
contedo da mensagem, j era tarde demais.
    Matar
    Sem conseguir pensar em mais nada devido ao medo, Ana apenas
correu para frente gritando na tentativa de abafar o som daquela
mensagem. Porm antes que conseguisse correr para muito longe, seu
corpo colidiu com algum logo  frente sendo agarrada com fora logo
depois. Ali, abrindo os olhos, ela viu Ian a abraando.
                               ~ 70 ~
    Um abrao forte e protetor. Ana fora imprensada contra o peito do
amigo por seu brao que agora parecia duro como ferro. Alm do som do
vento poderoso que o cercava, o ambiente tambm era preenchido com o
som do choro contido de Ana, que vinha na forma de um gemido
agonizante. Porm, um terceiro rudo entrou logo em seguida.
    Este, diferente dos trs anteriores, era mais feroz, mais bestial. Ana
reconheceu nele uma espcie de rosnar. Tentou ver de onde vinha, mas
foi ento que percebeu que ele saa do peito de Ian. Ao correr os olhos
pelo seu brao, viu as mos que a seguravam to rente ao corpo do
amigo. Mos em forma de garras, que a prendiam como um gancho. As
unhas, agora mais compridas que o normal, eram afiadas e pontiagudas
como punhais. Era incrvel como elas podiam segur-la sem machuc-la.
Ao fitar novamente o rosto do amigo, viu os olhos azuis, agora mais
intensos que nunca. Seu lbio superior tremia mais  medida que os
rosnados que saiam dele iam aumentando de volume. Ao olhar melhor
viu que no interior da boca dele, um canino avantajado se fazia presente,
contribuindo para a aparncia bestial que o garoto assumia.
    A partir daquele momento ela no foi mais capaz de tirar os olhos de
Ian. Por esse longo segundo, ela esqueceu-se completamente de toda a
ameaa que se passava a sua volta e, observando melhor, notou que seus
olhos azuis tinham as pupilas muito pequenas, quase invisveis e que
vasculhava todo o territrio a procura daquilo que os cercava.
    O vendaval ento se tornou mais furioso e Ana sentiu que ele se
aproximava quando percebeu uma brisa passando pelo seu pescoo. Num
gesto rpido, Ian a segurou mais rente ao seu corpo e, num salto, afastou
os dois de onde estavam. A garota experimentou a sensao de flutuar no
ar quando ele pulou com ela em seus braos. Uma sensao de leveza to
profunda que ela nem conseguiu perceber quando finalmente
aterrissaram.
    E foi quando os olhos de Ian focaram em um ponto distante. Ele
havia encontrado o que procurava. Os braos em torno do corpo de Ana
afrouxaram deixando seu corpo cair levemente sobre o cho de terra
    - Fica a! No saia!  Ordenou numa voz muito mais grossa que o
natural e disparou, se embrenhando no mato.
    - Ian! No!  mas ela no foi capaz de impedir o garoto que sumiu na
escurido. Mas uma vez, o medo a tinha paralisado e ela estava grudada
naquele cho.
    O vento se cessou e Ana olhava fixamente para o ponto aonde Ian
havia desaparecido. Os rosnares continuaram cada vez mais
ameaadores, embora cada vez mais distantes. At que eles se cessaram.
                                ~ 71 ~
O silncio durou alguns segundos deixando um minuto de silncio
perdurar naquele ambiente. Mas ele durou pouco, e logo depois um grito
de terror, vindo do fundo da vegetao, cortou a noite.
    - Ian?  Ana gritou assustada. Mas no fundo ela sabia que o grito no
era de Ian. Mas mesmo assim, aquele som havia desperto sobre ela o
controle do prprio corpo, permitindo que se levantasse. Com a
mobilidade recm-adquirida, ela correu o mais rpido que pde na
direo por onde Ian havia desaparecido. Seu corao agora disparava
mais e mais e ignorando as compras que haviam ficado para trs ou as
folhas que lhe machucavam as pernas quando ela passava, Ana correu
mais e mais.
     medida que ia adentrando a vegetao, sentia o ar ficando mais frio
at que uma neblina passou a se formar em torno dela. Mesmo sem poder
enxergar um palmo  sua frente, ela continuou avanando, at alguma
coisa bloquear seu caminho.
    Colidindo numa forte pancada, como se tivesse se chocado contra um
muro, Ana foi ao cho. Rapidamente abriu os olhos e viu uma silhueta se
abaixando para alcan-la. Num movimento reflexo, ela tentou se
desvencilhar da coisa que tentava segur-la.
    - Calma Ana  ouviu a voz conhecida que a fez parar de se debater.
    Ela agora conseguia reconhecer as feies do amigo. Suas feies
normais, com seus olhos negros e seus dentes alinhados.
    - Ian! Ian? Voc est bem?  Ela dizia sem poder controlar a euforia
que sentia.
    - Calma. Tudo bem  a voz do amigo era tranqilizadora e muito
suave. Muito diferente da de minutos atrs.  Vamos voltar logo e desta
vez, por favor, sem perguntas.
    Ana estava cheia de perguntas, mas concordou em se calar. Na
verdade, no se sentia muito segura em recusar uma ordem de Ian
naquelas circunstncias, depois de tudo o que se passou.
    Assim, ela se levantou e os dois e voltaram juntos para o caminho de
terra, onde as compras estavam jogadas ao cho. Recolheram tudo e
seguiram de volta ao sitio sem trocar palavras. A garota olhava o amigo
pelo canto do olho. Muitas perguntas passavam por sua cabea, mas no
queria extern-las. No agora.
    Ela ouviu o grito ecoar em sua mente, vrias e vrias vezes. No se
lembrava de ter testemunhado tanto terror proferido de algum, ou
alguma coisa, na vida. O que ser que havia acontecido naqueles poucos
segundos em que eles se separaram?
                               ~ 72 ~
   Agora o medo que ela sentiu h poucos minutos atrs parecia
pequeno se comparado a apreenso que experimentava no momento
enquanto caminhava sozinha com Ian, num silncio mortal e opressor.
Ela havia sim sentido medo da criatura, mas a criatura havia temido a
Ian. Pensando nisso, Ana se questionou sobre quem deveria ser o ser
mais perigoso naquela noite.
                              ~ 73 ~
   8  Flashback.
    Caminhando vagarosamente pela escurido da Igreja da Iluminao,
ngelo mantinha-se de prontido para perceber a presena seja do bispo
ou do frade, impedindo-os de lhe dar um flagrante. Mesmo ciente de que
aquilo ia contra todas as regras da Ordem dos iluminados, ele ainda no
tinha se conformado com as pobres explicaes fornecidas por seus
superiores e acabou optando por conseguir mais sozinho.
    Vendo que no havia ningum por perto, o garoto se ajoelha num dos
cantos da igreja mantendo os olhos fechados e as mos em forma de
clice a frente do corpo. Aps alguns segundos de concentrao, nota-se
uma luz prateada queimar nas mos do mago e logo em seguida a
imagem de um olho  projetado entre as suas mos, aonde permaneceu
flutuante. Abrindo um dos olhos, ngelo comea a guiar o outro que ele
conseguiu projetar magicamente.
    A magia utilizada era atualmente chamada de Big Brother. Um nome
que o garoto passou a considerar estpido aps a estria do programa,
mas que refletia bem a funo da magia. A mgica consiste em fazer uma
projeo hologrfica de um olho humano que pode se movimentar de
acordo com a vontade do usurio. Porm, alm de uma mera iluso, esse
olho carrega as funes orgnicas do mago transportando a viso de um
de seus olhos para a pequena projeo.
    Com isso, ngelo consegue transportar sua viso para pontos
diferentes do seu corpo e investigar regies de forma mais segura e
discreta. Nesse momento, o pequeno olho vagava pelos aposentos da
igreja procurando as figuras do Bispo Csar e do Frade Henrique.
Nenhum deles se encontrava.
    Excelente.
    ngelo j suspeitava de tal acontecimento, mas preferiu se certificar,
pois iria precisar de total paz na nova empreitada que estava planejando.
Andando em direo  passagem secreta atrs do quadro da virgem, o
garoto encostou sua mo na imagem e com um pouco de concentrao,
fez com que esta de locomovesse, expondo a passagem com a gruta que
dava acesso ao local de descanso secreto do bispo.
    ngelo havia ligado para o bispo nessa manh e descobrira que ele
teria uma reunio com pessoas da cpula dos Iluminados nesta noite, por
isso, achou que seria o melhor momento para realizar a magia do
Flashback e descobrir o que estava acontecendo. O garoto sabia que o
bispo havia descoberto algo de muito importante e que se recusava a
confidenci-lo. Sabia tambm que a descoberta era to interessante que
                                ~ 74 ~
significaria at mesmo uma aliana, mesmo que temporria, com os
Inquisidores. E era exatamente isso que ngelo temia. Sua curiosidade o
obrigava a chegar a esse ponto e saber tudo o que se passava em seu
templo. O jovem confiava em seu mestre, mas no sabia at que ponto
aquela doena havia mexido com seus nervos e seu raciocnio.
    Ao adentrar a sala luxuosa, pegou um pedao de giz branco do bolso
da cala jeans que usava e, tirando o carpete persa que forrava o cho,
comeou a desenhar no piso. Em poucos segundos, um circulo cheio de
simbologias estava desenhado no cho.
    Tenho que me lembrar de limpar isso ou o bispo vai me matar.
    A mgica do Flashback servia como uma ponte, aonde o mago podia
observar acontecimentos do passado de um determinado local. Era uma
magia um tanto rebuscada para um iniciante, mas ngelo havia
conseguido domin-la h algum tempo. O bispo Csar, depois de sua
doena, havia se isolado dentro desta sala, saindo raramente quando a
necessidade o obrigava. Ento, independente do que ele tenha
descoberto, fora nesta sala. ngelo entrou no crculo e se sentando com
as pernas cruzadas, comeou a se concentrar.
    A mgica do Flashback era uma descoberta recente de estudos
realizados pela prpria Ordem dos Iluminados. Muito poucos magos
sabiam utiliz-la e ngelo era um desses. Ela foi-lhe ensinada pelo
Bispo, mas nem mesmo este sabia que o garoto havia avanado tanto em
to pouco tempo. O jovem no se sentia bem em utilizar uma coisa
aprendida atravs do Bispo contra ele, mas sua intuio no o deixaria
dormir  noite enquanto no soubesse o que estava sendo tramado dentro
da igreja.
    Aos poucos a meditao ia se aprofundando. Depois de um tempo,
ngelo foi perdendo totalmente o contado com o mundo real, sentindo
seu esprito sair do corpo. Logo, o silncio do lugar foi sendo
gradativamente substitudo pelo som de uma voz; grave e forte, que
ngelo conhecia muito bem: a voz do bispo, antes de ser cruelmente
atacada pela enfermidade.
    - No acho que seja necessrio  ouviu a voz do bispo.
    - Por favor, bispo  era a voz do frade Henrique  no v agir como
criana nessa altura da situao. O senhor sabe que sua sade no anda
bem.
    - Eu sei exatamente como estou no momento.  respondeu o bispo em
tom autoritrio  S estou dizendo que no h necessidade de me afastar
de meus afazeres. No ser uma doena que ir me abater.
                              ~ 75 ~
    Henrique soltou um suspiro de impacincia e depois falou tentando
manter a calma:
    - Senhor. Isso que o senhor tem, nem mesmo os nossos melhores
curandeiros sabem do que se trata. Essa sua infeco na garganta  algo
nunca antes visto e no sabemos a que propores isso pode chegar. 
muito mais sensato deixar nossos especialistas calcularem os riscos que
essa doena envolve. Saber se  contagiosa e se h uma cura. Enquanto
isso  melhor que fique afastado.
    - Reconheo sua preocupao meu filho  o tom do bispo era amvel,
porm firme  mas no preciso de ningum para me dizer o que 
melhor. Trabalhei trinta e cinco anos nessa ordem e no pretendo sair
como um derrotado.
    Finalmente, a magia de ngelo estava completa e alm de vozes,
agora ele conseguia ver a imagem da sala do bispo com perfeio. No
sabia quanto tempo ele havia voltado, at porque ali no havia
calendrios, jornais, nem nada que lhe posicionasse no tempo. A nica
coisa que reparava  que tudo no parecia muito diferente do seu tempo,
h no ser o Bispo Csar, que conservava uma aparncia muito mais
saudvel.
    O bispo estava de p em postura impecvel enquanto olhava a lareira
e ouvia o que o frade tinha a dizer.
    - Infelizmente  continuou o frade  no sou apenas eu que estou
preocupado com sua sade bispo. Todos os membros do conselho esto
cientes e tambm consideram que o senhor no est em condies de
exercer suas atividades. Nem nas reunies, nem na administrao desta
igreja.
    Houve um perodo de silncio e o frade continuou:
    - Eu lhe peo. Abandone isso enquanto se recupera. O conselho no
parece interessado em discutir essa situao por mais tempo. Se no sair
por bem, eles...
    - Est me ameaando Henrique?  agora o Bispo encarava o pobre
frade que deu um passo para trs diante da energia emanada nos olhos de
Csar.
    - No senhor. Longe de mim  respondeu Henrique tentando manter a
calma, mas ngelo sabia muito bem o quo ameaador Csar poderia ser
se assim desejasse  Mas no sou eu que estou lhe dizendo isso e sim o
conselho.  e completou como em tom de desculpa  Sou apenas o
mensageiro.
    ngelo j sabia que estava no tempo errado e no gostava de visitar a
vida pessoal de seu mestre desta forma, mas no havia outra soluo.
                               ~ 76 ~
Depois que a mgica do Flashback era iniciada, no se podia controlar
com perfeio o tempo que se iria visitar, nem podia se avanar rpido
ou rebobinar como numa fita. Por se tratar uma mgica muito recente,
que no teve tempo para ser aperfeioada, o controle da data exata ainda
era impossvel. Tentar encerrar a magia naquele momento exigiria que
ngelo iniciasse o processo todo de novo o que custaria muita energia.
Assim sendo, era prefervel esperar que esse acontecimento terminasse
para se ter mais sorte no prximo.
    Enquanto essa cena no acabava, ngelo podia ver muito bem o
efeito que as palavras de Henrique haviam causado em seu mestre.
Apesar de sua tentativa de parecer imparcial, o garoto sabia muito bem
que aquela notcia havia arruinado o velho mago. Um homem que tanto
lutou para reerguer a influente Igreja da Iluminao no Rio de Janeiro e
que tanto cresceu dentro da Ordem dos Iluminados, agora era derrotado
por uma mera enfermidade. ngelo queria no ter visto tal cena, mas no
teve escolha. Agora as coisas comeavam a sair de foco e ele comeava a
entrar numa outra cena. Nela, Henrique e Csar ainda estavam presentes,
porm, acompanhados por outra figura.
    Um senhor de batina branca com um crucifixo dourado no cordo
estava com eles. O homem tinha uma idade j avantajada e algumas
manchas apareciam em sua pele muito branca. Seus cabelos prateados
eram curtos e desalinhados e seu olhar era severo. ngelo o reconheceu
como sendo o bispo Armando, um dos mais importantes membros da
Ordem dos Iluminados no Brasil e participante da cpula da Ordem no
mundo.
    - No vou me demorar muito Csar.  falou o bispo com sua voz
polida  Voc poder continuar na Igreja, afinal, voc ajudou a reergu-
la em tempos difceis. Porm, no tomar mais conta de suas atividades
administrativas e nem continuar freqentando as reunies da cpula
enquanto sua situao no apresentar melhoras.
    - Mas senhor...  tentou intervir Csar
    - Nem mais uma palavra!  interrompeu o bispo Armando  Tenho
certeza que o frade Henrique ficar feliz em cuidar da parte chata dessa
Igreja enquanto o senhor descansa  e se virando para Henrique, que se
encontrava at ento encostado na parede e se endireitou ao ouvir seu
nome, disse:  Estou enganado Henrique?
    - No senhor. Ser uma honra  dava para ver que Henrique tambm
se sentia intimidado pela imponente presena de Armando, assim como
Csar estava
                               ~ 77 ~
    - Excelente! - felicitou o bispo  Agora, vou-me indo. Melhoras
Csar.
    E saiu sem receber uma resposta de seu interlocutor.
    Quando Armando deixou o local, Csar deu um soco no brao da
poltrona.
    - Droga!  praguejou. ngelo pde ver que seus olhos comeavam a
se encher de lgrimas.
    - Acalme-se bispo  pediu o frade Henrique colocando a mo em seu
ombro  Sua sade no lhe permite irritabilidade.
    - Como irei de me acalmar Henrique? No v o que est
acontecendo? Estou sendo basicamente excomungado da ordem!
    - No  bem assim senhor. - Henrique tentou explicar - Sua sade
necessita de cuidados especiais. E mesmo assim, eu fiquei encarregado
da administrao da Igreja e como sou fiel ao senhor, ser como se o
senhor ainda estivesse no poder.
    - No  a mesma coisa  resmungou o bispo.
    - Sei que no . Mas enquanto isso eu tenho boas notcias. 
respondeu Henrique com ar mais animado, enquanto puxava uma
pequena sacola do bolso  Encontrei a receita dos remdios que lhe falei.
No  a cura definitiva,  acrescentou Henrique ao ver a cara de nimo
do bispo  mas ir lhe aliviar as dores enquanto no chegamos nela  e
tirou uma pequena plula envolvida num pedao de folha.
    - O que  isso?  o olhar do bispo demonstrava alguma inquietao.
    - Sei que no gosta de remdios naturais, porm lhe garanto que este
funciona.  uma propriedade mgica retirada de uma planta amaznica
conhecida como Beladona.
    - Ela no  venenosa? - interrogou o velho.
    - Sim senhor. Mas possui tambm outros tipos de propriedades. Uma
delas  um forte analgsico. Experimente  insistiu o frade.
    O bispo ficou um tempo pensativo.
    - No v agir como um velho de asilo que se recusa a tomar remdios
 alfinetou o frade com um sorriso amvel.
    Desafiado como fora, o bispo pegou uma plula e a engoliu a seco.
No demorou muito para fazer uma cara que parecia que iria vomitar no
carpete.
    - Jesus Cristo! Isto  horrvel.
    O frade riu de alto som.
    - Eu sei. Mas funciona e isso  o que importa. No sente a garganta
melhorar?
                               ~ 78 ~
    - Um pouco  concordou a contragosto enquanto esfregava a garganta
com a mo.
    - timo. Recomendo uma a cada doze horas.
    E finalmente a cena acabou e ngelo foi sendo lentamente arrastado
para outro momento. O garoto comeava a ficar ofegante. Manter a
magia do Flashback por muito tempo era cansativo demais e ele
esperava conseguir algo na prxima cena.
    Agora ngelo estava vendo apenas o bispo Csar sentado em sua
poltrona, aparentemente adormecido. ngelo no entendeu o que aquele
momento poderia ter de importante, mas reparou que o semblante de seu
mestre estava um pouco diferente. Ele parecia inquieto e se mexia na
poltrona regularmente sem abrir os olhos. O garoto percebeu que ele no
estava tendo um sonho muito agradvel ao fitar sua testa enrugada e suor
que comeava a brotar dela.
    ngelo se aproximou para ver melhor o semblante do bispo, porm,
este abriu os olhos soltando um grito de terror que fez ngelo pular pra
trs. Csar suava muito e sua expresso era de profundo pnico enquanto
olhava a sua volta tentando recuperar o flego e massageando a garganta
que doeu com a fora do grito.
    Henrique entrou na sala, eufrico.
    - Algum problema senhor?
    Mas Csar no respondeu de imediato. No conseguia encontrar
palavras para o que havia visto em suas meditaes.
    - O que houve?  insistiu o frade.
    - Eu estava... meditando...
    - Sim. E da? Por que gritou? Viu algo ruim?
    - No sei o que vi.
    - Como assim Csar? - o frade se ajoelhou de frente para ele - De que
diabos esta falando?
    O bispo ficou mais um tempo tentando recuperar o flego. At que
finalmente comeou a falar:
    - H algum tempo eu tive uma espcie de pesadelo.  ele comeou
com a voz fraca fitando a lareira  No dei muita importncia a princpio,
apesar de ter ficado um tanto abalado. E foi ento que o tive novamente
na noite seguinte. E na noite seguinte e na noite seguinte...
    Henrique o olhava atentamente, esperando concluir sua narrativa
    - Comecei a ficar preocupado  continuou - ento resolvi vagar pelos
confins da minha mente, a fim de encontrar e interpretar o que aquele
sonho significava.
    - E em que consistia o sonho?
                                ~ 79 ~
    - No sei explicar ainda. Era um lugar estranho, que parecia o interior
de uma caverna. Todo o lugar era iluminado apenas por uma luz
vermelha que eu no sabia de onde vinha. Mas o que mais me
incomodava eram os gritos. Eles exclamavam o mximo de medo e
desespero que uma pessoa poderia expressar.
    "E eram vrios. Homens e mulheres gritavam em desespero. Eu
vagava pelas grutas a fim de encontrar a fonte de tanto terror, mas no
achava. E o sonho sempre acabava com uma cena: No fim da gruta, eu
encontrava um bero. Um bero negro e de repente, todos os gritos se
cessavam e s se podia escutar uma leve cantiga de ninar.
    "Eu me aproximava do bero e era ento que eu o via. Um beb...
no... me recuso a pensar que aquilo era um beb. Ele tinha a pele
totalmente queimada, no havia possibilidade de nenhum ser vivo
sobreviver com tais queimaduras, mas ele sim. Quando me aproximei do
bero, ele comeou a chorar. Um choro terrvel que aos poucos era
substitudo por uma risada. Era quando todo o sonho morria, mas antes
uma ltima cena se mostrava. O beb se erguia e tentava me agarrar. At
a nada demais s que..."
    - O que houve?
    - No tem como explicar  o bispo estava com a mo direita na
cabea massageando a testa   necessrio que voc veja.
    Ento, ele fez uma urea prateada sair de sua testa e pousar na palma
de sua mo. Uma chama metlica danava por cima de sua pele, at que,
num movimento rpido, foi disparada contra o fogo da lareira. A luz
vermelha ento, que iluminava a sala, passou a ser substituda por uma
tonalidade prpura que preencheu todo o aposento. E dentro da chama,
uma imagem se formou.
    ngelo se aproxima da lareira tentando visualizar melhor o que era
mostrado. E  quando ele v apenas a ltima cena do sonho de Csar: o
beb carbonizado saltando em direo ao bispo. Seus olhos vermelhos
eram bem vistos e seus dentes em forma de presas tentavam morder o
rosto do espectador. Apesar de a cena ser bastante bizarra, esse no era o
motivo do espanto do velho bispo e agora ngelo e Henrique
compreendiam o motivo de tal sonho conseguir perturbar tanto o velho
mago.
    - Essa energia.  comentou Henrique  Nunca senti nada parecido. 
nefasta e ao mesmo tempo impressionante. Deve pertencer a um
demnio... e um demnio bem poderoso.
    - Exatamente.  concordou o bispo  Com certeza no  humano.
    - Mas no h a possibilidade de ser apenas um sonho?
                                ~ 80 ~
    - Voc acredita nisso?  questionou o bispo fitando-o com o olhar
srio.
    Henrique olhou envergonhado para o cho, mostrando que nem ele
mesmo acreditava em tal possibilidade.
    - No somos Sonhadores, mas no podemos ignorar que este pesadelo
no tem nada de normal. Primeiramente, pelo fato de estar sendo
repetidas inmeras vezes, e em segundo por que nenhum sonho consegue
emanar tal energia.
    - O que o senhor pensa que se trata ento?
    - Eu no sei.  refletiu - Mas quero tentar descobrir  e girando a
poltrona para encarar Henrique de frente, ele pergunta  Frade. Voc
ainda possui inmeros contados, no  mesmo? Amigos espalhados por
vrias organizaes.
    - Sim Bispo. - ele parecia um tanto receoso.
    - Possui algum conhecido no grupo dos Sonhadores?
    - Sim, mas...
    - Traga-o at mim, rapidamente.
    - Mas senhor...
    - Rapidamente  ordenou o Bispo de forma enrgica. E a cena acabou
e ngelo ia sendo lentamente levado at a prxima com a magia do
Flashback.
    Apesar de seu cansao, ele no conseguia cancelar a magia. J sabia o
que o bispo havia descoberto. Era claro que aquele sonho no fora
comum, mas ele queria saber mais. Seu corpo no parava de estremecer
ao se lembrar da estranha energia que emanava do pesadelo do bispo.
Aquela energia. Era tudo o de mais poderoso e terrvel que ele sentira na
vida.
    No era de se admirar que o bispo, um homem de um invejvel
controle emocional, estremecesse ao pensar nele. O mais incrvel  que
tanto ele quanto Henrique haviam sentido, de to forte que era, mesmo
que eles tenham presenciado apenas uma demonstrao feita pelo bispo.
ngelo estava exausto, mas ele queria mais do que nunca continuar. Ele
tinha de saber o significado daquele sonho.
    O bispo tinha conseguido falar com um Sonhador?
    A prxima cena o levava para a sala iluminada por uma intensa luz
azul prpura. ngelo notou que a lareira conservara as mesmas chamas
que ele vira quando o bispo demonstrou seu sonho para o frade.
    Na sala, estavam o bispo sentado de frente para uma mulher que
ngelo tinha certeza nunca ter visto na vida, pois era uma figura estranha
demais para que se pudesse esquecer. Era uma senhora que aparentava
                                ~ 81 ~
uns sessenta anos. A figura lembrava bem uma pessoa rica, mas sem
nenhum gosto estilstico, como as novas milionrias que ganham uma
fortuna na loteria e se enchem de jias e outros produtos caros, apenas
para mostrar o novo status. As roupas que ela usava pareciam bem
adaptadas a um desfile de carnaval, mas no num encontro entre magos
de alto escalo.
    O manto colorido que usava era coberto por um xale roxo, todas na
mais pura seda. Ela tinha culos lente fundo de garrafa com o arame de
cor vermelho intenso. E no corpo uma coleo de jias dos mais
diferentes tipos e estilos, que ngelo no quis perder tempo contando. A
mulher misteriosa jogava cartas em cima da mesa de forma furiosa. Seu
rosto demonstrava bem um nervosismo e toda aquela tenso parecia se
refletir, tanto no bispo, que no tirava os olhos do baralho, como em
Henrique, que se conservava mudo encostado na parede prximo a
lareira.
    A mulher finalmente terminou de jogar o baralho e olhou mais uma
vez para a imagem na lareira, que ngelo tinha reparado agora que
ficava repetindo a cena final do sonho do bispo. Depois, ela se voltou
para o baralho com as mos apertando a cabea.
    - Descobriu alguma coisa Cassandra? - perguntou o bispo tentando
manter a calma em meio  apreenso do ambiente.
    - S pode ser isso  respondeu a mulher aparentemente falando
sozinha e ignorando a pergunta de Csar.
    - O que?
    - Mas  terrvel  continuou em seus pensamentos
    - O que?  insistiu o bispo.
    - Mas...
    - O que!  o grito do bispo fez Cassandra despertar de seu transe,
parecendo muito aborrecida por a terem privado de seu momento de
reflexo.
    Ela ficou ainda algum tempo atnita, com o olhar vazio. S depois de
um de passados alguns segundos que pareceu se recuperar. O bispo
massageava o pescoo. Gritar era para ele um esforo sobre-humano.
    - Bem, bispo  comeou ela com calma - o senhor j teve alguma
experincia desse tipo antes?
    - Nunca  respondeu com sinceridade
    - E o que o senhor acha?
    - Como assim?
    - Bem, o que o senhor pensa a respeito disso que acabou de vivenciar.
Acha que est louco?
                               ~ 82 ~
    - Lgico que no  respondeu com ar ofendido
    - Entendo. Apesar de muitos bruxos no aceitarem, os sonhos so de
fato manifestaes da realidade. Com isso no estou dizendo previses
do futuro. - ela se apreou em afirmar ao ver o ar ctico dos outros
magos.
    - Porque a senhora no nos explica o que esse sonho significa? 
interrompeu Henrique. O frade no parecia muito crente com relao 
mulher.
    - Porque, antes disso  necessrio que vocs entendam como funciona
a experincia que Csar acabou de vivenciar  explicou Cassandra.
    - Ento prossiga Cassandra, por favor. - pediu o Bispo.
    - Pois bem. - comeou  Como todos aqueles que foram iniciados em
magia sabem, o mundo  composto por energias. Correto?
    - Sim  respondeu o frade um tanto impaciente.
    - Pois bem  continuou Cassandra sem dar ateno  essas, que so
chamadas por Aristteles de Quintessncia, fazem parte do universo,
assim como e ar, a gua, o fogo e a terra e elas tendem a entrar em
freqncia a todo o momento.
    - Acho que j aprendemos isso dona Cassandra  Disse Henrique
carregado de sarcasmo.
    - Prossiga - pediu o bispo com muita calma. Ele parecia estar bastante
interessado.
    ngelo sabia que a Ordem dos Iluminados nunca fora muito crente na
arte dos Sonhadores em decifrar mensagens ocultas nos sonhos. Para
eles, esse grupo no passava de um bando de Charlates, mas naquele
caso, o bispo estava dando toda a ateno  mulher.
    - Pois bem  continuou  Essas energias tendem a entrar em
freqncia a todo o momento, devido a qualquer ao humana. Assim
sendo, um piso pode liberar energias que percorrem quilmetros pelo
solo, um grito, faz as molculas de ar reagirem e at mesmo um simples
pensamento  capaz de fazer com que essas energias vibrem no universo.
    Ela fez uma pausa bebendo um gole d'gua que tinha a sua frente.
    - Pois bem  continuou  Quando excitadas, essas energias criam
freqncias que transitam na forma de ondas, que passam pela gua, cu
ou pela terra. Elas so, a todo o momento, captadas pelos nossos
sentidos. Como quando ouvimos um grito, ou sentimos a terra vibrar, ou
vemos alguma luz. Em todos esses momentos, so nossos sentidos
captando as energias que circulam pelo universo. Porm, geralmente s
percebemos aquilo que os nossos cinco sentidos captam e nos
                                ~ 83 ~
esquecemos de que h outro sentido que tambm faz parte de cada ser: a
intuio.
    Ela fez mais uma pausa para assegurar-se que estava sendo
compreendida.
    - Esse sentido tende a ficar incubado na maioria dos seres humanos e
basicamente s se manifesta em casos extraordinrios, como quando
temos algum pressentimento ruim. Um exemplo bem interessante  a
intuio que se nasce da relao entre uma me e seu filho. A mulher,
quando me,  capaz de ter pressentimentos sobre a sua cria e isso ocorre
porque sua ligao com ela  muito forte. Laos que so criados desde a
estada do filho no tero materno.
    Ela bebeu de mais um gole e continuou:
    - Pois bem. Acontece que h outro momento em que podemos usar
desse sexto sentido: quando dormimos. A intuio  o sentido humano
que est mais intimamente ligado a essa vibrao das energias no mundo,
mas ela fica constantemente subjugada pelos demais, que a impedem de
agir. Quando dormimos,  o momento que a intuio encontra para agir
da melhor forma, pois  nesse instante em que o ser humano perde os
demais sentidos. Voc no escuta nada, no sente nada, no v nada. E 
nessa hora que a intuio consegue captar o maior nmero de
informaes a sua volta. E a sua interpretao  feita atravs dos sonhos.
    - S que h um problema  completou  como eu j lhe disse, cada
ao que ocorre no mundo, assim como cada pensamento, fazem essas
energias vibrarem. Logo, da pra imaginar o nmero de vibraes que
ocorrem por dia no planeta? Esse excesso de informaes acaba que por
gerar o efeito de interferncia nas mensagens. Assim, nossa interpretao
sofre com esse tipo de interferncia, gerando sonhos muitas vezes
confusos. Por isso, quase nenhum sonho  perfeitamente claro, mas todos
tm uma mensagem, pois todos so resultado da captao que a intuio
faz das informaes que giram em todo o planeta.
    O frade Henrique soltou mais um suspiro que no passou
despercebido pela mulher.
    - Pelo visto no acredita em mim senhor Henrique. Ento que tal me
dar outra explicao para a existncia de sonhos?
    O frade ficou em silncio e baixou a cabea.
    - Assim  melhor. Mas ento, de fato  como eu disse. Assim como
quando falamos a energia do som  emanada, cada ao nossa
corresponde a uma propagao de energia que transita pelo planeta.
    - Eu entendo perfeitamente senhora - interrompeu o bispo  mas o
que eu no entendo  o que significa esse sonho que eu tive.
                                ~ 84 ~
    - E  por isso que eu estou aqui  explicou a senhora  Os Sonhadores
se desenvolveram com base na interpretao de sonhos. Assim como
uma lngua estrangeira, os sonhos tambm possuem cdigos primrios
que nos ajudam a identific-los.
    Ela deu um pigarro antes de prosseguir.
    - Em algum lugar do planeta (e eu diria perto devido  intensidade
dos seus sonhos) h uma trama se desenrolando. Devido  freqncia de
seu sonho e a fora dele eu diria que seu agente, alm de estar prximo,
est muito desejoso para concluir seus intentos.
    - Ento aquele beb seria realmente uma pessoa?  se interessou o
bispo.
    - Eu no diria uma pessoa e sim...
    - Um demnio?  completou o bispo.
    - Exatamente  afirmou Cassandra.
    - Mas porque eu estou sonhando com ele?
    - No fao a menor idia.  respondeu a mulher achando graa da
prpria resposta  Ningum faz para se dizer a verdade. No h um
padro para os sonhos. Voc pode estar sonhando com acontecimentos
da vida de uma pessoa que voc nem faa idia de que exista. No temos
como canalizar isso.
    - E esse sonho. A senhora consegue interpretar?
    - Creio que sim. - disse a mulher com ar de triunfo  De acordo com
minha experincia, aquele beb  de fato um esprito. Ao julgar pela
forma como aparece e a energia que  emanada, ele pertence a um
demnio e um dos bem poderosos. A caverna simboliza sua excluso do
mundo, mas como voc disse, h uma entrada na caverna no h?
    - Sim  respondeu Csar - h uma entrada que foi por onde eu
cheguei.
    - Exatamente. Isso significa que, assim como h uma forma de se
entrar...
    -  possvel que ele saia? - completou o Bispo.
    - Sim. O beb simboliza a fragilidade desse demnio. Quer dizer que
o nosso amigo se encontra num momento de profunda vulnerabilidade. E
 essa vulnerabilidade que o impede de sair da caverna. Mas como
mostra o momento em que ele se ergue para atacar  ela fez um ar de
mistrio - ele esta preste a sair da caverna.
    Um silncio se fez no local.
    - Simplificando - continuou Cassandra  minha interpretao diz que
h uma fora tentando voltar ao mundo. Talvez na forma de possesso ou
de reencarnao, mas ela quer voltar. Devido  fora de seu sonho eu
                               ~ 85 ~
acredito que esse seja um fato iminente e que por isso, no deve ser
ignorado.
    - Entendo.  respondeu o bispo  E eu no pretendo ignor-lo.
    - Excelente. Pois bem, receio ter de ir agora. Espero que me mantenha
informada sobre os demais acontecimentos.
    - Sinto muito  respondeu o bispo.
    - Imaginei que diria isso  disse a mulher com um ar divertido e saiu
sem se despedir. Quando ela chegou  porta, o Frade Henrique deu um
suspiro de alivio e se voltou para o Bispo.
    - Francamente. Da pra acreditar nessa mulher? - falou - No sei nem
porque eu guardo o telefone dela. Se dissesse outro "Pois Bem" eu acho
que ia explodir.
    Notando o silncio do bispo, ele se senta na cadeira antes ocupada por
Cassandra e o encara.
    - Bispo Csar. O senhor no est pretendendo escutar o que esta
mulher tem a dizer, est?
    - Devo decepcion-lo e dizer que sim - respondeu calmamente.
    - Mas bispo...
    - Meu caro Henrique. De fato os Sonhadores so uma organizao de
magos um tanto excntricos, porm, o que esta mulher acabou de nos
contar, no s  muito conveniente com o que eu presenciei como
tambm  uma coisa que eu mesmo suspeitava.
    - Eu no sei bispo. Acho que vai ser como procurar pelo Santo Graal.
    - Concordo, entretanto, uma coisa que Cassandra me disse me deixou
intrigado.
    - O que?
    - A sua explicao da origem dos sonhos.
    - O que tem isso?
    - Bem, se os sonhos so mesmo captaes de fluxos de energia que
transitam pelo espao e so captados pelos nossos sentidos, h uma
probabilidade grande de que se consiga rastre-lo, no concorda?
    - Sim, mas como? No se h noticias de que se possam rastrear as
origens dos sonhos. Acho que se houvesse Cassandra teria comentado.
    - Sim, concordo. - ele estava pensativo - Porm, no acho que este
seja um sonho comum. A energia emanada daquele beb... - fez uma
pausa, pensativo -  uma coisa que desafia todas as lgicas e  essa
energia que eu pretendo rastrear.
    - Mas bispo. No acha que isso  loucura? Se existe realmente esse
esprito, porque o senhor  o nico a senti-lo?
                                ~ 86 ~
    - No sei. Como Cassandra mesmo disse, no h como saber por que
cada pessoa tende a receber determinados tipos de mensagens em seus
sonhos, mas eu sempre acreditei em interveno divina.
    - Como assim bispo?  o frade estava intrigado.
    - Ora. Esse sonho chegou em um grande momento  continuou
tranqilamente.
    - Poderia me explicar? - mas a expresso de Henrique denunciava que
ele comeava a entender o que se passava na cabea do velho.
    - Logicamente. Devido a meu estado de sade, minhas funes para
com a organizao esto muito reduzidas e minha utilidade quase
inexistente. Essa  um grande momento para fazer algo de grande para a
organizao. Um momento para mostrar aqueles velhos da cpula que o
bispo Csar Amarante no  nenhum intil.
    - Mas o que o senhor est planejando?
    - Na verdade, estou arquitetando ainda jovem Henrique,  disse o
bispo enquanto fitava o fogo - mas vou precisar de sua ajuda nisso. Posso
confiar em voc?
    O frade pensou um pouco, hesitando, antes de concordar.
     - Sabia que podia contar contigo.
    O bispo continuou fitando a lareira enquanto a imagem do beb
demonaco avanava repetidas vezes.
    A cena foi-se evaporando. De certa forma, ngelo j conhecia o
motivo de todo aquele suspense, mas ele ainda tinha curiosidade de saber
como o contato com os Inquisidores havia sido feito. Mas isso ele j no
conseguiria mais. Se ficasse mais tempo mantendo a magia, ele
provavelmente retornaria para o tempo real desacordado.
    ngelo sabia que precisava voltar, porm, a curiosidade permitiu que
ele desse uma ltima espiada na prxima cena. Nela, a sala estava quase
vazia, tendo apenas o frade Henrique que se encontrava sentado rezando
com um leno nas mos. Ao ver isso, ngelo blasfemou contra seu azar.
Suas ltimas energias lhe tinham lhe trazido para uma cena to intil.
    Porm, quando ele estava se preparando para cancelar a magia,
alguma coisa havia feito esse trabalho por ele e o garoto sente seu corpo
ser arrastado com violncia de volta para o mundo real. Ao voltar ao
tempo presente, ngelo sentiu uma mo apertando seu ombro com fora
e quando se virou para encarar quem o segurava, viu o olhar severo do
frade Henrique sobre si.
                               ~ 87 ~
   9  Ponte.
    No caminho de volta, Ana percebia que o amigo continuava a se
manter vigilante. Talvez, ainda acreditasse que a criatura de poucos
minutos atrs retornaria para atac-los, mas essa era uma suspeita que a
prpria garota no levava f, pois alguma coisa lhe dizia que ela jamais
voltaria.
    O som do grito ainda ecoava em sua cabea e ela fitava Ian pelo canto
do olho com receio de olh-lo diretamente. O amigo parecia ter voltado
ao normal: olhos escuros, dentes e unhas nos tamanhos normais e sem
emitir rosnados. Na verdade, ele no emitia nenhum som desde
comearam o caminho de volta para a casa.
    Tentando assimilar tudo o que tinha acontecido em to pouco tempo,
Ana tambm no se preocupou em falar nada durante todo o trajeto.
Quem era aquela criatura que, h pouco, os interceptou no meio do
caminho? E mais importante: o que era aquilo em que Ian havia se
transformado?
    Ela no conseguia esquecer aqueles olhos. Eles lhe causaram tanto
fascnio e tambm tanto espanto. No estava acostumada a sentir medo
de Ian, mas naquele momento esse foi um sentimento que no pode
evitar. Em todos esses anos juntos, sempre considerou o amigo uma
pessoa praticamente inofensiva, mas os acontecimentos recentes
comeavam a mudar esse julgamento. Era como se no fosse Ian quem
estivesse ali, lhe protegendo da criatura, e sim outra coisa. Alguma coisa
mais selvagem, bestial, inumana. Ela se lembrava do rosnar que vinha do
peito dele. Nem mesmo os rosnares dos cachorros de Laila conseguiram
provocar tamanho nervosismo na garota.
    Depois de anos de convivncia com Ian, Ana acaba de descobrir que
no sabia nada sobre ele. Pelo menos nada do dono dos olhos azuis. Ela
ficava olhando para o amigo, esperando para ver se o garoto de olhos
azuis voltava. Queria muito poder v-lo de novo, apesar de reconhecer
que esse era mais um gesto de loucura do que coragem. Mas uma fora
irresistvel, talvez o ar de mistrio, fazia com que ela no parasse de
pensar neles e na vontade louca de v-los de novo.
   Chegaram em casa sem trocar palavras. L, comeram o jantar,
escovaram os dentes e foram dormir. Pela primeira vez, desde que
chegou, Ian se reuniu aos demais moradores para dormir no quarto
comunitrio. Ele se deitou ao lado de Ana e foi ento que ela decidiu que
                                ~ 88 ~
finalmente era hora de puxar assunto. No agentava mais aquele
silncio.
    Virando-se para fica de frente para ele, procurou falar muito baixo
para que seus vizinhos no ouvissem a conversa.
    - Ian? - chamou.
    O garoto j estava com os olhos fechados quando foi chamado, mas
os abriu ao ouvir seu nome.
    - Eu sei  ele se apressou em responder. Seus olhos no a encaravam
e se mantinham fixos no teto enquanto falava  Acho te devo algumas
explicaes.
    - Acho que sim  disse tentando sorrir, mas seus lbios tremiam.
    O garoto sorriu em resposta e Ana sentiu um alvio em seu peito. Por
algum motivo aquele gesto a havia acalmado e ela no sentiu mais receio
dele. Na verdade, ela comeou a se achar um tanto idiota por sentir
medo. Mas no podia se culpar. No depois do que viu.
    - Eu posso te pedir um favor? - ele se virou pra ela. Agora estavam
deitados um de frente para o outro.
    - Claro  falou sem pensar muito.
    - Isso pode esperar at amanh? - pediu - eu gostaria de resolver umas
coisas antes.
    A verdade  que Ana no queria esperar. Achava que j tinha
esperado demais por respostas. Havia muitas perguntas dentro dela que
clamavam por explicaes, mas consentiu no fim. Ao ouvir isso, o amigo
pareceu relaxar e seus olhos foram se fechando at a cor preta deles
desaparecer. Depois de fechados, ele adormeceu. Foi to rpido que Ana
ficou impressionada. Parecia que o peso de dias de sono caiu, enfim,
sobre ele.
    H quanto tempo estaria sem dormir e por qu?
    A resposta parecia bvia demais. A pergunta certa seria: h quanto
tempo ele havia percebido aquela criatura e h quanto tempo a
esperava? Ela se lembrava do amigo vigilante na janela da casa. E
principalmente, se lembrou da noite do primeiro beijo e como ele estava
inquieto, encarando o nada. Como se esperando algo cair em cima deles
a qualquer momento.
    Ana se virou de costas para ele e tentou dormir, mas no foi fcil. Ela
no conseguia parar de se concentrar na respirao do garoto atrs dela.
Talvez esperasse ouvir um rosnado a qualquer momento, mas esse medo,
ou esperana, era bobo.
    Era tanta coisa passando pela sua cabea ao mesmo tempo. Tantas
dvidas e to poucas respostas. E foi enquanto pensava numa explicao
                                ~ 89 ~
para tudo o que havia acontecido que fez um movimento quase que
mecnico levando sua mo at o cordo em seu pescoo. Ali, sentiu o
metal frio do pingente entre seus dedos e uma tentao de abrir aquele
amuleto lhe acometeu. Faziam-se muitos anos desde a ltima vez que se
atreveu a olh-lo por dentro. Mas a tentao agora era irresistvel.
     Quando destravou o feixe do pingente oval, pode ver as duas fotos
que ele guardava: uma de Teresa e outra de Samanta. Ambas as mulheres
sorriram pra ela. Estava escuro no quarto, mas a luz da lua que entrava
por uma pequena fresta da janela j iluminava o suficiente para que Ana
pudesse reconhecer os traos de seus entes queridos
     Teresa, baixa e um pouco rechonchuda, com seus cabelos revoltosos
e volumosos na cor castanha e seu sorriso infantil. Teresa sempre
carregou consigo um ar divertido que a deixava mais jovem e fazia Ana
rir. Ao ver a foto da tia sorrindo, ela no conseguiu segurar a vontade de
sorrir em retribuio. No sabia como tinha sobrevivido tanto tempo sem
olhar aquelas imagens.
     Samanta era o oposto. Alta e muito magra, tinha feies mais srias, o
que fazia muita gente julgar se tratar de uma pessoa severa. Mas essas
pessoas, quando tinham a chance de conviver com ela, como Ana
convivera, logo percebiam que era um amor de pessoa. Assim como
Teresa, Samanta, tambm parecia gostar do visual ao natural, com o
rosto ausente de maquiagem e com os cabelos um tanto bagunados na
mesma cor da irm, s que mais curtos, chegando  altura do queixo
apenas.
     Na verdade, aqueles cabelos rebeldes a lembravam de mais algum.
Ela arriscou uma olhada rpida para trs e todos os presentes pareciam
estar dormindo profundamente. E foi ento que, puxando a foto de
Teresa, um pequeno pedao de pano caiu sobre o colchonete ao qual
estava deitada. Esse pedao de pano tinha muito significado para Ana.
Nos primeiros momentos, ele era uma ponte entre a garota e seu passado,
com suas histrias fantsticas em volta da fogueira. Porm, nos ltimos
anos, tem sido encarado como algo que Ana lutava para esquecer.
     Havia crescido e isso exigia dela a renncia das crenas da infncia.
Infelizmente, ela havia aprendido isso da pior maneira possvel, o que
garantiu que tal lio nunca mais fosse esquecida. Na verdade, esse fora
o motivo pelo qual nunca mais abriu aquele pingente. Tinha medo de
encontrar esse pedao de tecido e de que todas essas lembranas que
tanto lutava para esquecer voltassem com fora total. Como estava
acontecendo naquele momento.
                                ~ 90 ~
   Mas os ltimos acontecimentos a obrigavam a isso. Passando o dedo
por dentro do pano, ela o desdobrou e uma imagem de uma cabea de
lobo surgiu.
   Garow.
   E foi como se anos de histrias voltassem em sua cabea em uma
rao de segundo. De fato, parecia que elas estavam sempre ali, a
espreita, apenas esperando o momento certo para voltar. As
caractersticas daquele que foi seu cl favorito na infncia, surgiram com
tudo e ela no pde evitar compar-las com o atual momento:
   Natureza bestial  o som dos rosnados se faziam ouvir em sua
cabea.
   Mos em formas de garras  lembrou-se das mos de Ian quando ele
tentava proteg-la da criatura.
   Caninos avantajados  ela pde ver as presas que ficava a vista cada
vez que ele rosnava
   Empatia com os lobos - a forma como os cachorros se tornavam
dceis perto dele.
   Controle climtico  o frio que sentiu quando correu atrs dele no
meio da mata e a neblina que a cercou.
   Olhos azuis.
   Ana nunca mais permitiu lembrar-se dessas histrias e j as julgava
esquecidas, mas parece que a ponte com seu passado havia sido
reconstruda naquela noite. Mas foi ento que a racionalidade lhe cobrou
um pouco de ceticismo e a garota soltou um riso fraco, colocando o
smbolo de volta no pequeno no pingente, lacrando-o.
   No podia se deixar viajar tanto.
   Deve haver outra explicao, pensou, sem muita certeza nisso.
   Enfim, sabendo que no conseguiria dormir facilmente, ela se
permitiu virar para encarar Ian. Ele continuava adormecido. Sua
respirao pesada era facilmente ouvida.
   Naquela noite, apesar do frio, eles haviam ligado o ar-condicionado
do quarto alegando que o som do aparelho ajudava a adormecer. Tal
escolha acabara tornando o ambiente do lugar quase insuportvel de
tanto frio. Mesmo coberta, a garota ainda no se encontrava plenamente
confortvel e foi ento que se aproximou mais de Ian, atrada pelo calor
que emanava de seu corpo.
   Ali, parada ao seu lado, uma nova curiosidade se apossou dela e antes
mesmo que ela pudesse pesar os riscos de sua ao, passou a mo em seu
rosto fazendo-o estremecer, sem despertar. Com um pouco mais de
coragem, ela passou o dedo pelos seus lbios levantando o superior com
                                ~ 91 ~
o polegar, a fim de ver seus dentes. Dentes brancos e bem alinhados.
Nenhum canino avantajado.
    Mais uma respirao profunda saiu do peito de Ian exalando o cheiro
de menta no rosto de Ana. Tirando as mos de seu rosto, ela se ajeitou
encurtando ainda mais a distncia entre eles e permaneceu ali um tempo,
aproveitando do conforto do lugar acalentado que se alojara. Agora,
olhando para o rosto em paz do garoto um novo desejo lhe atacou. Esse,
mais forte e impensado que o anterior, s foi percebido por Ana quando
j era tarde demais, quando seus lbios j haviam se tocado. Ela no sabe
de onde houve aquele impulso, mas acabou lhe roubando um beijo.
    Por que fiz isso? Sentiu uma imensa vergonha.
    E nesse instante Ian fez um movimento que fez o rosto de Ana corar,
imaginando que ele havia despertado. Mas aquele havia sido um alarme
falso e ele s fez foi passar o brao por cima dela, com quem agarra um
travesseiro na hora de dormir. Ela permaneceu imvel ao seu lado, como
um animal de pelcia at confirmar que ele estava de fato adormecido.
    Uma das mos de Ian estava agora muito prxima de seu rosto e ela
pode ver suas unhas bem curtas. Era difcil crer que h poucas horas atrs
estas mos tinham garras. Definitivamente ela no sentia mais medo. Ao
contrrio, estava fascinada demais. Comeou a fantasiar, pensando em o
que aconteceria se ele abrisse os olhos naquele momento e ela pudesse
ver que estavam novamente azuis. Sentiria medo?
    Dificilmente.
    Provavelmente ficaria parada, fitando-os como antes. Como quando
estava sendo ameaada pela criatura a sua volta, mas sua ateno no
conseguia sair deles. Como se nada estivesse acontecendo. Como se sua
vida no estivesse em risco. Estranho, mas apesar de tudo, nunca se
sentiu to segura e mais uma vez ficou com vergonha do medo que se
apoderou dela h pouco. Sabia que o amigo jamais lhe faria mal. Como
pde pensar o contrrio?
    Foi ento que lhe veio outra dvida ao se lembrar de quando ele fugiu
dela, na beira da piscina. Porque tinha feito aquilo? Ele parecia
assustado, mas com o que? Era como se Ian estivesse fugindo de algum,
mas dela? No! Dele mesmo? Ian estaria com medo dele mesmo? Mas
por qu?
    Resolveu ignorar. Sentiu que no chegaria a uma resposta no estado
em que estava e foi quando, ao soltar um bocejo involuntrio, percebeu
comear a ficar com sono. Agora, se ajeitando de forma que seus corpos
estivessem bem colados, ela se aninhou sentindo o garoto a abraar com
mais fora.
                                ~ 92 ~
   Enquanto caia no sono, ela ainda se questionava de muitas coisas,
mas agora aquilo poderia esperar. Ian havia lhe prometido respostas
amanh e essa era uma dvida que Ana no se esqueceria de cobrar. No
momento, porm, queria apenas aproveitar o aconchego nos braos do
amigo. Foi quando adormeceu.
                             ~ 93 ~
   10  O prodgio.
    A mo pesada do frade Henrique que esmagava seu ombro arrancou
ngelo de seu transe e o colocou de volta a dura realidade aonde, ao
olhar para o rosto de seu superior, sabia que estava encrencado.
    - Sinceramente no fazia idia de que voc era capaz de invocar tal
mgica  comeou o frade, mas apesar do elogio, ngelo sentia a ira em
sua voz  estou realmente impressionado. Pena que minha irritao 
maior, se no lhe daria os parabns.
    - Frade, eu...
    - No me interrompa  cortou o frade com severidade enquanto fazia
ngelo se levantar. - Pelo visto o que tem de talentoso, como o bispo diz,
tem de arrogante. Aqui na Ordem dos Iluminados no toleramos
indisciplina garoto. E voc sabe disso.
    - Sei sim senhor, mas...
    - Silncio! Mas ser que voc no consegue nem cumprir uma
simples ordem?
    Agora ngelo ficou em silncio.
    - O que voc viu? - perguntou, finalmente o convidando a falar.
    - J sei de tudo  respondeu o garoto com firmeza  do demnio, da
visita da Sonhadora. S no sei como anda a negociao com os
Inquisidores.
    - Apenas isso? - Perguntou com sarcasmo.
    - Sim.
    ngelo viu que as feies do frade pareciam mais aliviadas agora.
Ento, tinha muito mais coisa das quais ele no sabia.
    - Sinto muito, - falou o Frade e apesar da calma que agora reassumira,
ngelo sentiu uma ameaa naquilo - mas eu tenho ordens diretas do
bispo para no permitir que mais ningum da Ordem tenha informaes
do que est sendo desenvolvido aqui dentro, e creio que nem mesmo o
aluno nmero um dele tem tal direito  E enquanto falava isso, enviou a
mo por dentro das vestes e pegou o crucifixo de prata no tamanho de
uma mo humana.
    Ao ver aquela arma nas mos do frade, o garoto se exaltou:
    - O que voc quer... - mas ngelo no conseguiu completar a frase.
    Logo, ele sentiu o corpo ser atingindo por um impulso invisvel que o
levou de encontro  parede no estremo da sala. Com o estalar das
costelas, sentiu seu corpo ser fixado contra o muro mantendo-o ali,
imobilizado. Com o impacto, ngelo soltou todo o ar que tinha nos
pulmes junto com um gemido de dor.
                                ~ 94 ~
    - O que voc est fazendo?  gritou ao se recuperar do susto.
    - Bem, como voc absorveu essas informaes recentemente eu creio
poder extra-las de sua cabea sem causar-lhe danos. - disse o frade em
tom metdico.  Agora, fique parado e espero que isso lhe sirva de lio.
    - Voc no tem o direito!  berrou o jovem.
    - Voc tem sorte eu lhe prezar muito garoto. Outros membros seriam
excomungados da ordem por desobedincia menor.
    - Me larga! - o garoto se debatia, mas o impulso que o mantinha era
forte demais.
    - Fique calmo  disse o frade com tranqilidade enquanto aproximava
o crucifixo da testa de ngelo.
    - Me larga!  e com esse ltimo grito houve um novo impulso que,
desta vez, fez o frade ir para trs.
    Henrique cambaleou, mas conseguiu se manter de p. Mesmo com o
susto, ele tentou erguer a cruz novamente para o garoto, mas foi
novamente repelido quando ngelo juntou as duas mos pelas palmas
como se estivesse se preparando para rezar. Ao unir os membros, um
novo impulso, esse mais vivvel, se assemelhando a uma bolha de luz
prateada, atingiu o corpo do frade empurrando-o com fora contra a
parede oposta.
    Desta vez o frade no foi capaz de se segurar sentindo uma dor nos
ossos atingidos. Mas, recuperando-se rapidamente, ele invocou de volta 
sua mo o crucifixo que havia cado com o impacto e se posicionou para
enfrentar o garoto. ngelo agora estava envolto em uma barreira
translcida que emanava poderosa energia.
    O frade ficou sem palavras com a cena. No esperava que ngelo
tivesse tamanha habilidade, sendo to jovem. Conseguir repelir seu
impulso tele cintico era uma coisa muito complicada e que exigia
energia fsica e espiritual acima das de um garoto de dezessete anos com
apenas cinco de casa.
    ngelo ergueu o prprio crucifixo para seu adversrio e o frade se
posicionou. E foi quando uma nova bolha surgiu no meio dos dois,
fazendo-os irem de contra as paredes. E desta vez com uma fora dez
vezes superior as anteriores. Meio tontos, os dois tentavam se levantar
quando viram suas armas, que foram ao cho com o impacto, rumarem
calmamente at a porta da sala e voarem pousando nas mos do bispo
Csar.
    - Sinceramente no sei com quem estou mais indignado,  falou o
bispo com muita calma apesar da expresso severa  se com meu melhor
aluno por estar num local que no deveria ou se com meu assessor por
                               ~ 95 ~
estar lutando contra um dos meus alunos. - ele fez uma pausa analisando
as expresses dos membros da sala antes de ordenar: - Expliquem-se!
    Ambos os envolvidos comearam a narrar o acontecimento em voz
alta e de forma muito rpida. No se podia entender nada do que se dizia
no ambiente e rapidamente a pacincia do bispo foi-se dissipando.
    - Silncio! - Gritou levando a mos  garganta doente  Henrique. -
pediu em tom mais moderado.
    - Senhor. Eu o peguei bisbilhotando em assuntos que o senhor mesmo
o mandou manter-se afastado. - e ofegante completou - Ele usou a
mgica do Flashback para invadir sua privacidade.
    - Flashback!  disse admirado olhando para ngelo  no sabia que
voc j era capaz de us-la  o velho tentava manter o ar severo, mesmo
feliz com a notcia  Ento? Explique-se voc agora.
    - O que o frade diz  verdade. - confessou - Eu no agentava mais
ficar excludo das coisas que estavam acontecendo aqui...  e praguejou,
o que o fez merecer um olhar de represlia  Perdo, mas eu no posso
simplesmente ficar de braos cruzados quando algo grande est
acontecendo na igreja em que freqento. - se justificou.
    - Tudo bem, tudo bem  interrompeu o bispo  e vocs estavam
duelando por qu?
    - Foi ele quem me atacou bispo - denunciou o frade. ngelo no
podia acreditar que havia certo temor na voz dele  eu estava tentando
apagar as informaes que ele havia descoberto.
    ngelo se sentia ridculo naquela cena. Os dois pareciam crianas
acusando o amigo do colgio para a professora. A nica coisa que o fazia
se perdoar era o fato de que estavam sendo interrogados pelo bispo
Csar. Um homem que tinha a habilidade de impor medo em quem o
conhecia.
    - Ele tentava me fazer lavagem cerebral, bispo. - acusou o garoto.
    - Silncio!  ordenou o bispo com a voz mais fraca devido  dor 
Francamente, odeio servir de mediador dessa discusso infantil. No
esperava tal atitude de membros da Ordem dos Iluminados. - e olhava os
rostos dos presentes, esperando o efeito de suas palavras. Ambos
abaixaram as cabeas. - Estou decepcionado. - continuou calmamente -
Agora eu quero conversar com ngelo em particular frade.
    Apesar da surpresa, Henrique reprimiu o impulso e saiu da sala, sem
questionar. Dava para sentir a raiva que o frade estava sentindo. ngelo
no sabia qual era o motivo real. Se ele estava se sentindo preterido, ou
podia ser a bronca que levou, ou pelo fato de ter enfrentado ngelo de
                               ~ 96 ~
igual para igual. Com certeza, um homem com a experincia do frade
esperava que fosse mais fcil apagar as memrias de um mero aluno.
    *
    Quando o frade saiu da sala, Csar fechou a sada por trs dele e
depois se virou convidando ngelo a se sentar. O jovem obedeceu, se
acomodando de frente para seu mestre enquanto tentava no olhar para
baixo e encar-lo com coragem, mas era difcil fitar aquele olhar
enrgico por muito tempo sem fraquejar. O bispo ficou em silncio
fitando seu aluno, enquanto mexia nos crucifixos tomados dos dois
magos.
    - Ento,  comeou  voc j sabe de tudo?
    - Quase.  se limitou a responder olhando para o cho.
    - Mesmo quando eu lhe pedi para no se meter.  continuou.
    - Perdo  pediu tentando compreender o tom do bispo. Seria
decepo o que ele tentava passar?
     Mas eu no podia ficar de braos cruzados num assunto de tamanha
importncia. - continuou - Perdo mestre, mas o que o senhor est
fazendo coloca em risco toda a ordem. - e fechou os olhos esperando a
repreenso por sua insolncia.
    - E  exatamente por isso que no queria envolver ningum mais.
    - Mas...
    - ngelo  interrompeu o bispo  eu sei que  difcil para qualquer
um conter sua curiosidade. Mas aqui temos regras e respeitar seus
superiores  uma delas.
    - Ento o senhor mesmo no estar seguindo essas regras  respondeu
o garoto levantando a cabea para olhar seu mestre, s para logo depois
baix-la novamente, amaldioando sua impertinncia.
    Porm, para a surpresa de ngelo, o bispo deu uma boa risada.
    - Bem colocado.  disse com ar divertido  Realmente estou fazendo
coisas aqui nesta Igreja que em muito contrariam a cpula. No posso
falar muito de voc. - admitiu - H no ser dizer que eu j sou adulto e
um membro de respeito na ordem enquanto voc, por mais talentoso que
seja, ainda  apenas um aluno e que por isso deve respeito ao seu mestre.
    - Perdo.
    - Tudo bem.  continuou em tom amvel - Na verdade eu j
suspeitava que isso fosse acontecer. Eu lhe treinei por pelo menos cinco
anos e o conheo bem. Sei que no deixaria isso passar em branco. S
no suspeitei dos mtodos que voc usaria para conseguir tais
informaes. Mtodos, digo eu, que me deixam ao mesmo tempo
                               ~ 97 ~
decepcionado e maravilhado  e fez um gesto para calar ngelo quando
ele pensou em abrir a boca  no me interrompa  e continuou  a cada
dia que passa estou mais orgulhoso de voc. Suas habilidades mgicas
esto num nvel muito acima da mdia. A prova disso  que voc foi
capaz de usar da magia do Flashback em apenas dois meses de treino e
que suas habilidades de combate j so capazes de rivalizar com as do
prprio frade Henrique. Porm - continuou mudando o tom de voz para
acusao - estou decepcionado que voc tenha usado essas habilidades
para atacar um membro da sua prpria ordem e para invadir minha
privacidade.
    - Perdo  voltou a dizer o garoto envergonhado, no sabia que outra
palavra usar  mas eu tive de me defender do frade. Ele ia fazer...
    - Eu sei muito bem o que ele ia fazer  interrompeu mais uma vez o
bispo  Apagar a mente de pessoas que sabem de coisas proibidas  uma
pratica comum na nossa organizao desde tempos remotos. E nem
mesmo nossos membros esto livres de tal punio  e completou  E em
minha opinio, a atitude do frade foi at ento leve. Pois em outros casos
sua invaso resultaria na sua expulso da ordem.
    Ele no tinha como responder a isso. ngelo sabia muito bem o quo
severa era a Ordem dos Iluminados quando se diz respeito a regras e
hierarquia. Pensando bem, a atitude de Henrique foi realmente branda.
    - Reconheo meu erro  admitiu por fim - e mais uma vez peo
desculpas.
    - Eu sei como voc est se sentindo ngelo. Sei que  um excelente
mago e voc tambm pensa assim. Talvez por isso acredite que o
tratemos ainda como se fosse um mero aluno. Mas acredite: Voc  um
mero aluno. Por mais talentoso que seja, ainda deve obedincia e tem
muito que aprender. - ele fez uma pausa  Apesar de voc ser um
prodgio, ngelo, esse assunto de que estamos tratando  um pouco
demais para voc.
    - Um prodgio?  se surpreendeu o garoto.
    - Sim. Vai me dizer que voc nunca notou. - falou o velho mago -
Voc aprende as lies dez vezes mais rpido que qualquer outro. Sua
energia mgica cresce a cada momento. Isso o classifica como um mago
Prodgio. Voc tem potencial para me ultrapassar e  por este potencial
que eu quero te manter afastado. Quero que voc viva para atingir esse
meu sonho.
    O bispo sorriu para seu discpulo e ele retribuiu encabulado.
                                ~ 98 ~
    Fez-se ento um minuto de silncio enquanto o bispo se servia de
uma jarra de gua que estava numa estante prxima. Aps ingerir o seu
habitual remdio e se sentar novamente, ele continuou:
    - Eu j sou bem grandinho para saber que me meter com os
Inquisidores  um trabalho perigoso. E  por isso que eu no lhe quero
envolvido. Pois se algo acontecer de errado, eu quero voc bem para
continuar minha obra e me superar.  e deu uma pausa encarando a
lareira por um tempo. Nesse perodo, ngelo se manteve mudo como
antes, at que o bispo o encarou novamente  Me diga ngelo, o que
voc viu enquanto meditava? O que descobriu?
    - Sei de seus sonhos e da visita de Cassandra  contou o garoto sem
olhar nos olhos do mestre  acabei a  No queria comentar sobre a
visita do membro da cpula.
    - Mas j viu o suficiente  calculou, e com um suspiro cansado, olhou
o seu aluno mais uma vez dizendo:  Pelo que penso, mesmo aps essa
bronca, voc no vai desistir de se manter envolvido, no  mesmo?
     ngelo nada respondeu, ainda encarando os prprios ps.
    - Ento eu tenho duas alternativas  refletiu  Apagar sua mente e
expuls-lo da ordem  o corpo de ngelo estremeceu com a idia  ou...
 o bispo parou um pouco deixando o peso de suas palavras atingirem
seu aluno  poderia lhe por a par da situao e lhe dar uma participao
modesta que garantisse voc sob meu controle.
    O rosto de ngelo se iluminou e ele finalmente conseguiu olhar para
o rosto de Csar e viu que o mestre sorria ao ver seu nimo. Era a mesma
expresso de um pai que acabava de presentear seu filho. O garoto queria
falar, mas sua voz no saiu tamanha era sua alegria.
    - Mas lhe digo j. - advertiu  Sua participao nisso tudo ser
pequena. Como j lhe disse, no quero voc correndo perigo.
    - Obrigado. - conseguiu dizer.
    - No agradea. Encare como um novo estgio de seu treinamento.
    - Ento... Vai me contar tudo.
    - Sim, mas no hoje. J  muito tarde e eu preciso acordar muito cedo
amanh. Venha aqui s cinco da tarde de amanh e eu lhe contarei tudo
sobre o andamento do nosso plano.
    Desta vez, ngelo no estava disposto a desobedecer.
    - Certo  concordou.
    - Ento v e mande o Frade entrar. Quero falar com ele.
    - Sim senhor- e saiu
    Antes de chegar  passagem, porm, ele se virou de volta para o
mestre.
                               ~ 99 ~
    - Senhor?
    - Sim ngelo.
    - Porque nunca disse antes que me considerava um prodgio?
    - Francamente garoto! Voc j  bastante arrogante sem precisar de
incentivos  e sorriu para o aluno.
    ngelo sorriu em resposta e saiu. Ao chegar ao altar da igreja, notou
o frade sentado recitando uma orao. Ele tinha um leno branco entre as
mos enquanto dizia palavras em latim. O garoto no reconheceu a
orao, mas achou-a bonita.
     - Que o senhor seja seu guia e te controle para que evites o caminho
das trevas...  Ento, surpreso ao ver o garoto chegando, Henrique parou.
ngelo se questionou se a maior surpresa do frade era pelo fato dele no
t-lo percebido se aproximar ou se por ver o garoto inteiro e feliz depois
de conversar com Csar.
    O homem recobrou a compostura se colocando de p de frente a
ngelo e ele transmitiu o recado do bispo. Ao terminar de falar, ngelo
continuou seu caminho at a porta da sada sentindo o olhar do frade o
acompanhando cada passo. E se lembrou das palavras do bispo:
    Suas habilidades de combate j so capazes de rivalizar com as do
prprio frade Henrique.
    ngelo via que Henrique estava um tanto decepcionado com o que
via. Provavelmente esperava que o garoto fosse duramente castigado
pelo bispo, mas no foi esse o caso. E no conseguiu evitar que um leve
sorriso de deboche que se formasse em seus lbios. O bispo tinha certa
razo: ele era sim arrogante.
    Fazer o que? Sou assim.
    Estava feliz pelo fato de estar de costas para Henrique e assim, este
no poder ver seu rosto. O garoto estava bem mais leve naquele
momento e saia da igreja com um ar de vitria. Mas foi quando algo
inesperado ocasionou um estalo na cabea. Era uma sensao muito
estranha a que sentia naquele momento, assim que atravessou a entrada
da igreja e sara para as frias ruas do Centro. Era uma sensao de
urgncia que lhe tocava o peito. Uma espcie de aviso, como se estivesse
deixando algo importante passar, mas no fazia a menor idia do que
poderia ser. Voltou a olhar  Igreja  suas costas a procura de respostas
para sua angustia, mas no lhe veio nada.
    E assim como veio, logo a sensao se foi e ele estava mais aliviado.
Estranho, refletiu. Nunca tinha passado por isso. Decidiu ignorar o
aperto no corao e voltar para casa. Tinha coisas mais importantes com
as quais se preocupar. Como, como ajudar o bispo, por exemplo. E foi
                               ~ 100 ~
ento que comeou a experimentar a adrenalina que a ocasio exigia.
Aquela era de fato, uma tima oportunidade para testar suas habilidades.
                              ~ 101 ~
   11  Vencendo o ceticismo
   Foi ento que a noite deixou o sitio de Mnica e um novo dia raiou
mais ensolarado que nunca, embora continuasse frio. Ana acordou e viu
que ainda dormia ao lado de Ian, que se mantinha num sono profundo. A
vontade que ela tinha era de acord-lo naquele momento e pedir as
explicaes que ele lhe prometeu, mas conseguiu se controlar. Ficou
olhando-o dormir mais um pouco, antes de se levantar com calma e sair
do quarto.
    Ao chegar  varanda, onde ficava a mesa do caf, viu que todos j
estavam acordados e desta vez Ana no se importou com o fato de todos
os olhares voltarem para ela. J estava se acostumando a ser a ultima a se
sentar para o caf. Dona Mnica servia torradas quentes para os demais
hspedes e ao v-la convidou a se sentar.
    - Ana! Finalmente. Sente-se e coma, pois vamos embora cedo hoje. 
e lhe serviu uma torrada que Ana pegou com um pouco de suco de
laranja.  Agora falta apenas aquele menino o... qual  mesmo o nome?
    - Ian  respondeu Laila  Ele ainda est dormindo?  perguntou
olhando para Ana.
    A garota sentiu as bochechas corarem e respondeu com um manejo de
cabea.
    - Acho melhor cham-lo para o caf. No , Ana?
    A garota ia se prontificar a levantar, mas Mnica a interrompeu:
    - Melhor no. Deixe-o dormir um pouco. Ele parece que passou todas
as outras noites em claro aqui.
    Ao ouvir isso, Laila lanou um olhar travesso  amiga e Ana sentiu
suas bochechas corarem ainda mais quando viu que aquele olhar era
compartilhado por mais pessoas, incluindo Mnica. Alguns ainda davam
umas risadinhas e a garota tinha vontade de se afogar em seu copo de
suco e sumir.
    - Ele com certeza deve estar muito cansado - comentou Laila rindo
com Fernanda.
   *
   At que chegou  hora de se despedir do sitio e certo pesar acometeu
todos os jovens enquanto foram se ajeitando no carro.
   - Vou sentir falta daqui  comentou Rodrigo.
   - Vamos poder voltar mais vazes  disse Laila que o abraava por trs
 Talvez com menos gente.
                               ~ 102 ~
   - Gostei da idia  respondeu e eles se beijaram, mas Ana duvidou
que ele tivesse entendido o que Laila queria realmente dizer.
   Na volta, os lugares seriam os mesmo, afinal, os casais j estavam
formados e Ana no pretendia ficar de acompanhante. Ela e Ian
sentaram-se no ltimo banco, como antes. No comeo da viajem, ficaram
calados. Cada um olhando para uma janela e admirando a paisagem. Em
alguns momentos, Ana o fitava pelo canto do olho e ode ento perceber
que a expresso do garoto havia mudado para melhor. Suas olheiras
haviam sumido e ele tinha um ar bem mais saudvel.
   Ana pensou em quebrar o gelo, puxando assunto, mas Ian foi mais
rpido.
   - Voc est bem?  perguntou.
   - Ah?  a garota foi pega de surpresa. - Como assim?
   - Voc sabe. Por ontem.
   - Sim. Sim no fiquei com nenhum machucado.
   - Seu fsico eu sei que est bem. Eu me refiro a seu psicolgico.
   - Acho que sim  disse, mas com uma voz menos confiante.
   - Posso lhe perguntar o que voc viu? - interrogou  Quero dizer, o
que voc interpretou de ontem?
   - Bem  comeou coando a cabea  nem eu sei direito. Por isso eu
gostaria que voc me explicasse  disse segurando o colar das suas tias
nas mos.
   - Nem um chute?  porm, era como se ele estivesse falando sozinho
agora. A mente de Ana j estava a muito distante dali em termos de
tempo e espao. Regressando em cinco anos, em Trs Coraes. E as
palavras de Teresa e Cassandra eram bem vivas para a garota naquele
momento.
   Unhas em forma de garra
   Presas
   Intensos olhos azuis.
   - Ana? - o garoto a chamou, mas ela ficou muda.
   - Ana? - Ian a fitava esperando a sua resposta.
   - Nada  ela respondeu, fitando o horizonte.
   - Como?
   - Eu no consegui deduzir nada. No  fcil sabia? Foi muito estranho
o que aconteceu.
   - Entendo  mas Ian parecia decepcionado e voltou-se a contemplar
sua janela.
   Depois de uns minutos de silncio, ele se voltou para a garota.
   - Ento, o que voc quer que eu lhe explique?
                              ~ 103 ~
   - Como assim?  riu-se - A verdade, lgico.
   - A verdade verdadeira ou uma que voc possa acreditar.
   - Lgico que a verdadeira. Porque a pergunta?
   - Porque eu sinto que voc j a sabe, mas tem medo de arriscar um
palpite.
   Ana sentiu seus msculos se contrarem. Pensou em falar da idia
absurda que passava por sua cabea, mas as palavras no conseguiam se
formar. Vrias lembranas vieram  tona. Um passado triste onde
envolviam consultrios mdicos, tratamentos complicados e remdios
que tiravam suas energias. Um passado que tinha crianas zombando
dela, fazendo sinais obscenos e a acusando de louca.
   Um passado onde havia uma velha senhora, se debatendo, sendo
levada por dois homens de branco. Essa foi  ltima cena que Ana tinha
de sua av, que enlouqueceu depois daquele dia. Ana nunca mais
conseguiu voltar a Trs Coraes depois disso. Sabia que sua av havia
voltado para casa, mas que as marcas do trgico... acidente que matou
suas filhas, ainda permaneciam.
   - Eu no sei de nada  falou fitando sua janela. No conseguia encarar
o amigo.
   - Ana, o que fizeram com voc?
   Mais uma vez ela foi pega de surpresa por essa pergunta e sentiu seu
peito estremecer. Ficou em silncio.
   - Eu gostaria de saber exatamente o que aconteceu para voc ter
mudado tanto. Onde est aquela garota de mente aberta de tempos atrs?
Aquela que me contava histrias e era capaz de sonhar?
   E mais uma vez a mente da garota viajou
   - Ento Ana? Como se sente hoje?
   Ana agora no estava mais no carro indo para casa e sim num
consultrio. Ela era uma menina de novo e estava emburrada olhando
para os prprios sapatos, que ela balanava sem conseguir alcanar o
cho. Ana tinha doze anos na poca e sua psicloga estava em sua
dcima consulta. Um tratamento que ela iniciou depois da tragdia em
Trs Coraes.
   - Ana?  chamou a doutora.
   - No quero falar. - embirrou a garota - Voc no acredita em mim.
   - Ana  doutora tinha a voz amvel  querida. No  que eu no
acredite em voc. Sei que no fundo voc realmente acredita nisso, s que
no  mais saudvel para voc crer nessas coisas.
                              ~ 104 ~
    - Mas foi o que aconteceu - disse a garota elevando a voz e socando a
poltrona onde estava.
    - Voc j tem doze anos. J  uma mocinha.
    Ana cruzou os braos, impaciente.
    - Eu entendo bem o que voc est passando.  continuou a doutora -
Voc pode achar que no, mas entendo. Sei que a morte de suas tias foi
um fato que a chocou muito. Ento voc criou essa fantasia, que a ajuda
a interpretar a tragdia.  um bom recurso, mas...
    - Eu no criei nada!  berrou a garota.
    - Calma Ana. Estou aqui para ajudar.
    - Ningum pode me ajudar!  respondeu Ana  Ningum acredita em
mim! Ningum pode trazer minhas tias de volta e ningum vai achar seu
assassino enquanto pensarem que foi uma exploso de gs!
    - Ento quem foi que as matou?  incentivou Renata para que ela
falasse.
    - Um bruxo talvez. Algum mal.
    - Ana.  comeou ela se aproximando da garota  tem noo do que
est dizendo? Oua e voc vai ver o quo incoerente .
    - Mas  a verdade!  insistiu inutilmente.
    Enfim, a doutora Renata se levantou e mandou chamarem os pais de
Ana. A garota estava agora do lado de fora da sala e escutava Renata que
ela falava com seus pais.
    - Francamente j tentei de tudo  dizia a doutora.
    - Mas doutora. No tem outro jeito? - suplicava a me de Ana.
    - Infelizmente, nenhum que eu conhea. Ela precisa de terapia mais
intensiva  confessou a doutora - e recomendo que faam isso
rapidamente, pois a menina comea a apresentar sinais de agressividade.
    Depois dessa conversa, se iniciou o tormento da vida de Ana:
remdios e tratamentos complexos passaram a fazer parte de seu
cotidiano. Foram anos de brincadeiras e chacotas no colgio e na
vizinhana. Anos que seguem a jovem como um fantasma mesmo depois
de tanto tempo. Um passado que ela havia enterrado fundo em seu
subconsciente, mas que voltava do tumulo mais uma vez com toda a
fora.
   -Eu...  continuou a garota tentando controlar a voz que tremia  s
quero uma explicao coerente, pra o que eu vi.
   - Voc quer uma explicao plausvel?
   - Sim.
                              ~ 105 ~
    - E se eu dissesse que sofro de uma sndrome de dupla personalidade?
- tentou o garoto levando a mo ao nariz e o coando com a palma - Que
muda meu fentipo quando se manifesta?
    Ana ficou em silncio.
    - Eu te digo que sua manifestao  rara e que alguns acontecimentos
ruins em meu dia-a-dia acabaram por manifest-la mais recentemente. -
ele a olhava  O que voc diria?
    - Voc coou o nariz. - respondeu Ana.
    - Como?  perguntou o garoto sem entender.
    - Quando voc coa o nariz,  sinal de mentira  explicou Ana  eu
sei disso.
    O garoto olhou surpreso para a prpria mo. Depois, voltou a sua
ateno a ela, se recuperando.
    - Ana, eu sinto que no posso ajud-la a entender ento. No posso
arranjar uma explicao coerente para seus padres.
    A garota ficou calada. Aquela situao era angustiante, pois ela
estava com a pergunta na ponta da sua lngua, mas uma fora muito
grande a impedia de falar. Era como se ela fosse parecer ridcula ao
perguntar para Ian, se ele era um mago. Se ele era o mago que ela
escutava nas suas antigas histrias. Apesar de saber que o garoto j havia
escutado tudo isso dela, no conseguia evitar pensar que ele comearia a
rir da cara dela se perguntasse. Pensar que ele diria que ela estava
delirando.
    Seu medo era to grande, que Ana achava que se perguntasse para Ian
se ele era realmente um Garow, os demais passageiros iriam escutar e
comeariam a zombar dela. Igual todos faziam h anos atrs.
    -  muito difcil pra eu falar sobre essas coisas. - admitiu
    - Eu sei  falou Ian enquanto a puxava com o brao, abraando-a - e
eu sinto muito quanto isso.
    - No foi culpa sua  respondeu Ana.
    - Talvez seja.
    - No seja ridculo  Ana sorriu cansada.
    Ficaram em calados.
    - Mas vou tentar te ajudar  prometeu o garoto  eu s quero ajeitar
uma coisa importante antes.
    Ana olhou o amigo e ele parecia muito firme em sua deciso.
Estranhamente, desta vez ele no deu o sorriso reconfortante de sempre e
Ana sentiu falta disso. Ela olhava para ele e percebia que o garoto estava
pensando em algo muito importante. Como se estivesse com uma grande
deciso nos ombros.
                               ~ 106 ~
   - A verdade no ser plausvel  falou Ian  mas ser a verdade 
prometeu.
   - Obrigado  agradeceu a garota encostado a cabea em seu ombro.
   - No por isso  respondeu  Eu estou te devendo h muito tempo.
                            ~ 107 ~
   12  Perdo.
    Mnica deixou todos em suas respectivas casas e Ian e Ana foram os
ltimos, j que moravam um ao lado do outro. Aps se despedirem de
Laila e de sua me, ambos fizeram meno de irem para suas respectivas
casas.
    - Vai fazer o que agora?  perguntou a garota.
    - Vou falar com minha me. Depois, tenho que resolver umas coisas
antes, como falei. Descanse um pouco que de noite eu te chamo. 
prometeu.
    - T certo. At ento  e entrou.
    Ian sorriu em resposta e se virou.
    - At
    Entrou em casa sentindo-se cansada apesar de ter, mais uma vez,
dormido o caminho quase todo da viagem. Ao dar uma olhada rpida,
percebeu que estava sozinha e sem se importar, subiu vagarosamente as
escadas. Chegando ao quarto, sentiu-se tentada a seguir o conselho de
Ian e dormir um pouco. Mas algo a impediu de fazer isso. Uma sensao
estranha, como se seu corao estivesse apertado, a acometeu.
    O que era aquela angstia em seu peito? Ela no fazia idia de como
o tempo a havia modificado. Sempre acreditou que nunca mais havia
falado nas histrias que suas tias contavam porque j no acreditava
nelas, porm, descobriu hoje, que no era bem assim. De fato, havia um
bloqueio a impedindo. Era como se todas as experincias pelas quais
passou tivessem criado nela uma espcie de muralha, que a impedia de
externar as coisas em que acreditava.
    A cada segundo que passava, estava mais certa de sua crena. Sentia
como se o cordo em seu pescoo estivesse pesado, como se o peso de
toda a revelao estivesse ali, tentando se mostrar para ela. Se tinha tanta
certeza, ento, porque no conseguia falar isso? Por mais estpida ou
infantil que ela pudesse parecer, qual seria o problema se estivesse
errada? Ela no pararia num hospcio por falar sobre magia.
    Apesar de tudo, no conseguia falar. Ela sentia exatamente o que Ian
queria contar a ela. O segredo que tanto escondia. Ele tinha razo em
dizer que Ana j havia deduzido tudo, mas que estava com medo de
falar. Eles passaram boa parte da juventude juntos, Ana j havia contado
para ele todas as histrias que suas tias lhe narraram. Ian sabia que ela
conhecia o cl Garow, sabia que ela entendia sobre magia. E era isso que
ele queria que ela deduzisse.
                                ~ 108 ~
    S no entendia o porqu de no falar logo? Porque fazer todo esse ar
de mistrio com ela? Ela se lembrava da infncia. Quando era pequena,
isso era to simples. Tinha toda a liberdade para fantasiar, estava
protegida por sua inocncia. Quando criana ela bebia das palavras de
Teresa, e idolatrava Samanta. Falava para todos sobre bruxas sem se
preocupar em parecer louca ou infantil. Afinal, era criana mesmo.
    Mas amadurecer, mantendo as velhas crenas foi para Ana assinar sua
sentena. E por isso, dedicou o resto de seus dias a esquecer tudo o que
havia aprendido. Investiu em acreditar que suas fantasias no passavam
de folclore. Lutou para se convencer que um mero acidente domstico
havia tirado a vida de Teresa e Samanta.
    Minhas tias! Meu Deus!
    Nesse momento a ficha de Ana parecia ter finalmente cado e ela se
dava conta da monstruosidade de suas aes nos ltimos anos. Agora
aquela angstia em seu peito fazia sentido, pois se realmente fosse tudo
verdade, se de fato existissem magos no mundo. Se Ian fosse um deles.
Isso quer dizer que os ltimos anos de Ana foram dedicados no apenas a
esquecer o que foi aprendido, mas tambm se esquecer de tudo o que elas
representavam em sua vida.
    No.
    Ana sentou-se na cama com o peito pesado. Sua mo foi
instintivamente at seu cordo, onde todo o smbolo de seu passado
estava. Um passado que assim como seu pingente, ela havia mantido
trancado, esquecido. Durante anos se esforou a crer, que um mero
acidente domstico havia tirado a vida de Teresa e Samanta. Havia
desistido de idia do crime que tirou seus entes queridos e de seu
assassino que continuava impune pelo mundo.
    Anos tentando ignorar as vozes medonhas ouvidas naquela noite.
Anos tentando eliminar a imagem do espectro no meio da casa em
chamas. No, no era apenas isso. Pois desistindo de acreditar nelas, Ana
no s estava fazendo injustia a sua memria, como tambm as havia
renegado a um patamar de mentirosas ou loucas.
    Como pude?
    Ela no conseguia se perdoar agora. Ao olhar para o espelho a frente
de sua cama, sentiu nojo da garota que ali estava postada com cara de
idiota. No conseguia acreditar que havia feito tanta injustia com
aquelas que haviam sido as pessoas mais importantes de sua vida.
    Minhas tias, eu trai suas memrias.
                              ~ 109 ~
    - Desculpe.  pedia em uma orao silenciosa, sentia as foras em
suas pernas se esvaindo levando seu corpo ao cho e encostando-se na
cama  Perdo!
    Ela abriu mais uma vez o colar, mas desta vez no para ver o smbolo
Garow ali guardado, mas sim o rosto delas, h anos negligenciados. Por
que nunca nem sequer ousou abrir esse pingente? Infelizmente ela teve
que fazer esse sacrifcio. Para poder finalmente esquecer todo o trauma
de sua vida, teve que enterrar todo o seu passado e tudo que o ligasse a
ele. Incluindo elas.
    Ana comeou a alisar as fotos deixando as lgrimas recm
reconquistadas carem sobre o pingente e foi quando se deu conta que
dois fios quentes escorrendo por seu rosto. Passou a mo e viu as duas
gotas de lgrimas que desciam por sua face e de incio no conseguiu
acreditar naquilo. H tempos que no era capaz disso e j tinha at se
esquecido qual era a sensao. O alvio que dava poder finalmente
chorar.
    Permaneceu sentada no cho do quarto, colada ao seu pingente
sagrado deixando que todas as lgrimas de anos sassem. No queria
guard-las mais. No precisava delas. Ela no saberia dizer quanto tempo
ficou ali, mas s se levantou quando pde sentir-se forte de novo.
Levantou- se e foi at a janela. L, encontrou de cara Ian saindo de casa e
acenou sorrindo ao ver o amigo, mas este no a viu na janela.
    Ele estava atravessando a rua naquele momento.
    Pra onde est indo?
    Ana queria que ele no demorasse muito. Agora ela sabia exatamente
o que queria perguntar e que respostas esperava ouvir. S torcia para ser
capaz de fazer a pergunta certa. Foi quando ele parou de frente para a
casa de sua vizinha, Dona Solange. Sem tocar a campainha, ele entrou na
casa.
    O que ele vai fazer ali? Sentiu uma pontada de curiosidade toc-la.
                               ~ 110 ~
   13  O Beijo
    No resistindo  curiosidade, ela subiu at seu terrao, pois, de l,
conseguiria ver boa parte da casa de Solange e quem sabe, com um
pouco de sorte ver o que ele fora fazer l. Ao chegar ao alto, Ana se
apoiou no parapeito do terrao e pde ver os dois conversando nos
fundos da casa. A mulher no parecia irritada com a invaso de sua
propriedade e dialogava animadamente com Ian.
    Solange era uma viva baixinha e magra, mas de aparncia bem
saudvel, que mostrava algum que tinha chegado  velhice sem abusar
da juventude. Tinha cabelos curtos tingidos de vermelho e rugas nos
olhos e testa que lhe denunciavam a idade verdadeira. Seu rosto era
pequeno e sempre muito alegre. Ela morava na casa  frente da de Ana e
estava ali desde que se mudara para essa rua. No era uma das vizinhas
mais agradveis que se tinham por ali, porm, no se tinha muito o qu
queixar. Na verdade, seu nico problema era ser agradvel at demais.
    Era uma mulher muito espirituosa para se dizer a verdade. Mas
possua certos maneirismos que no cabiam para uma mulher de sua
idade. Tais como o uso excessivo de maquiagem e roupas um tanto
ousadas. Devia ter uns sessenta anos e se vestia como se tivesse vinte ou
trinta, algumas vezes, abusando dos decotes e das cores chamativas.
    Sempre que podia, parava algum da vizinhana para poder tagarelar
sobre assuntos banais. Era um tanto irritante nesse ponto, mas o pior 
que era tambm muito educada e at um tanto simptica, o que
dificultava as pessoas indispostas a lhe dar ateno, de simplesmente
cortarem o assunto e sarem andando. Ana at se sentiria mal por pensar
tais coisas da senhora se essa no fosse uma opinio que ela dividia com
os demais moradores da rua. Basicamente, apenas Ian perdia seu tempo
lhe dando ateno.
     verdade, compreendeu.
    Agora se lembrava que o garoto vivia prestando favores para a
senhora. Como era viva e sozinha, sempre era bom ter ajuda para certas
atividades, principalmente aquelas que exigiam um esforo fsico
considervel. E nessas horas recorria a Ian, j que o garoto nunca negava
favores a ela.
    Isso  o que d ser bonzinho demais, riu-se por dentro.
    Mas apesar da explorao sofrida, Ian nunca reclamara da velha
senhora e sempre tentava defend-la das gozaes dos demais
moradores.
                              ~ 111 ~
    O que foi Ian? T interessado nela? Ana sempre brincava com ele
assim.
    E foi quando se lembrou. Tenho que resolver umas coisas antes. Foi
o que ele dissera. Mas provavelmente essas coisas no eram com
Solange. Com certeza ela havia telefonado para ele pedindo auxilio para
alguma tarefa, como trocar uma lmpada e Ana estava assistindo apenas
a uma conversa banal, enquanto tomavam algo que parecia ch, ou caf,
Ana no sabia, pois s conseguia ver dali que a bebida era servida em
xcaras.
    Como no tinha nenhuma idia do que fazer naquele momento, optou
por ficar ali mesmo, observando a conversa dos dois, que no devia ser
nada interessante, conhecendo o gosto da vizinha. Parada no parapeito do
terrao, observando o garoto, Ana foi se permitindo pensar em outra
coisa sobre Ian que estava enchendo a sua cabea. Eram tantas coisas que
a perturbavam, que Ana se surpreendeu por ainda no ter pirado. Tirando
um pouco o assunto do misticismo da cabea, ela deixou sua mente vagar
por outra dvida.
    O que diabos est havendo comigo?
    Com certeza, muita coisa havia mudado nela nesses ltimos dias.
Alm de se permitir pensar novamente em magia, ela sentia que as
mudanas que ocorriam com ela eram ainda mais profundas. Desde a
viagem ao sitio de Mnica, ela no s tinha investido em algum como
tambm roubado um beijo desta pessoa. Com certeza, eram duas coisas
que nunca se atrevera a fazer antes. Sempre morreu de vergonha de
tomar a iniciativa com relao a um garoto. Ana fazia o tipo que
esperava pela ao do outro e enquanto no acontecia, torcia para ser
notada. Ela mesma se lembra que demorou cerca de um ms para
comear a sair com Lucas, isso por que o garoto demorou a perceber que
ela era afim dele e como Ana no falava nada, a coisa foi se enrolando
at que Laila se meteu e deu um empurrozinho.
    Sempre Laila, pensou com carinho. Infelizmente adorava aquela
louca. Pena que ela no acertou na primeira. Refletiu se lembrando de
seu termino e se surpreendeu ao constatar como tinha esquecido rpido
do assunto.
    Hora de voltar ao foco, ordenou a si mesma. Mas ento, o que a
levara a fazer tanta coisa? Na verdade, no foi s os beijos. A coisa havia
comeado antes com o sonho e com o fato de conseguir achar algo de
atraente em Ian. Estaria gostando dele? Ana riu da prpria idia.
    Eu e Ian? At parece. Foi quando sua mente a levou de volta aquela
noite a beira da piscina. A imagem passava nitidamente diante de seus
                               ~ 112 ~
olhos como se estivesse l de novo. Ana conseguia at mesmo sentir as
coisas que sentiu na hora. O frio na barriga, o medo e ao mesmo tempo,
uma vontade irresistvel de ir em frente. Ela se lembrou da maneira como
o garoto a olhava, da maneira como ele disse que ela era bonita. Da
forma como sentia o desejo em seus olhos.
     Seu rosto corou novamente ao lembrar-se dessas coisas. Nunca tinha
se sentido to desejada na vida. Talvez tenha sido isso que a tenha levado
a dar o primeiro beijo nele. Mas e o segundo? Ela vasculhava a mente
atrs de respostas. Uma vez, tudo bem, era aceitvel, mas duas...
    - Jesus, me ajuda  falou para o nada.
    Foi quando se lembrou de Laila e de suas palavras. Carncia  triste
fofa. Podia ser isso. Porque no? Iluminou-se com a alternativa.
    Era compreensvel. Ela tinha acabado de sair de um namoro de seis
meses. Nunca tinha ficado com ningum tanto tempo e era lgico que
tinha de sentir falta de companhia. Apesar de no ser muito nobre, 
possvel que tenha ficado com Ian s para suprir tal carncia. E por fim,
preferiu acreditar nisso. J tinha confuso demais e coisas novas o
bastante em sua cabea para ficar arranjando mais problemas.
    Poderia estar at se sentindo atrada por ele. Afinal, tinha motivos.
Sempre gostou dele, apesar de ser como um irmo. Gostava da
companhia dele e ainda tinha alguns fatores adicionais. O primeiro era
todo aquele ar de mistrio que via no garoto agora e o segundo  que de
certa forma, devia algo muito importante a ele.
    Graas a ele, Ana sentia que podia acreditar de novo e o melhor: ela
agora podia reconstruir a ponte com seu passado e com ela mesma.
Tentar reverter um pouco do mal que causou a si mesma sem perceber.
    - Obrigado  sussurrou a ele, mesmo sabendo que no poderia ouvir.
    Agora estava em maior paz consigo mesma. Sabia o que estava
acontecendo, mas no podia deixar essas coisas a dominassem. No
posso me confundir. Isso arruinaria a... que m...  essa? Interrompeu seu
pensamento quando viu uma coisa que a fez ficar de queixo cado.
    De todas as coisas que poderiam passar pela sua cabea, essa com
certeza jamais seria cogitada. Parecendo que ia se despedir da velha
senhora, Ian se ps de p para sair, sendo seguido por Solange. Eles
ficaram de frente um para o outro por poucos segundos, discutindo umas
ltimas coisas. O assunto parecia ter pegado fogo, pois ambos se
mostravam alterados aumentando o tom de voz um para com o outro,
embora ainda fosse impossvel para Ana ouvir o que era discutido. E foi
quando aconteceu.
                               ~ 113 ~
    Num gesto muito rpido, a mulher puxou a cabea do garoto para
junto de si e, antes mesmo que ele tivesse alguma reao, havia lhe dado
um beijo. Mas no foi um beijo no rosto e nem to pouco um beijo na
testa. Foi um beijo de verdade.
    Ana ficou imvel esperando a reao do garoto. Empurra ela! Ela
quase gritou. Porque voc no empurra ela?Mas ele ficou ali, imvel,
deixando o beijo durar por mais alguns segundos. E foi quando
finalmente se largaram.
    - Meu Deus! - exclamou sem acreditar. Vendo os dois, Solange
parecia um tanto irritada e Ian muito perturbado com alguma coisa. Foi
ento que ele saiu.
    - Filho da... - ela tampou a boca para no completar a frase.
    Ento  esse tipo de favor que voc presta pra ela? Acusou sem
externar esse pensamento. A garota no sabia o que pensar. Estava com
raiva e, ao mesmo tempo, o espanto lhe tirava a voz e a capacidade de
raciocnio.
    Dela voc no foge, no ? Acusou novamente.
    Ela via o garoto atravessar a rua e ir de volta pra casa sem conseguir
parar de xing-lo em sua cabea. Na verdade, ela nem conseguia
acreditar no que via. Sentia que se algum falasse pra ela que naquele
momento ela via coisas, que estava ficando maluca, no s no se
irritaria como tambm agradeceria a essa pessoa. Mas ela no imaginou,
viu mesmo.
    Ento era isso que voc tinha de importante para resolver?
    Ana continuava a olh-lo com desprezo quando chegou  porta de
casa. Nesse momento, ele pareceu se virar para a direo de Ana,
mirando o rosto para o terrao. A garota nem teve muito tempo para
pensar no que fazer e acabou se tacando no cho para evitar ser vista,
sentindo os joelhos bateram no piso e tendo de se segurar para no
praguejar alto.
    No cho, esperou um pouco massageando os joelhos contundidos.
Depois de acreditar ter se passado tempo o suficiente, se levantou e viu
que o garoto no estava mais ali. Devia ter entrado. Ento, ela correu
para a parte lateral do terrao, cujo campo de viso permitia-se ver o
quarto de Ian. Dali conseguiu ver ele se achegar  janela e olhar em
direo ao quarto de Ana, parecendo procur-la.
    Pelo menos ele no me viu. Pensou. Esse... queria parar de pensar
ofensas
                               ~ 114 ~
    Mas a cena do beijo no parava de se reproduzir no interior de sua
mente e Ana tinha de trincar os dentes para no xing-lo dali onde
estava. Muito bom. Agora vou dormir com isso na cabea.
    Ian parecia mais calmo agora e Ana o viu se dirigir a cama levando
uma mo aos lbios.
    Safado, sem vergonha.
    Que vontade que tinha de esgan-lo. O garoto tirou a camisa e se
deitou na cama fitando o teto. Parecia muito concentrado em alguma
coisa que Ana no queria nem tentar deduzir o que era. Ela continuou o
encarando e foi quando Ian pareceu olhar novamente em sua direo.
    Mais uma vez, Ana foi parar no cho tentando evitar ser vista. Desta
vez, seus joelhos bateram com tanta fora que no conseguiu evitar que
um palavro fosse proferido. Definitivamente, isso no contribuiu para
melhorar seu humor.
    Ao se levantar novamente massageando os joelhos, decidiu ir para o
quarto. Chega de bisbilhotar. Assim que entrou, correu para fechar as
janelas. No queria conversa agora e com esse pensamento deixou-se
cair na cama. Sua cabea s conseguia pensar em uma coisa: naquele
beijo. Naquele maldito beijo.
    Queria poder dormir logo. Sentia o corpo cansado, mas a euforia no
permitia. E apenas depois de muito se esforar, pde finalmente cair no
sono.
                              ~ 115 ~
   14  Jogo da verdade.
    O som da chuva foi adentrando o reino dos sonhos, trazendo Ana de
volta para o mundo real. Ao abrir os olhos, viu a janela aberta a sua
frente que, devido  forte tormenta que caa do lado de fora, molhava
todo o interior de seu quarto
    - Droga!  e se levantou correndo para fech-la.
    Levantar de forma to brusca lhe causou certa dor de cabea, mas que
foi ignorada pela garota. Sem vontade de secar aquela baguna naquele
momento, desceu as escadas indo em direo a cozinha. Olhou em volta
e viu que a casa continuava vazia.
    O relgio marcava cinco da tarde e j era para seus pais estarem em
casa. Por que demoravam tanto? E foi s pensar nisso que escutou o som
do carro sendo estacionando na frente da sua casa. Depois, o barulho das
portas do veculo batendo com fora e de pessoas correndo e rindo em
direo a entrada da residncia. Quando entraram, os pais de Ana
estavam abraados e rindo alto. Pareciam estar um pouco embriagados.
    Ambos levaram um susto ao ver a garota parada em p na sala.
    - Querida!  disse a me em um sobressalto  J chegou?
    -  domingo. - lembrou - No deveria?
    - Ah sim, claro!  disse a me parecendo se lembrar s agora e se
dirigiu  filha para lhe dar um beijo na sua testa - Que bom... que no
pegou essa chuva no caminho.
    -  mesmo  concordou o pai parecendo envergonhado  E... como
foi?
    - Legal  disse sem muita convico. Mas os pais no pareciam estar
muito interessados na resposta o que os fez ficaram sem assunto por um
minuto que foi constrangedor para ambos os lados.
    - Bem  decidiu acabar com o terrvel silncio  Vou dar uma
saidinha. - disse apontando para a porta.
    Ana pde reparar que a me pareceu animada com a idia pelos
primeiros segundos, mas depois observou a rua e falou:
    - Nessa chuva?
    -  aqui no Ian.
    - Ah, ento est timo!  seu rosto se iluminou  vou deixar dinheiro
para voc comer algo de noite em cima da mesa e no se esquea do
chapu.
    - Tudo bem.  respondeu, constrangida ao olhar para os dois, parados
em p, basicamente apenas esperando que ela sasse logo.
                              ~ 116 ~
    Assim, pegou o guarda-chuva que ficava ao lado da porta e saiu de
casa.
    Porque meus pais no so normais? Pensava enquanto se dirigia a
casa do amigo. Chegando l, lutando contra o vento forte que quase a
empurrava para o lado oposto, bateu na porta. Estava bastante frio e com
o vento que fazia aquele guarda-chuva no conseguia proteg-la muito.
    Depois de um minuto, a me de Ian, uma mulher em seus trinta e
cinco anos muito bem vividos, atendeu. Ela era magra e esbelta, embora
Ana percebesse que havia ganhado algum peso nos ltimos dias, mas
continuava linda. Ela tinha os cabelos e os olhos to negros quanto os do
filho. Pelo menos, quando os de Ian no estavam azuis.
    - Minha filha! O que faz nessa chuva?  exclamou Marta, e num
gesto, pediu para que ela entrasse.
    - No se preocupe tia Marta. S vim falar com o Ian. - e entrou - Seu
filho est?
    - Sente-se primeiro, Quer alguma coisa?  ofereceu a mulher, solicita
 Um refrigerante ou suco? Acabei de passar um cafezinho, se estiver
interessada.
    - No, muito obrigada.  tentou se esquivar - S vim para ficar um
pouco e falar com o Ian.
    Marta sempre foi muito atenciosa quando o assunto era Ana. Ian
brincava dizendo que ela era a nora que sua me pedia a Deus. Por algum
motivo, Ana no via mais tanta graa naquele comentrio.
    - Bem querida, o Ian saiu. - respondeu sorrindo enquanto se sentava -
Aquele menino s me prega peas. Saindo nessa chuva. - comentou
desapontada - E acredita que ele ainda por cima nem levou o celular?
Vive fazendo surpresas.
    - Nem me fale - comentou Ana se sentando tambm.
    - Espero que voc um dia ponha juzo na cabea dele  pediu,
deixando a menina de maas vermelhas.
    Naquele instante, numa tentativa de fugir das investidas de Marta
para acrescent-la a famlia, Ana voltou sua ateno para a televiso que
estava ligada passando a reportagem da tarde. O telejornal mostrava a
notcia de mais um jovem de classe mdia que desaparecera de repente.
    - Lus Carlos Molina - falava o apresentador - vinte e dois anos, est
desaparecido desde a noite de sbado desta semana. A polcia acredita
que a ao de traficantes internacionais esteja de alguma forma ligada a
essa onda de desaparecimentos que se inicia h uma semana. H a
suspeita de que tais jovens estejam sendo usados como mulas para os
traficantes.
                               ~ 117 ~
    O uso de mulas para o transporte de entorpecentes entre as
fronteiras  um habito muito comum atualmente - comentava a
apresentadora  E muitos desses jovens so seduzidos pelos traficantes
com possibilidades no exterior.
   - Coitada da me desse garoto - comentou dona Marta, percebendo
que a ateno da garota mudava de foco  deve estar arrasada.  por isso
que eu implico tanto com o Ian sobre essas sadas dele. No que eu no
confie nele, mas...  ela hesitou um pouco e Ana podia sentir certa dor
em sua voz - eu no confio  nos outros.
    - Entendo bem  disse Ana, que no estava muito interessada na
matria e s queria era mudar o assunto. No fundo, at sentia vergonha
de ter feito isso, pois no esperava que a me de Ian fosse ficar to
abalada. Por algum motivo ela parecia verdadeiramente preocupada.
   - Bem, acho melhor voc esperar aqui  ofereceu a me de Ian
recobrando o bom humor  no acredito que ele v demorar muito.
   - No, tudo bem. - disse a garota j fazendo meno de se levantar -
Depois eu ligo pra ele.
   - Por favor. No me faa uma desfeita. Pelo menos me acompanhe
num cafezinho.
   Ana pensou em recusar, mas no resistia ao olhar daquela mulher.
Ana sabia que o pai de Ian estava numa viajem de negcios e j que
Marta no era muito f de sair, poderia estar se sentindo um pouco
sozinha. Ainda mais com o Ian fora por tanto tempo no stio.
   Assim, decidiu aceitar o convite.
   Enquanto Marta preparava o caf, Ana aproveitava para dar uma boa
olhada na sala. A me de Ian tinha o hbito de sempre fazer mudanas na
casa. Era seu hobby favorito, seja comprando acessrios novos ou
mudando as coisas de lugar. Passando os olhos pelo aposento, parou a
ateno sobre um retrato de famlia, que ficava em cima do mvel ao
lado do sof onde estava.
   Nele estava Marta, sentada em uma cadeira, muito bem arrumada, no
meio entre Ian de um lado e Ivan, seu marido, do outro. Todos estavam
completamente impecveis na foto. Era um milagre, mas Ana percebeu
que at mesmo os cabelos de Ian estavam alinhados e ficou imaginando o
esforo que deve ter sido arrum-los daquele jeito.
   Ele no devia ter gostado nada, riu-se.
   Ao contrario de Ian, seu pai era sempre impecvel, tanto na maneira
de se vestir, como com seu fsico. Nunca permitira deixar os cabelos
bagunados como o do filho e o estilo ao natural de Ian sempre o
incomodava.
                              ~ 118 ~
    Porm, em todo o resto eles eram iguais. O mesmo senso de humor e
at a mesma aparncia. Eles tinham os mesmos traos do rosto e o
mesmo porte fsico, mas os cabelos e os olhos negros Ian havia herdado
na me, que estava feliz sentada ao meio.
    Foi quando teve um estalo na cabea.
    - Se Ian fosse um Garow, ento... - acabou pensando alto.
    Parando para pensar agora, Ana chegou a uma concluso: no seria a
famlia toda assim como Ian? Ela estaria numa famlia de Garows?
    No. Impossvel.
    Como eles poderiam esconder esse segredo de todos? E lembrou que
talvez no fosse to difcil, j que Ian conseguiu esconder dela at hoje.
    Seria possvel? Estaria ela na ultima famlia de Garows da histria?
Como sobreviveram? O que aconteceu a eles? E ento uma grande
expectativa cresceu em seu peito fazendo-a sentir-se uma criana
novamente. Mas foi ento que comeou a encontrar algumas falhas em
sua teoria. De acordo com as histrias que ouviu quando criana, eles
eram uma tribo selvagem do norte do Canad. Ento, como estariam
morando no meio da metrpole do Rio de Janeiro.
    Se as histrias que suas tias contavam fossem verdadeiras, a tribo
Garow habitava as regies geladas, ento no conseguiriam viver num
pas de clima tropical.
    - Deus!  deixou escapar um suspiro. Teria ela se enganado e viajado
em suas fantasias?
    No. Definitivamente, no. Ela havia demorado muito para poder
voltar a acreditar e isso estava fazendo bem a si e no estava disposta a
perder essa crena de novo.
    Mas ento, o que? Realmente, no conseguia imaginar uma tribo
desse tipo na Vila da Penha. Ou as histrias de suas tias estariam
equivocadas e elas tivessem ignorado algum fator?
    Ou talvez... pensou. No fossem realmente Garows, mas sim uma
famlia de magos comum. Ana riu, achando graa em colocar as palavras
magos e comum na mesma sentena. No fazia sentido.
    - Ento deve ser isso  falou consigo mesma - Talvez no sejam
Garows. S magos normais.
    Mas acabou sentindo certa decepo com essa concluso
    - Falando sozinha Ana?  a voz de Marta cortou Ana de seus
devaneios.
    - Nada  disse corando  s repassando umas coisinhas... Para a aula
amanh.  acrescentou rpido.
    - O que, uma prova?
                               ~ 119 ~
   - Sim  mentiu.
   - E aquele moleque no me falou nada. Ele vai ver  e chegando perto
da menina ofereceu uma xcara de caf fumegante  Aqui esta Ana.
   - Obrigado  e pegou a xcara e a tomou rapidamente para poder
esconder o rosto traquina. Pelo visto, havia colocado o amigo em apuros.
Marta era muito rigorosa com relao a estudos. Melhor ficar calada.
   E foi quando o telefone tocou e Marta foi atender.
   - Al. - disse - Oi querido, como vai a na Argentina?  e sorriu -
Sim. Sim. Sim - e riu  Claro. No ele no est. Sei.  de repente ela
levou a mo  boca. Depois do susto ela deu um sorriso amarelo e
dissimulou uma calma.
   - Claro querido. Como eu ia esquecer? Sim estarei esperando.  e
desligou o telefone com uma expresso de culpada no rosto.
   - O que houve?  preocupou-se a garota
   - Esqueci que Ivan voltava amanh.
   Ana riu sentindo um alvio. Achava que fosse algo mais urgente.
   - Meu Deus e eu nem preparei nada do que ele me pediu  disse com
um sorriso amarelo  Querida perdo, mas tenho que dar uma saidinha,
sim? Se quiser espera meu filho aqui, fique a vontade.
   - No  apressou-se em responder enquanto tomava o caf as pressas
queimando a lngua  J estou de sada. Abusei demais.
   - Tem certeza?
   - Claro. Melhor esperar o Ian em casa - disse sem muita certeza se ia
para casa, lembrando que o amor se encontrava l.
   - Est bem. Desculpe-me pelo meu filho. Ele some sem dar noticias.
   - Tudo bem  mas quando Ana ia se virando para sair escuta o
barulho da porta se abrindo.
   E ali, parado e molhado dos ps  cabea, encontrava-se Ian, que
sorria para as duas e sacode a cabea jogando gua para os lados.
   - Francamente! - zangou-se Marta  Onde esteve? A menina ficou
aqui plantada esperando voc. E voc, o que pensa que est fazendo
nessa chuva? Onde est o seu chapu? Espero que esteja planejando
secar meu cho quando terminar de se sacudir.
   - Uma coisa de cada vez mame - riu-se o garoto  Boa noite
primeiro. - e fez uma reverencia exagerada.
   - Boa noite mame. Voc vai ver  disse indo contra o garoto e lhe
dando tapinhas de leve no seu brao, que mais o divertiam do que
machucavam. Apesar do teatro Ana via que Marta estava mais feliz do
que zangada  Ainda bem que eu tenho de sair se no lhe dava palmadas
como quando voc era pequeno.
                              ~ 120 ~
    - No faa isso  disse o garoto amvel dando um beijo na testa da
me.
    - Sinceramente, voc no vale nada  disse a me se derretendo toda
perante o carinho.  V se toma um banho e tira essas roupas molhadas.
    - T certo.
    - E no suja meu cho.
    - Sim senhora.
    - E me da um beijo.
    - Com prazer  disse dando um novo beijo na me. Desta vez na
bochecha.
    - Bem, vou indo.  disse Marta e depois se virou para Ana  At mais
querida, agora vocs podem conversar sossegados - e saiu pegando o
guarda-chuva perto da porta e indo at o carro.
    - Oi  disse o garoto sorrindo pra ela.
    - Oi  respondeu Ana retribuindo o sorriso. Mas ento ela se lembrou
mais uma vez da cena em seu terrao e seu sorriso se desfez. Ian pareceu
no perceber a mudana sbita de humor.
    - Vou cumprir as ordens do sargento rapidinho a agente conversa.
    - T certo  disse fazendo meno de se sentar.
    - Porque no me espera l em cima?  convidou
    - Porque eu iria? - perguntou meio surpresa.
    - No sei. Voc sempre espera.
    Ela pensou um pouco meio duvidosa. Era verdade que sempre
esperava, mas no tinha certeza disso hoje.
    - Vamos  incentivou.
    - T  disse se levantando e seguindo Ian atravs das escadas.
    Ao entrar logo atrs de Ian, Ana deu uma boa olhada no quarto.
Antigamente, sempre se sentiu a vontade ali, mas naquele dia, ela no
estava muito confortvel. E sem tocar em nada, foi esperar na cama com
as mos cruzadas em cima das pernas.
    - Eu vou tomar um banho e j venho. - falou  fica a vontade.
    A garota no respondeu e ele entrou na sute de seu quarto tirando a
camisa. Ao ver que a porta permanecia aberta, Ana correu e a fechou.
Gritando atravs dela.
    - Voc deveria se lembrar que tem gente no quarto!  lembrou.
    - Desculpe. Voc j  de casa.
    - Mesmo assim  falou um tanto impaciente  Ainda sou mulher.
    - O que houve?- interrogou Ian abrindo uma brecha na porta para
poder v-la.
    - Como assim?
                              ~ 121 ~
   - Esse seu mal humor. Voc estava bem hoje de manh. O que
aconteceu?
   - Impresso sua  respondeu ignorando-o.
   - Tem certeza?
   - Claro  dissimulou voltando para a cama.
   - T bom  e fechou novamente e porta sem parecer ter se
convencido.
   - Cara de pau  sussurrou quando ele fechou a porta
   Na cama e sem nada para fazer, Ana comeou a balanar pernas
esperando o tempo passar, enquanto escutava o som da chuva l fora e do
chuveiro no banheiro. Ali, se permitiu ficar um pouco perdida em meio 
decorao do quarto do garoto e se espantou ao notar lobos por toda a
parte: em revistas, livros, colcha da cama e miniaturas na estante. Eles
sempre estiveram ali, mas hoje ganhavam uma ateno especial.
   Cansada de ficar sentada, levantou-se e viu a camisa molhada que foi
deixada no cho perto da porta do banheiro.
   - Esse garoto no tem jeito  comentou consigo mesma enquanto
pegava a pea no cho. Estava ensopada.
   Ana levou a roupa at o banco que ficava em frente  mesa do
computador e antes de coloc-la, ficou segurando-a por um tempo. No
sabia que interesse tinha naquela pea de roupa, mas foi aproximando-a
do rosto quase que por instinto, curiosa em saber que cheiro tinha.
   - Ih caramba! - disse despertando no susto e largando a roupa de volta
ao cho.
   Secando as mos molhadas pela camisa, percebeu que era melhor
passar o tempo fazendo alguma coisa. Ao olhar para a escrivaninha, viu
que o computador estava ligado com a proteo de tela ativada  um lobo
mais uma vez - e decidiu se distrair ali.
   Mexendo o mouse, fez com que a proteo de tela desaparecesse. Ao
abrir a tela inicial, Ana esperava encontrar outro lobo como plano de
fundo, mas se surpreendeu ao ver uma foto dela e de Ian.
   A imagem os retratava abraados com uma paisagem natural de
fundo. E foi apenas olhar para a foto que pde se lembrar daquele dia,
quando foram para uma trilha na Floresta da Tijuca. Aquele era um dia
ensolarado e alm deles, havia outros dois colegas da rua e mais a sua
me, que era f desse tipo de programa.
   Ana se lembrava de caminhar junto de Ian pelo terreno, enquanto
subiam a Pedra da Tijuca. Ela se virava do jeito que podia para no cair
enquanto Ian no demonstrava nenhuma dificuldade em andar pelo
                              ~ 122 ~
terreno acidentado. O caminho, apesar de difcil para ela, valia  pena.
Era um lugar deslumbrante.
    Para cada coisa que observavam, Helena tinha uma explicao.
Dando uma aula completa sobre cada forma de vida encontrada e o
passeio acabou se tornando uma aula ao ar livre. Quando finalmente
chegaram ao Pico da Tijuca, Ana ficou encantada com a beleza do lugar.
O cu azul mostrava todo o seu esplendor ali em cima e eles ficaram
cerca de uma hora aproveitando a paisagem e tirando fotos como aquela
que estava como papel de parede no computador.
    Quando desceram, passaram pelo riacho Bom Ribeiro para uma
ltima descansada antes de voltar para casa. Ana, sentada na beira do rio,
observava a limpidez da gua quando reparou numa linda flor de ptalas
brancas que se encontrava na borda. Tentou se aproximar da bela flor e
peg-la, mas foi quando sentiu uma mo segurando a sua com
delicadeza. Ao virar para olhar, viu Ian ao seu lado.
    - Beladona  ele disse  eu no recomendaria pegar nela.  venenosa.
    - Nossa  assustou-se Ana trazendo a mo de volta.
    O garoto riu ao seu lado.
    - No se preocupe. A toxina s  liberada atravs da ingesto direta.
S avisei pra voc no ter a idia de lev-la pra casa.
    - Era exatamente o que eu tinha em mente. - admitiu.
    E ficaram em silncio por um tempo at Ian continuar.
    - Sabia que em algumas culturas, a Beladona  considerada uma
planta com propriedades mgicas. Alguns curandeiros at utilizavam-na
para fabricao de antdotos e dizem que so timos...
    - Ian.  interrompeu Ana  Acho melhor nos juntarmos aos outros.
    O garoto se calou por um tempo, visivelmente frustrado com a
interrupo, mas no reclamou.
    - Est bem  disse e sorriu para mostrar que no estava ofendido. Ana
ainda era grata pelo que Ian tentava fazer. Desde que suas tias morreram,
ele era o seu substituto em histrias sobre magia, escutando-a enquanto
os demais fugiam dela e ao mesmo tempo trocando conhecimentos. Mas
naquela poca Ana j escolhera esquecer. Por isso no queria mais ouvir
histrias desse tipo. Queria definitivamente deixar o mundo das fantasias
para trs.
   At agora, pensou voltando ao tempo presente.
   E foi quando ela escutou o som da porta do banheiro se abrindo e v o
amigo sair de l j vestido. Menos mal. Ele usava apenas uma camiseta
branca com um bermudo quadriculado. Engraado ele mudar o visual
                               ~ 123 ~
comum, com seus casacos, justamente agora que o frio tinha aumentado
devido  chuva.
    Ao contrrio, Ana usava calas e camiseta, com direito a um suter
listrado e aberto na frente e ainda assim sentia um pouco de frio. Ela
girou na cadeira e ficou de frente pra ele. A chuva caia forte l fora e Ana
ficava pensando em como comear a conversa que ela tanto aguardava.
Estava muito ansiosa, mas gostaria muito que fosse ele quem iniciasse o
assunto.
    - Ento  ele comeou  O que deseja?
    - Voc sabe  respondeu  A verdade.
    - A verdade mesmo?  questionou o garoto se sentando no cho 
Que verdade voc deseja: a que lhe faa sentir melhor ou aquela que lhe
traga recordaes ruins?
    - Apenas a verdade verdadeira. Independente do que possa parecer. -
sentiu que conseguia falar com convico. Era um bom sinal.
    - E no lhe incomoda parecer loucura?
    - Acho que j estou um pouco experiente nesse ramo - comentou
dando um sorriso desanimado.
    - Entendo.  disse retribuindo o sorriso. - Qual a sua teoria? -
perguntou.
    Essa pergunta fez com que eles ficassem em silncio por um tempo.
Ana queria falar, mas mais uma vez se sentiu bloqueada.
    Droga! Por que  to difcil?
    Ian pareceu perceber a dificuldade na garota em continuar e resolveu
ajudar. Olhando em volta viu uma garrafa de gua deixada sobre a mesa.
O contedo estava vazio, mas ele a pegou mesmo assim.
    - Tampa pergunta - disse erguendo a garrafa  e fundo responde. S
perguntas simples, ou seja, que exijam como resposta sim ou no. Certo?
    - Pensei que voc detestasse esse jogo  comentou surpresa.
    - Detesto sim. Acredito que o que no se pode ser dito numa conversa
normal no deve ser dito. Ento esse jogo  intil.
    - Ento porque resolveu jogar agora?
    - Pois quem sabe assim voc se solta. - arriscou  esse jogo tem a
tendncia a libertar as perguntas mais ousadas das pessoas, j que o
outro, em teoria, ter de responder - e girou a garrafa.
    Ana se sentou no cho para acompanhar o processo. Quando a garrafa
parou de girar, estava apontada com o fundo para Ian. O garoto a olhou
nos olhos aguardando a pergunta.
    Por um segundo, Ana travou e na tentativa de desviar o assunto
perguntou a primeira coisa que veio a sua cabea.
                                ~ 124 ~
    - Voc est com algum? Digo, se envolvendo com algum?
    O garoto pareceu muito surpreso com a questo levantada.
    Ah! Muito bom Ana, pensou. No era isso que ela queria perguntar,
mas mais uma vez no foi capaz. E o pior da pergunta foi o fato de ter
lhe despertado a lembrana do beijo que ele deu em Solange.
    - No  respondeu parecendo sincero  no sei por que voc fez essa
pergunta, mas a resposta  no.
    - O jogo  da verdade  lembrou Ana.
    - E eu no estou mentindo. - disse erguendo as sobrancelhas com a
acusao e Ana mordeu o lbio para calar a boca. Comeava a sentir
vergonha de sua impertinncia.
    Era melhor no continuar o assunto, pois dizer que ele estava
mentindo significaria admitir que andava espionando o garoto.
    Porque voc fez uma pergunta dessas? Vamos ao que  importante,
replicou consigo mesma.
    A garrafa girou novamente, desta vez, Ian perguntava.
    - No tenho nada para saber ainda. Ento...  e pensou  O que voc
vai me dar de aniversrio? Afinal, est prximo  comentou com um
sorriso.
     verdade, lembrou-se, faltavam apenas duas semanas. Estavam no
dia 10 de julho, amanh seria a ltima aula antes das frias de meio de
ano. E oito dias depois, seria o aniversrio de Ian. Dia dezenove de
Julho.
    - Bem, vai ser surpresa  respondeu.
    - Isso quer dizer que voc no pensou em nada?  acusou.
    -   confessou rindo
    - Grande amiga  comentou girando a garrafa mais uma vez.
    Ela perguntava de novo.
    Ana respirou fundo e decidiu falar srio daquela vez. Como ainda no
se sentia segura, comeou sem ir direto ao foco. Pensou em alguma
pergunta que pudesse faz-la se aproximar da verdade, sem que a fizesse
parecer idiota.
    - Voc  humano?  bem, a pergunta no a fazia parecer menos
idiota, mas servia.
    - Sim. - Ian pereceu satisfeito com a pergunta. Ana esperava aquela
resposta, afinal, magos tambm so humanos.
    Mais uma vez a garrafa girou: ela perguntava de novo.
    - Voc possui habilidades sobre humanas? - perguntou se sentindo
mais segura.
                              ~ 125 ~
    Desta vez o garoto revirou os olhos pensando antes de responder.
Depois se voltou para ela e disse:
    - No.
    Por essa ela no esperava e comeou a achar que ele estava mentindo.
    Ian percebeu e riu.
    - Voc no est fazendo as perguntas certas  disse - eu acredito que
voc tem algo melhor para perguntar, mas est com medo.  e girou a
garrafa mais uma vez: desta vez ele era quem interrogava.
    - Desta vez eu quero fazer uma pergunta.  disse a olhando nos olhos
- Pelo que vejo voc est um pouco menos situada na situao do que eu
imaginava. Voc no tem muita cincia do que eu sou, embora a verdade
esteja bem perto de seu corao. Ento, com isso tudo... o que voc est
sentindo por mim, neste momento.
    O corao da garota ameaou saltar para garganta com o peso da
pergunta. Ele sabe alguma coisa? Ser que ele estava acordado quando
roubei aquele beijo, ou me viu bisbilhotando? E comeou a ficar eufrica
demais e a vergonha ameaou se aflorar quando finalmente se lembrou
de uma coisa.
    - Mas as perguntas tm de ser simples. - falou sentindo o peito se
aliviar - Sim ou No, lembra?
    -Verdade  ele estava srio  O que eu quero saber : Voc est com
medo de mim?
    Medo? Espantou-se.  com isso que ele est preocupado?
    - Lgico que no  respondeu quase rindo do absurdo.
    Ele olhou para o cho parecendo um pouco frustrado e Ana ainda
sentia sua pulsao acelerada. Graas a Deus que ele havia pensado
errado, pois morreria de vergonha se Ian a tivesse flagrado em algum
daqueles momentos.
    E foi quando se lembro: Perto de seu corao, foram suas palavras.
De incio, parecia uma metfora, mas logo que levou a mo ao peito
sentiu o pingente de ouro. Lembrou-se do que tinha nele alm do retrato
de suas tias. Ian sabia o que ela guardava ali. Mais uma vez ele a
incentivava a pergunta.
   A garrafa girou novamente, mas desta vez Ana fez com que ela
parasse, forando-a a ficar apontada com o fundo para Ian. Com a mo
ainda no cordo, criou coragem:
   - Voc  um Garow? - perguntou baixinho.
   - Como?  perguntou levando a mo ao ouvido. Embora Ana
percebesse que ele tinha entendido muito bem, resolveu repetir.
                              ~ 126 ~
   - Voc  um Garow?  repetiu mais alto.
   E foi ento que pareceu que o tempo havia parado. L fora, apenas o
som da chuva era ouvido quando ele falou:
   - Sim.
                             ~ 127 ~
   15  Estudos.
    Naquela noite chuvosa, ngelo se encontrava protegido dentro de sua
casa no Centro da Cidade. Sentado na escrivaninha de seu quarto, ele
aproveitava o tempo vago para ir repassando as ltimas matrias do
colgio, quando se cansou delas e decidiu se dedicar aos ensinamentos da
ordem. No dia seguinte ele teria prova de Biologia, matria que ele
achava a mais irritante entre todas que era obrigado a aprender. No
sabia por que ainda precisava estudar para essas coisas agora que j
estava num caminho totalmente diferente. Mas o bispo sempre lhe
recomendou no abandon-las.
    - ngelo, meu menino  disse-lhe uma vez  eu entendo que sinta que
todo esse conhecimento  intil, mas no  recomendvel abandon-los.
Primeiramente, por que assim  mais fcil manter as aparncias para
aqueles que no sabem de nossa existncia e em segundo, por que nem
todos esses conhecimentos so de total inutilidade para ns.
    - Como assim bispo?  perguntava uma verso em miniatura de
ngelo, mas ainda to magricela quanto o atual.
    Naquele tempo, ngelo estava se iniciando nos estudos de magia na
Igreja da Iluminao e tinha acabado de conhecer seu novo mestre: o
bispo Csar. Obrigado por sua me, ngelo foi fazer sua primeira
comunho na igreja do bispo. No era muito religioso, mas como no
gostava de contrariar a me, que sempre foi muito boa pra ele o garoto
acabou dando o brao a torcer e com apenas dez anos foi ter suas
primeiras aulas de religio.
    E foi ali que, por algum motivo que ainda desconhece, chamou a
ateno do bispo que o convidou para tomar aulas particulares. ngelo
ainda sente graa ao lembrar-se do medo da me ao ouvir isso. Ela
andava muito assustada com o nmero crescente de padres pedfilos que
apareciam nos jornais, mas tambm era muito devota para recusar tal
oportunidade.
    Nas primeiras aulas, ngelo teve que assistir acompanhado da me e
s ento, depois de pegar confiana em Csar, que ela o liberou. Foi
ento que ngelo foi iniciado nos caminhos da magia. O bispo contou
tudo pra ele. Falou da magia, da Ordem e dos Iluminados e o convidou a
participar de tudo isso. O garoto no demorou muito a aceitar e fazer
parte das fileiras da Ordem dos Iluminados.
    Era timo pra ele estar ali. Alm de sentir que tinha nascido para ser
um mago, aquela igreja era seu forte, seu porto seguro e o mantinha
ocupado longe de casa. Apesar de gostar muito da me, detestava o pai.
                               ~ 128 ~
Elias era um homem completamente irritante aos olhos do filho. No
trabalhava e tinha hbitos que muito o incomodava, como beber muito e
tratar mal sua me. Mrcia, sua me, sempre acreditou que um dia o
marido fosse mudar, mas esse dia nunca chegava e ngelo se cansou de
propor que ela se separasse e vivesse sua vida sozinha. Talvez a questo
do divrcio fosse a nica coisa que discordasse com relao aos dogmas
da Igreja.
    E alm de todos esses motivos, ainda havia outro que o fazia gostar
imensamente das aulas na Igreja: O bispo Csar. Desde o primeiro
instante em que o conheceu, o garoto aprendeu a sentir um enorme
respeito por aquele homem, que parecia no encontrar limites para sua
sabedoria. Era muito feliz por t-lo como seu mestre.
    - Bem meu filho, - ele explicou - Apesar de procurar um caminho
mais difcil e at certo ponto, mais destrutivo para se descobrir as
verdades do mundo, no se pode negar que a cincia tenha feito alguns
progressos. Ela foi responsvel por algumas grandes descobertas que
ajudaram at mesmo a ns, ps auxiliam na compreenso da magia.
    - T bom. Cite uma.  desafiou o garoto
    - O estudo de Da Vinci com cadveres, que ajudou principalmente na
parte de curas mgicas; as experincias de Servet na descoberta da
circulao sangnea, que facilitou a descoberta dos locais para a injeo
de nossos antdotos - e pensando mais, continuou  temos tambm
Mendeleev e a descoberta de um padro para os elementos qumicos da
natureza o que auxiliou nos nossos estudos, principalmente para os
magos usurios dos recursos naturais. - e parou para olhar o garoto -
Mais alguma dvida?
    - Sim. Que espcie de padre  o senhor?
    O bispo deu uma risada com vontade, naquele tempo ele podia rir
assim.
    -  verdade. Isso eu no sei responder. Apenas reconheo a
importncia de nossa arquiinimiga.
    - Francamente.  comentou ngelo consigo mesmo. Agora sua mente
estava de volta ao seu quarto. Decidiu ento deixar de lado seus estudos
de biologia e se dedicar mais aquilo que o interessava: a religio e a
Ordem dos Iluminados. Abrindo algumas anotaes, se deparou com um
tpico que falava sobre feitios. Mais interessante do que estudar plantas,
ele comeou a ler suas anotaes.
                               ~ 129 ~
   As artes mgicas possuem diferentes tipos de
classificaes. Existe os chamados Encantamentos, que so
aquelas capazes mudar a forma das coisas, concedendo-lhes
novas caractersticas. Esse tipo de magia  capaz, alm de
conceder uma meia vida a objetos inanimados, transformas
seres vivos em matria bruta.
   Conjuraes so aquelas mgicas responsveis pela
convocao de coisas e seres que esto em tempos e espaos
muito distantes do mago. O usurio pode usar uma conjurao
para trazer um objeto pessoal que tenha esquecido em casa ou
at mesmo, para trazer artefatos e criaturas de dimenses
longnquas. Esse tipo de arte  de extrema complexidade,
sendo apenas uns poucos capazes de realiz-la com perfeio.
   Bruxaria  um tipo de magia especifico aonde um bruxo
precisa do apoio de outra entidade, geralmente demnios, para
se realizarem.
   Necromancia  a arte que se baseia no estudo da morte e
dos espritos. Nela esto contidas tanto comunicaes com os
mortos quanto at mesmo a arte de se criar mortos-vivos. Essa
ltima, proibida pela Ordem dos Iluminados, por interferir no
descanso dos mortos.
   E por ltimo, temos os Feitios, que so tipos complexos de
magia, onde um mago acaba por ter controle sobre
sentimentos, vontades e aes de suas vtimas.
   Feitios so mgicas complexas que exigem um forte
equilbrio, tanto energtico, quanto emocional de seu usurio.
Dependendo do nvel do mago, ele pode controlar determinados
tipos de aes de sua vtima. Aes simples como, sentar,
correr, ou olhar, qualquer iniciado em feitios  capaz de fazer.
Porm, aes mais complexas, como algo que cause muito
constrangimento ou v contra os desejos ou interesses ntimos
da vtima,  necessrio um nvel maior de destreza, assim como
forar algum a ir contra ideais ticos ou religiosos de
                           ~ 130 ~
extrema importncia para ela  apenas possvel para magos de
grande poder.
   Estar sobre o efeito de um feitio foi um libi muito usado
por diversas pessoas para se justificarem perante a acusao
de atos criminosos, por conta disso, se perceber quando algum
est sobre efeito desse tipo de magia  de vital importncia
para se localizar possveis mentirosos. Para se reconhecer
algum enfeitiado deve se seguir alguns princpios bsicos:
primeiro, deve se olhar bem fundo nos olhos da vtima.
   Geralmente, pessoas sob o controle de outras tendem a
nunca manter a viso focada nas coisas, nem mesmo em pessoas
ou no que esto fazendo. Esse defeito  algumas vezes
corrigido pelo prprio feiticeiro, tornando essa caracterstica
um pouco mais sutil. Porm, com uma boa observao ainda 
possvel se notar o olhar vago dos enfeitiados.
   OBS. Lembrando que nem todos os feitios controlam a
vontade das pessoas. Alguns apenas controlam seus movimentos
e aes, como  o caso do feitio da Marionete. Nesse caso, a
vtima tem total conscincia de sua condio e desse modo
torna-se mais fcil de notar. Afinal, a pessoa que estiver
correndo com uma faca em sua direo estar gritando para
voc correr ou pedindo desculpas, alegando que no  sua
inteno o que est prestes a fazer.
   A segunda caracterstica de algum enfeitiado  a
fraqueza que a pessoa sofre quando o controle  quebrado.
Quando algum  vitima de um feitio, ela no est
completamente alheia ao que acontece. Dentro da mente da
vtima  travada uma batalha entre seu subconsciente e o
invasor. Tal luta tende a deixar uma fadiga muito grande para
trs, logo,  comum as vtimas desmaiarem aps serem
controladas por outro mago.
   OBS. Como a batalha travada contra o feiticeiro  feita pelo
subconsciente, a vtima raramente tem lembranas de que foi
                          ~ 131 ~
dominada. Geralmente acorda sem saber de nada do que fez ou
falou.
    A Ordem dos Iluminados condenou a prtica dos feitios
desde 1789, na Conveno de Bruxelas, alegando que isso fere
um dos direitos mais sagrados do homem dado por Deus: o livre
arbtrio. Desde ento, sua prtica tem sido condenada nas
reas de influncia da Igreja. Porm, com a perda de poder da
Ordem dos Iluminados, decorrente da quebra da aliana entre
esta e os Inquisidores, a influncia contra tais crimes se
perdeu.
   Durante toda a historia da Ordem, em apenas dois casos foi
comprovado o uso de feitios por Iluminados.
   Um deles foi o do Bispo Manuel Simmons do Reino Unido,
que tentava ascender ao posto de papa da ordem atravs do
feitio "Canto da Sereia", onde com este, tentava ganhar o
afeto dos membros da cpula. Tal magia foi sendo usada
durante um ms em pequenas doses a fim de se evitar
suspeitas, porm, o plano foi descoberto pelo Bispo da Prssia,
Joo Huttz, e Manuel acabou sendo condenado  fogueira.
   No segundo caso, o mago prodgio e aluno da Ordem dos
Iluminados de Paris, Lucas Levstross foi pego criando oraes
de feitios e os disfarando em forma cantos gregorianos e
oraes que depois foram utilizados dentro da prpria ordem.
At hoje, no se sabe o interesse desse mago, que cometeu
suicdio aps ser descoberto, mas no se pode negar o risco de
tal feito. Ainda  presente o risco de que algumas oraes
utilizadas pelos membros da Ordem sejam na verdade feitios
travestidos.
  ngelo avanou um pouco a leitura at uma parte em que se dizia:
Como se livrar de um feitio.
                           ~ 132 ~
   Feitios tendem a controlar as emoes e o poder de
deciso de seu alvo. Logo, para algum vitima de uma mgica de
controle, a nica sada  conseguir focalizar toda a sua ateno
em algo diferente. O alvo da ateno da vtima tem que ser algo
muito tentador ou completamente impossvel de se ignorar para
que o enfeitiado no possa pensar em outra coisa a no ser
naquilo.
   Com a ateno totalmente voltada  outra coisa, o Mago
consegue se livrar das ordens emitidas pelo feiticeiro, pois no
consegue prestar ateno a elas.
    ngelo parou de ler um pouco e passou a fitar a janela, olhando as
nuvens carregadas de despejavam uma forte chuva no Rio de Janeiro.
Pelo visto, iria esta noite a Igreja da Iluminao de baixo de chuva. Isso,
se o chamassem.
    Havia feito um acordo com o Bispo e s apareceria l novamente
caso fosse requisitado, embora estivesse se segurando para no burlar
essa regra. Bispo. Pensou. Queria tanto ajudar mais.
    E foi quando, olhando as nuvens, permitiu sua mente viajar.
    Voltara de novo ao tempo em ainda era uma criana e olhava a janela
da igreja para um cu azul cheio de nuvens.
    - Presta a ateno em mim garoto e para de olhar para a janela! -
Gritou o bispo enquanto batia com a rgua na cabea de ngelo.
    - Ai!  o menino levou as mos  cabea massageando a regio
atingida. ngelo estava de volta aos primeiros anos do ensino de magia
na aula de feitios.
    - Francamente garoto! - gritava o bispo enquanto mostrava uma
inscrio em latim numa pgina de livro  Sabe identificar isso?
    - Uma orao?  arriscou. O que lhe serviu para receber outro golpe
de rgua. - Ai!
    - No! Isso  uma das oraes falsas criadas por Lucas Levstross, a
fim de disfarar seu uso de feitios dentro da Ordem dos Iluminados.
    - Mas achei que eles j tivessem sido banidos  comentou o garoto
massageando o novo galo que surgiu na sua cabea.
    Outro golpe de rgua, mas desta vez ngelo estava preparado e se
esquivou. Apesar de ter abaixado a cabea no ltimo instante, no teve
                               ~ 133 ~
tempo de contar vitria, pois um novo golpe, e desta vez mais rpido, o
atingiu na lateral da cabea.
    - Ai!
    - O fato de um feitio ter sido banido no significa que seu uso
tambm o foi  falava o bispo  Ainda h resqucios deles em toda a
parte e no duvido que existam pessoas dentro da prpria Ordem que se
sintam tentados em us-los.
    - Eu sei - respondeu ngelo.
    - Ento se sabe, deveria prestar mais ateno! Identific-los  de vital
importncia para se interceptar um feitio lanado contra voc  ele
interrompeu seu sermo por um tempo para comear a tossir 
francamente garoto. Voc deve prestar mais ateno.  concluiu
massageando a garganta - Assim nunca vai se tornar um grande mago.
   Quem diria que o senhor se enganaria tanto, no  bispo? Refletiu
voltando ao presente. Os mesmos lbios que disseram que aquele garoto
nunca seria um grande mago, agora o chamavam de prodgio.
   E balanando a cabea para espantar os devaneios, decidiu que tinha
que parar de pensar em besteiras e arranjar uma forma de ajud-lo mais.
ngelo queria que Csar ou o frade ligassem para ele convocando-o, mas
enquanto isso no acontecia, tinha de arranjar uma maneira de auxiliar
dali.
   Vasculhando seu quarto, acabou encontrando um livro que falava
sobre demnios, pego na biblioteca da Ordem e que estava com o prazo
de devoluo vencido. Ignorando esse ltimo fato, decidiu se especializar
sobre os assuntos que envolviam a questo em que se encontrava.
   Assim, abriu o livro num captulo sobre o processo de criao dos
demnios.
   Quando morremos, existe uma linha temporal pela qual
todos ns passamos antes de alcanarmos a "morte real". Esse
lugar  como um estgio que se passa entre a vida e a morte,
aonde serve de preparo para a alma antes de atingir o paraso
ou o inferno.
   Ela recebe vrios nomes distintos, dependendo da regio
aonde se pergunte: Mortalha, para alguns feiticeiros ligados 
Demonologia  estudo dos demnios - ou a Necromancia 
                                ~ 134 ~
estudo dos espritos e dos mortos-vivos. Mekai, para os magos
de cultura grego-romana. Ou Purgatrio, para os Iluminados.
   Independente de qual nome seja usado, todos representam a
mesma coisa. O purgatrio  o local para onde vo as almas
daqueles que ainda no conseguem atingir o descanso eterno
por possurem assuntos inacabados na terra, ficam presos,
vagando pelo liminar entre a vida e a morte.
   O purgatrio  uma dimenso paralela e muito prxima ao
mundo dos vivos. Devido  essa proximidade, ambas as
dimenses tendem a se interagir e se interpenetrar em alguns
casos. Como efeitos desse fenmeno criam-se locais aonde essa
penetrao ocorre com mais intensidade ao ponto de um lado
conseguir ver o que se passa no outro, causando os chamados
"locais mal-assombrado", como so popularmente conhecidos.
   Apesar de sua proximidade, ambos os mundos no possuem
contado um com o outro, logo, os vivos e os mortos no tm a
capacidade de interferirem no que se acontece na outra
dimenso, exceto talvez nos locais mal assombrados, aonde a
barreira de separao  muito estreita.
   Porm, nesse mdulo o que interessa saber  que 
justamente nesse tipo de dimenso aonde so criados as
criaturas extra-planares conhecidas como demnios. Todos os
demnios j foram seres humanos um dia. Pessoas com alegrias,
tristezas, que nasceram, cresceram, reproduziram e morreram
como todas as outras.
   Porm,  justamente a maneira como a morte chega que
resulta em sua priso no purgatrio. H vrias causas que
podem prender uma alma ao desejo de viver. Tais como:
   1- Uma morte traumtica que gere no falecido um desejo de
vingana;
   2- Um grande projeto interrompido pela morte, que faz a
alma se prender ao mundo para poder concluir seu feito.
                         ~ 135 ~
   Enfim, quando isso ocorre, a passagem para a morte fica
interrompida e a alma fica condenada a vagar pelo purgatrio.
Devido  proximidade entre as dimenses, essas almas
conseguem visualizar perfeitamente o mundo dos vivos, muitas
vezes ficando presas em um ciclo vicioso, seja simulando
eternamente sua rotina em vida, seja reinterpretando o
momento de sua morte. Com isso, anos de saudade da vida e
impossibilidade de retorno iniciam o processo de corrupo da
alma. Raiva e inveja passam a fazer parte da composio do
esprito e ele comea e ficar violento e perder a capacidade de
raciocinar.
   Assim ocorre a criao de um esprito catico, mas este no
 o problema mais grave, j que sem a capacidade de pensar,
este no representa grande perigo para a dimenso dos vivos.
   O problema acontece quando, apesar de todo o processo de
corrupo, essas almas conseguem destruir sua humanidade
sem destruir sua conscincia. Logo, temos a criao de um ser
maligno, mas com capacidade de raciocnio. Este ser  o
demnio.
   Durante sculos tais criaturas tentam abrir caminho para
regressar a vida e tendem a conseguir muitas vezes o apoio de
bruxos para tal intento. Por viverem numa dimenso paralela e
muito instvel, os demnios acabam por conseguir habilidades e
tipos de conhecimentos impossveis de se obterem no mundo
dos vivos, e so esses tipos de coisas que aumentam o poder de
barganha para a negociao com magos ambiciosos.
   Outro trunfo que os demnios possuem  a sua capacidade
de transmitir poderes aqueles que os servem, isso  um prato
cheio para se permitir a negociao com pessoas que no
possuem em aptido natural a magia.
   Enfim,  com esses acordos que os demnios conseguem uma
chance de voltar ao mundo dos vivos. Usando a possesso, um
demnio pode usar o corpo de um bruxo como hospedeiro ou
                          ~ 136 ~
este pode facilitar o processo de possesso em outras pessoas.
* (Mais informaes no captulo 17: Artes e magias dos bruxos)
    Atualmente, a Possesso  considerada o nico meio
comprovado que os demnios tm para atravessar a barreira do
mundo dos vivos. Contudo, alguns testemunhos alegam a
existncia de outro recurso, muito mais complexo, utilizado por
estes seres para atravessar a barreira que separa os dois
mundos.
    Tal habilidade nunca foi provada, mas muitos praticantes de
magia afirmam t-la presenciado. Trata-se de ritual conhecido
como Gnesis. De acordo com testemunhas, tal ritual teria a
capacidade de criar um corpo vivo para servir de hospedeiro a
alma demonaca. Tal idia  desacreditada por muitos magos
que alegam ser impossvel usar a magia para se criar vida. Essa
seria, talvez, a nica limitao encontrada para os milagres da
magia.
    As testemunhas de tal poder alegam que este  partilhado
apenas entre tribos primitivas de magos, que possuem uma
ligao natural com os espritos. Tais grupos mgicos na
atualidade no existem mais, e assim, acaba-se que por
aumentar a dvida quanto  existncia desse tipo de poder.
Outro fator que mina a veracidade dos depoimentos que alegam
a existncia do ritual Gnesis  o fato de ser sempre prestado
por magos deficientes em suas capacidades mentais ou aqueles
que esto se iniciando no caminho da loucura.
   ngelo coou a vista e parou de ler tentando assimilar aquele novo
conhecimento. Em que aquilo poderia ajud-lo? De acordo com suas
informaes obtidas pela magia do Flashback, sabia que o inimigo
realmente se tratava de um demnio e de acordo com as interpretaes de
Cassandra, estava prestes a voltar  vida. Mas como?
   Possesso? Seria o ritual Gnesis? Ele existiria? Havia uma
possibilidade. O bispo sempre dizia que em termos de magia era sempre
bom nunca se manter totalmente ctico em relao a qualquer coisa.
                              ~ 137 ~
    Mais foi ento que percebeu algo de estranho. Aps deixar o livro de
lado, teve uma sensao de inquietao que no lhe era estranha. Era a
mesma sensao que sentiu na igreja, como se algo de muito importante
estivesse passando completamente despercebido. Estranho. Queria voltar
logo para a Igreja e checar melhor o que poderia ter sido aquele
pressentimento.
    Seria meu sexto sentido? Pensou, lembrando-se de Cassandra.
    Absurdo. E riu. No acreditava que tinha dado tanto ouvidos para a
velha louca. Esquecendo-se ento do mal estar, decidiu se concentrar no
que era importante. Haveria outra forma daquele ser voltar? E comeou
a raciocinar. Algo que no esteja sendo cogitado? Algo que possa fazer
mais sentido  interpretao do sonho.
    A imagem do beb saltou em sua cabea.
    Sim. Houve um estalo e ngelo sentiu uma euforia crescer dentro
dele. Ser? Era possvel? Sim, era. J soube de casos. Tinha que falar
com o bispo.
    Com a fora no nimo, saltou da cama e correu para o telefone e
discou o nmero pessoal de Csar.
                              ~ 138 ~
   16  O vu.
    A chuva caa pesada do lado de fora do quarto e durante muito tempo
esse foi o nico som ouvido em seu interior. As gotas pesadas agrediam a
janela, tingindo o interior do aposento com suas sombras escorrendo pela
janela. Os dois jovens que ali dentro estavam no trocaram palavras, um,
por que esperava a reao e outro, pois no sabia exatamente como
reagir. Com certeza aquela era a resposta que Ana esperava ouvir, porm,
agora que recebera, parecia que tudo no passava de um sonho.
    Durante alguns minutos, ela fitava o rosto de Ian atrs de qualquer
sinal de que ele estivesse brincando, porm, em nenhum momento ele
piscou e nem to pouco sua mo foi levada ao nariz. De fato estava
dizendo a verdade. Sem esperar mais pela resposta, Ian segurou a garrafa
e a fez girar novamente e Ana viu que ele a forou a apontar para ela.
    - Acho que no precisamos mais disto  disse afastando a garrafa -
Acho que voc tem uma dzia de perguntas a fazer, no? Sei que tem. 
e vendo que a garota no falava, encorajou  Vamos. Voc deve saber
por onde comear.
    - Eu...  e riu, sem jeito. Ainda no sabia exatamente por onde
comear  Eu gostaria de saber uma coisa.  e respirou  Porque mentiu
pra mim no jogo? Por que mentiu se queria me contar isso no final?
    - No menti  disse Ian com simplicidade  Voc me perguntou se eu
era humano e sim, sou humano. Voc me perguntou se eu tinha
habilidades sobre-humanas e eu no as tenho.
    - Mas voc  um...
    - Mago? - Completou - Sim, sou um mago. Mas quem lhe disse que
magia  um dom sobre-humano?
    Ela ficou em silncio. Desde pequena sempre imaginou que suas tias
eram pessoas acima da mdia humana. Que magia era um dom para
poucos e torcia para que ela um dia fosse digna disso. Mas ento...
    - Magia  uma das poucas coisas que foram dadas a todas as pessoas,
sem distino. A nica diferena  que existem aqueles que a utilizam e
outras que preferem reneg-la.
    - Por favor, Ian  pediu Ana  No brinque comigo assim.
    - No estou brincando sua boba. - ele riu - Voc mesma disse que
estava pronta para toda a verdade. Estou lhe contando tudo.
    Ento, se ajoelhou de frente pra ela e limpou seu rosto, tirando a
franja rebelde.
    - Voc... poderia me demonstrar? - pediu  Sabe. Fazer de novo o que
fez antes. S para eu ter certeza.
                              ~ 139 ~
    - Poderia  respondeu  Mas no quero.
    - Por qu?  questionou com uma leve surpresa.
    - Porque eu acho mais importante que voc acredite por si s. -
respondeu se levantando e fitando a janela  A magia est a por fora
para todos poderem ver. Em vrias ocasies ela se manifesta em forma
de milagres, mas as pessoas insistem em buscar outras explicaes para
ela. Em geral o mundo  totalmente ctico e isso impede que a verdade
seja vista.  e se virou para encar-la, encostando-se na parede e
cruzando os braos - Voc no era assim, mas se tornou. Tornou-se uma
dessas pessoas que querem sempre ver para crer, mas no desconfiam
que o caminho verdadeiro seja ao contrrio. Eu poderia lhe dar mil
demonstraes aqui, mas se voc continuar com a mente fechada, nada
adiantar. Ir pensar que tudo foi um sonho. Mas voc no era assim, eu
sei. Eu quero trazer a Ana de antes de volta.
    -  muito complicado  respondeu a garota tentando no encar-lo  
que para mim  muito difcil, devido ao que me aconteceu durante a vida
por acreditar nisso e novo.
    - Eu sei.  respondeu o garoto  Voc presenciou uma srie de coisas
nesses ltimos dias e ainda se manteve ctica. O que fizeram a voc
parece que foi pior do que eu imaginei. Uma pena eu no ter intervindo
antes. No sabia da gravidade do que tinha acontecido. Perdo.
    - No foi sua culpa  lembrou e ele ficou em silncio.
    Ana sentiu que Ian iria dizer algo, talvez a contestando, mas se calou.
Quando voltou a falar, continuou com o assunto anterior:
    - Quando voc presenciou a morte de suas tias, ficou traumatizada e
seus pais fizeram o que todos os pais modernos e esclarecidos fariam em
seu lugar: a coisa errada.  o garoto deu um suspiro  Eu no sei
exatamente o que voc passou, mas posso ter uma idia. Posso imaginar
o quanto sua mente foi abalada por tudo. Mas fico feliz que voc esteja
voltando a crer, mas ainda no  como eu esperava.
    - Me ajude ento.
    - Eu posso fazer isso. - declarou o garoto  Mas antes tenho que lhe
fazer uma pergunta: est disposta a atravessar o vu.
    Ana o olhou nos olhos sem entender a pergunta.
    - Vu?
    - Atravess-lo significa enfrentar um desconhecido. Que tal j ir se
acostumando com essa idia e responder a pergunta sem saber
exatamente do que se trata?
    Ana pensou um pouco.
    - Sim  respondeu.
                               ~ 140 ~
    - Excelente  disse se dirigindo at a porta - Vou buscar algo para
bebermos. Espere aqui.
    E saiu deixando a garota sozinha no quarto. Ana tinha a impresso
que isso era programado, como se ele quisesse dar tempo para que ela
pensasse em tudo que lhe foi dito e talvez tivesse a chance de desistir se
quisesse. Passando mais uma vez a mo pelo cordo ela se lembrou mais
uma vez do antigo smbolo Garow que guardava ali, sendo capaz at de
ver em sua mente o rosto do lobo a encarando, com as presas iguais a de
Ian.
    Assim, comeou a pensar no que ele disse. Todos so capazes de usar
magia. Ento porque mais gente no sabia disso? Porm, antes que
chegasse a uma concluso, Ian j tinha voltado com dois refrigerantes. O
garoto lhe entregou um e se sentou de frente para ela no cho. Ficaram se
fitando at ele beber uma boa poro de um gole e comear a falar.
    - Antes de tudo, tenho que dizer que voc  normal. - ele a encarava
muito srio agora  Voc, como todos os outros, ouve falar a todo o
momento de bruxaria, magia, feitiaria. Voc consome essas coisas.
Quando criana tem os contos de fadas, quando cresce, tem os romances
juvenis ou os filmes que falam do sobrenatural. Eles servem para lhe tirar
um pouco da realidade e lhe fazer sonhar e relaxar. Mas como tudo tem
um limite, o limite para esse gosto  no acreditar. A partir do momento
em que cruza essa linha, voc  considerado louco ou infantil.
    - Voc  como todas as pessoas normais e modernas, que buscam
suas respostas pela cincia. - continuou - Como todas, voc cada vez
mais se desvirtua do caminho da espiritualidade, acreditando que isso 
fruto de mentes ignorantes, ou de charlates que querem se aproveitar da
ignorncia dos outros. Assim como todas as pessoas do mundo, voc est
errada.
    "Assim como todos, voc reza a todo dia por milagres, sem perceber
que eles ocorrem o tempo todo a sua volta. Todos os dias voc pede,
muitas vezes sem saber para quem, que mude sua vida, que algo de ruim
no acontea ou que voc consiga o que deseja. Pede isso sem saber que
o poder de realizar seus sonhos est com voc mesmo. Como todos, voc
quer explicaes para tudo a todo o momento e critica as pessoas que
aceitam as situaes de boa f. Como todas as outras, voc debocha das
pessoas que possuem uma f cega e se esquece de que voc tambm
carrega uma. A diferena  que seu Deus  a cincia e que seus milagres
so ligaes inter-atmicas."
                               ~ 141 ~
    - Essas palavras so um pouco duras  comentou a garota  Magia 
uma coisa muito fantstica.  difcil para as pessoas aceitarem sem uma
explicao.
    - Mas  a realidade. - respondeu o garoto  E mesmo assim, no  to
difcil assim as pessoas acreditarem em coisas sem uma explicao.
    - Como assim?
    - Ora Ana, basta se fazer a simples pergunta: Tudo em que acredito,
eu posso provar?
    Ana ficou em silncio pensando na pergunta.
    - A terra gira em torno do sol. - falou  voc pode provar?
    - Mas  assim  rebateu.
    - Eu no disse isso. Eu perguntei: voc pode provar?
    Ana ficou em silncio.
    - O mundo  formado por matrias minsculas e indivisveis
chamadas tomos. Verdade ou mentira?
    - Verdade  respondeu com convico.
    - Por qu?
    Ana olhava espantada para o amigo. O que ser que ele est tentando
fazer?
    - Sei que parece confuso o que estou fazendo, mas faz parte de meu
intento. O que eu estou querendo te provar  que a humanidade no quer
verdades que possam ser explicadas, pois muitas vezes vocs aceitam
conhecimentos que no podem comprovar diretamente.
    Ana ficou pensativa. Realmente fazia sentido o que ele falava.
    - Ento o que a humanidade quer?  questionou retoricamente - A
resposta  simples. Alguma coisa que lhes d segurana. Assim como na
Idade Mdia era a igreja quem provia as explicaes, hoje so os
cientistas. E se todos acreditam neles, por que no acreditar tambm? Por
que contestar algo que todos aceitam ser o certo?  tudo muito simples.
Se a magia no pode ser explicada pela cincia, ento ela no existe. Isso
conforta muita gente.
    Ele fitou os olhos da garota para ver se ela estava acompanhando o
raciocnio.
    - Ento Ana,  continuou   isso o que acontece. Vivemos num
mundo em que acreditamos que nossa querida cincia pode nos dar todas
as respostas. Porm, ela no pode. Ento criamos o nosso ceticismo. Se a
razo no pode explicar uma coisa, ela no existe. Assim se  construdo
o Vu.
    Ele se levantou caminhando em direo a cmoda que ficava prxima
da porta de seu banheiro. Abrindo uma gaveta, puxou dali de dentro um
                               ~ 142 ~
pedao de tecido vermelho e esvoaante e o levou at Ana. Antes que
pudesse se perguntar o que era, ele atirou o tecido que planou no ar at
cair delicadamente em cima de sua cabea, cobrindo-a. Sem se mexer,
Ana fitava o rosto do amigo por detrs do vu. Apesar de tudo estar um
pouco ofuscado, ela conseguia enxergar a expresso de Ian e percebia
que ele esperava que ela chegasse a alguma concluso.
    - O vu.  ela murmurou - ele me ofusca.
    - Exatamente. Quando eu digo o Vu, no estou me referindo a um
pedao de pano no sentido literal da palavra, mas e sim num termo
figurativo, que designa a barreira que separa o mundo real do mundo dos
adormecidos.
    "Assim como o vu guarda o sono das pessoas, impedindo que os
mosquitos perturbem seus sonhos, o nosso Vu, impede que o mundo
catico da magia perturbe seu sono de ignorncia. Mantendo seguro o
seu mundo. Os magos tendem a observar o mundo dessa forma: aqueles
que conhecem a verdade so conhecidos como despertos. Voc, nesse
momento est num processo de despertar. Agora, aqueles que insistem
em no ver, esses so os adormecidos".
    - Esse  o Vu a que eu me referi - concluiu   mais uma metfora,
mas mostra bem a realidade. Assim como o vu tecido, o Vu barreira
tambm no tampa a viso por completo, mas a ofusca. Ele  frgil e
fcil de ser removido. Mas o ceticismo  a nica coisa que o impede de
sair de seus olhos. A descrena nos ofusca ao ponto de vermos milagres
bem na nossa frente, mas no acreditarmos neles. Ento, eu lhe fao
novamente a pergunta: Voc est disposta a atravessar o Vu? Quer
enxergar o mundo como ele realmente ?
    Ana tirou o tecido de cima da cabea e agora podia ver melhor o rosto
do amigo banhado pela luz da noite. Agora que percebia que o quarto
estava com as luzes apagadas, deixando-os banhados pela penumbra.
    - Mas... - tentou expressar a primeira dvida - Como isso tudo
comeou? E quando acabou?  Ana tentava colocar ordem em suas
duvidas para que parecessem ter sentido quando perguntasse, mas era
complicado.
    - Entendo o que voc quer saber - disse o garoto dando mais um gole
no refrigerante  Quando acabou eu respondo, nunca. Quando comeou,
eu digo, no sei.
    Os dois riram da resposta til e ele continuou.
    "Desde os primrdios da humanidade o homem entende que a
natureza pode lhe oferecer poder. No comeo esse poder era visto com
pavor. Era como se fosse uma maneira de Deus intervir na terra sempre
                              ~ 143 ~
quando estava zangado. Eram os fenmenos naturais como as chuvas e
os troves que destruam rvores e assustavam a humanidade".
    "Porm, depois de um tempo, o homem aprende a usar essa energia a
fim de lhe dar maiores chances de sobrevivncia. Assim como ele
aprendeu o cultivo das plantas, gerando a agricultura, e a criao de
animais, criando a pecuria, ele tambm aprendeu a usar as energias que
a natureza tem a oferecer, gerando a magia".
    "Tudo no mundo tem energia. As foras da natureza, as pessoas, os
animais as plantas e assim como o ser humano aprendeu a controlar a
energia da queda da gua para gerar eletricidade, aprendeu muito antes
como transformar uma variedade infindvel de outras foras para atender
suas necessidades."
    Ana abraou as pernas ajeitando a posio para poder ouvir melhor.
Ao notar o interesse da garota, ele continuou.
    "Durante sculos os magos foram se espalhando pelo planeta e 
medida que foram se isolando, comearam a formar suas prprias
culturas, suas prprias regras e suas prprias magias, e assim surgiram as
diferentes Ordens Mgicas".
    "A magia era usada para muitas coisas: conseguir alimento, proteger
a famlia e tambm conquistar territrio. As guerras mgicas aconteciam
na mesma proporo das guerras humanas, ou at mais. Cada famlia ou
grupo mgico queria impor suas ordens, se considerando como nicas
donas da verdade. Infelizmente, quando falamos de guerras, as vtimas
nunca so apenas aquelas que se envolvem no combate. Assim, as
"pessoas comuns" foram pegas no fogo cruzado. S que havia uma
diferena. Ao contrrio de lanas e flechas que causam dano controlado,
a magia quando mal usada, tende a ser catica."
    - Como assim?  interrompeu Ana.
    - Bem. Quando voc usa magia, voc mexe com uma srie de
energias e ultrapassa uma infinidade de leis que controlam o planeta.
Uma variao, por menor que seja, pode causar um distrbio muitas
vezes irreparvel. Lembra-se disso: "Uma coisa to pequena como o
ruflar de asas de uma borboleta pode causar um tufo do outro lado do
mundo "
    - Efeito borboleta  respondeu a garota e Ian deu uma risada.
    - Na verdade eu queria me referir a Teoria do Caos.
    - Ah, claro  corrigiu, corando.
    - O que eu quero dizer  que essa teoria se aplica perfeitamente ao
uso de magia. Quando voc mexe demais com as leis do universo de
                               ~ 144 ~
forma inconseqente, o caos que pode causar no tempo espao pode ser
desastroso. Exemplo:
    "Digamos que eu queira fazer uma magia de controle climtico. E
digamos que esteja muito frio e eu queira trazer um pouco de calor para
este bairro. Se eu no pensar direito e no tiver conhecimentos sobre
como controlar o calor trazido, eu posso acabar tirando temperatura de
uma regio necessitada, que pode vir a causar um distrbio no clima,
gerando seca ou chuvas em demasia, acabando com toda a sua
agricultura. Ou tambm, posso causar um distrbio climtico to grande
que seja capaz de gerar fenmenos como um tornado ou um maremoto.
    - Nossa!
    - Eu sei. E esse foi o principal motivo da queda da magia no mundo.
    Ana resolveu dar um gole no seu refrigerante esperando
pacientemente pelo desenrolar.
    - E foi o que aconteceu. As guerras mgicas chegaram a nveis
terrveis e os estragos nas pessoas e no planeta comeavam a preocupar
principalmente aqueles que no usavam magia.
    - Mas voc disse que qualquer um poderia usar?
    - E pode. Mas isso no quer dizer que todos estejam interessados.
Fazer mgica  uma coisa que exige trabalho e disciplina, qualidades que
nem todo mundo tem.
    - O que aconteceu com isso foi o seguinte: a Inquisio  continuou 
Com toda a guerra entre reinos e tribos espalhadas pela Europa e pelo
resto do mundo, o tabuleiro estava uma baguna, pois cada um tinha seu
interesse. Porm, um determinado grupo conseguiu se organizar.
    "As pessoas normais puderam enfim comear a se unir, pois tinham
um inimigo comum: os magos. Foi ento que Reis, Padres, e Lordes da
poca, conseguiram mobilizar a humanidade e fundar a sociedade secreta
conhecida como os Inquisidores.n Os Inquisidores foram treinados com os
melhores mtodos para exterminar magos e eles contavam com um
exercito realmente numeroso. Ento, soma-se isso a falta de unio entre
as irmandades mgicas no planeta e ainda a grande melhoria da nova
cincia que fez um upgrade nos recursos blicos da poca  em que o
mais promissor foi a plvora  e o que voc tem? Massacre. Houve um
verdadeiro genocdio de bruxos em todo o mundo, principalmente na
Europa."
    "Devido ao isolamento das sociedades africanas e americanas, estas
puderam sobreviver por mais tempo. Mas no perodo da colonizao,
tambm foram dizimadas".
                              ~ 145 ~
    - E o que agente aprende sobre inquisio? Como um movimento da
Igreja para conter as heresias?
    - ,  isso que aprendemos. E isso foi graas  nova frente de ataque
realizada pelos Inquisidores: Agora que derrubamos o inimigo,  hora de
fazer sumirem seus vestgios.
    - Mas como?  Ana replicou  Como  possvel se fazer sumir anos
de existncia?
    - Simples - disse Ian  Esquecendo. Quando a Inquisio chegou aos
seus dias finais e cerca de oitenta por cento das sociedades mgicas
foram dizimadas, ouve um processo do que chamamos de Lavagem
Cerebral, que foi beneficiado por uma srie de fatores.
    "Primeiro, vale lembrar que a grande maioria das sociedades mgicas
foi exterminada, deixando um contingente muito pequeno de magos no
mundo. Esse pequeno grupo, com medo da perseguio, preferiu se
esconder. Logo, sua existncia foi basicamente considerada extinta."
    "Em segundo, com as pessoas acreditando que estavam livres do mal,
resolveram apagar a sua existncia do mundo, a fim de que no
surgissem novas pessoas tentadas a utilizar de artes consideradas to
perigosas. Nesse perodo, os livros e pergaminhos foram queimados,
assim como tudo o que era referente  magia que estava na Terra. Depois
de um tempo, os pais pararam de contar histrias de bruxos para seus
filhos, comearam a ignorar sua existncia e tal processo durou geraes
e mais geraes at que a existncia de magia fosse completamente
ignorada pela atualidade".
    "E por ltimo, o golpe de misericrdia. Apesar de odiar esses caras,
eu tenho que reconhecer a genialidade deles para por um fim a magia. A
deciso de tornar-la algo pblico".
    Ana lanou um olhar interrogativo.
    - Sim. - respondeu achando graa da confuso da garota - Existe um
ditado que se voc quer que uma coisa fique em segredo, a melhor
maneira  espalhando para todos. Pois as pessoas tm dificuldade de
acreditar naquilo que est muito claro na sua frente. E foi isso que foi
feito. A magia foi transformada em algo publico, em uma ferramenta de
entretenimento para as pessoas. Agora voc podia falar de bruxaria
tranqilamente, pois ela estava em todo o lugar, na literatura, nos jogos e
depois, nos filmes Hollywoodianos. E isso funcionou muito bem. Hoje
todos sabem o que so magos, bruxos ou feiticeiros, porm, ningum se
atreve a crer neles. E se voc  diferente,  ridicularizado.  isso que a
magia tornou-se hoje: Uma coisa ridcula. "Apenas Contos de Fadas".
                               ~ 146 ~
   17  Quintessncia.
    Quieta na mesma posio que estava, abraada as pernas, Ana se ps
a assimilar toda a nova gama de conhecimento que lhe chegara. Ela sabia
que tudo aquilo fazia sentido e isso, ao mesmo tempo em que lhe deixava
eufrica, causava-lhe certa apreenso. A cada momento que passava, ela
via seu ceticismo cedendo e sua sensao de culpa por renegar tudo o
que tinha aprendido antes com suas tias, aumentando.
    - Ento Ana  Ian chamou sua ateno  O que voc acha de tudo o
que falei? Acredita ou acha que estou brincando com voc.
    - Entendo tudo o que voc diz.  respondeu - Mas... voc poderia me
dar mais uma demonstrao?
    - No.  o garoto se mostrava decidido  Mas posso te ajudar e dar
essa demonstrao a si mesma.
    - E como eu faria isso?
    - Liberando a sua Quintessncia.
    - Minha o qu?
    - Quintessncia, ou Quinto Elemento,  a energia que guia toda a vida
na terra.  ele comeou em seu tom didtico  Esse termo foi utilizado
por Aristteles para designar a bolsa de energia que forma o universo em
conjunto com os outros quatro grandes elementos: gua, ar, fogo e terra.
Ela pode ter outros nomes como urea ou cosmos, mas eu gosto de
Quintessncia.
    "Essa  a energia que circula no planeta e permite aos magos criarem
suas magias. Ela est contida em tudo no mundo, tanto em matria viva
ou morta".
    Ana fitou o amigo por mais tempo a procura de qualquer sinal
mentira, mas desde que ele comeou a falar sobre magia que esses sinais
no se manifestavam mais.
    - E como eu fao isso?  perguntou.
    - Bem,  muito simples  e deixou o ar de mistrio  acreditando que
 capaz de fazer.
    Ana ficou um tanto perplexa com a soluo encontrada. Ian pareceu
no notar e continuou.
    - Essa energia est presente em todos em forma de uma urea que
circula no corpo do ser. Eu posso ver a sua agora mesmo. Est a
circulando, invisvel para olhos mal treinados, mas est a. Tudo o que
voc tem de fazer  torn-la visvel para voc.
                              ~ 147 ~
    "A maneira no importa. Inmeros magos conseguem fazer isso de
diferentes formas. Pela meditao, pela dana, pela pratica de lutas, mas
voc tem que acreditar fielmente. Essa  a nica condio".
    - Esse  na verdade o primeiro exerccio que um iniciado em magia
tem de fazer: vencer o ceticismo e atravessar o Vu. Liberar a
Quintessncia  a prova mxima de que algum despertou. De que se
est livre do ceticismo.  e completou com um gesto convidativo  Que
tal tentar?
    Ana ficou alguns segundos tentando imaginar como conseguiria fazer
isso. Olhava para o amigo atrs de respostas, mas este mantinha um olhar
avaliativo sobre ela, sem demonstrar nada. Usando a primeira coisa que
lhe passou pela cabea, ela comeou a cruzar as pernas formando a
posio de meditao, mas se sentiu ridcula agindo assim. Olhou para
Ian, mas ele ainda no demonstrava nada. Nem ria, nem mostrava que
estava fazendo certo. Ele s ficava ali, ajoelhado de frente pra ela,
esperando.
    Desistindo de procurar respostas no olhar do amigo ela decidiu
manter a posio e comeou a se concentrar, tentando esquecer o
constrangimento. Tudo bem. Comeou a refletir. Fazer minha
Quintessncia ficar visvel. Como fazer isso? Mas o que diabos  isso
pra comeo de conversa? Como vou saber se estou conseguindo se no
sei o que ?
    Com suas inmeras dvidas, ela ps as mos em forma de cuia em
cima da perna, esperando que o que quer que aparecesse, fosse ali. Bem,
concentrar, concentrar. Ana se lembrava de uma aula de Ioga que teve e
o conselho do instrutor era sempre deixar a mente vazia. No pensar em
nada. Tudo bem. No estou pensando em nada. No estou pensando em
nada. Hei! Isso  pensar. Droga!
    Ela abriu um dos olhos se permitindo uma espiada, mas nada tinha
mudado. Olhou para Ian e ele continuava paciente. Nada ainda. Ela
comeava a achar que no seria capaz. Acreditar. Lembrou a si mesma.
Tenho que acreditar. Mas como vou acreditar em alguma coisa eu nem
sei direito o que ? No sei como  essa energia, no sei como  sua cor
ou forma. Como vou saber se estou tendo progressos?
    Voc simplesmente saber. Falou uma voz no seu interior. Na hora a
garota levou um susto com isso. No por ter escutado uma voz, afinal
isso meio que j fazia parte de sua vida, mas sim por ter reconhecido
quem era o dono dela. Uma voz que fazia anos Ana no escutava. Uma
voz que ela acreditava ter esquecido como era, mas viu que seu
                              ~ 148 ~
subconsciente guardou-a exatamente intacta todos esses anos, como a um
tesouro precioso.
    Ana se concentrou mais para ver se voltava a ouvir Teresa, mas est
se calou. T certo, Acreditar. Decidiu continuar, mesmo abalada. Mas
ainda assim era muito difcil. Apesar de tudo o que presenciava, e de
tudo o que Ian falar fazer sentido, ela no conseguia abandonar uma
ponta de dvida. Acreditar cegamente era muito complicado. No se
dava para evitar se sentir ridcula fazendo isso.
    Ridcula. Essa era a palavra que a perseguia. No conseguia ver o que
estava fazendo como algo que no fosse ridculo. Com certeza seria
constrangedor se algum entrasse naquele quarto aquele momento e a
visse sentada naquela posio. Assim como era ridculo ver algum com
mais de dezesseis anos falando de bruxos e tudo mais. Mas como falar
dessas coisas sem se sentir ridcula? Quando algum podia pensar nessas
coisas sem se sentir ridcula?
    Quando se  louco, refletiu. Infelizmente a opo no era agradvel.
Realmente os loucos tm total liberdade em falar dessas coisas. Eles so
loucos mesmo. Nada do que falem vai mudar sua real condio.
    Seria essa nica forma?
    Ana. Escutou mais uma voz em sua cabea. Era uma voz que Ana
teve a certeza que vinha em seu auxilio. Era a voz que vinha responder 
sua pergunta. Era a voz de Samanta.
    Quando eu tinha minhas tias, concluiu. Esse era o perodo de sua
vida em que ela podia acreditar em tudo o que dissessem sem se sentir
ridcula. Ana j teve a f cega que Ian falava. Ela tinha a f cega em suas
tias. Ela j foi criana. Quando ficou doente e suas tias lhe deram o
remdio de aparncia e gosto horrvel, Ana hesitou em tom-lo? No.
Por qu? Por que suas tias lhe disseram que a faria se sentir melhor.
Quando Ian lhe disse que era um Garow, ela at duvidou, mas quando
suas tias lhe contaram a histria sobre esse cl, ela duvidou? No. Porque
era criana.
    Isso mesmo Ana, acredite. E agora a voz das duas eram bem
presentes na cabea da garota. Elas falavam alto no corao de Ana. E
elas diziam para Ana acreditar. Eram suas tias. Ana no tinha como
duvidar. Podia ser ctica com tudo e com todos, menos com elas.
    E foi ento que ela sentiu um calor abrasar seu corpo. Um calor
agradvel, que a deixou com vontade de tirar o casaco, mas ela no se
mexeu. No sabia que sensao era aquela, mas tinha certeza que, de
alguma forma, estava tendo um progresso. Continuando a se concentrar,
                               ~ 149 ~
sentiu que o calor de seu corpo comeou a se canalizar e se dirigir para as
suas mos.
    Tentando conter a emoo, ela arriscou olhar mais uma vez as mos e
foi ento que, ao abrir os olhos, eles se encheram de lgrimas, pois agora
uma pequena chama arroxeada flutuava sobre elas. Apesar de o fogo
estar bem vivo em suas mos, ele apenas causava um calor agradvel. E
uma sensao de profundo alvio inundou a garota. Ela havia conseguido.
Sabia que tinha.
    Sem poder controlar a euforia, ela ergueu a pequena chama em
direo a Ian, como uma criana que queria mostrar o trabalho bem feito
para um professor. Era a sua urea, sua Quintessncia que estava ali. Sua
prova mxima. E chorou.
    Obrigado, agradeceu silenciosamente. Nesse instante ela olhou para
Ian procurando encontrar seu rosto orgulhoso, mas se surpreendeu ao dar
de cara com suas feies completamente pasmas.
    - O que houve?  perguntou perplexa olhando as feies de Ian.
    -  que... - ele pareceu ter dificuldades em encontrar palavras - Eu
no... imaginei que fosse conseguir to rpido - completou espantado.
    Ana tentou entender o que ele quis dizer com isso.
    - Como assim? Voc me disse para tentar uma coisa achando que eu
no fosse conseguir?
    - Bem... S... sim  falou coando a cabea  No imaginei que voc
fosse conseguir to rpido. Quero dizer... quase ningum consegue isso
to rpido.
    - Ento...
    - S que, - disse recobrando a postura de antes - geralmente quando
so iniciadas em magia, as pessoas tendem a demorar at conseguirem
liberar a Quintessncia com perfeio. Eu imaginei que assim como
todos os outros, voc precisaria de mais tempo. Assim eu queria ver
como seria sua reao quando no conseguisse. - continuou - Como sua
f seria abalada. Mas vejo que no h mais necessidade de test-la.
    - Talvez no - concluiu a garota sorrindo e voltando a admirar a
chama roxa que danava em sua mo. -  linda! - exclamou.
    -  sim  concordou olhando o fogo  fazia muito tempo que eu no a
via brilhar assim. Estava com saudades.
    - Como?
    - Quando nos conhecemos  explicou  sua urea era assim. Viva,
brilhante. Mas ento voc foi deixando de acreditar e o tempo a fez se
apagar gradativamente, at parecer completamente extinta. Era triste de
se ver, mas nesse perodo em que voc deixou de ter f, foi tambm o
                               ~ 150 ~
momento em que voc demonstrava maior felicidade. Apesar de no
gostar, eu tinha que admitir que voc estivesse melhor, mas era to triste
ver seu fogo apagado daquela maneira.
    Ana sorriu.
    - No sei como vivi tantos anos sem isso.  falou  Obrigada.
    - No por isso.  respondeu  Eu disse que estava te devendo. Eu
devia ter te contado sobre mim antes. No devia ter deixado sua energia
se apagar.
    - Mas voc fez isso agora. No foi tarde demais  ela sorriu para o
amigo e ele retribuiu.
    Seus rostos estavam muito prximos naquele instante, colados para
poder ter uma melhor viso da pequena chama arroxeada, porm, agora
que se olharam e perceberam a proximidade de suas faces, ela comeou a
sentir um forte calor em seu peito, que sabia no ter nada haver com o
fogo que segurava.
    E uma vontade de chegar mais a frente lhe tentou, queria encurtar as
distncias sem saber exatamente o porqu em sua cabea. Parecia
simplesmente que aquilo precisava acontecer, no sabia por que. Mas o
garoto desviou o rosto no ltimo instante e se deitou no cho passando a
olhar o teto. Mesmo levemente frustrada, ela se deitou ao seu lado
decidindo ignorar o ocorrido.
    Quando se deitou ao lado de Ian, a chama em sua mo apagou-se
instantaneamente devido  quebra na concentrao, mas a garota no se
importou, pois sabia que poderia conjur-la novamente no futuro. E
assim, deixou-se ficar ali, ainda eufrica com as revelaes. Os dois
ficaram mudos enquanto Ana aproveitava a alegria recm adquirida.
    Sentindo uma leve sede, lembrou-se do refrigerante ao seu lado e o
pegou levando-o  boca, mas s para depois tir-lo, pois estava quente.
Ao ver sua cara de desagrado, Ian estendeu a mo pedindo a bebida que
ela a entregou. Segurando a garrafa com uma das mos, Ana viu uma
pequena bolinha, assim como a sua chama s que de um azul muito
claro, se formar dentro da garrafa.
    - Toma  devolveu Ian  Veja agora.
    Ana provou e o liquido estava gelado. Muito mais que antes. Era
como se estivesse no congelador h semanas,
    - Obrigado. - agradeceu - Mas porque resolveu me dar uma
demonstrao agora.
    - No foi uma demonstrao  corrigiu  Foi apenas um favor. No
preciso mais lhe dar demonstraes, pois voc no  mais uma
adormecida.  uma maga, assim como eu.
                               ~ 151 ~
    Ana sorriu de novo. Estava to feliz e agora estava mais cheia de
dvidas que nunca. Queria perguntar tudo o que pudesse. Todas as
dvidas sobre o mundo de Ian, do qual agora fazia parte. O garoto a
olhou parecendo prever o interrogatrio iminente.
    - Pode comear - encorajou. - Pergunte o que quiser.
    - Bem, assim... se  to simples assim. Porque tantas pessoas vivem
sem saber.
    - Primeiramente  interrompeu levando o dedo  boca da garota 
No  simples. Pra voc foi. Provavelmente voc  uma prodgio.
    - Uma prodgio? - Ana gostou do nome, apesar de no compreend-
lo completamente.
    - Sim.  assim que chamamos uma pessoa que tem aptido nata 
magia.
    Sentindo-se lisonjeada, Ana tentou no expressar seu ego que estava
inflando por dentro como um balo.
    - Seu maior problema foi vencer o ceticismo  comentou Ian,
parecendo querer acabar com seu superego  Mas depois que venceu
isso, conseguiu.
    -  verdade - se limitou a dizer, mas ela ainda pensava com animao,
Eu sou um prodgio.
    - Pois bem,  continuou  respondendo a sua pergunta. No  to
simples ser mago nos dias de hoje. Perdemos vrias batalhas nos ltimos
sculos Ana e ningum  muito tentado a entrar para o lado perdedor.
Hoje somos uma minoria e aprendemos com o passado que magia no 
brincadeira.
    "Hoje em dia escolhemos muito bem aqueles a quem passamos esse
segredo.  muito perigoso espalhar isso pra todo mundo. At porque a
inquisio ainda no acabou."
    - Srio?
    - Bem, os inquisidores venceram a guerra exterminando vrias
Irmandades Mgicas e hoje sua principal funo  garantir que no
voltemos.  e continuou com um ar sombrio  Enquanto existirem magos
no mundo eles existiram.
    - Mas quem so eles?
    - Eles no so tudo, mas esto em toda a parte. Eles fazem parte de
um grupo seleto com sedes em quase todos os pases do mundo. Sua
principal funo  garantir o extermnio das ltimas sociedades mgicas
e manter a magia presente apenas em literatura de fico.
    - E como eles fazem isso?  Perguntou.
                              ~ 152 ~
    - Espalhando pessoas nos principais setores estratgicos do mundo:
eles so agentes do governo, pessoas das foras armadas, agentes
secretos, entre outros. Eles so banqueiros, cientistas, homens da
imprensa. Eles esto no controle do mundo. E esto alerta para qualquer
deslize nosso para... - e com a mo em forma de lamina, Ian simulou uma
guilhotina  Zap!
    Ana estremeceu.
    - Por isso no  seguro nos espalharmos muito. - explicou   por isso
que escolhemos muito bem a quem podemos ajudar a atravessar o Vu e
muito mais ainda a quem podemos tomar como discpulos.  bem melhor
ter alguns poucos peixes competentes no cardume do que vrias iscas de
tubaro.
    Discpulo? Ana sentia uma expectativa muito grande no rumo do
assunto, mas no queria se apressar.
    - E ainda possuem outras complicaes alm dos Inquisidores. -
comentou.
    - Como quais?
    - Bem  disse ele se levantando para poder gesticular melhor
enquanto explicava  Como eu j disse, magia tem uma tendncia ao
caos, certo?  Ana confirmou com um gesto de cabea  Assim, muitos
magos no esto psicologicamente prontos para us-la e muitos ficam
loucos com tanto poder em suas mos. Ns os chamamos de Caticos.
    "Os caticos so magos que foram corrompidos pela magia de tal
forma que perderam a completa noo das coisas. Eles tendem a gerar
baguna por onde passam.
    "Eles foram os principais responsveis pelos desastres que
acometeram a Idade Mdia. Incluindo a Peste Negra".
    - A peste negra foi fruto de magia?  Ana se levantou ficando frente a
frente com Ian.
    - Sim  respondeu o garoto  Guerra biolgica no  coisa de hoje. A
peste negra era um projeto de arma mgica que tinha como funo bsica
criar uma forma de vida com uma simples programao: a de instalar
num hospedeiro, destru-lo e se espalhar para outro. No me lembro do
mago responsvel por sua criao, mas independente de quem fosse,
perdeu o controle quando as pulgas que estudava escaparam. Da o caos
se instalou e o resultado voc j sabe.
    - Dois teros da populao europia faleceram. - completou Ana.
    - Sim. Por sorte, a cura pode ser encontrada antes de um genocdio
em massa. Mas o importante disso  saber o porqu dos magos atuais
                               ~ 153 ~
preferirem trabalhar com poucos discpulos.  maior garantia que no
venham a ficar desgarrados e se tornarem corrompidos pela magia.
   - Entendo.
   - Mais alguma dvida?
   - Vrias.  Ana viu que Ian parecia animado em explicar todas
aquelas coisas  garota, por isso tentou arriscar  Est a fim de me
explicar?
   Ele se levantou e estendeu a mo para a garota oferecendo ajuda a
para ela o seguir.
   - Claro! - disse  Mas estou com fome, ento vai ser enquanto
comemos.
   - Por mim tudo bem - disse Ana enquanto pegava a mo de Ian. No
queria falar, mas tambm estava morrendo de fome.
                            ~ 154 ~
18  A Bssola de Ins.
    O telefone chamou uma, duas, trs vezes at que ngelo pode ouvir a
voz do Frade.
    - Al.
    - Frade Henrique! Aqui  ngelo. Eu queria falar com o bispo.
    - Ele no pode atender no momento ngelo. - informou o frade - Est
descansando. O bispo teve uma noite muito longa e tem compromissos
de manh cedo.
    ngelo mordeu o lbio inferior de aflio. No queria ser
inconveniente, mas a situao pedia.
    - Ser que no  possvel cham-lo. Diga-lhe que tenho uma teoria
quanto ao sonho dele.
    - ngelo - o tom de voz do frade era de um sarcasmo controlado -
Estamos trabalhando nisso. No se preocupe com coisas que vo...  ele
escolhia as palavras - alm de sua capacidade. Deixe isso pra ns e se
limite a responder ao chamado do Bispo, como combinado. Csar est
muito cansado depois de atender a uma reunio muito importante.
    - Mas...
    - J chega ngelo!- cortou o homem - Mas ser que voc no sabe
seguir ordens?  e desligou deixando o garoto falando sozinho.
    Ao escutar o som da chamada cancelada ele se revoltou batendo o
telefone no gancho. Cara, eu to comeando a odiar esse maluco. ngelo
queria contar sua teoria para o bispo, mas maldita hora em que quem foi
atender foi o frade. A cada segundo o desgosto por Henrique aumentava
no peito do garoto.
    No sabia por que, mas aquele homem resolveu tomar implicncia
por ele. Queria s dizer o que veio a sua mente. Uma Possesso
Incubada, ele pensou. Chegara a essa concluso aps ler o livro e se
lembrando de uma aula que teve com Csar. De acordo com o que
lembrava, alguns demnios tinham a capacidade de se alojarem dentro de
um hospedeiro para s despertar anos mais tarde. Nesse caso, as vtimas
eram sempre embries, que dentro da barriga da me, recebem a alma
demonaca.
    Nesses casos, a criana nasce normalmente e tem uma vida comum,
at que se chega a certa idade  que  varivel, dependendo do caso  e a
alma do ser toma todo o corpo e assim, o imortal est livre para andar
pelo mundo. Normalmente os demnios usam esse tipo de prtica
quando h um pacto pr-estabelecido com alguma pessoa  geralmente
bruxos  que entregam seus filhos antes de nascerem em troca de algum
                              ~ 155 ~
favor. Ou quando, por algum motivo, querem garantir sua vinda numa
hora para eles mais apropriada.
    Em geral, a Possesso Incubada tente a ser mais forte que a comum,
j que o grau de ligao entre hospedeiro e alma  mais forte, j que se
d desde o tero materno.
    Fazia sentido, concluiu. ngelo lembrou-se da interpretao de
Cassandra sobre o sonho dizendo da iminncia do surgimento do
demnio. Se fosse uma Possesso Incubada, deveria ser o caso de estar
perto do momento em que o demnio acordaria por dentro do corpo de
seu hospedeiro.
    Devia ser isso, mas o que ele mais queria no era apenas contar isso.
ngelo tambm havia pensado numa frmula para localiz-lo: a Bssola
de Ins. Conta-se a lenda que Ins foi uma grande maga nascida na Itlia
e que preocupada com a perda de seu filho, usou de todos os meios
mgicos para localiz-lo. Depois de muitas pesquisas e tentativas
frustradas Ins conseguiu realizar uma magia de localizao to poderosa
que no poderia ser mantida atravs do corpo do mago, sendo necessrio
o uso de algum artefato para tal feito.
    Tal magia consistia no uso de um objeto mgico para se localizar
outro mago ou criatura mgica qualquer atravs de seu padro de
energia. Com uma amostra de Quintessncia, seria possvel se criar uma
bssola que indicasse a direo do dono da energia utilizada. Era uma
soluo um tanto bvia, mas que podia dar certo. E ngelo tinha as duas
coisas de que precisava: Um artefato, que era a sua cruz e a energia do
demnio a ser localizado.
    O garoto se lembrava bem do sonho do Bispo e da energia que sentia
sendo emanada dele. Aquilo s podia ser seu padro mgico. s vezes as
coisas que esto na nossa frente so aquelas que mais temos dificuldade
de enxergar, no sabia de onde veio esse ditado, mas cabia bem no
momento.
    Talvez o bispo ficasse impressionado com tal idia. Gostaria que sim.
Tinha muito a agradecer a Csar por tudo o que fez a ele. E, alm disso,
tambm tinha uma louca vontade de jogar sua descoberta na cara do
frade. Alm de minhas capacidades, Ele vai ver. E ignorando a ordem de
Henrique, decidiu ir para a igreja mesmo sem ser chamado.
                              ~ 156 ~
   19  Mestre.
    A chuva parecia no querer cessar naquela noite e continuava a
agredir com fora o Rio de Janeiro. Porm, protegidos dentro da Casa de
Ian, os dois pouco se importavam com ela e naquele momento estavam
mais interessados em encher o buraco de seus estmagos do que com a
tormenta que caa. A passagem pela cozinha foi rpida e logo eles
subiram com seus sanduches, Ana com um e Ian com trs.
    - Tem certeza que no vai sentir fome?  advertiu o garoto.
    - Nem todos ns temos um buraco negro no estmago. - lembrou a
garota.
    - Voc quem sabe - e saram da cozinha.
    E foram subindo a passos largos at voltarem ao quarto. Ainda
estavam sozinhos em casa, mas era melhor no serem surpreendidos
quando os pais de Ian chegassem e ouvissem historias to malucas
quanto aquelas de que estavam tratando.
    Chegaram em cima e no falaram mais nada, aproveitando o tempo
para matar a fome. Ana se sentiu mais aliviada ao notar o ar de
descontrao do garoto. Era como se um peso tivesse sado dele e agora
tudo corria muito bem. Eles tinham recuperado a intimidade e podiam
falar sobre todos os assuntos um com o outro de novo. Odiava esconder
coisas de Ian e odiava ainda mais que ele escondesse coisas dela.
    Na verdade, ainda tinha uma coisa que ele ainda no havia contado.
Ela se lembrou de Solange e sentiu uma pontada de raiva que quase lhe
tirou o apetite.
    - Ian  chamou.
    - Fala.  respondeu depois de engolir um pedao generoso de po.
    - Tem mais alguma coisa que voc queira me contar?
    - Como assim?
    - Sei l. - tentou dar pouca importncia  Algo que eu no saiba e
que precise saber?
    Ele ficou em silncio e Ana sentia que tinha tocado num ponto
importante. Havia alguma coisa e ela aguardou mais um pouco enquanto
Ian fitava o cho, evitando olh-la nos olhos.  to serio assim?
Comeou a se questionar.
    - Eu disse que vou responder s suas perguntas  ele falou   s voc
perguntar  e deu mais uma mordida sem vontade.
    - T bom  queria perguntar logo, mas sentiu-se envergonhada com a
reao que havia causado. No queria perturb-lo com suas neuras. At
porque isso no era da conta dela. Pensando mais em algum outro
                               ~ 157 ~
assunto, lembrou-se do beijo que deram na piscina. Da intensidade, do
desejo em seus olhos. E to rpido quanto vieram, essas imagens foram
expulsas da cabea da garota. E continuou vasculhando a sua mente atrs
de novas questes.
    E como no vinha nada de novo na cabea, aproveitou para continuar
comento enquanto deixava a cabea viajar atrs de novas dvidas.
Enquanto mastigava, Ana percebeu que havia subestimado a sua fome.
Estava acabando seu sanduche e sentia que precisava de outro, at que
notou um dos lanches de Ian no prato. O garoto estava muito focado
fitando o nada, com certeza ainda pensando no que ela havia falado. Mas
o que importava agora para a garota era que ele focava tanto no nada que
nem prestava ateno no pobre sanduiche que ficara preterido no prato.
Talvez tivesse perdido a fome. E sentiu que um diabinho soprava essas
coisas a seu ouvido.
    Ento, quando Ian finalmente terminou e voltou  ateno ao prato,
seus olhos bateram de cara no vazio. Ele engoliu as pressas o ltimo
pedao que tinha na boca e soltou uma exclamao:
    - Hei! Porque voc no pediu mais um?
    - Foi mal  se desculpou as pressas enquanto tentava parar de rir para
no se engasgar com o sanduche de Ian  No pensei que estivesse com
tanta fome. O garoto conseguiu sorrir em resposta embora olhasse para o
prato sentindo a falta que aquele ltimo sanduche iria lhe fazer.
    - Bem - comeou Ian limpando a boca  Que tal continuarmos?
    Ele havia recuperado o humor
    - Por mim tudo bem.
    - O que mais voc quer saber?
    Tirando Solange da cabea, Ana queria comear a perguntar sobre
suas tias e principalmente o que aconteceu a elas, mas achou que eram
perguntas pesadas demais para comear. Ainda sentia tristeza quando
falava delas.
    - No sei... - disse contemplativa  que tal me falar sobre alguns
mitos?  props.
    - Como? - interrogou o garoto.
    - Bem...  comeou a pensar  Cruzes! Bruxos so repelidos com
cruzes?
    Ian achou graa da pergunta, mas respondeu o mais srio que
conseguiu.
    - Mito. Pelo menos no da maneira como est pensando.
    - Me explique  pediu interessada   que as lendas falam disso. 
argumentou.
                               ~ 158 ~
    - Bem  comeou a olhando nos olhos - No existe nada demais no
smbolo da cruz que faa um mago ou bruxo recuar. No somos criaturas
demonacas e por isso no precisamos tem-las. Mas existem algumas
coisas que ajudaram a criar-se esse mito:
    "Primeiramente, voc tem que lembrar que a Igreja foi a lder do
processo de Inquisio. Processo esse que exterminou milhares, para no
dizer milhes, de magos no mundo inteiro. Com o passar dos anos, era
bvio que o smbolo da Igreja passasse a ser temido pelos praticantes de
magia. No porque ele tivesse alguma forma de nos esconjurar, mas sim
porque ele significava um smbolo de morte para os de nosso grupo".
    "O que os magos sentiam quando viam alguma cruz era o mesmo que
sentia os judeus ao vislumbrarem a Cruz Sustica do nazismo. A certeza
de que morreriam. E at hoje esse smbolo ainda guarda esse estigma, j
que os inquisidores ainda usam a cruz, como emblema oficial".
    "Em segundo, podemos dizer que a prpria cruz nem sempre foi
apenas um smbolo de adorao, e sim uma arma. Existe um tipo de culto
mgico ligado aos setores ultraconservadores da Igreja que se nomeava
de a Ordem dos Iluminados. Esse grupo foi um dos pioneiros na luta
contra as outras irmandades mgicas do planeta, alegando que estas
obstruam a ordem no mundo".
    "Esse grupo desenvolveu uma forma de utilizar alguns metais que
possuem capacidade de absorver prioridades mgicas. No sei que
espcies de metais so. Isso  um segredo dividido apenas entre os
membros da ordem.  Mas o importante  que eles eram especialistas em
criar armas mgicas. E em homenagem a seu culto, a arma preferida
deles era justamente a cruz. Uma estratgia que foi muito til, pois se
tratava de um armamento facilmente disfarvel. O que  importante
entender nesse caso  que muitas vezes quando um clrigo erguia a sua
cruz contra um membro, nem sempre ele estava mostrando apenas um
smbolo e sim uma arma."
    - Mas est Ordem dos Iluminados era tambm uma irmandade
mgica? Ento porque eles lutaram tanto contra outros magos?
    - O objetivo deles no era acabar com a magia no mundo, mas sim
com as guerras mgicas e estabelecer uma ordem suprema. Com eles no
poder logicamente. Os conhecimentos que eles obtinham eram de muito
valor para a Inquisio e isso lhes valeu uma aliana com os Inquisidores
que durou sculos.
    - E o que aconteceu depois?
                              ~ 159 ~
    - Como j era previsto por quase todos, os Inquisidores no
poupariam nem seus aliados na hora de exterminar a magia no mundo e
assim, os Iluminados tambm entraram para a lista negra.
    - Bem feito - Ana j esperava por esse fim, dando de ombros.
    - Pode at ser. - concordou Ian com algumas dvidas - So traidores,
mas mesmo assim so muito poderosos. Seriam teis para ns se as
irmandades mgicas no fossem to relutantes em tentar dar um voto de
confiana.
    - Eu no sei se eu poderia confiar neles novamente.
    - Sei que  difcil. Mas estamos numa guerra, e nela aliados so
melhores que inimigos. Sem falar que hoje esse grupo est totalmente
isolado. As circunstncias poderiam faz-los se aliarem a nossa causa.
    Ana acabou agora de comer seu sanduche e pensou na prxima
pergunta:
    - Ento quer dizer que aquele papo das bruxas terem pacto com o
diabo  mito?
    - No.
    - No?
    - No  repetiu - Existe uma classe de magos que no adquirem seus
poderes atravs do esforo, ou no totalmente atravs dele. Esses so os
bruxos. So mgicos que garantem seus poderes atravs de Pactos com
outros seres. Esses so classificados como bruxos, assim como suas tias.
    - Voc est querendo me dizer que...  Sem perceber, Ana deixou que
sua voz se elevasse alguns oitavos, pois no podia acreditar que Teresa e
Samanta tinham pacto com alguma coisa ruim.
    Porm, antes que pudesse completar a frase, Ian ps o dedo na sua
boca, impedindo-a de continuar.
    - Calma  pediu  Me deixe explicar. Existem vrios tipos de
nomenclaturas para os mgicos no mundo.
    E vendo que a garota se acalmava, ele continuou:
    - Magos so aqueles como eu, que so especialistas em mgicas
ofensivas. Isso no me impede de saber outros truques, mas minha
educao foi feita para o ataque e a defesa.
    "Feiticeiros, so aqueles especialistas em mgicas de controle da
mente. Eles conseguem somar o poder de persuaso s suas magias. 
muito comum se ter feiticeiros andando pelo mundo com caravanas de
circo ou grupos ciganos e geralmente no so bem vistos, por serem
considerados pouco confiveis"
                              ~ 160 ~
    "Seguindo uma linha da feitiaria, temos os Ilusionistas, que so
aqueles que conseguem alterar parcialmente a realidade. Pelo menos
alter-la para os cinco sentidos de suas vtimas.
    "Necromantes so os magos especialistas em mortos. Espritos,
cadveres e exumao so seus tpicos favoritos.
    "E Bruxos, so aqueles que adquirem seus poderes atravs de pactos
com outras entidades.  Demnios so os mais comuns".
    Ao notar a boca da amiga se abrindo ele fez mais um movimento para
que ela se calasse e continuou como se nada tivesse acontecido.
    - Mas no so os nicos.  completou rapidamente - Tambm existem
outros tipos de pactos e Magos que utilizam deles so conhecidos
especificamente como Druidas. Druidas so aqueles que recebem seus
poderes dos espritos ligados  natureza. So pessoas que gostam da vida
ao ar livre e so grandes conhecedores de feitios naturais e remdios
baseados em ervas.
    - Isso faz o perfil das minhas tias - comentou Ana com um tom mais
autoritrio, como se Ian no fosse acreditar nela.
    - Eu sei - ele respondeu  Pelo que voc me contou  isso mesmo.
Elas provavelmente conheciam os espritos que habitavam as matas
prximas de Trs Coraes.
    Ana se sentiu mais calma e at sentiu um pouco de constrangimento
por ter explodido antes. Mas Ian no perecia ter se importado. Tantas
dvidas ela tinha. Era incrvel como Ian, com seus dezesseis anos apenas,
soubesse tanta coisa e conseguisse passar to bem. Comeava a admirar
esse lado.
    Ian o professor. Ser que isso a tornaria Ana a aluna? Sim, mas aluna
ao ponto de ser uma discpula? Tomara. Seria bom ter ele como um
mestre, afinal, Ian j a estava ensinando tanta coisa. E ela voltou a sentir
a animao de antes.
    Aprender com um Garow. Pensou animada. Sem querer estava
realizando um sonho, ou at uma promessa que havia feito para suas tias
na ltima noite em que as viu. E foi pensando nisso que se lembrou da
maior dvida que tinha na vida e que nem passara por sua cabea durante
o interrogatrio. Que momento melhor que esse para descobrir um dos
maiores mistrios do mundo mgico?
    - Meu cl, por exemplo  continuava Ian sem perceber os devaneios
da garota   um cl de magos, mas tambm de necromantes. Apesar de
nossa vinculao com a natureza, essa era mais uma forma de vida do
que um pacto real com os espritos do local. Muita gente acreditava que
por termos uma afinidade com os lobos da regio e por podermos
                                ~ 161 ~
controlar o clima gelado, isso era um presente das entidades do gelo. Mas
no, era fruto de trabalho mesmo  completou cheio de orgulho.
    Garows. Como desapareceram? E como Ian sobrevivera? Seus pais
tambm eram Garows? Ento porque apresentam caractersticas to
diferentes dos demais de seu grupo? Eram tantas dvidas dobre ele.
Resolveu tentar:
    - E voc?  comentou animada  Por que no me conta um pouco da
sua histria e do seu cl?
    Ana no poderia explicar o que tinha acontecido de errado naquele
momento. Ela no sabia como, mas era como se toda a leveza do local,
todo o clima amistoso, tivesse sido tragado para longe do quarto. A
expresso de Ian, que era at ento de animao, comeava a demonstrar
um profundo pesar. Ele fitava o cho como se estivesse envergonhado,
sem coragem de olh-la nos olhos.
    Agora, a chuva voltou a se tornar presente no local quando o nico
som ouvido foi o de sua gua e seus troves castigando a Vila da Penha.
    - Eu fui mesmo um idiota em pensar que voc no faria essa
pergunta, no  mesmo?  comentou Ian com um sorriso desolado
olhando o cho.
    Mesmo curiosa com tal reao, Ana comeava a se arrepender de ter
feito a pergunta. Talvez fosse melhor mudar de assunto, pois aquela
mudana de humor era opressora e o silncio que se ficou entre eles,
insuportvel.
    - Esquece Ian, no precisa...  tentou consertar a garota, mas em nada
adiantou.
    - Ana  disse levantando o rosto e encarando a garota  Desculpa.
    - Por qu?  Ana tentava forar um sorriso, mas a expresso desolada
do amigo a impedia.  Voc no fez nada.
    - Fiz sim. Escondi de voc uma coisa muito importante e te coloquei
em perigo.
    Perigo? Ana tentava entender o que ele dizia quando sua mente a
levou instantaneamente para a noite do primeiro beijo. E foi quando lhe
veio a imagem dos olhos azuis. Olhos desejosos, olhos com certa dose de
fria. Lembrou-se de como Ian havia ficado perturbado, de como ele
tremia, como tinha fugido dela. Teria algo haver com aquilo? Tinha
certeza que sim.
    - Ian, no precisa me contar se... - tentou argumentar, mas ele
continuou como se ela no existisse.
                               ~ 162 ~
    - Preciso sim. Ana, voc no sabe com quem estava lidando todos
esses anos e foi apenas meu egosmo quem me impediu de contar tudo
antes. Eu tinha medo que voc nunca mais quisesse ficar comigo depois
de saber a verdade. Tinha medo que voc me olhasse com medo ou
desprezo, assim como todos fizeram depois que souberam e... - ele
falava rpido demais. Dava para ver a nsia dele em tentar se justificar e
Ana comeou a ficar assustada.
    No estava acostumada a v-lo assim.
    - Ian, chega!  agora foi a vez de Ana tampar a boca do garoto - Eu
no estou entendendo nada do que voc est falando.
    Ele conseguiu se calar por um segundo e Ana esperava que Ian
conseguisse dar clareza ao que dizia. O que poderia ser to horrvel
assim que lhe causasse tanta mudana?
    - Ana  ele se recomps antes de continuar  eu s quero dizer que
sinto muito. Eu lhe escondi uma coisa muito importante e que... Se voc
no quiser falar mais comigo depois disso, tudo bem eu...
    - Ian  interrompeu Ana de novo.
    - Quando eu terminar voc vai poder entender algumas coisas sobre
mim. Na verdade muita coisa. Do porque eu no ter lhe contado tudo
antes, ou do porque eu ter lhe evitado no sitio.
    Ana sentiu seu corpo estremecer. Ento era isso mesmo.
    - Vou lhe contar minha histria como voc pediu. Afinal, eu lhe
prometi contar tudo o que voc quisesse saber. Ento... L vai.
                               ~ 163 ~
   20  Jogo perigoso.
    ngelo chegou ofegante  Igreja da Iluminao. Foi uma bela corrida
de sua casa at ali e a chuva o deixara completamente ensopado, mas o
importante era que agora podia continuar com seu plano. Eram onze da
noite e provavelmente apenas o bispo estaria ali. Ele era o nico que
passava a noite na igreja e nem mesmo o frade ficava at tal hora, pois
Csar proibia alegando que sua sade ainda no necessitava de uma
enfermeira de planto vinte e quatro horas.
    Melhor assim, sem o frade ele teria mais liberdades dentro da igreja.
Aquele homem comeava a irritar tanto o garoto que ele comeou a
lamentar o bispo ter chegado a tempo e impedido seu confronto. No
tinha certeza se venceria, mas gostaria de ter tentado.
    Mas no tinha tempo para ficar se indignando. Ento, correu para o
quadro atrs do altar e abriu a passagem que dava para a sala secreta do
bispo. Chegando l, o local estava iluminado por uma nica luz prpura
que vinha de dentro da lareira e o nico som que vinha de dentro da sala
era o do sonho do bispo.
    Acertei. O bispo estava obcecado com aquele sonho.
    Agora que ngelo sabia de tudo, Csar no se incomodava mais em
deixar aquela reproduo do sonho na lareira vinte e quatro horas por
dia. Da distncia da entrada da cmara, ngelo j sentia a energia
emanada mesmo naquela reproduo. A criatura era assustadoramente
poderosa. Seus pelos se arrepiavam todos s ao se aproximar.
    Segurando com firmeza seu crucifixo, pronto para recolher um pouco
daquela energia emanada pelo beb deformado, ngelo avanou, quando
uma coisa chamou sua ateno. Num sof, no canto da sala, ele viu um
volume coberto por uma colcha xadrez. Ao se aproximar um pouco, viu
que algum dormia ali e ao observar o tamanho do volume, sabia que se
tratava do bispo. ngelo queria falar com ele, mas notando seu sono
profundo decidiu continuar sem ele.
    Por que est dormindo aqui?
    Ignorando aquele fato, ngelo se aproximou da lareira at chegar a
uma distncia boa e apontou a seu crucifixo para a chama, sussurrando
algumas palavras em latim com os olhos fechados. Foi ento que, ao
abrir novamente os olhos, ele pde ver a urea negra flutuando das
chamas at a ponta de seu crucifixo. Estava completa a magia e a ponta
de sua arma comeou a se tornar negra como a energia emanada.
    Perfeito, agora era s levar para casa e ali ele terminava o
encantamento da Bssola de Ins. Amanh poderia comentar com o
                              ~ 164 ~
bispo sua idia. Mas ao se virar ele acabou esbarrando na mesa ao seu
lado fazendo um cinzeiro de vidro cair e se espatifar no cho. ngelo
fechou os olhos, j escutando previamente as reclamaes que o bispo
lhe daria. Primeiro, por ter o acordado, segundo, por ter quebrado o
cinzeiro e terceiro, por ter vindo sem autorizao.
    Mas nada aconteceu e o garoto voltou a abrir os olhos e viu que Csar
se mantinha na mesma posio, sem nem ao mesmo ter se abalado com o
barulho. Estranho. O bispo era famoso por ter um sono to leve quanto o
de um cachorro. Como ele no acordou?
    Agora a curiosidade de ngelo comeava a se transformar em
apreenso e foi com ela que ele se achegou ao leito do bispo, sacudindo-
de leve.
    - Bispo.  dizia em um tom moderado  Mestre! Acorde.
    Ao toc-lo, ngelo sentiu que sua pele estava demasiadamente
quente. Preocupado, ele levou os dedos indicador mdio aos olhos,
tocando-os de leve. Aps retir-los, pde ativar sua viso da urea e ao
olhar para o bispo novamente, seus olhos estavam dominados pela cor
branca onde no mais se podia reconhecer nenhuma ris ou pupila.
    Ao encarar o bispo, o garoto levou um susto ao notar que a urea do
bispo se encontrava muito fraca, apresentando vrias pequenas chamas
prateadas quase se extinguiam no corpo de Csar. Fracas como estavam,
parecia que se apagariam a qualquer momento e ngelo comeou a se
alarmar achando que ele estava morrendo.
    Porm, com uma boa olhada, pde perceber tambm que sua urea se
mantinha estvel Muito fraca, porm estvel. O que considerava que ele
no estava em risco de vida, mas sim muito cansado.
    O que ele fez para estar to fraco? E foi ento que se lembrou da
doena. Doa pensar nela. Era incrvel como uma mera enfermidade
podia por abaixo um dos homens mais poderosos que j conheceu.
    Apiedado, ngelo o cobriu melhor com a manta xadrez, para proteg-
lo do frio que conseguia adentrar as grossas paredes do Templo. Agora,
seu olhar, j de volta ao normal, passou para o cinzeiro cado no cho
aonde, agora percebia, tambm havia inmeras pontas de cigarro cadas.
    Que sujeira. E se recolheu para limpar. Mas aquilo era de um tanto
estranho tambm, pois o garoto sabia que nem o bispo nem o frade
fumavam. Ento eles haviam recebido visitas. Mas de quem? Henrique
falara que Csar estaria descansando depois de uma longa reunio, mas
quem teria a permisso de Csar de fumar ali dentro? Provavelmente
algum muito poderoso ou interessante demais para ser expulso para
macular aquele lugar com o cheiro insuportvel de tabaco.
                              ~ 165 ~
    Curioso, o garoto ficou aflito por, mesmo acrescido ao grupo, ainda
desconhecer tantas coisas que ocorriam. Por que todos escondiam as
coisas dele? Porque ele no podia saber que teriam visitas?
    Mas o que mais lhe preocupava agora era o bispo. Parecia to
vulnervel naquele estado. Vasculhou o lugar  procura dos remdios e
viu que o pote estava em cima da mesa onde antes estava o cinzeiro.
Abriu e pegou um comprimido que o frade Henrique preparou. Era
intil, pensou consigo mesmo. O prprio frade disse que isso no o
salvaria. Servia apenas para aliviar sua dor.
    E colocou a plula no bolso da cala se sentindo desolado. No se
podia fazer nada por ele. ngelo comeava a sentir uma tristeza
misturada com a sensao de impotncia. Se pudesse fazer alguma coisa
por ele pelo menos. Mas ainda tem a sua misso, concluiu. Sim. A
misso que o tanto o Bispo quanto Frade Henrique queriam concluir. A
ltima atitude do bispo antes de falecer.
    A misso pela qual ele estava se arriscando enquanto queria manter
ngelo seguro. Agora, mais do que nunca, o garoto se sentia envolvido.
Tinha que continuar e tentar resolver esse caso antes que... antes que...
no queria pensar.
    Ele deu um beijo na mo do mestre pedindo sua beno em silncio e
correu para terminar de arrumar a baguna que tinha feito. Ainda estava
intrigado com as cinzas pelo cho, at que notou que alm do cinzeiro e
dos remdios, havia tambm um terceiro item em cima da mesa. Era uma
espcie de livrinho, com capa de couro negro que lembrava muito uma
bblia de bolso. Depois de limpar a sujeira e se desfazer do cinzeiro, ele
voltou sua ateno para o pequeno livro. Ao abri-lo, seus olhos se
arregalaram.
    Era um caderninho onde continham uma lista de nomes e nmeros de
telefone e que ngelo reconheceu a letra erudita do frade Henrique
escrita nele. O caderno de contados do frade. ngelo sabia que o frade
Henrique tinha uma srie de contatos espalhados pelo mundo em
diferentes organizaes mgicas e tribos perdidas. Durante sua
juventude, o frade Henrique foi responsvel por uma srie de trabalhos
diplomticos e de espionagem em nome da Ordem dos Iluminados,
conseguindo ao longo dos anos uma srie de informantes que ele
mantinha guardados seus dados naquele caderno.
    ngelo s deu uma olhada naquele livro umas duas vezes em sua
vida. O frade era muito ciumento com relao a ele. Para Henrique,
aquela agenda devia ser to importante quanto  bblia. ngelo no sabia
como Henrique poderia esquecer uma coisa dessas ali.
                               ~ 166 ~
    Folheando as pginas, ele encontrou o nmero de Cassandra, a cigana
que ngelo vira quando vasculhava o passado daquela sala. Tambm
notou um nome estranho  Rauch  que passaria despercebido por ele
se no fosse uma anotao que vinha ao seu lado  Inquisidor.
    ngelo apostava tudo o que tinha como era com esse tal de Rauch
que o bispo mantinha contatos com os Inquisidores, j que era o nico
nmero da lista que continha essa anotao. Os demais vinham com
citaes de outros grupos mgicos espalhados pelo mundo.
    Ele limpou as mos sujas de cinzas antes de tocar na pgina, quando
de repente uma coisa lhe saltou a mente. Rauch. Ele sabia o que aquilo
significava. Era o alemo para fumaa. Fumaa. Ele olhou de novo para
onde antes estava o cinzeiro e as palavras do frade lhe voltaram na
lembrana.
    Csar est muito cansado depois de atender a uma reunio muito
importante.
    E se esse Rauch fosse o responsvel por todas essas guimbas de
cigarro ali espalhadas? Eles haviam atendido a um Inquisidor ali? Bem
na sede da Igreja da Iluminao? Aquela igreja era a menina dos olhos
do bispo, ele no poderia ter feito isso. E onde estava o frade? Porque
sara sem o seu caderno? Ele sentia que alguma coisa estava errada.
Muito errada. E foi ento que a mesma sensao incomoda o acometeu.
Havia algo que ele deixara passar?
    Estariam em perigo? Teria acontecido algo? E o bispo? Onde estaria
o frade naquele momento? Por que deixar o bispo naquele estado? Por
que deixar seu caderno ali?
    A cabea do garoto ameaava explodir a qualquer momento devido
ao estupro que as questes promoviam em sua cabea. Sentindo-se tono,
ele resolveu sentar num bando prximo e organizar seus pensamentos.
Alguma coisa estava estranha. Ele podia sentir. E foi quando se lembrou
das palavras de Cassandra.
    Em todos esses momentos so nossos sentidos captando as energias
que circulam pelo universo. Porm, geralmente s percebemos aquilo
que os nossos cinco sentidos captam e nos esquecemos de outro sentido
que tambm faz parte de cada ser: a intuio.
    ...
    A intuio  o sentido humano que est mais intimamente ligado a
essa vibrao das energias no mundo. Mas ela fica constantemente
subjugada pelos demais, que a impedem de agir.
    ...
                              ~ 167 ~
   Esse sentido tende a ficar incubado na maioria dos seres humanos e
basicamente s se manifesta, em casos extraordinrios, como quando
temos algum pressentimento ruim.
    Ah, para com isso. Ordenou a si mesmo.
    O que estava acontecendo? Nunca fora assim. Que idia era essa de
ficar to perturbado? Tinha que se acalmar. Havia ouvido aquela mulher
demais e agora comeava a ficar meio biruta tambm. Deve haver uma
explicao lgica.
    S porque o nome Rauch significava fumaa no quer dizer que a
pessoa que esteve aqui seja ele. Embora fumaa fosse um bom codinome
para algum capaz de tragar tantos cigarros numa conversa, o bispo
jamais permitiria uma reunio com um Inquisidor dentro de sua Igreja.
    E acabou rindo nervosamente de sua concluso, agora um pouco mais
calmo. O que eu fao? O que? Ele ainda sentia um nervosismo que o
estava impedindo em sua capacidade de raciocinar. E o sinal de alerta
que tocava dentro de seu corpo no ajudava. Ser que no tinha como
cal-lo?
    Ele no era um Sonhador para acreditar em Sexto Sentido, mas aquilo
tinha que ser to irritante? E olhando para o seu crucifixo com a ponta
negra, ele se decidiu. Iria continuar com o plano original. Faria isso pelo
sonho do bispo. Isso mesmo. Mas sozinho?
    Agora, mais calmo, ele j no acreditava tanto no sumio do frade.
At por que, o que demais poderia ter acontecido. O lugar no
demonstrava sinais de luta ou algo semelhante. Provavelmente eles
tiveram alguma reunio com um especialista em demnios ou algo do
gnero. E o frade poderia voltar a qualquer momento, deixando seu
caderno para o bispo olhar. Era possvel. Afinal Csar era seu superior.
Porque no?
    Ento, desistindo de sua neurose, ele voltou a cerne da questo. Teria
de fazer aquilo sozinho? Provavelmente. No podia contar com Henrique
para ajudar. Ele provavelmente iria dizer que ele no devia se meter em
assuntos que vo alm de suas capacidades. Essas palavras ainda
queimaram dentro do garoto.
    Enfim, quando finalmente havia se conformado com a solido que se
lembrou novamente de Cassandra e de seu nmero que estava salvo na
agenda. Recorrendo a ela, gravou-o na cabea e saiu. No gostava de ir
atrs de algum to aluada quanto um membro do grupo dos Sonhadores,
mas a mulher se mostrou interessada desde o comeo no caso e era
                               ~ 168 ~
melhor tratar desse assunto com algum que j estivesse ciente de
algumas coisas.
   Seria difcil, mas ele faria isso pelo Bispo.
   ngelo ento saiu da Igreja e foi ao primeiro telefone pblico que
havia por perto e fez uma ligao para o nmero de Cassandra. A
secretria eletrnica atendeu numa voz exageradamente estereotipada de
uma vidente.
   Al! Aqui quem est falando  Cassandra, a grande vidente que tudo
sabe e tudo v.
   Eu fico feliz que tenha ligado embora j esperasse por ela. Se voc 
daqueles que desejam saber o seu futuro, ou significado de algum sonho,
ou onde encontrar o amor verdadeiro, voc ligou para o local certo.
   Porm, infelizmente, no estou disponvel nesse momento. Ento,
deixe seu recado que assim que puder minha assistente vai agend-lo em
uma consulta. Ou ento, comparea a Avenida Presidente Vargas 105,
segundo andar, que Cassandra o receber de braos abertos.
   At nosso encontro. E que os astros estejam com voc.
    ngelo deixou um recado avisando que iria comparecer no endereo
dito por volta das nove da manh do dia seguinte. Depois, desligou o
telefone achando graa do acontecido. Ele j ouvira muitos charlates
fazendo se passarem por ciganos para conquistar a crena dos fieis, mas
era a primeira fez que via uma cigana de verdade se fazendo passar por
charlat.
                              ~ 169 ~
   21 - Kalish.
    Bem Ana. Para comearmos essa histria temos que fazer uma viajem
no tempo. H mais ou menos uns trezentos anos atrs. Eu sei que lhe
prometi contar a histria de minha vida, mas acredite, esses trezentos
anos fazem parte de minha vida. Sou um pouco mais velho do que voc
pensa.
    Por favor, eu peo que no me interrompa. Tenho medo de perder a
coragem de contar se algo me fizer para no meio. Ento. Tudo comeou
h uns trezentos anos. Quando nasci, a tribo dos Garow se encontrava em
seu auge. J tnhamos dominado o fogo, j sabamos manipular at
mesmo o metal, nossa civilizao era organizada e cada um tinha a sua
tarefa na aldeia. Morvamos ainda em aldeias, pois respeitvamos nossa
tradio e tambm no queramos nos expandir, pois tnhamos grande
amor por aquela terra. Possuamos tambm grande afinidade com os
lupinos, assim como diz a lenda, tanto que o smbolo adotado por ns era
uma cabea de lobo.
    Isso mesmo. Igual ao simbolo que voc guarda em seu medalho. Ns
usvamos esse emblema em nossas roupas, como um braso de famlia.
Isso que voc tem  a parte de uma vestimenta que os Garow usavam.
Muito alm de mera afinidade, nossa forma de vida era muito parecida
com a destes animais e nossa organizao, quando saiamos em grupo, era
semelhante  de uma grande alcatia.
    Alm disso, tinha nossa aparncia natural. Os dentes afiados, as
presas pontudas, as garras e os olhos azuis eram a marca permanente do
nosso cl. Elas eram caractersticas que faziam parte de nossa aparncia.
Todos os Garows nascidos apresentavam as mesmas caractersticas, que
nos aproximava mais ainda dos nossos amigos lobos.
    Nossa organizao no era feita por sexo ou faixa etria. Nossos
ancestrais tinham uma tradio diferente, aonde os membros do cl
recebiam suas funes de acordo com a poca em que nasciam. Eu nasci
na poca do que seria para ns a do signo de sagitrio. Esse perodo
designava aqueles que nasceriam para se tornarem guerreiros. Eu fui
batizado ento com o nome de Kalish, o que significava no antigo dialeto
Garow algo como "Presas de Prata".
    Logo, eu cresci e fui aprendendo todo o essencial para me tornar um
bom guerreiro: magias de ataque e de defesa, uso de armas,
domesticao de lobos para as batalhas e mgicas de cura superficial, que
                              ~ 170 ~
servem apenas para cicatrizar ferimentos de forma mais rpida, pois as
verdadeiras artes medicinais cabiam aos curandeiros.
    Mas a grande verdade era que eu sonhava em me tornar um Xam. Eu
sempre ficava fascinado com o trabalho daquelas pessoas. Eles eram os
que na tribo se responsabilizavam pela comunicao com os espritos e
aquilo me fascinava profundamente. Mas esse trabalho era muito restrito
e assim como todas as funes da tribo, era limitado a alguns membros
particulares. Ao contrario de poca de nascimento, essa funo era dada
pela vocao natural. As crianas que demonstravam empatia com os
seres espirituais eram as selecionadas para to glorioso cargo e os demais
no podiam nem fazer idia do que se tratava l dentro. E eu, como
nunca demonstrei nenhuma habilidade desse tipo, fiquei de fora. Logo,
eu era um guerreiro frustrado, mas nunca deixei de cumprir com minha
misso: proteger a aldeia.
    At porque, a poca no era boa para relaxar em tal misso. Minha
memria me falha um pouco nesse ponto, mas acredito que estvamos
em 1780. Nossa regio ficava muito prxima de onde hoje  o Alasca e
nesse perodo comeavam a chegar as primeiras caravanas colonizadoras
europias naquela regio. No nosso caso, foram os russos. Ns havamos
ouvido vrios rumores do extermnio que povos nativos da Amrica
estavam vivenciando perante a cobia europia e as tribos que
demonstravam alguma habilidade mgica, eram as que mereciam menor
piedade.
    Lembrando que naquela poca a Inquisio j estava no seu apogeu
na Europa e muitos magos refugiados deste continente estavam rumando
para o Novo Mundo fugindo da perseguio, os Inquisidores,
logicamente, tambm vinham atrs desses fugitivos. Logo, as nossas
terras se tornariam alvos das sangrentas batalhas que tingiam de rubro
toda a Amrica. Nesse contexto, todos os guerreiros da tribo estavam em
alerta e qualquer europeu que ultrapassasse nossas fronteiras seria banido
ou morto. Nesse tipo de trabalho eu me destaquei de certa forma. A tribo
gostava de mim por minhas habilidades naturais de combate e logo fui
subindo de patente dentro da aldeia rapidamente.
    Devido a nossa aptido natural com aquelas terras, os inquisidores
Russos no tinham a menor chance. E assim, ns acreditvamos
destinados a habitar aquela regio at o fim dos tempos. Pelo menos,
assim parecia.
    Minha histria vai dar agora um solavanco para uma bela manh de
Janeiro.
                               ~ 171 ~
    O que eu gosto de chamar de minha beno/maldio aconteceu
naquele ms e veio na forma de uma mulher chamada Catarina. Eu a
chamo assim, pois, ao mesmo tempo em que ela foi a responsvel pelos
momentos mais maravilhosos de toda a minha vida, tambm foi a causa
de todo o inferno que veio depois.
    Era uma manh, comum a todos a outra: nublada e fria, e eu vagava
pelas reas das nossas terras, no a servio, mas apenas por lazer. Eu
gostava de admirar toda a paisagem com um medo terrvel de que tudo
aquilo um dia fosse estragado pelos russos. E foi durante o passeio que
escutei um barulho de galhos secos sendo pisados.
    Imaginei na hora que estava sendo vigiado e j me preparei para
atacar, mas nada aconteceu. Comecei ento a seguir o barulho e passando
pela floresta de pinheiros cheguei a uma clareira. E l estava ela. Tenho
que admitir que ela fosse muito bonita para os padres europeus.
    Como eu s conhecia Garows, tinha certo ideal de beleza em minha
cabea, mas ela de fato conseguiu ultrapass-lo. Lembro-me muito bem,
mesmo que se tenham passado anos. Ela tinha cabelos que batiam no
queixo num tom castanho escuro e sua pele era muito branca. Era uma
mulher saudvel em aparncia e conseguia andar pelo terreno acidentado
muito bem, apesar de alguns tropeos.
    Pois bem, devido ao frio ela usava roupas que cobriam o corpo
inteiro. Suas peas tinham um tom meio acinzentado que a deixavam um
pouco camuflada no ambiente. Hoje eu sei que aquelas roupas eram na
verdade masculinas e pior: eram roupas de guerreiro.
    Quando eu finalmente consegui parar de admirar a beleza da mulher,
eu me voltei ao objetivo principal: ela era uma intrusa e tinha que ser
expulsa. Apesar de meu cl no ter distino entre homens e mulheres, e
isso dizia respeito tanto a amigos quanto inimigos, eu era dotado de um
cavalheirismo crnico e por isso no queria atac-la. Era apenas uma
mulher, sozinha e indefesa  assim eu pensava. Um susto a faria aprender
a nunca mais atravessar aquelas fronteiras.
    Ento, deliciei-me com a idia de apavor-la e preparei meu golpe.
Com uma concentrao calculada, eu concentrei uma bola energia gelada
nas mos, que se espalhariam em forma de tufo quando a lanasse
contra a intrusa. Isso seria o suficiente para empurr-la, mas no a
mataria. Enfim, quando lancei meu golpe, porm, no imaginei que ela o
notaria e muito menos, que o interceptaria.
    Num movimento rpido e gracioso, ela conseguiu conjurar uma
barreira translcida de uma cor rosa, que absorveu meu golpe
completamente.  Foi ento que eu vi que tinha que deixar de ser um
                              ~ 172 ~
Garow bonzinho. Ela era uma ameaa maior do que eu supunha, e por
isso tinha de ser expulsa.
    Afinal, era quase impossvel uma mulher daquelas andar pelas nossas
terras sem alguma inteno ruim. Assim, sa de meu esconderijo e me
mostrei pra ela. Eu era o que se podia chamar de um guerreiro honrado
naquela poca e no gostava de combates injustos. Ento, me posicionei
avisando a ela que estava disposto a atacar.
    Eu no sabia falar russo muito bem, ento no pude avisar nada
formalmente e esperei que minha postura fosse o suficiente para p-la
para correr. Enganei-me de novo. Ao contrrio de correr, ela nem ao
menos pareceu assustada e ps-se a me encarar com uma energia que eu
pouco vira nas pessoas que vislumbravam as minhas presas. Confesso
que fiquei estranhamente excitado com aquela coragem.
    No sei na verdade porque no ataquei logo. Fiquei ali a encarando e
rosnando, mas no avancei. Meus olhos apenas a fitavam e eu, sem
saber, estava perdido naquela beleza assustadora, que, mesmo por trs
daquela expresso carrancuda e aquele olhar de ameaa, conseguia me
fazer ficar que nem um idiota a olhando.
    Nosso combate s foi acontecer porque minha oponente cansou de
esperar. Assim, num movimento rpido, ela me lanou uma bola de
energia no mesmo tom de sua barreira. Aquele golpe, apesar de singelo,
era potente. Eu saltei para cima de uma rvore prxima podendo ver o
cho atingido se espatifar, liberando neve para todos os lados.
    Ela no hesitou e me atacou novamente. Mais uma vez, fiz uma
esquiva de sucesso saltando para uma nova rvore. A cada segundo ela
se mostrava mais ameaadora. Ao mesmo tempo em que isso alimentava
a minha adrenalina, tambm me deixava mais intrigado com relao
aquela mulher.
    No falvamos a mesma lngua, por isso o que tivssemos de
conhecer um do outro era pra ser conhecido ali, em luta. Na verdade, eu
tinha o habito de sempre estudar meus oponentes antes de atacar e esse
era o momento. Eu olhava para ela e me desviava de seus ataques
enquanto tentava traar um perfil de minha adversria.
    Pelas minhas observaes, notei que era uma mulher muito bonita.
Na verdade no era uma coisa difcil de perceber e eu no precisaria
entrar em combate com ela para perceber isso. Voc tinha que ver. Ela
era fantstica e...
    Ah, desculpe se estou falando demais da beleza dela  que... UAU
Acho que isso no est lhe agradando, no?
    Perdo.
                              ~ 173 ~
    Voltando ao assunto:
    Uma coisa que eu pude notar tambm era que ela se preocupava em
me manter uma distncia favorvel. Ela me atacava com mais pressa a
cada vez que eu tentava uma proximidade. Ento era assim que eu faria
para venc-la. Chegaria perto num combate corpo-a-corpo.
    Nesse tipo de confronto eu venceria com certeza. Assim, a coisa ficou
mais interessante a cada minuto e eu utilizei de minhas habilidades
naturais para ganhar mais velocidade e comecei a avanar em ziguezague
disparando em sua direo. Essa estratgia sempre funcionava. Na
verdade, nenhum oponente espera que voc, um inimigo, avance de
forma to direta e to rapidamente. Tal investida sempre deixava o
inimigo em pavor e isso me dava a vantagem psicolgica.
    E no deu outra. Ela comeava a tentar me atacar sem nenhuma
coordenao enquanto eu investia em sua direo. A cada milsimo que
eu me aproximava suas tentativas de me afastar se tornavam mais
desesperadas e assim, menos eficientes.
    At que enfim a agarrei, arrastando-a em direo a floresta. Porm,
naquele momento eu cometi dois enganos: O primeiro foi o de pensar
que a mata se seguiria plana por muito tempo. Havia uma pequena
depresso  frente que eu me esqueci e por isso, rolamos por uma altura
considervel. No o suficiente para matar, mas sim para causar dor.
    Meu segundo engano foi acreditar que num combate corpo-a-corpo
ela seria indefesa. Assim que camos, um soco nas costelas me mostrou o
quanto eu estava errado. Aquilo havia doido muito, mas no me abatera.
    Ao me levantar, seguido por ela, reparei que suas mos agora tinham
uma urea em chamas a volta. Era estranho a ver erguendo as palmas das
mos abertas em minha direo, diferente de punhos fechados como os
demais europeus faziam. Mas aquele nico golpe j havia me ensinado a
me manter distante daquelas mos. Mas agora o combate a queima roupa
j havia comeado.
    Ao mesmo tempo em que eu evitava que aquelas chamas em suas
mos me causassem a mesma dor de antes, ela evitava que minhas garras
dilacerassem sua carne. Eu no cansava de me impressionar com sua
habilidade de luta. O que vou falar agora pode parecer ego ferido, mas eu
realmente no estava lutando com tudo o que tinha, mas isso no me
impedia de ficar admirado com suas habilidades.
    Mesmo naquele terreno em que eu tinha uma vantagem natural, ela
conseguia manter a luta num tom de igualdade. Mas foi ento que em um
dado momento eu consegui prender aquelas mos ameaadoras para o
alto, segurando-as pelos punhos. Nossos rostos estavam bem prximos e
                              ~ 174 ~
eu rosnava pra ela. E  medida que tentava amea-la, me sentia cada
vez mais intil. Um rosnar meu, capaz de espantar at a mais terrvel das
feras, no causava nenhuma mudana naquela expresso de pedra.
    Ela no tinha medo de mim e ao mesmo tempo em que isso me
deixava frustrado, tambm me intrigava. Aquela era a oportunidade
perfeita para ela levar uma bela dentada que acabaria com aquele
combate de uma vez. Mas naquele momento, eu me senti impotente
diante daquela mulher.
    E essa foi uma oportunidade que ela no desperdiou e mais uma vez,
me surpreendeu: ela conseguia atacar sem as mos. Uma bola de energia
se formou entre ns explodindo bem no centro e foi ento que eu aprendi
que ela era mais orgulhosa do que eu imaginava, pois aquele ataque
suicida nos fez ser arremessados a metros um do outro.
    Ser que perder era pra ela to ruim quanto era pra mim?
    Quando me levantei, senti meu estomago doer. Olhei e vi um belo
estrago, embora no muito srio. Consegui usar minha mgica de cura
para fechar o ferimento, mas minha misso ainda no estava terminada,
logo, no tinha tempo para me curar melhor. Fui olhar em volta para ver
onde ela havia cado e vi uma caverna logo  frente. No tive dvidas e
corri pra l.
    Chegando, pude ouvir sua respirao ofegante vindo do interior e
entrei. Assim que adentrei a gruta, houve uma avalanche me trancando
em seu interior. No inicio, pensei que fosse uma armadilha, mas no era
bem assim. Ao fazer minha quintessncia ficar visvel para que assim
pudesse enxergar alguma coisa, logo uma luz azul clara encheu todo o
lugar, e foi quando eu percebi outra luz, s que rosa, vinda de outro
ponto.
    Indo em sua direo, eu pude ver seu estado: Ela tinha arranhes por
todo o corpo e sua barriga sangrava em demasia. Apesar de ter recebido
o mesmo ataque, o estrago nela parecia ter sido maior. No posso culp-
la, pois dentre as caractersticas naturais dos Garows, esto tambm uma
pele mais resistente e uma quantidade maior de glbulos brancos no
sangue. Isso me deixava numa situao muito melhor que a mulher.
    Enfim, esse era o momento perfeito para acabar com tudo. Seu
ferimento no a mataria, mas a deixaria vulnervel para meu ataque que
terminaria o servio. Porm, s para variar, eu hesitei. Tinha a chance de
acabar com ela ali e no o fiz. Fiquei parado olhando, compadecido com
seu estado.
                               ~ 175 ~
    Droga, ela era uma intrusa. Tinha que ser eliminada. Eu pensava,
mas isso no mudou em nada minha atitude. Eu simplesmente havia sido
reduzido, de um lobo a um co dcil.
    Ela, pelo contrario, no desanimou e veio pra cima de mim com suas
mos em brasa tentando me golpear. Mas estava muito fraca e com isso
eu quero dizer lenta tambm. Desviei-me com facilidade, mas no
contra-ataquei. Fiquei ali, me desviando e tentando conte-la e mais uma
vez os idiomas diferentes no ajudaram.
    Acabou que eu tive de ser um pouco mais bruto para conseguir ajudar
de alguma forma, ento, quando ela tentou me golpear mais uma vez eu a
segurei e joguei seu corpo ao cho. Antes que ela pudesse se recompor,
eu me lancei por cima dela e rasguei a parte de cima da sua roupa,
abrindo um buraco na parte da barriga.
    A mulher se assustou com meu gesto e tratou de tampar a parte de
cima do corpo nu, olhando com espanto quando eu ergui minha mo de
uma forma um tanto ameaadora. Eu devo imaginar o medo que ela
sentiu quando viu uma energia azul envolvendo minha mo, mas antes
que pudesse me impedir, eu j havia a atingido na regio ferida, fazendo-
a soltar um grito agudo de dor, que foi logo perdendo a fora enquanto
caia quase desfalecida no cho.
    Apesar da dor que causei, ela conseguiu se erguer um pouco do cho.
Olhou a barriga incrdula e me fitou falando alguma coisa que no
entendi, embora soubesse que ela me interrogava do porque eu ter a
curado em vez de elimin-la.
    Eu no respondi. Pra dizer a verdade nem eu sabia a resposta. Eu era
o guerreiro da tribo e ela uma invasora. Se algum na minha aldeia ao
menos desconfiasse do que fiz, seria trucidado.
    Ela ficou me encarando e eu a ela. Mas nossos olhares no tinham
mais a fria de antes e sim certa curiosidade. E desta vez, vencido pela
atrao que ela me exercia, eu quem avancei em sua direo. Ela
estremeceu, embora no fundo soubesse que eu no iria fazer-lhe mal.
Pois se quisesse j teria feito.
    Era minha curiosidade que me guiava e eu cheguei bem prximo dela
e comecei a sentir seu cheiro. Era um aroma diferente. Os Garows no
usavam perfumes, ento aquele cheiro me despertou uma curiosidade
inquietante e eu fui pegando cada parte de seu corpo levando at o nariz.
Sei que essa no era a forma mais civilizada de se cortejar uma mulher,
mas o que eu podia fazer na poca?
                              ~ 176 ~
   Aquele cheiro era por demais tentador para que eu pudesse resistir,
ento, continuei a farej-la. Dos braos fui escorrendo at o pescoo, do
pescoo at a boca e foi ali senti seu hlito.
   Dali, corri para...
   Ah... o que foi Ana?
   Ah. No est interessada nesses detalhes.
   Entendo. Mas foi to legal e...
   T, t, entendi. Voc realmente no quer saber.
   Ento vou pular essa parte.
    Bem, depois que ns... terminamos, vimos que estvamos muito
tempo fora de casa. Logo a tribo iria mandar um grupo de busca a minha
procura, pois como eu falei, eu era de certa forma importante para a
aldeia.
    E ela provavelmente no estava naquela regio sozinha. Ento, eu a
levei at os limites da nossa tribo e a deixei l. Antes de nos despedirmos
- sem palavras - ela me deu o primeiro beijo de minha vida.
    Hei! No ria. Minha tribo no tinha o costume de beijar. Nem
sabamos exatamente o que era isso. No fazamos idia do que aquilo
significava e eu no pude retribuir e acabei ficando ali, parado, vendo o
que ela fazia com a lngua, embora fosse estranhamente bom.
   Ento, ela se foi. Acabei por experimentar um profundo pesar no
corao ao v-la partir e tive medo de no voltar a encontr-la mais. Eu
nem sabia, mas, a partir daquele momento, eu estava completamente
apaixonado por Catarina. Era claro para mim que eu devia era estar feliz
em nunca mais v-la e por ningum ter nos pego em nosso encontro. Mas
no foi assim e vrias vezes eu voltei na clareira aonde a havia
encontrado pela primeira vez no af de rev-la, mas cada vez mais
parecia que nosso encontro no passava de um sonho.
    At o dia em que estava caminhando pelos limites das terras dos
Garow. Desta vez, eu estava em servio quando senti uma presena
prxima. Virei-me para encarar o que vinha e vi uma forma de energia
que avanava rapidamente em minha direo. No dava para ver o que
era, pois, conforme avanava, ela levantava uma grande quantidade de
neve que me ofuscava e quando resolvi tomar uma atitude foi um pouco
tarde.
    Um ataque me levou em cheio e ei ca a alguns metros mata adentro e
quando fui me levantar, senti algum subindo em mim, me imobilizando.
                               ~ 177 ~
Eu ia fazer mais fora para jogar meu agressor longe, mas ento pude ver
que era Catarina quem estava em cima de mim. Ela ria um tanto
convencida por ter me pego to bem. Nem sei dizer a alegria que senti
com aquele ataque.
    Nesse dia eu me aventurei a segui-la por alm das minhas terras, sem
pensar nos perigos que podia estar correndo. Ela era uma feiticeira e eu
estava totalmente sob seu poder. Mas no houve contratempos. Ficamos
por toda a tarde nos divertindo, mesmo sem podermos nos comunicar
com clareza. Apenas gestos j eram o suficiente para que nos
entendssemos.
    Na verdade, essa nossa relao bandida durou um longo tempo. Cerca
de dois anos, mais ou menos. Para evitarmos ser pegos pelos meus
companheiros, eu usava de toda a minha autoridade para manter
possveis transtornos fora do alcance, sempre mandando os grupos de
busca seguirem por outra direo quando ia me encontrar com Catarina.
    Como nossa aldeia viveu em paz por todo esse tempo, minha
presena no era mais to cobrada e eu tinha umas horas livres. Nesse
espao de dois anos, finalmente aprendemos a arranhar os dialetos um do
outro e tal avano nos permitiu aprender muito sobre ns.
    Eu descobri que Catarina veio para aquela regio com os pais quando
tinha cerca de vinte anos. Ela era um pouco velha para ser solteira e dizia
que isso se devia a seu gnio. Catarina era conhecida como espanta-
maridos na colnia em que morava e seus pais j haviam desistido sobre
lhe arrumar um pretendente. Mas isso no queria dizer que por estarem
to desesperados em deixar sua filha para titia, aceitariam um selvagem
como genro.
    Ela me falou tambm sobre a sua vida na Rssia e o motivo que a fez
vir com sua famlia a Amrica: a Inquisio. Ali, ela podia praticar suas
artes em paz. Alm de maga, Catarina tambm tinha fortes vnculos com
os necromantes, que faziam parte de uma ramificao de sua famlia. E
esse foi justamente o ponto auge de nossa afinidade: o gosto pelas artes
dos espritos.
    Ela me contava aprendizados seus e eu tentava retribuir da mesma
forma. Mesmo no tendo acesso direto s descobertas do nosso cl, eu de
vez em quando... conseguia algumas informaes. Mesmo falhando na
tentativa de ser um Xam e acabar me tornando um guerreiro, eu nunca
desistira completamente de aprender mais e mais sobre o ps-morte.
    E assim, envelhecamos e aprendamos um com o outro. E o primeiro
item era justamente o que estava nos preocupando. Ns possuamos
                               ~ 178 ~
quase trinta anos naquela altura. ramos j bem velhos para o nosso
tempo.
   Ento num dia ela me confessou uma coisa. A famlia dela estava
estudando um tipo de arte um tanto revolucionria, tanto para os padres
de magia daquele tempo com para os nossos. Uma coisa to inimaginvel
que mesmo muito excitada com tal perspectiva, ambos no deixvamos
de ter certa dvida de que tal coisa fosse possvel: uma forma de enganar
a morte.
   Ela me levou vrios estudos e os leu para mim. Catarina me contou
sobre a Mortalha, a dimenso para onde vo as almas que ainda tem
assuntos inacabados na Terra. Ela me disse ainda que era essa dimenso
que poderamos utilizar para enganar a morte.
    No sei se vou fazer voc compreender em que consistia o plano de
Catarina. Sem ofensas, mas voc ainda  nova nisso tudo e o assunto
pode ser muito complexo.
    Pois bem, quando morremos, existe um mundo de passagem por
aonde todas as almas vo para se purificarem antes de fazer a passagem
definitiva. Mas este tambm  o lugar para onde alguns espritos, que no
conseguem fazer a passagem, ficam presos nesse liminar.
    Mas ela sabia mais. Sua famlia havia descoberto que sempre que
morremos, existe ainda um vestgio de conexo com a vida. Em
linguagem simples,  como se fosse uma linha de energia, que conecta o
esprito ao mundo vivo e  justamente essa linha de conexo que prende
uma alma na Mortalha.
    Ela s pode ser desfeita quando o esprito est completamente pronto
para fazer a passagem. Ento, ela queria usar essa conexo, que fica
mesmo depois da morte fsica, para fazer a tal empreitada. Ela no sabia
bem como. Sua famlia apenas havia bolado a teoria, mas sem idias de
como aplic-la.
    Mas a coisa fazia sentido, afinal, haviam almas que conseguiam
retornar ao mundo dos vivos. Embora essa forma no fosse muito
agradvel para ns. Mas as almas mortas podem voltar ao mundo dos
vivos como demnios.
   Sim. So assim que eles se criam. Demnios foram antes de tudo
seres humanos, que por ficarem presos no mundo dos mortos, acabaram
por perder sua humanidade, se tornando monstros.
   Ah, como?
   No. No tem Lcifer no.
                              ~ 179 ~
    Mas voltando ao assunto. Ela no sabia como continuar sua idia e
foi ento que eu entrei no jogo, fazendo um acordo com Catarina, onde
eu iria ajudar fornecendo dados conseguidos com os Xams de meu cl.
Mas havia uma condio: a de que fosse um projeto s nosso.
    E ela aceitou.
    Naquela altura no sei o que mais me deixava ansioso. Se tentar algo
to maluco, se ir contra todas as normas do meu cl ou a possibilidade de
viver para sempre. As trs eram timas, mas a terceira me tendia mais.
    Foi ento que numa madrugada, onde os Garow estavam dormindo,
restando apenas alguns guerreiros acordados, que se mantinham
vigilantes na fronteira, que eu me esgueirei para dentro do templo dos
Xams. Eu havia entrado l pouqussimas vezes e todas de forma
clandestina como aquela, mas nunca levei nada de l como estava
planejando fazer aquela noite.
    Vasculhando os nossos arquivos, eu encontrei uma verdadeira mina
de ouro. Uma srie de rituais e processos que eu no fazia idia que
pudessem existir. Ali haviam conversas psicografadas, rituais utilizados
por demnios e outros espritos e at mesmo a descrio exata do
processo de possesso.
    Levei esse ltimo que eu achei de utilidade e outros, por interesse
prprio. Ningum me viu sair de l e o no dia seguinte me encontrei com
Catarina e desde j, nos encorpamos no projeto. Durou cerca de mais um
ano, com a velhice chegando cada vez mais depressa.
     ento que comea a parte complicada.
    Vou tentar ser sucinto.
    Nosso plano foi feito com base em um encantamento que
encontramos nos registros de meu cl. De acordo com o que dizia, esse
encantamento era forte o bastante para aprisionar uma alma numa
espcie de bolha. Onde ela se mantm adormecida e controlada.
    Essa magia era utilizada para aprisionar espritos encrenqueiros e
podia ser lanada do nosso mundo. Era to poderosa que conseguia
atravessar as barreiras dimensionais e atingir o mundo dos mortos. E foi
com base nela que preparamos nosso ritual.
    Ento nosso ritual consistiria em trs passos.
    Primeiro, preparar toda uma poo que seria depositada em algum
recipiente. A poo seguia as bases do feitio de aprisionamento de
esprito.
                              ~ 180 ~
    Segundo, a partir da, tivemos que fazer uma orao todas as noites
antes de dormir, a fim de preparar a trajetria de nosso esprito no ps-
morte.
    O terceiro e ltimo teria que ser feito na iminncia da morte. Esse
seria o passo em que teramos de destrancar o selo que prende o ritual,
liberando as energias contidas dentro do recipiente.
    Mas este encantamento tem que ser aberto no mximo, dez minutos
antes da morte, se no, perde o efeito e todo o trabalho seria intil.
    Enfim, depois que morrssemos  isso em teoria  nossa alma seria
automaticamente coberta pela bolha mgica, mantendo nossos espritos
adormecidos enquanto vagava pela mortalha. Nossa deciso de manter
nossos espritos adormecidos tinha como finalidade a de impedir que os
males do mundo dos mortos nos corrompessem. No queramos voltar
como demnios.
    O segundo passo seria o seguinte: A orao que fazamos todos os
dias era o ritual ensinado por Catarina para guiar o esprito depois de
morto. Nele, ns poderamos fazer com que o esprito seguisse
determinado caminho depois de sua morte. E o caminho que escolhemos
foi um que nos levasse direto para uma possibilidade de uma nova vida.
    Nossas almas seriam guiadas para seguirem atrs dos abortos.
    Calma, eu vou lhe explicar o que so.
    Abortos so fetos que so gerados sem alma no corpo da me. Eu no
sei exatamente como esse processo ocorre, mas existem crianas que so
geradas simplesmente para morrer depois e so justamente esses bebs
que tendem a causar os abortos espontneos.  claro que outras coisas
tambm podem causar, mas enfim...
    Esses fetos vazios tendem a ser muito usados por demnios que
querem fugir para o mundo dos vivos. Eles usam esses corpos para
possurem e assim garantir sua nova vida, anos depois. No sei se estou
sendo claro, mas o que essa teoria nos ajudou foi que pensamos poder
usar a orao para nos direcionar para um desses fetos.  assim que
viveramos de novo. Assim poderamos reencarnar infinitas vezes e
sempre mantendo nossas memrias e caractersticas, que estariam
conservadas dentro da bolha de proteo.
    Bem, no fim no sabamos se tnhamos conseguido ou no, mas
iramos arriscar. Sei que pode parecer loucura, mas decidimos que para
que no houvesse erros, iramos garantir que nossa morte ocorresse em
dez minutos aps liberssemos o encantamento. E isso seria garantido
por que chegaramos  morte nos suicidando em conjunto.
                              ~ 181 ~
    Isso pode parecer um tanto drstico ou romntico, mas era o nico
jeito. Sem falar que estvamos j velhos e no teramos muito tempo
mesmo. Estvamos com medo e por isso marcamos a data de nossa
morte para daqui a duas semanas. At l, poderamos organizar nossas
vidas e nos despedirmos de nossos entes, sem,  claro, avisar-lhes do que
amos fazer.
    Ento, eu preparei minhas ltimas coisas na aldeia e me despedi de
uns poucos amigos com uma comemorao. A verdade  que desde que
conheci Catarina, minha vida social ficou um tanto limitada a ela e aos
poucos me distanciei de minha aldeia em termos de relacionamento
afetivo. Poucas amizades sobreviveram a isso.
    E no dia fomos at a caverna onde tivemos nossa primeira... voc
sabe. Escolhemos que l seria nosso tmulo. Ento, nos preparamos para
fazer e sem trocarmos palavras, liberamos o encantamento.
    Depois, nos posicionamos um de frente para o outro com as mos
erguidas. Logo comeamos a concentrar ataques em direo ao corao
um do outro.
    - Est com medo?  perguntei enquanto mirvamos um no outro.
    - Lgico que sim  ela me respondeu com lgrimas nos olhos.
    - Quer desistir? - eu tambm chorava. A adrenalina era muito grande,
mas agora batia um total arrependimento. E se no desse certo?
    - Lgico que no  ela respondeu e eu ri. A coragem dela acabou me
fazendo desistir de dar pra trs.
    - Eu te amo  falei - espero que consigamos ficar juntos por mais
anos.
    - Eu tambm  e me deu um beijo.
    - Ento... um  eu disse
    - Dois...  ela continuou
    - Trs!  gritamos os dois juntos. Depois tudo ficou escuro.
   *
   - Minha nossa!  exclamou Ana boquiaberta. Era uma histria
fantstica demais para ser verdade, mas ao mesmo tempo no podia
evitar acreditar.
   - Eu sei  concordou Ian sorrindo nervoso.
   - E ento, deu certo?
   Ian no respondeu fazendo apenas um gesto como quem dizendo: "Eu
estou aqui, no?".
   -  verdade. Que idiota. - desculpou-se - Mas ento, voc nasceu
como Ian depois disso?
                              ~ 182 ~
   Estranho, pensou automaticamente. Essa era uma histria bonita
demais, ento, porque ele hesitou tanto em cont-la?
   - Na verdade no - corrigiu  houve outra vida antes desta.
   - Srio? Qual?
   - A de Lucien Verve.
                           ~ 183 ~
   22  Lucien
   Bem, o que aconteceu aps nosso suicdio  um pouco complicado. A
magia criada por ns teria como funo guardar nosso esprito
adormecido em uma espcie de bolha, onde assim ficaramos protegidos
dos riscos da Mortalha e no correramos o de nossas almas serem
degeneradas ao ponto de nos tornarmos demnios.
    Essa magia  muito semelhante ao processo que os demnios usam
para possuir os abortos e que se chama de Possesso Incubada. Nele os
demnios, injetam sua prpria alma dentro do corpo de um desses
abortos e, mantendo sua verdadeira essncia adormecida nos primeiros
anos, conseguem garantir uma ressurreio anos depois.
    Durante esse processo, criam-se duas personalidades no recm-
nascido. A primeira  a do prprio demnio, que esta desacordada nos
primeiros anos. A segunda  uma personalidade artificial, moldada pelo
meio onde a criana nasceu. Como ocorre naturalmente com qualquer ser
humano.
    Nisso a criana nasce e cresce sem saber de sua essncia demonaca.
Muitas vezes aquela criana cresce de forma bastante precoce e alguns j
tendem a demonstrar maldade logo na infncia. At que quando se chega
mais ou menos  puberdade, a memria do demnio surge e o corpo 
totalmente possudo.
    Mais ou menos era isso que nossa magia iria fazer. Nossas almas
possuiriam um desses corpos vazios antes de um demnio e assim
conseguiramos voltar. E da mesma forma que acontece com os
demnios, aconteceu conosco, mas nos esquecemos de um pequeno
detalhe ao fazermos a magia: no havia forma de controlarmos em que
condies iramos nascer. Nem no tempo, nem no espao.
    E foi assim que eu acabei parando na Paris do ano de 1873. Eu nasci
num perodo histrico um tanto conturbado, dois anos antes da
experincia da Comuna de Paris. Tal acontecimento deixou a elite, no
s da Frana como tambm de toda a Europa, em pavorosa. Pois as
comunas foram como um pressgio da grande ameaa comunista que se
fomentaria com a Unio Sovitica.
    Minha famlia fazia parte da nobreza parisiense, uma nobreza
aburguesada, j que existiam poucas famlias realmente nobres no mundo
do sc. XIX. Porm, quando a Comuna tomou a capital francesa, minha
famlia teve de se mudar para Lyon, lugar onde cresci.
                              ~ 184 ~
    Meu pai era dono de um grande estabelecimento de perfumes na
capital francesa e por conta dos negcios, fiquei separado dele por
muitos anos. Minha me no era bem o que chamamos de me hoje em
dia. Por isso minha bab teve de suprir essa falta. Trabalho que ela fez
muito bem.
    Eu cresci como qualquer garoto burgus, cercado de mordomias e
aprendendo desde cedo a tratar as demais pessoas como lixo. Mas a
grande verdade  que apesar de toda a comodidade das cidades ainda
havia alguma coisa que sempre me inquietava. Na poca eu no sabia o
que, mas eu sempre me sentia sufocado dentro de nossa casa. Eu tinha
um desejo de ser livre que no sabia de onde vinha, at que completei
meus treze anos e o processo de recuperao da memria se iniciou.
    Um processo doloroso e confuso, pra dizer a verdade. Naquele
perodo eu j no sabia mais quem eu era. Lembranas de coisas que eu
no vivi comeavam a aflorar e por muito tempo minha famlia comeou
a considerar que eu estava enlouquecendo.
    Se no fosse para manter a boa imagem da famlia eles teriam me
jogado em algum sanatrio, prtica que comeava a ganhar fama naquele
perodo. Ainda bem que eu era o nico filho deles, se no esse seria meu
destino. Mas o tempo comeou a colocar as coisas em ordem. Finalmente
eu recuperei toda a minha antiga vida e meus antigos poderes, que eu
tratei de esconder de minha famlia.
    Ento ficou claro o que me amargurava todos aqueles anos: primeiro,
eu sentia falta da natureza, aquela cidade grande me incomodava, nunca
fui f de multides. E em segundo, tinha Catarina. Onde estaria?
    Dos treze anos at os dezesseis, minha vida foi bastante aptica.
Mesmo estando feliz pela magia funcionar, eu ainda me sentia
incompleto. Ns no cogitamos a possibilidade de nunca mais nos
encontrarmos, mesmo que isso estivesse na nossa cara. E foi ento que
eu percebi que poderamos ficar renascendo em perodos diferentes e
sempre nos desencontrando pelo resto da eternidade. E foi quando eu
comecei a ficar mais triste. Eu no tinha mais nimo para nada, nem para
as lies ou para os assuntos dos Playboys franceses.
    Foi quando me houve a idia de fugir. Vagar pelo mundo novo
aprendendo sobre aquela poca e - com um pouco de sorte - tentando
encontrar Catarina. Sim, fugir era a melhor coisa. Eu no tinha nascido
para viver daquele modo e tambm no tinha me arriscado tanto pra isso.
Eu queria correr o mundo e aprender mais sobre ele.
    Mas como faltavam apenas alguns meses para eu completar minha
educao bsica, decidi esperar. Eu tinha aulas particulares em nossa
                              ~ 185 ~
manso e meu pai sempre me levava para Paris a fim de me mostrar seu
negcio. Ele nunca me escondeu que tinha o desejo de que eu
continuasse o legado da famlia e eu tambm nunca disse que teria que
decepcion-lo. Mas no fim, isso no seria um grande problema, afinal,
estava para nascer meu irmo Carlinhos, e eu sabia que este ficaria feliz
em herdar toda aquela fortuna. No comeo foi uma beno ser filho
nico, mas agora eu dava graas por ter um irmo.
    E foi quando faltava apenas uma semana para eu completar meu
ensino bsico que fui para uma festa em homenagem a perfumaria de
meu pai, em Paris. Vrias pessoas da alta sociedade estavam l e eu
vagava pelas alas do grande casaro onde o evento acontecia com minha
taa de vinho sem prestar muita ateno nas coisas a minha volta.
    O nome de meu pai garantia que eu fosse constantemente abordado
na festa. Eram scios querendo saber meus planos para quando
assumisse ou oferecendo conselhos prvios. Eram mes querendo
arranjar um pretendente para suas filhas. Eram pessoas que simplesmente
no tinham nada a fazer e puxavam o primeiro para uma conversa
informal.
    Enfim, nada de interessante.
    At que vi uma coisa que me deixou pasmo e fez com que meus
dedos perdessem a fora levando minha bebida ao cho.
    Eu no me preocupei em abaixar para peg-la de to hipnotizado que
estava. Uma empregada veio rapidamente limpar a sujeira que eu tinha
feito, pedindo para que eu no me preocupasse. Mas nada me tirou a
ateno da mulher que l estava sentada, sozinha nos fundos do salo
com uma expresso de tdio.
    Ela era linda, mas acima de tudo: era minha Catarina. Eu no sabia
como, mas eu tinha certeza que era ela. A mulher  minha frente era
loura, tinha as feies muito delicadas e usava roupas cheias de
requintes, que Catarina jamais usaria, mas era ela. Eu no poderia lhe
dizer de onde vinha tanta certeza, mas tinha.
    Podia ser um efeito da magia. Quem sabe, por termos morrido juntos,
no ramos capazes de reconhecermos a alma um do outro. Mas eu
estava eufrico. Minha vontade era de correr at ela e lhe falar tudo.
Peg-la e arrancar-la daquele lugar que a entediava tanto, mas uma coisa
me deu medo.
    Eu no sabia como eu havia a reconhecido, mas e se ela no fosse
capaz de fazer o mesmo? E se ainda no tivesse recuperado toda a
memria como eu fiz? Acharia-me maluco? Jogaria-me na cara a bebida
que tinha em mos?
                              ~ 186 ~
    Eu tinha que acalmar meus impulsos, ento decidi falar com um de
meus amigos na capital. Olhando em volta, no demorei a encontrar
Olvio, cujo pai era grande amigo do meu e morava na regio. Ento, fui
falar com ele:
    - Me diga Olvio - disse tentando dar pouco caso a pergunta, embora
minha euforia tornasse isso impossvel  quem  aquela dama que est
sozinha no canto?
    Olvio olhou em volta at encontrar a pessoa da qual eu me referia e
quando a viu, segurou uma risada e me encarou com olhar espantado.
    - O que houve? - interroguei.
    - Voc realmente no sobreviveria um minuto aqui sem mim meu
amigo - disse ele passando o brao por meu ombro e me falando ao
ouvido.
    - Por qu? O que h de errado com aquela jovem. - perguntei
    - Bem - ele comeou, ainda achando graa  se voc gosta de levar
um fora e acabar com sua vida social em Paris, no h nada de errado.
    Ele continuou se divertindo e eu esperei.
    - Aquela  Adele Tissot. Uma verdadeira espanta pretendentes, meu
amigo. Todos os rapazes que tentaram algo com ela foram enxotados
como ces. Se voc preza a sua popularidade por aqui, meu amigo fique
longe dela.
    Espanta pretendentes, eu j tinha ouvido isso. Sem dvida era minha
Catarina. No esperei mais e fui l, ignorando completamente o aviso de
Olvio.
    - Com licena  foi tudo o que eu precisava dizer, pois no momento
em que ela se virou para me encarar, sua expresso de desprezo
desapareceu. Seus olhos ficaram arregalados e ela me olhava como se eu
fosse um fantasma. Eu reconheci muitas de minhas reaes ali. Primeiro
e descrena, depois a alegria. Ela abriu um grande sorriso ainda receoso.
    - ... voc?  ela perguntou se levantando.
    Catarina, ou Adele, ainda parecia desacreditada e erguia a mo para
me tocar acreditando que talvez eu fosse incorpreo como uma iluso.
Apesar de seu receio, bastou apenas um gesto meu confirmando com a
cabea para ela se lanar em volta do meu pescoo.
    -  voc! Eu... eu nem acredito  ela no gritava, mas o volume de
sua voz j era o suficiente para atrair a ateno das pessoas prximas a
ns.
    - Quer sair daqui?  recomendei
    - Melhor - disse visivelmente encabulada com os olhares que
despertamos.
                              ~ 187 ~
   Fomos ento para o jardim e eu pude ver o queixo cado de Olvio me
acompanhando enquanto eu saia do salo.
    *
    - Nossa! Que sorte, no?  maravilhou-se Ana.
    - , eu sei  respondeu Ian animado  as chances de acabarmos
parando na mesma eram muito poucas. Mas parecia que o destino estava
a nosso favor.
    - Ela continuava bonita como antes?  Ana tentava no dar muita
importncia a pergunta.
    - De forma diferente, mas sim  comeou Ian fitando a chuva pela
janela  na verdade eu sempre a via como a minha Catarina.
    Ento ele se levantou e andou em direo a sua cmoda e, dali, pegou
uma folha de papel aonde tinha a imagem desenhada de um rosto
feminino.
    - Esse era o rosto de Catarina. - ele disse entregando o papel - Esse 
o rosto que eu via apesar da mudana de corpo e  o rosto que eu ainda
me lembro pertencer a ela.
    O rosto retratado no desenho era muito bonito e Ana acabou sentindo
uma leve pontada de cime daquela mulher to bem reproduzida.
    - No sabia que tinha talento pra desenho - comentou.
    - Aprendi como Lucien. - ele respondeu  Desenho fazia parte de
minha educao.
    E Ana continuou a olhar o retrato percebendo que ela tinha traos
bem demarcados e uma expresso de profunda fora e sabedoria.
Catarina tinha cabelos na altura do pescoo com uma franja lhe caindo
no rosto. Por um segundo Ana sentiu certa familiaridade com aquela
mulher, mas logo foi substituda novamente por inveja, pois a maga era
linda demais e no tinha uma franja rebelde lhe estragando o penteado.
    Pelo rumo que ia tomando a histria, Ana duvidava que ela pudesse
ter alguma tragdia ao fim. Era tudo perfeito demais. Eles agora eram
imortais e poderiam viver seu amor pela eternidade. O que poderia dar
errado?
    E foi quando lhe houve um estalo na cabea e uma idia, talvez
maluca, se amostrou para ela. Pois, se eles haviam conseguido seu
intento e se agora poderiam reencarnar infinitas vezes, onde estava
Catarina? Eles teriam se desencontrado ou...
    No! No podia ser. Ana no podia acreditar naquela possibilidade.
Seria... Solange. Teriam eles reencarnado na mesma era s que com
idades diferentes?
                               ~ 188 ~
   Isso explicaria o beijo.
   Ana sentiu seu peito apertar com a expectativa. A viso do beijo
ainda a incomodava muito, mas ela tentou ignorar. Queria prestar
ateno na histria.
    *
    Bem, voc j deve imaginar a felicidade que senti por poder t-la
novamente. Catarina, ou Adele tanto faz, tinha uma vida muito
semelhante a minha. O pai dela tambm era um grande comerciante, s
que na rea de jias, e ela tambm vivia a vida de pobre menina rica.
Ambos estvamos entediados com tudo e todos  nossa volta e no
tnhamos criado vnculos com ningum nessa nova vida.
    Ento, nada nos prendia ali. Sentamos falta de nossa vida livre e
bandida de antes. E agora ramos jovens de novo, cheios de sade e com
muita experincia acumulada. No demorou muito para que
decidssemos adiantar a nossa viagem pelo mundo. Sairamos s ns
dois, atrs de aventuras e de alguns de nosso grupo tambm. Afinal,
ramos uns dos poucos magos que ainda restavam no planeta e os
existentes, viviam escondidos agora.
    Ento, naquela mesma noite, fugimos. Levando poucas coisas
deixando todo o resto pra trs, nossa vida passou a ser uma aventura
constante. Coisa que adorvamos fazer era andar pelas ruas desertas e
pelas estradas escuras das cidades. Esses eram os locais por excelncia
dos assaltantes e outras formas de criminosos e ns ramos a isca. Era
sempre divertido ver essas pessoas correrem feito loucas ao tentarem
confrontar agente. Na verdade, fomos bem teis para reduzir o ndice de
crimes de algumas cidades por onde passamos.
    Da, descobrimos uma forma de ganhar dinheiro para sobreviver com
honestidade. Tornamos-nos caadores de recompensas. Vagamos pelas
cidades atrs de criminosos hediondos e nos mantnhamos com o
dinheiro pago por suas capturas. O mundo naquele tempo j havia se
tornado muito ctico e assim as pessoas comuns estavam muito
despreparadas para gente como ns, mas logo vimos que mesmo assim,
no estvamos mais seguros.
    Descobrimos de uma maneira no muito legal que no tnhamos mais
a mesma segurana para agirmos como ns mesmos, como acontecia
quando ramos Kalish e Catarina.
    Os inquisidores j haviam dominado grande parte do mundo e a
caada a ns dois foi apenas questo de tempo. Numa de nossas
empreitadas, recebemos a misso de invadir uma manso, onde se dizia
                              ~ 189 ~
que uma jovem, filha de um nobre local, era mantida em calabouo. A
recompensa para se trazer a menina era tima e logo pegamos o servio
descobrindo o local do crcere. Chegando l, vimos se tratar de uma
armadilha e quase fomos mortos se no fosse a nossa sorte em achar uma
passagem secreta dentro da manso que nos permitiu fugir.
    As armas dos Inquisidores haviam melhorado muito naquele tempo e
suas tticas para nos apanhar tambm. Naquele tempo, os Iluminados
ainda eram seus aliados o eu nos deixou em maus lenis. Mas mesmo
assim, conseguimos escapar. E foi quando nos demos conta de que
poderamos morrer.
    Lembramos-nos ento de nossa antiga magia de enganar a morte e
decidimos prepar-la de novo, por via de dvidas. Fizemos nossa poo e
passamos a rezar todas as noites. Essa seria nossa aplice de seguro para
imprevistos.
    Nossa carreira foi indo bem. A cada ano que se passava, ficvamos
mais espertos e sabamos contornar as situaes para no sermos mais
vtimas dos Inquisidores. Conhecemos tambm algumas das poucas
organizaes mgicas ainda restantes. Todas escondidas naquele tempo.
E tais encontros sempre nos obrigavam a sair da cidade mais cedo, pois
as organizaes no sentiam confiana em ns e tinham medo que nossas
faanhas atrassem a inquisio para sua cidade.
    ramos discretos, mas nem assim conseguamos manter residncia
numa cidade por mais de um ms se nela j houvesse algum grupo
mgico. Eles no queriam se arriscar. Era compreensvel. Na verdade, foi
numa dessas visitas, quando conhecemos um grupo de Irmos da Rosa,
que descobri uma noticia que me deixou apavorado: Meu cl havia sido
dizimado.
    Eu estava na residncia de Emanuele Cristof, no Reino Unido. Ela era
um membro da Irmandade da Rosa e foi quem me deu tal notcia.
    - Mas como?  eu indaguei perplexo.
    - Ningum sabe  ela me disse enquanto vasculhava documentos em
sua cmoda.
    - Impossvel - eu no queria acreditar, O que aquela mulher sabia
afinal?
    Foi ento que ela finalmente encontrou o que procurava, me trazendo
um pedao de pergaminho velho que me entregou
    - Essa  uma parte do dirio de Arman Medved, uma das primeiras
testemunhas do massacre da aldeia Garow. Acho melhor voc ler.
    Eu peguei o documento de sua mo e comecei a ler
                              ~ 190 ~
   Eu no sei descrever a brutalidade de tal cena.
   Era horrvel e de certa forma, fascinante.
   Os antigos Garow, que habitavam as regies congeladas do
novo mundo, temidos e respeitados por seu poder, agora
estavam extintos.
   Nessa manh, eu fui adentrar a fronteira das terras desse
cl. Meus amigos no se atreviam a nem mesmo chegar perto de
tal lugar, pois, apesar de os Garow serem um povo muito
pacfico, invaso em seus territrios era uma coisa que no
toleravam. Todos os que ali se aventuravam no retornavam.
   Eu, na verdade, era uma exceo rara. Desde minha infncia
sempre tive timas relaes com os desta tribo. Isso porque
minha famlia manteve um forte vnculo estratgico com os
Garow, lhes fornecendo informaes vitais sobre as aes dos
colonos nas terras da Amrica do Norte.
   Assim, eu sempre tive aval para atravessar suas fronteiras
e at me familiarizava com muitos dali. Um povo sem classe,
devo dizer, mas sem dvida agradvel a sua maneira.
   Enfim, quando eu fui esta tarde para mandar-lhes
informaes de um grupo de saqueadores que planejavam uma
intentona contra a aldeia, a cena vista me surpreendeu.
   O branco da neve fora forrada com o rubro do sangue de
dezenas, se no centenas, de Garows. No encontrei nenhum
membro vivo para contar o que aconteceu e quanto mais eu
andava, mais tinha certeza de que s havia cena de destruio
e morte para se ver.
   Mas a causa? Esta no era encontrada.
   Olhando os corpos, podia-se ver as marcas fundas de
arranhes e mordidas, com feridas abertas elevando o cheiro
de sangue at minhas narinas. E analisando a situao eu s
pude chegar a duas concluses: Ou os Garows acabaram por
encontrar outra tribo mais selvagem e mais poderosa que a
deles, ou eles resolveram matar uns aos outros.
                         ~ 191 ~
    O documento acabava ali.
    - Isso no pode ser original  eu replicava
    - Original no .  ela confirmou   uma traduo, mas o
depoimento  verdico sim. Algumas excurses foram enviadas para a
Amrica do Norte, a fim de saber mais do ocorrido e comprovaram o
depoimento de Arman. Todos os membros do cl Garow foram
brutalmente assassinados.
    Eu ainda lutava para no acreditar, no podia acreditar.
    - E o que a senhora acredita que foi?  Adele, que se mantinha ao
meu lado, perguntou.
    - Sinceramente no sei.  ela deu de ombros - Eu acho difcil de crer
que os Garow tenham resolvido matar uns aos outros, mas tambm no
se h registro da existncia de um grupo capaz de tal genocdio. - E
depois ela se virou pra mim com curiosidade  E qual  seu interesse por
esse cl em especial?
    - Interesse puramente acadmico - respondi, olhando o cho.
    Apesar de termos relaes com muitos magos, nunca contamos nosso
segredinho pra ningum. Sabamos que se algum suspeitasse da
existncia de uma magia que pudesse vencer a morte, haveria guerras
atrs dela. Mas aquela explicao no me fora suficiente e no dia
seguinte eu e Adele estvamos num navio para os EUA e de l,
rumaramos s antigas terras do meu cl.
    Adele me consolava por toda a viagem. Eu, no fundo, j imaginava
que isso pudesse acontecer um dia, porm, ainda era difcil crer no
extermnio de meu cl, ainda mais de forma to rpida e definitiva. Mas
eu tinha Adele naquele momento e ela era meu porto seguro.
    A viagem foi conturbada, mas chegamos. Eu estava muito pra baixo e
Adele tentava me animar de muitas formas. Mas era intil. Eu sentia que
ela comeava a se irritar com meu humor, pois apesar de me ajudar, eu
sentia que ela comeava a se cansar de mim. Ela ficava com o
pensamento distante em algumas horas, como se tivesse um peso muito
grande nos ombros e eu sentia que isso era culpa minha. Mas no
momento eu no conseguia fazer nada para remediar. Esperava que a
visita  minha terra pudesse resolver meu problema e salvar minha
relao com Adele.
    E foi ento que Adele me deu a idia de naquela noite interrompemos
viajem e ficarmos bebendo no bar local at enchermos a cara. Eu no
estava muito afim, mas o que eu poderia fazer... aquela mulher me
                              ~ 192 ~
controlava e eu devia muito a ela. No fim, foi tudo muito divertido.
Bebemos, falamos besteira e brincamos... estava tudo indo bem quando
decidimos terminar a noite com chave de ouro... Ento fomos para o
quarto do nosso hotel alugado e nos entregamos a nossa paixo que
existia por mais de um sculo. Paixo que sobreviveu a morte...
    *
    Mais uma vez o clima havia ficado pesado. Nesse momento, Ian
passou a fitar o cho, calado. Sua expresso emanava uma dor aguda e
Ana pode ver seus olhos vermelhos segurando as lgrimas.
    Ana estava curiosa, mas no se atreveu a falar nada, aguardando ele
continuar. Pensou em dar um incentivo, mas vendo suas expresses,
comeou a se questionar: Ela queria saber realmente saber o que
aconteceu?
    - A eu apaguei  continuou e Ana segurou a respirao  No me
lembro de mais nada depois disso. S quando acordei...
    - E... o que aconteceu? - perguntou em voz baixa. Se tivesse algo de
ruim naquela histria, era ali.
    - Eu acordei com um cheiro forte de ferro que invadiu as minhas
narinas. Ao me levantar, tentei me acostumar com a claridade que
entrava pela fresta da janela e foi quando senti algo molhado na parte
onde eu havia apoiado a mo para me erguer.  ele deu um forte suspiro
antes de continuar  era sangue. Na verdade a poa em cima do colcho
no era a nica. Por todo o quarto, nas paredes, no cho, tudo estava
vermelho. E num canto do quarto... jogada... sozinha... estraalhada...
estava...
    - Meu Deus!  ela murmurou
    - Eu no entendi na hora como isso havia acontecido. Eu estava
completamente sujo tambm e demorei a acreditar no que via.
    - Achei que fosse um pesadelo e que logo despertaria, mas eu no
acordava. - ele comeava a aumentar o tom e o ritmo da voz  medida
que ia continuando - Seu corpo estava estilhaado, haviam feridas
abertas por toda a parte que eu tentava curar, mas... as feridas de Adele...,
mas era intil. Ela j estava plida pela perda de sangue... e... Estava
morta.
    Ele agora se balanava segurando as mos com fora por cima da
perna. Dava para ver que era muito dolorido trazer aquelas lembranas 
luz de novo e Ana comeou a se sentir pssima por ter lhe pedido para
que contasse aquela histria, mas agora a curiosidade estava aflorada
nela de tal forma que no pode segurar a prxima pergunta:
                                ~ 193 ~
   - Mas quem faria uma coisa dessas?
   Nesse momento, como em um filme de terror barato, um relmpago
iluminou o quarto mostrando o rosto do garoto. Ele a olhava com aquela
expresso que Ana conhecia muito bem: Culpa.
   Ana levou a mo  boca para conter o grito que queria sair de seu
pulmo a qualquer custo.
                             ~ 194 ~
   23  A Besta
    Sim. Fui eu mesmo. Na poca tambm no acreditei. No sabia como
isso poderia acontecer e vaguei por toda a cidade atrs do possvel
assassino, mas minhas buscas s me faziam ter maior certeza de minha
culpa. E o pior. Serviram para fazer mais vtimas.
    A histria vai comear a ficar um pouco pesada Ana e eu vou
entender se voc quiser ir embora. Vou compreender se no quiser me
ver nunca mais, se estiver com medo de mim. Pois j faz muitos anos que
eu tambm tenho medo de mim.
    Ah... Como? Quer continuar? Por qu?
    Esse  um risco seu, mas... Eu sinceramente no queria continuar. Eu
sei, eu lhe fiz uma promessa e vou lhe dizer tudo o que quiser saber.
    Ento, l vai...
   Na hora, eu no pensei que eu mesmo pudesse ter feito aquilo. Apesar
de eu ter grande quantidade de sangue nas mos e na boca e at mesmo
sentir o gosto dele cada vez que engolia saliva, eu no queria acreditar
que tinha feito aquilo. Ento, fui atrs do culpado com toda a sede de
vingana que meu corao permitia produzir e com ela, vaguei pelas ruas
da cidade de Michigan.
   Eu havia sabido que nenhum dos outros hspedes do hotel havia
ouvido nada na noite anterior. Quem quer que a tenha matado, foi to
rpido que no houve tempo para reao. E foi enquanto eu tentava caar
um culpado, que os apages aconteciam com mais freqncia. Cada vez
que acreditava encontrar um suspeito, minha raiva era to grande que me
fazia apagar. Eu dormia e sempre amanhecia num lugar que eu no
conhecia, banhado de sangue.
   Geralmente eram terrenos baldios e outros locais esquecidos do
mundo e sempre que eu voltava para saber sobre o meu suspeito da noite
anterior, descobria que ele fora brutalmente assassinado. Apesar de lutar
para me manter ignorante, como algum que se recusa ver uma verdade
que est exposta a sua frente, no demorou muito e eu finalmente
pudesse enxergar o culpado quando olhava para o espelho.
   E mesmo naquele momento eu ainda tentava lutar contra tal idia,
mas no tinha mais como. As provas estavam em minha cara. Uma parte
de mim parecia voltada a matar. E o pior, essa parte conseguia manter o
controle sobre mim muito regularmente. E foi ento que comecei a
identificar algo diferente em mim.
                              ~ 195 ~
    Uma presena, uma besta talvez. Ento eu tive a certeza de que eu era
o monstro que estava caando. Ele morava dentro de mim. Eu no
entendi quando ou porque aquilo havia comeado, mas era assim e eu
comeava a sentir medo de mim mesmo. Medo do que sentia.
    Com o tempo, fui percebendo mais sobre essa Besta. Raiva,
adrenalina, excitao, tudo isso era motivo para eu apagar e acordar
cheio de sangue. Eram os estopins da Besta. O que a fazia se libertar e
assumir o controle sobre de mim. Foi ento que eu comecei a me policiar
em tudo o que fazia. Evitava brigas ou qualquer forma de estresse. Na
verdade, eu comecei a evitar as pessoas. E me isolei.
    Eu no podia mais confiar em mim e acabei me condenando a anos de
solido. Mas eu no estava verdadeiramente sozinho, pois para todo o
lugar para onde eu ia, duas coisas me acompanhavam: A primeira era a
besta, sempre a espreita, sempre alerta, esperando meu prximo deslize,
esperando eu perder o controle de mim mesmo para ela assumir.
    A segunda era a culpa. E foi quando comecei a ter pesadelos. Eu via
Adele gritando, pedindo para que eu parasse, mas eu no o fazia. Eu
sentia a sede do sangue, sentia prazer com seu sofrimento. Sinceramente,
eu no sei como no enlouqueci. No sei nem o que me mantinha vivo
naquela poca. Talvez a covardia de por um fim em mim mesmo.
    Eu no podia amar, no podia me entregar a nenhuma forma de
prazer, eu no podia nem sentir raiva. Passei ento a ser um mecnico,
tudo o que fazia tinha de ser de forma fria, imparcial. Eu no me dava
mais a chance de sentir nada. No queria descobrir outras sensaes que
pudessem vir a libertar a besta dentro de mim. E no demorou muito para
que eu me considerasse morto por dentro.
    Houve uma ocasio em que uma prostituta nas ruas de Virgnia veio
mexer comigo. Aquela havia sido uma das poucas situaes em que eu,
cansado de ficar enjaulado, me arriscava a andar junto das pessoas. Ela
ento perguntou se eu no estava interessado em um programa e como
no aceitava, deve ter achado que seria uma boa idia me atiar com um
carinho. Um carinho no muito costumeiro e pouco ortodoxo por assim
dizer.
    Mas apenas isso j foi o suficiente para eu sentir uma espcie de dio
dentro de mim. Um dio que eu j estava acostumado a sentir, mas que
lutava para conter. Naquele instante meu corpo tremeu e por pouco no
apaguei. No sei o que aquela moa viu ao olhar para meus olhos, mas
sei que foi o suficiente para faz-la sair correndo e gritando socorro. E eu
sa de perto antes que algum chegasse.
    Um simples toque j me transformava em um monstro.
                                ~ 196 ~
    Mas nada me doa mais do que lembrar de Adele. Os sonhos
comeavam a me perseguir com maior freqncia e eu acordava todas as
noites banhado de suor. A culpa era avassaladora. Eu me contorcia de
dor s de pensar no que aconteceu naquele momento. Ela teria sofrido
muito? No, eu sabia que no. Nenhum dos vizinhos escutou nada,
nenhum grito.
    Mas isso no me aliviava nem um pouco. Eu a tinha matado e nem
sequer dei a ela a chance de se defender. Mas se eu tivesse dado? E foi
quando me lembrei do colar. Ser que ela teria tempo de ativar o feitio e
se salvar? Talvez ela pudesse ter morrido, mas garantido sua prxima
reencarnao. Era uma esperana que eu mantinha viva no peito, pois s
assim para conseguir sobreviver.
    Foi ento que eu decidi que eu tinha que tentar entender o que havia
acontecido com o meu cl. Saber o que estava acontecendo comigo
mesmo. Assim, decidi sair de meu retiro, embora continuasse a me privar
dos locais pblicos. Viajando pela Amrica do Norte, fui para a antiga
aldeia Garow, para tentar encontrar algumas respostas. Mas nada
encontrei a no ser escombros. Parecia que ningum mostrou interesse
naquelas terras depois do ocorrido e acabaram a deixando abandonada a
maneira como estava.
    Os documentos dos Xams, entretanto, foram saqueados. Nada
sobrou que pudesse me ajudar e foi quando comecei a vagar pelo mundo
atrs de ajuda. Mas em todos os lugares que passava, quando os magos
descobriam o meu caso, ou me viravam as costas ou me erguiam as
armas. Todos eles viam o monstro que eu era e queriam me eliminar por
isso. Talvez eu devesse ter deixado. Quem sabe assim poria um fim a
tudo.
    Oi? Como?
    Ana, por favor. Ser que voc no est escutando nada do que estou
lhe falando?
    Eu matei a mulher que me amava. Eu matei inmeras pessoas. Se isso
no em faz um monstro eu no sei mais o que pode fazer.
    Eu fiquei sozinho por tanto tempo... A nica coisa a que eu me
prendia era a possibilidade de que Adele pudesse ter se salvado, mas at
essa comeava a me abandonar. Com o tempo, a esperana foi morrendo.
Se meu ataque foi to rpido que no houve tempo de reao, que
chances ela teria de ter ativado o feitio?
    E foi ento que um dia, quando eu estava em uma das partes mais
altas da montanha Macio Logam, aps uma boa escalada  hbito que
                               ~ 197 ~
eu havia adquirido para passar o tempo. Quando todas as minhas
esperanas, tanto de acreditar na salvao de Catarina quanto na minha,
havia se esvado. Quando eu no encontrava mais nada que me prendesse
a vida que no fosse minha covardia de acabar comigo mesmo, que, eu
olhei para baixo e me senti tentado.
    Eu no tinha mais a quem recorrer. S de uma coisa eu sabia. O
porqu de meu cl ter sido dizimado. De alguma forma, os Garow
haviam sido amaldioados e essa Besta fazia parte de ns. Eu at era
capaz de ver a cena ser reproduzida em minha mente: A aldeia inteira
possuda pela besta. Irmo matando irmo. Vizinho estraalhando
vizinho. Me atacando filho.
    Ali todos se mataram, mas no meu caso, no tinha ningum para me
matar.  claro que a fila pra isso era grande. Alm dos inquisidores que
queriam a minha cabea, havia tambm inmeras sociedades mgicas
que desejavam minha morte, por me considerarem uma ameaa.
    A fila era extensa e eu tinha at mesmo o direito de escolher como ser
morto. Esse  um privilgio de poucos. Mas de todas aquelas opes, a
que estava bem abaixo de mim era a mais tentadora. E foi quando eu me
permiti pensar na sensao da queda. Como seria? Qual deveria ser a
sensao de ter seu corpo livre no ar, caindo e caindo at que, no fim,
acabasse?
    Aquele desejo comeou a crescer dentro de mim e s faltava mais um
pouco para que ele fosse forte o bastante para me criar coragem, nem que
fosse por uma frao de segundos, que eu aproveitaria sem pestanejar.
Olhei para o meu colar. A idia de tentar nascer novamente me tomava.
Talvez se eu tivesse uma chance de recomear. Mas eu no tinha esse
direito.
    Talvez, na nova vida eu estivesse livre dessa maldio que me
acometeu. Mas eu no acreditava fielmente nisso. Sabia que se aquela
besta esperou cem anos para aparecer, ela no se importaria de esperar
mais alguns e me pegar na prxima vida. Ento eu me acheguei para
perto da beira do penhasco.
    Ali, o olhando para as estrelas que pareciam to prximas de mim, eu
falei com Catarina. Desculpei-me, e prometi que iria ao seu encontro
para que ela pudesse acertar as contas comigo.
    E quando a coragem veio na forma de um lampejo de adrenalina, eu
saltei.
                               ~ 198 ~
    *
    E a narrativa havia acabado e Ana no sabia mais o que falar. No
sabia se dia consol-lo, se chorava, ou se sorria pra dar-lhe nimo.
Todas as opes pareciam idiotas e inteis No sabia nem o que pensar.
    Impossvel, pensou. Apesar de toda aquela histria, Ana sentia total
dificuldade em acreditar nela. Ela conseguia crer que Ian tinha
conseguido enganar a morte, que ele tinha realmente matado Catarina,
mas se recusava a olhar para ele e ver o monstro que ele tanto se referia.
    E foi quando lhe veio, mais uma vez, a imagem do beijo na beira da
piscina e os olhos azuis que ali se manifestaram pela primeira vez. Um
frio correu por sua espinha, mas Ana manteve a calma.
    - E ento nasceu o Ian que voc conhece  ele encerrou.
    - Mas eu no entendo  ela falou  voc no usou a magia de
reencarnao, ento por que...
    -  eu no usei. Pelo menos no de forma consciente. - respondeu 
Eu cometi um erro. Ao pular usando o colar eu fiz com que ele se
ativasse sozinho. Voc tem que entender uma coisa sobre magia Ana: ela
 a extenso de sua vontade, de seus desejos. Quando saltei, estava
realmente decidido a por um fim a mim mesmo. Mas no fundo ningum
quer morrer.  medida que fui caindo, o medo da morte comeou a me
tomar. No fundo eu queria viver e foi esse desejo somado ao desespero
que fez a magia se ativar por si s. Ento, mesmo sem querer, eu
reencarnei.
     Que bom  comentou Ana.
    - O que? - ele ficou surpreso. - Que merda  essa que voc est
falando?
    - Que bom que voc pde ter mais uma chance.
    - Eu no acredito no que estou ouvindo  o garoto ria perplexo, como
se Ana estivesse lhe fazendo uma brincadeira de muito mau gosto - Ser
que voc no entende a gravidade de tudo isso? No entende porque fugi
de voc na piscina? No sabe que do contrrio voc estaria no lugar de
Catarina hoje? - e continuou desolado - Eu fiquei tanto tempo sem sentir
o gosto de uma boca, que seu beijo foi demais para mim. Eu lutei muito
para no perder o controle, mas... Um beijo apenas quase ps tudo a
perder.
    A tristeza de Ian era quase que palpvel para Ana o que a fez sentir-se
remoda pela pena. Mas alm dela, uma sensao de culpa tambm
comeou a se fazer presente, pois, no fundo, ela sentia que era
responsvel pelo que quase aconteceu. Isso por que, por dar ouvidos 
                               ~ 199 ~
Laila, quase ps a prpria vida em risco e obrigou Ian a reviver os
fantasmas do passado.
    - Entendo se estiver com medo de mim agora - ele disse desanimado -
e pode ir embora se quiser.
    - Eu no estou com medo  disse sinceramente  mas estou em
dvida. Ento, quando seus olhos esto azuis eles...
    - Nem sempre  disse com a voz cansada  Como eu disse isso  uma
caracterstica do meu cl, que me acompanhou mesmo depois da morte.
Mas elas ficam inativas a maior parte do tempo e s aparecem quando eu
as invoco ou...
    - Sei  interrompeu. Agora, olhando-o ali, sentado no cho, com seus
olhos vermelhos que lhe veio um desejo quase infantil, mas que no pde
ser reprimido  Voc... poderia me mostrar ento?
    - O que?  perguntou surpreso
    - Eu s gostaria de ver de novo.  Com mais calma. Agora no seria
uma demonstrao, como voc mesmo disse.
    - Voc  louca?
    - Talvez. J estou me acostumando a isso. - ela sorriu.
    Ana realmente sentia uma vontade louca de v-los de novo, sensao
est que a acompanhou desde o stio, s que desta vez, havia uma razo a
mais para olh-los. Queria se certificar de uma coisa. Ian a fitou por um
longo tempo esperando que ela desistisse da idia, mas a garota no
pareceu ceder.
    Ento, o garoto deixou o ar sair dos pulmes num sinal de desistncia
e fechou os olhos. Quanto os abriu novamente, estavam naquele mesmo
azul intenso que Ana se lembrava. Mais uma vez ela no pode fazer mais
nada a no ser olhar para eles, perdida naquela cor.
    Eram muito bonitos de se ver e muito diferentes do azul habitual.
Esses eram sobrenaturais. Era fascinante ver como aquelas pupilas
negras e muito pequenas, que deixavam o azul dominar toda a regio da
ris, fitavam-na naquele momento. Como se quisessem silenciosamente
para que ela sasse dali. Que fugisse.
    Ian ergueu a mo propositalmente para que ela pudesse ver as garras
que saiam de cada dedo. Ele parecia realmente determinado a assust-la
com isso, mas no conseguiu. Ao invs de fugir, Ana segurou sua mo
sentindo o calor da pele. Estava muito curiosa e deixou seu dedo
escorresse pelo dele e, ao passar por uma unha, sentiu ela lhe cortando a
carne.
    - Ai!  gemeu enfiando o dedo na boca.
    - Desculpe  disse recolhendo rapidamente a mo de volta.
                              ~ 200 ~
    - No foi culpa sua - Ana o acalmou  foi um acidente. No sabia que
eram to afiadas.
    Depois de sugar a sangue que escorreu pelo ferimento, ela ergueu a
mo para tocar-lhe no rosto. Ian hesitou no primeiro segundo tentando
desviar a cabea, mas Ana a segurou com mais firmeza. Sentindo-se um
beb que descobria o rosto de um adulto ela tocou seus lbios com os
polegares elevando-os um pouco. Debaixo da pele, uma fileira de dentes
brancos apareceu. Eram bem cuidados sim, mas no era isso que a tinha
encantado.
    Ao contrrio dos normais, eles eram um pouco mais afiados, quase
imperceptveis se no fossem os quatro caninos, muito mais avantajados
que a mdia que enfeitavam a boca. Desta vez ela no se atreveu a tocar-
lhes, pois deveriam ser to afiados quanto suas garras.
    Agora, soltando seu rosto e olhando-o por completo, notou que havia
outras diferenas em seu corpo. Seus cabelos continuavam despenteados,
mas agora pareciam um tanto mais opcionais, com alguns fios mais
arrepiados do que os demais. E passando os olhos pelo corpo pode ver
que os msculos tambm sofreram uma mudana. Estavam mais
definidos. No aumentaram de tamanho, mas pareciam mais esculpidos.
    Porm, nesta parte ela no se atreveu a por a mo para conferir.
    Quantas diferenas. Na primeira vez que viu tal transformao, no
pde prestar muita ateno aos detalhes, mas agora tudo era bem visvel.
E foi ento que ela tentou olhar alm da figura selvagem a sua frente e
olhando-o bem sabia que, por trs daqueles olhos azuis estavam os olhos
negros de Ian.
    Os mesmos olhos que prestavam ateno em suas historias anos atrs
e que a tiravam da solido. Os mesmos olhos que a viam sempre com
ternura apesar de todas as besteiras que fazia. Ela no podia acreditar que
aquilo era um monstro. Quem dera que todos os monstros fossem assim.
    E foi ento que decidiu j ter visto tudo o que queria e concluiu que,
mesmo com todos aqueles adereos, era Ian, no um monstro. Aquele
rosto triste, carregado de culpa, no podia pertencer a um monstro.
    E mesmo assim, quem disse que a histria tinha acabado? Ana sabia
que tinham mais coisas depois. O final no foi o assassinato de Catarina
e sim a conversa que ele estava tendo com Ana naquele momento.
Aconteceram muitas coisas desde que ele se atirou do penhasco. Coisas
que faziam toda a diferena. Coisas que transformaram o atormentado
Lucien no doce Ian. E Ana queria saber essa histria tambm.
    - Voc  exoticamente bonito  ela comentou - nem um pouco
assustador como voc imaginou que eu pensaria.
                               ~ 201 ~
    - O que?  ele balanava a cabea, incrdulo  Ser que no acreditou
em nada do que eu acabei de lhe dizer? Ou no prestou ateno em nada?
Voc no viu que mesmo sem querer posso machucar as pessoas.
    - Eu entendi e escutei tudo muito bem  respondeu com voz calma,
mas carregada de emoo - Mas eu tambm conheo voc muito bem.
Vivi com voc durante anos e isso j  o suficiente para conhecer voc
Ian. E sei que no  um monstro.
    - Inacreditvel  ele deu um sorriso nervoso - Ser que voc no
entende que eu quase te matei no sitio?
    - Mas no matou  ela corrigiu  E alm do mais, voc no contou a
histria toda.
    - Como assim?
    - Voc tem dezesseis anos e nos conhecemos a cinco. O que
aconteceu na sua vida antes de me conhecer? Aposto que isso faz toda a
diferena. Primeiro por que voc no fugiu como fez quando era Lucien
e depois por que foi a melhor coisa que me aconteceu...  ela se sentiu
envergonhada de falar assim to abertamente, mas continuou - e isso
deve fazer a diferena e deve tambm fazer voc no ser um monstro.
    - Voc no entende. A nica coisa que me fez viver todo esse tempo
foi o meu autocontrole. Privei-me de tudo, eu no sinto nada por dentro
h muito tempo. E esse autocontrole eu posso perder a qualquer
momento.
    - E  isso que faz a diferena - ela comentou segurando suas mos
que tremiam.  Voc se controlou porque no quer ser um monstro e por
isso voc no o . Agora por favor, me conte o fim da histria at me
conhecer. O que lhe aconteceu depois.
    - No aconteceu nada demais.
    - Isso quem decide sou eu - ela interrompeu  voc prometeu 
lembrou.
   Ian olhou fundo nos olhos de Ana e percebeu um tanto espantado que
eles no transmitiam medo. Por qu? Pensou. Eu poderia t-la matado,
mas voc acredita em mim. Por favor, no me diga que aquilo  verdade.
   Ian lembrava-se do olhar da prostituta em Virgnia e de todos os
magos que encontrou depois disso. Todos eles tinham as mesmas
expresses: dio, medo... mas ela no. Por qu?
   H tanto tempo se sentia sozinho. Apesar de ter amigos como Ian, ele
nunca pde ter nada to intimo com ningum. Nunca conseguiu se abrir
da forma como estava fazendo agora. Nem para a sua atual me, que
muito amava, nem mesmo com Solange, que tanto o entendia.
                              ~ 202 ~
    Ian olhava nos olhos de Ana tentando fazer com que todas as suas
mgoas e medos passassem para ela. Ele queria avis-la, mas as palavras
no saiam,
    Droga, isso no pode estar acontecendo. Fuja de medo, me odeie por
te esconder tudo, me despreze por ser um monstro, mas v embora. V!
No alimente o que eu sinto por voc. Voc no pode ficar comigo, mas
eu sou egosta demais para acabar com tudo por mim mesmo. Eu preciso
de voc. Ento acabe voc, por favor.
    Eram as palavras que ele diria se tivesse coragem, mas elas ficavam
engasgadas na garganta e Ian torcia para que seus olhos pudessem
transmiti-las por ele.
    - Termine  ela pediu acariciando seu rosto. Um toque quente, mas
sem nenhum apelo. Era bom sentir aquele calor de novo e ele deixou o
rosto cair.
    - Por favor. - encorajou  O que aconteceu quando voc nasceu como
Ian?  e foi quando ela se levantou e foi se sentar em cima da cama,
agarrando-se a um travesseiro. Era a mesma coisa que fazia sempre que
ia ouvir as histrias de suas tias antes de dormir. Era bom voltar a sentir
aquilo.
    Ela ainda tinha o desenho de Catarina na mo, que o colocou no bolso
no casaco para poder segurar melhor o travesseiro.
    - Estou pronta  falou  Pode comear.
    Ele desistiu de tentar convenc-la.
    - Est bem  concordou.
                               ~ 203 ~
   24  Ian
    Bem. Meu suicdio havia falhado e eu acabei reencarnando como Ian.
Quando nasci, mais uma vez no me lembrava de nada sobre Kalish ou
Lucien e vivi normalmente como um jovem carioca de classe mdia e
graas a minha experincia com cidades na vida como Lucien, eu no
sentia mais tanta falta do ar livre que sentira na minha segunda vida. Mas
uma dor sempre me acompanhava, e dessa eu no sabia a razo at
minha memria centenria despertar.
    Mas haviam algumas coisas novas nessa minha vida como Ian que eu
no havia experimentado como Lucien. Pra comear, eu havia criado
laos aqui. Primeiro por Marta, que foi uma verdadeira me para mim e
ainda . Essa era uma experincia que eu nunca senti antes. Primeiro,
porque nos Garows, as mes eram comunitrias, e como Lucien, minha
ama era mais minha me que a prpria.
    Enfim, eu realmente gostava da vida como Ian, at que finalmente
acordei. Como antes, esse foi um processo demorado e de certa forma
doloroso. Eu comecei com uma srie de sonhos aonde havia Alpes, neve
e lobos. Depois veio a crise de sonambulismo onde eu dormia em minha
cama e acordava em algum lugar diferente. Sempre dentro de casa a
princpio, at que um dia em particular eu fui acordar no meio de uma
tempestade na praa que temos aqui perto de casa.
    Depois disso, veio a nova memria e tudo ficou claro pra mim.
Minhas outras vidas, meus poderes, minha condio e minha culpa. Eu
no me lembrava de haver tentado a magia da ressurreio, mas logo
cheguei  concluso do que havia acontecido e amaldioei minha burrice
por no ter tirado o colar antes de me jogar.
    Eu tinha novamente a idia de fugir de casa, assim como fiz como
Lucien. S que agora eu queria fugir no por tdio, mas sim por que eu
no queria arriscar a vida da mulher que aprendi a amar como me,
expondo-a a minha besta.
    Mas desta vez no foi to fcil. Tinha uma coisa que me prendia: que
minha prpria me. Eu havia vivido tantos anos sozinho, recebendo
apenas olhares de desprezo e dio de todos a minha volta, que quando
via Marta olhando pra mim, sentia uma paz profunda. Ela me amava e
era bom poder retribuir aquele amor, pois ele era puro, onde no havia
chances de eu sentir nenhum desejo por ela que me obrigasse a... Voc
sabe.
    Enfim, era perfeito demais para simplesmente ir embora. Eu pensei
tambm em tentar um novo suicdio, mas esta alternativa tambm no era
                               ~ 204 ~
vlida. Como Lucien, eu tive que chegar a um estgio em que tivesse
perdido tudo para tomar tal deciso. J como Ian, eu tinha coisas que
valiam  pena. Eu tinha minha me e isso me tirava toda a coragem de
repetir o ato.
    E foi nesse perodo que eu tive contato com outros magos do nosso
tempo. Na verdade, com bruxos, magos compactuados com demnios
que me queriam ao seu lado. Depois de um leve confronto, onde tambm
conheci Solange, que descobri ser tambm uma maga, conseguimos nos
livrar deles.
     estranho, n? Nossa vizinha Solange tambm  uma maga. Para
voc v. Magia est em toda a parte, mas o vu nos impede de ver. Bem,
quando nos livramos deles, eu vi que era egosmo demais de minha parte
tentar manter minha me ao meu lado. Apesar de no correr o risco de
sentir excitao por ela, ainda assim era perigoso, pois isso no me
deixava livre de outras sensaes. Tais como a raiva.
    Voc pode imaginar como ? Eu no podia nem sequer discutir com
ela com medo de perder o controle e isso me deixava louco. Sendo
obrigado a me fiscalizar perante a cada atitude. E apesar de am-la, 
difcil no se irritar nunca.
    Bem, ento eu tinha que ir e j estava me preparando para isso. Eu
tinha idia simples de viver isolado em algum lugar at que a morte
chegasse. Desta vez no tentaria engan-la. Nem fiz mais o ritual para
no cair em tentaes. No queria mais viver daquela maneira. Tendo de
me privar de tudo. Afinal, isso nem  viver,  sobreviver.
    Logicamente eu tinha a opo de me matar, mas a verdade  que no
queria. Primeiro, porque no queria que minha me sofresse se sentindo
culpada pela minha morte e em segundo porque eu j tinha provado disso
duas vezes e no queria tentar uma terceira. Pode ser parania, mas eu
me sentia dentro de um ciclo vicioso de suicdios. Achava isso j
doentio.
    Quem sabe viver uns dez ou quinze anos de solido no me fariam
ganhar desespero o suficiente para tentar me matar de novo? Mas at
ento, no. Foi ento que me aconteceu. A minha nova beno/maldio.
    Eu conheci voc.
   Voc chegou de uma forma to repentina. Era uma garota linda, mas
ao mesmo tempo frgil, quando se mudou pra c na rua. Eu lembro que a
minha me me convenceu a ir at a casa de vocs naquela manh de
mudana, para me apresentar. Ela sabia que havia uma menina da minha
idade e achou uma boa idia eu tentar lhe enturmar com o pessoal da rua.
                              ~ 205 ~
    Eu relutei em fazer isso, afinal eu j estava planejando a minha fuga e
fazer novas amizades no facilitava o processo. Mas acabei sendo
convencido. Pensei ento que poderia apenas te apresentar a todos os
meus amigos e deixar que voc mesma cuidasse das coisas. E foi com
esse pensamento que fui at a sua casa.
    Sua me me atendeu muito bem e me convidou para entrar, me
mandando para seu quarto. Ela estava muito preocupada e hoje sei que
queria muito que voc conseguisse um amigo. Ento eu entrei e foi
quando a vi pela primeira vez.
    Confesso que a primeira coisa que senti foi pena.
    Desculpe-me. Eu sei que  triste ouvir isso de algum, mas voc
estava to pra baixo, to desamparada. Acho que me comovi com seu
estado desde o princpio, no sei. Eu s sabia que naquele momento eu
queria te ajudar.
    Na verdade teve mais uma coisa que me chamou ateno em voc.
Sua energia. Eu me lembro claramente de ver aquela urea roxa
queimando em volta de seu corpo e achei aquilo intrigante Pois, como
algum podia estar to viva no esprito e to fraca no corpo?
    Hoje eu entendo bem isso. Apesar de desolada pelo seu trauma, voc
ainda se agarrava firmemente em suas crenas e isso lhe dava todo
aquele poder que eu via transbordar. O que aconteceu depois foi bem
estranho, lembra? Foi quando comecei a perguntar sobre a sua vida e
voc facilmente falou de tudo o que tinha lhe acontecido.
    . Acho que voc estava realmente desolada naquela poca e s
queria encontrar algum que te ouvisse sem lanar o olhar torto. Acho
que fui eu a fazer isso. Desde o inicio j sabia que era verdade o que
voc dizia. Eu reconheci muitos dos acontecimentos e dos rituais que
voc citou. Sabia que voc no poderia invent-los com tanta preciso.
    De fato voc havia conhecido druidas. Mas, mesmo reconhecendo
que voc falava a verdade, eu ainda tinha dvidas se confirmava ou no
as suas crenas. Desculpe dizer isso, mas voc estava to perturbada com
a coisa que era potencialmente capaz de se tornar uma Catica.
    Foi ento que pensei bem e vi que poderia esperar que voc se
acalmasse e amadurecesse para a sim lhe contar algo. A idia era boa, eu
pensei na poca. Eu poderia lhe mostrar o Vu e depois Solange se
encarregaria de lhe iniciar nas artes mgicas. Afinal, voc j havia tido
muita experincia com suas tias e por isso devia conseguir mais fcil.
    Havia uma grande maga em voc e eu pude ver isso, mas eu ainda
planejava ir embora e no podia assumir um compromisso com uma
nova aluna. No podia ser seu mestre.
                               ~ 206 ~
    O que eu no sabia era que meus planos j estavam sendo minados
naquele mesmo dia. Pois, quando sa da sua casa naquela manh, sua
me me interceptou. Ela viu que voc estava mais feliz depois de nossa
conversa e pediu para que eu voltasse mais vezes.
    Isso no era parte de meu plano, mas eu no pude resistir a sua
splica e tive que adiar minhas idias. Ento resolvi retificar meu
planejamento e minha partida seria adiada para at depois que voc se
recuperasse e quem sabe, eu j lhe apresentasse  Solange.
    Mas a cada dia que passava eu no percebia a armadilha se formando
dentro de mim. Voc era to dependente, to frgil. Eu tinha que te
proteger de tudo: das pessoas, de seus pais e at de voc mesma. Isso
pode parecer irritante, mas acabou por despertar em mim uma
personalidade que nunca havia experimentado.
    Eu sei que devia ter posto um fim nisso naquele momento, mas
quanto mais eu me atolava mais eu queria me afundar mais. Quando
menos pude perceber, estava realmente dependente de voc. Era
dependente de sua necessidade de mim, de sua vontade de me ter por
perto, diferente das inmeras outras pessoas que me perseguiam como
Lucien. E foi quando essa dependncia evoluiu e eu passei a me
apaixonar por voc.
    Eu queria voc pra mim, mesmo sabendo que era impossvel, pois
como voc poderia gostar de um monstro feito eu? E foi ento que eu
descobri que nunca mais conseguiria contar a verdade pra voc. Eu tinha
adiado demais e agora perdi a chance.
    Eu no teria problemas se tivesse feito voc atravessar o Vu antes,
por que eu ainda no era apaixonado por voc. Eu no teria problemas
em te contar meu passado sombrio, mas agora, era impossvel. Contar-te
a verdade sobre suas tias e sobre o mundo seria a ponte que te ligariam
ao meu passado, a minha vergonha e eu sabia que chegaria um momento
aps saber de tudo que voc comearia a me perguntar sobre minha
histria, como aconteceu hoje.
    E a eu teria que contar tudo a voc, pois no seria justo esconder
quem eu era. E esse medo foi adiando minha confisso at que enfim
aconteceu: voc parou de acreditar. Agora minhas histrias sobre magia
no a interessavam mais. Voc havia acreditado finalmente que suas tias
haviam morrido num acidente e que todas as histrias eram apenas
contos para distra-la.
    Eu s no sabia que preo que voc pagou para conseguir esse
conforto foi to alto. Nunca fiz uma real idia de quanto esse tratamento
                              ~ 207 ~
havia mexido com voc. Voc perdeu sua f, perdeu parte de sua
esperana e de seu brilho. E era minha culpa.
    O que me consolava um pouco era o fato de voc realmente parecer
mais feliz assim, adormecida. Era um efeito inverso.  medida que eu
via sua energia caindo e perdendo o brilho, eu notava que voc ganhava
sade, vitalidade. E isso de certa forma me consolava.
    Meu egosmo no me deixou lhe contar a verdade antes, pois tinha
medo que quando voc soubesse de mim, passasse a me olhar como um
monstro, assim como faziam todos a minha volta. At mesmo Solange,
com quem tenho uma boa relao, demorou muito at parar de me olhar
de rabo de olho.
    E ver voc olhar com desprezo pra mim - ou pior, com dio - era uma
idia que eu no suportaria.
    Desculpe, pois deixei meus sentimentos estragarem sua vida.
    Se eu tivesse te dito antes Eu poderia lhe explicar sobre o Vu e
assim alert-la de que era melhor parar de falar sobre magia pelos quatro
cantos e assim voc se passaria como uma pessoa normal e evitaria todo
o tratamento.
    Perdo, mas eu era muito egosta para ter feito o contrrio.
    *
    Desta vez, Ian no mais chorou e s ficou olhando para o cho, com o
rosto envergonhado diante dela. Ana viu que ele agarrava os prprios
antebraos com fora, pressionando as unhas contra a pele e arrancando
sangue dela. Ao ver isso, a garota saltou da cama para abra-lo.
    - Para  pediu.
    - Desculpe  sussurrou ao seu ouvido   que essa  a nica forma
que eu conheo de controlar um pouco a raiva que sinto de mim mesmo e
assim, controlar a besta.
    - No importa  e ordenou com a voz mais dura  Pare!
    Ele parou e abraando-a tambm, encostou a cabea em seu peito
como uma criana desolada e ali permaneceu, recebendo afagos de Ana
nos cabelos. E ao ver aquele seu estado Ana no soube o que fazer. Ian,
que sempre fora controlado, se deixou desabar ali, derrotado por si
mesmo.
    - Voc no tem culpa  tentava acalm-lo - A vida foi difcil pra voc.
    - Mas isso no justifica  murmurou.  Eu devia ter falado. Eu devia
ter lhe dado a chance de se defender de mim. Eu devia deixar que voc
soubesse desde o comeo com que perigos estava lidando. Devia deixar
voc escolher se queria estar realmente perto de mim.
                               ~ 208 ~
    - Mas eu j escolhi  ela lembrou.
    - Agora  um pouco tarde.  ele rebateu se soltando dela  eu no
podia ter te deixado se envolver comigo. Voc...
    - Eu o que?  encorajou enquanto acariciava o rosto do amigo - no
estou entendendo.
    - Porque voc teve que gostar de mim?  questionou com uma
pontada de revolta como se a estivesse acusando - Por que teve de se
envolver comigo  e se afastou, encarando-a.
    Ana ainda precisou de um tempo para compreender do que ele estava
falando e quando conseguiu, sentiu-se envergonhada e temerosa em
explicar.
    - Ian  ela comeou pensando nas palavras que ia dizer.  Voc est
entendendo errada a situao...  no sabia como continuar.
    O garoto, que estava de p fitando a janela, parou para encar-la com
o rosto intrigado.
    - Como assim? - perguntou.
    - Eu...  e gaguejou nervosa  Eu no estou... apaixonada por voc 
resolveu ir direto ao assunto
    - Mas... e quando voc me...
    - Desculpe  ela se apressou em dizer, enquanto se levantava e
segurava o rosto do amigo fazendo com que ele a olhasse nos olhos. Mas
apesar de sua tentativa, Ian comeava a andar pelos lados falando mais
alto.
    - Porque voc me...
    - Sinto muito. - interrompeu sentindo-se muito mal por tudo - Eu acho
que foi besteira. No achei que significasse alguma coisa pra voc... -
mas ela sentiu que sua desculpa no era convincente o suficiente e a voz
de Laila veio a sua cabea.
    Acho que ele no se importaria em ser usado. Ele  doido por voc.
    Serio! Mesmo! Ele quer tanto quanto voc. Geralmente quem est
dentro nunca percebe
    - Voc achou que no significaria nada? - ele agora estava perplexo.
Ana sentia que quanto mais tentava explicar, mais se complicava 
Ento... eu era s um consolo? Um prmio de consolao?
    Ana ficou muda. A voz de Laila no saia de sua cabea.
    Ele  homem, no vai se importar.
    Mas o pior de tudo era saber que, na verdade, a amiga havia lhe
avisado. Havia lhe dito quando Ian gostava dela e mesmo assim ela o
usou.
    - Desculpe.  pediu com a voz fraca.
                              ~ 209 ~
    Mas ele continuou como se no tivesse escutado:
    - Eu s pensei que... com todos esses anos juntos eu tivesse mais
crdito com voc.
    - Eu sinto muito  e tentou investir mais uma vez.
    Mas Ian ficou de costas para ela apoiando as mos na janela
segurando com fora no parapeito, murmurando palavras que no eram
direcionadas a Ana e sim constituintes de um monlogo interno, mas que
a garota pde escutar ainda assim.
    - E eu quase matei voc por um consolo? Uma brincadeira? Eu quase
fiz aquilo de novo... por nada?
    - Ian  ela levou sua mo ao ombro do garoto para tentar pux-lo de
volta.
    - Por favor... - ele pediu com uma calma controlada, mas sua voz
parecia que ia explodir a qualquer momento - Saia.
    - Mas...
    - Saia!  E sua voz soou como um rosnado feroz e, ao virar o rosto
para encar-la Ana viu em seus olhos azuis uma colorao vermelha que
comeava a surgir na pupila, se espalhando pelo globo ocular como se
fosse um colrio pingado.
    Aquilo a fez dar um passo para trs com um leve susto, mas no o
suficiente para faz-la correr feito louca para casa, pois a vontade de se
desculpar melhor, ainda era mais forte. Mas foi ento que o bom senso
comeou a lhe avisar que era melhor ir embora. Ele estava muito
transtornado e no poderiam conversar assim.
    Mesmo contra a vontade, Ana saiu do quarto do amigo fazendo um
ltimo pedido de desculpas antes de sair. Ao chegar  porta deu de cara
com Marta.
    - O que houve minha filha?  ela se alarmou vendo os olhos inchados
de Ana - Porque tanta pressa?
    - Desculpe tia Marta - a garota se desviou da mulher antes que ela a
pegasse e saiu para casa em alta velocidade.
    Chegando em casa, ignorou seus pais que dormiam abraados no sof
da sala. Ignorou que estava molhada devido  chuva que insistia em se
manter forte. Ignorou tudo. S queria chegar ao quarto. L, pde fazer o
que realmente queria. Caiu na cama e deixou que a culpa sasse de dentro
dela e chorou como no lembrava mais, sentindo o alivio que as lgrimas
lhe proporcionavam.
    E assim permaneceu, deitada na cama, sem nimo de trocar de roupa.
Desculpa, ainda pedia em silncio. Sentia frio e foi ento que se deitou
de lado e uniu as mos em frente ao rosto em forma de cuia pondo-se
                               ~ 210 ~
concentrada. Foi ento que, mais rpido que antes, uma pequena chama
roxa acendeu-se em sua mo, aquecendo seu corpo. O fogo danava 
sua frente e a manteve distrada por um tempo, fazendo-a esquecer a dor
que sentia. Era bonito admir-la.
   Ento, cansada de manter o fogo acesso, ela s torceu intimamente
para que a raiva do garoto no durasse at o dia seguinte. E assim,
fechando os olhos, caiu no sono.
                              ~ 211 ~
   25  Numa noite chuvosa.
    Andando pelas ruas do centro no meio da forte chuva, um homem de
terno preto seguia sem parecer ter destino certo.
    Ele usava um guarda-chuva negro e tentava, a muito custo, tampar
com a mo um isqueiro que lutava para acender, nem que fosse por
alguns segundos apenas suficientes para que o sabor adocicado do
cigarro lhe entrasse os pulmes aps uma boa tragada.
    - Finalmente  murmurou quando conseguiu.
    E colocando o cigarro na boca ele se deliciou, pondo-se a esperar na
esquina da Avenida Presidente Vargas.
     Maldita chuva. Praguejou, enquanto olhava o relgio da rua que
marcava meia noite e trs. Atrasado. Mas enfim, como que ouvindo seus
pensamentos, um Vectra preto comeava a surgir pela deserta avenida.
    Ao reconhecer o carro, o homem caminhou um pouco se
posicionando estrategicamente para receber o passageiro. O carro
estacionou a sua frente mantendo a janela do carona bem prxima dele.
Assim, o vidro se abriu e o homem jogou um envelope de papel pardo no
seu interior e j ia se virando quando algum de dentro o chamou.
    - Pensei que no fosse haver conversas  indagou o homem de preto.
    - S estou curioso  dizia um sujeito gordo de facetas rosadas que
colocara apenas a cabea calva para fora do carro  Como andam as
coisas com os clrigos?
    - Ambos j esto sobre o nosso controle, ficaro vivos enquanto
forem teis.
    - Mas eu soube de um terceiro que freqenta aquela Igreja -
questionou o gordo com ar divertido
    - Um iniciante  fez pouco caso  no vai incomodar  e atirou a
guimba do cigarro numa poa d'gua e se preparou para pegar outro.
    - O cigarro mata meu amigo  alertou o senhor no carro.
    - O colesterol tambm - cortou o homem de preto numa voz fria
    - Me pegou  riu-se o senhor e o carro disparou pela rua chuvosa.
    Falta pouco agora, se animou o homem de preto. Logo poderemos
acabar com aquela igreja de uma vez.
                              ~ 212 ~
   26  Plano de Fuga.
    Ana acordou com sua me lhe chamando na manh seguinte e apesar
da fadiga enorme que sentia que a impedia de se levantar, Helena no
parecia querer desistir to fcil.
    - Querida acorda. Vai perder a hora.
    Ana lutava para se manter sonolenta, mas logo se rendeu e, ainda de
olhos fechados, ergueu-se retirando o cobertor de cima do corpo e ficou
sentada. At que sentiu Helena segurar seu rosto e ao abrir os olhos, viu
o olhar da me encarando-a intrigada.
    - O que houve?  questionou  Andou chorando?
    - No  nada  e tentou virar o rosto, mas a me o segurou.
    - Como assim no foi nada?  ela puxou a coberta - Olha pra voc.
Dormiu assim e... - passou a mos no colcho - e toda molhada. O que
voc est pensando? Quer ficar doente?
    - Eu cheguei cansada e dormi direto - explicou Ana um tanto aptica.
Por um lado estava feliz pelo foco da discusso ter mudado, j que agora
a sua irresponsabilidade havia tirado a preocupao da me com seu
estado de esprito.
    - Francamente!  exclamou  Se arruma logo e vai pra escola.
Quando eu chegar do trabalho, quero explicaes. No pense que vai
fugir dessa fcil Ana.
    . Ela sabia que no ia escapar fcil. Mas no queria se preocupar
com isso agora. Ento, tomou banho e se arrumou, fazendo isso de forma
mecnica e no orgnica, pois seus pensamentos estavam muito longe
daquele quarto. Ficava pensando em tudo o que aconteceu no dia
anterior. Quantas descobertas e quantos problemas.
    Quando foi colocar sua roupa molhada para a lavagem, um papel caiu
de um dos bolsos. Estava um pouco mido e Ana o reconheceu levando a
mo na testa. O rosto de uma bela mulher surgiu. Um pouco deformado
devido ao estado em que estava o desenho, mas Ana o reconheceu como
sendo o desenho de Catarina.
    Ao segurar o papel com a ponta dos dedos, a garota gemeu ao ver o
estado do trabalho. Ian no ia gostar nada daquilo. Mas um problema.
Pensou com pesar e resolveu deix-lo secando na janela enquanto
terminava de se arrumar. Quando acabou, colocou-o na mochila para
devolver. Era uma boa maneira para se iniciar um assunto com ele e s
esperava que seu humor j tivesse melhorado o suficiente para que ele
no fizesse muita questo para o estrago em sua obra de arte. Afinal, ele
                              ~ 213 ~
no devia estar ainda bravo com ela, no depois de tanto tempo. Era
nisso que ela queria acreditar.
    Assim, acabou de tomar o caf e saiu de casa escutando sua me
gritando quando atravessou a porta:
    - No se esquea de nossa conversa mocinha!
    - T me!  respondeu Ana, j no porto.
    Assim que saiu de casa, tratou de passa na de Ian. Apesar de eles
sempre caminharem juntos para o colgio, ficou com receio de cham-lo
hoje. Tinha medo de como seria recebida. Ento, esperou um pouco para
dar o tempo de o garoto sair e foi quando viu Solange regando as suas
plantas no jardim de casa. Sem pensar duas vezes, correu at ela.
    - Bom dia tia Solange  cumprimentou a garota um tanto hesitante 
A senhora viu se o Ian j saiu?
    - Saiu sim.  respondeu a mulher num tom um tanto seco. Ana se
surpreendeu, pois Solange sempre teve um bom humor, apesar de a
garota sempre fugir dela. Ela era do tipo de mulher que quando
comeava a falar no parava mais, mas naquele dia em especial no
parecia querer papo com Ana e a garota decidiu ir para a aula sozinha
mesmo.
    Chegando l, no teve tempo de procur-lo na entrada, pois, j era
hora de ir para a primeira aula: fsica. Assim, entrou na sala e percebeu
que o lugar de Ian, que era sempre ao seu lado, estava vago. Olhou em
volta intrigada e o viu sentado ao lado de Rodrigo, que falava
animadamente com ele.
    Mas apesar de Ian estar olhando para o amigo, Ana pde perceber que
ele no prestava muita ateno. Seu olhar estava um tanto perdido e ele
acenava com regularidades cronometradas para mostrar que estava atento
ao que o seu interlocutor dizia. Naquele caso, seu olhar estava to vago
que ele nem viu quando Ana chegou. Ou fingiu no ver, ela no saberia
dizer, mas ento a garota se esgueirou at seu lugar e sentou-se, apoiando
cabea nos braos cruzados.
    Vai ser mais difcil que eu pensei.
    E foi quando ela sentiu algum sentando a seu lado e levantou a
cabea na esperana de encontrar Ian de volta, mas viu que era Laila.
    - Oi fofa!  ela disse dando-lhe um beijinho na bochecha  Como foi
seu domingo?
    - Porque voc esta sentada aqui hoje?  Ana no queria ter falado de
forma to fria, mas no pde evitar. No fundo, ainda culpava a amiga por
seus problemas.
                               ~ 214 ~
    - Bem...  disse um pouco constrangida - Eu pensei que j que o Ian
resolveu mudar a rotina eu poderia aproveitar para falar com voc...  e
tentou acrescentar rpido  mas se voc...
    Mas Ana sentiu uma pontada de culpa no peito.
    - No, no  interrompeu  Desculpe.  que no dormi bem e acordei
meio virada.
    - Sei qual .  disse parecendo recuperar o humor.
    Realmente nada a abala. Pensou feliz por saber que no magoara
outra pessoa em menos de vinte e quatro horas.
    - A noite foi boa? - ela perguntou  J que voc no dormiu direito.
    Ana riu do comentrio.
    - A melhor parte dela foi que eu finalmente consegui dormi 
resmungou.
    - Nossa!  ela se espantou - Foi to ruim assim?
    - Pior. - era mentira. A noite foi tima, mas terminou horrvel.
    - Eu imaginei  ela falou olhando para Ian  Ento parece que eu me
enganei feio, no?
    - Acho que sim.  concordou com um meio sorriso.
    - Estranho. - insistiu e Ana viu que ela no iria desistir assim to fcil
de sua operao Cupido  Eu podia jurar que ele gostava de voc.
    Ana concordou em mente. Gosta mesmo. Esse  o problema. E
pensando naquilo, Ana no pode deixar que uma coisa a intrigasse por
no se encaixar naquilo tudo. Se ele gostava tanto dela como dizia, por
que ento beijar Solange daquela forma. Apesar de tudo, no conseguia
tirar aquilo da cabea.
    - Acho que ele gosta na verdade de outra pessoa - deixou escapar.
    - Srio?  surpreendeu-se - Mentira!
    A voz de Laila havia se elevado demais e Ana fez um gesto para a
garota moderar.
    - Desculpa  pediu abaixando o tom  mas  to... incrvel. Eu
geralmente no me engano tanto assim. Quem  ela?
    - Eu no conheo.  mentiu. - Ele s me falou.
    Deixando a amiga perplexa ao seu lado, Ana abriu a mochila para
preparar o material esperando que Laila desistisse enfim, porm, quando
foi puxar seu caderno de Fsica, uma folha escapuliu e deslizou at a
mesa de Laila. Ana ainda tentou recuperar a tempo, mas a garota era
rpida e antes dela pensar em pegar o papel, a garota j o tinha agarrado.
    - N... - tentou impedir, mas se conteve.
    - Algum problema?  perguntou - Algo confidencial? - acrescentou
com um pouco de xtase na voz.
                                 ~ 215 ~
    - Nada  concertou Ana  Dada demais.  e recolheu o brao
estendido.
    - Posso ento?  pediu Laila, fazendo meno de desdobrar.
    - Claro. - disse no muito confiante.
    Pelo canto do olho, Ana espiava Ian para ver se o garoto estava vendo
o que acontecia, mas ele no parecia interessado em virar o rosto.
     - Nossa!  exclamou a garota ao vislumbrar o desenho  Quem fez?
    - Ian - respondeu baixinho.
    Foi ento que se passou uma expresso pelo rosto de Laila que Ana
no conseguiu captar a essncia de imediato. Primeiro, um espanto,
depois, um sorriso presunoso se abriu em seus lbios e ela olhou para
Ana cheia de si.
    - Ento eu estava certa, no?
    - Como assim?
    - Ele gosta de voc. - explicou como se fosse bvio e Ana viu que era
difcil para ela esconder seu orgulho por estar certa.
    - Mas como assim?  Ana de fato no entendia.
    - Ora. Por que outro motivo ele lhe desenharia?
    - H? - agora ela estava confusa  Laila... a moa da foto no sou eu.
    - Como no? Olha voc.  e devolveu o papel para a garota poder ver
 T certo que a mulher da foto parece um pouco mais velha e mais
bonita... Brincadeira!  acrescentou rpido - Mas  voc.
    Ana pegou o desenho e olhou a moa linda reproduzida na imagem.
Analisando bem, a nica coisa que ela achava ter em comum com
Catarina era a tipo de cabelo, pois ambas mantinham o corte Chanel com
franja, mas fora isso, nada. At mesmo o cabelo da maga era perfeito e
no tinha uma mecha rebelde que sempre cortava seu rosto ao meio.
    - No .  teimou Ana.
    - Olha bem - insistiu Laila - o mesmo cabelo, o mesmo rosto, s que
mais velho talvez.
    Ana agora olhava os traos da mulher: Fortes e bem delineados. Laila
pegou um espelho da bolsa e ergueu para que Ana pudesse comparar.
Ana riu, mas pegou o espelho.
    Por um lado, talvez. Tentou dar o brao a torcer enquanto olhava do
desenho a ela e voltava para comparar. E vendo assim de perto, at que
comeou a achar algumas semelhanas, mas ainda no estava
completamente convencida.
    Acho que  assim que eu gostaria de ser. Ser?
    Realmente agora que falava, elas tinham alguma coisa em comum.
De fato eram muito parecidas.
                               ~ 216 ~
    Talvez tenha sido isso que o atraiu pra mim.
    Mas ao pensar nisso, ela se sentiu um tanto triste.
    Ento deve ser isso. Porque pareo com Catarina. Ele deve ter se
confundido
    E foi quando a voz do professor Pinheiro cortou seus devaneios.
    - Bom dia!  anunciou com seu bom humor habitual.
    - Que droga de aula  comentou baixinho Laila.
    - Mas voc sempre gostou  rebateu Ana embora no tivesse dado
muita importncia ao comentrio. Sua mente ainda vagava pelo desenho.
    - Eu sei, mas j estou um pouco de saco cheio  riu-se a garota -
Quero frias.
    Mas Ana no prestava mais ateno a ela. Ficava agora olhando o
desenho de Catarina e realmente se convenceu que ambas eram parecidas
e ela s pode para de olhar para o papel quando Laila deu-lhe uma
cutucada com o cotovelo.
    Com um solavanco da cadeira, viu que o professor a estava fitando e
rapidamente recolocou o desenho de volta na mochila e passou a anotar o
que estava no quadro. Assim, o professor Pinheiro fingiu que nada havia
acontecido.
    - Obrigada  sussurrou Ana.
    - De nada. Deu pra ficar narcisista agora?
    As duas riram em voz baixa e a aula foi-se passando. A todo o
momento Ana olhava para o corredor de carteiras ao lado e Ian insistia
em no se virar. Queria pelo menos que ele a olhasse, no estava
acostumada a ser esnobada por ele dessa forma. Na hora do intervalo,
decidiu ir falar com ele, mas Laila a segurou.
    - Vem comigo comprar folhas de fichrio? As minhas acabaram.
    Ana olhou de volta par Ian, mas ele j tinha sado.
    - Ah... Claro.
    E seguiu a amiga at a papelaria da escola onde Laila a prendeu em
um papo sobre jias, que Ana no participou muito. O ruim de Laila 
que sempre que comeava a falar no parava mais, embora nos ltimos
dias parecesse ter conseguido acentuar essa sua caracterstica.
    Quando finalmente conseguiu se livrar da garota, ela correu para o
refeitrio para ver se ele ainda estava l e acabou achando-o numa mesa
solitria, brincando com um sanduche sem com-lo. Pela sua
experincia, Ana sabia que se Ian estava sem apetite, era motivo de
preocupao. E sem fazer barulho, se esgueirou at a mesa dele e se
sentou na sua frente sem pedir licena.
                              ~ 217 ~
    O garoto, que estava de cabea baixa, fitou-a pelo canto do olho sem
dizer nada de imediato. Mas, apesar de seu silncio, Ana sentiu-se mais
aliviada, pois percebeu que sua expresso no era mais de raiva,
parecendo mais que estava constrangido. Era um bom sinal.
    E assim, ambos ficaram calados por um tempinho. Ana no sabia
direito como comear, j que no tinha muita experincia de brigas com
Ian e por conta disso, no sabia muito bem como se desculpar com ele.
Odiava que o garoto ficasse chateado com ela e tambm gostava demais
dele para conseguir ficar brava por muito tempo.
    - Desculpe!  acabaram falando os dois ao mesmo tempo se
espantando com a coincidncia.
    - Primeiro as damas - convidou Ian.
    - Por favor, eu insisto que voc v primeiro  implorou Ana.
    Ele sorriu e concordou.
    - T bom. Desculpe por ter sido um idiota na noite anterior. Eu
confundi as coisas e me sinto pssimo por isso.
    - Est tudo bem.  ela se sentiu mais animada.
    - Agora  a sua vez - convidou.
    Ela sorriu amarelo e falou:
    - Eu no devia ter feito aquilo com voc. No podia brincar com seus
sentimentos. Desculpe.
    Ele deu uma risada seca.
    - No  bem assim, Ana. Acho que voc no fez nada demais. Talvez
eu esteja ainda acostumado com o sc. XIX de Lucien. Tenho que me
atualizar com o sc. XXI, onde um beijo no quer dizer necessariamente
compromisso.
    -  verdade vov - brincou.
    Ele riu de novo. Desta vez, um pouco mais descontrado.
    - Foi mal. - pediu de novo - Acho que, na verdade, no foi seu ato que
mais me deixou irritado. Foi descobrir que voc... bem... no gosta de
mim como eu de voc. Sabe?
    Ana se ajeitou incomodada na cadeira.
    - Bem. - ela comeou  No tem problema. Eu gosto de voc. Mas
como amigo.
    - E pra mim isso est bom  ele se apressou em dizer -  at melhor.
Mais seguro.
    - No fala assim. Voc nunca me faria mal.
    - Eu nunca faria mal a ningum - corrigiu  Mas fiz muito. O que faz
voc ter tanta certeza que no vai se repetir?
                               ~ 218 ~
     - Voc est muito mais controlado do que naquele tempo. 
argumentou.
     - Pode ser - concordou. - a verdade  que fazia muito tempo que eu
no sentia a besta to forte. A frmula foi at simples: s deixar de viver
 comentou irnico  Mas os ltimos dias foram verdadeiras provas de
fogo. Eu quase perdi o controle duas vezes.
     Ela ia perguntar qual teria sido a segunda, quando se lembrou de seus
olhos prestes a ficar vermelhos na noite anterior.
     - Ah...  lembrou-se. Queria mudar de assunto e meteu a mo no
bolso do casaco  Toma.  e lhe entregou o retrato de Catarina  Isso 
seu. Eu levei ontem sem querer.
     O garoto pegou o desenho agradecendo, mas quando viu o estado do
papel sua expresso ficou interrogativa. Ele ergueu a folha na ponta dos
dedos olhando pasmo o estado dela, fazendo Ana se encolher com cara
de culpada esperando a bronca. Mas se surpreendeu com a reao.
     - Terei de fazer outro  comentou sorrindo.
     - Desculpe.
     - Que isso. Na verdade h muito tempo que quero me livrar dele. Da
dor que ele me causa, mas no consigo. Acho que eu tenho a tendncia a
me punir, mesmo que de forma inconsciente.
     - Se for assim, eu fiz bem. E digo que se fizer outro eu o queimarei. 
avisou.
     Ian riu.
     - Talvez voc no esteja perto de mim para poder fazer isso.
     Ana emudeceu com tal comentrio.
     - No brinca assim. - ela tentou sorrir.
     -  srio.  ele a encarou.  J passou da minha hora aqui. Tenho que
seguir caminho. Descobrir mais sobre mim. Sobre essa minha maldio.
     Ana segurou a mo de Ian com fora.
      No diga isso.  ordenou - Voc no vai embora. No pode.  e
escarneceu do absurdo.
     - Posso sim, e devo  corrigiu - J adiei isso por tempo demais. Eu
adiei tanto que at pensei em nunca mais ir embora. Pensei que eu fosse
mais estvel. Pensei at em viver essa vida como uma pessoa comum.
Esquecer o passado e morrer como um adormecido, mas os ltimos
acontecimentos me deixaram descrente. Minha raiva de ontem poderia
ter desencadeado num desastre. Eu sou uma bomba atmica Ana, e no
quero explodir perto de voc nem de ningum.
     - No diz isso - Ana vasculhava a mente atrs de argumentos  e Eu
e... e a sua me. Como ela vai ficar quando voc partir.
                                ~ 219 ~
   Ele deu um suspiro antes de colocar a mo na mochila, puxando um
pedao de papel.
   - J pensei nisso  disse o garoto lanando um jornal para ela.
   Ana olhou o jornal sem entender e viu que a noticia era sobre o
aumento do nmero de jovens desaparecidos no Rio de Janeiro. A
manchete dizia:
   Sobe para oito o nmero de jovens desaparecidos.
    Lendo rapidamente, ela reconheceu a notcia que vira no telejornal na
casa de Ian na tarde anterior. A reportagem falava do aumento no nmero
de desaparecimentos ocorridos na regio da Vila da Penha e como a
polcia desconfiava de que esses acontecimentos estavam de alguma
forma, vinculados com a ao de traficantes internacionais vistos
perambulando pelo Rio de Janeiro. Havia at a idia de que esses jovens
estavam sendo recrutados para servirem de mulas para o transporte de
drogas para outros pases.
    - Voc est pensando em ser uma mula? - perguntou descrente.
    - No  apressou-se em concertar  Voc entendeu errado. Isso vai
ser s um libi. Como uma desculpa para minha partida.
    - E voc acha que isso vai fazer sua me se sentir melhor? - comentou
sarcstica - O filho sendo um traficante.
    - No  isso  e apontou para outra parte da noticia  Olha isso.
    A folha dizia:
               Jovem  encontrado decapitado.
   Confirmando as suspeitas da ao do trfico internacional no
Rio de Janeiro, a cabea do jovem Andr se Souza Lima, 17 anos,
desaparecido na manh do dia 20 de junho, foi deixada na porta
da 27 delegacia, na noite de ontem.
   Tal ao se assemelha muito a ao dos traficantes, que vem
aterrorizando o Mxico, aumentando as suspeitas da ao desse
grupo no Brasil.
   A polcia ainda investiga a causa da morte, mas a principal
teoria  de que Andr fosse usurio de drogas e que havia
contrado uma alta divida com os traficantes.
   - No entendi - comentou dobrando o jornal.
                              ~ 220 ~
   - Bem  tentou explicar - No h uma maneira de minha me no
sofrer com a minha partida. Bem que eu queria, mas no d. Ento eu
pensei em forjar minha morte. No quero que ela fique com a vida
parada tendo esperanas de que eu um dia volte. Acreditando que estou
morto, ser mais fcil para ela tentar recomear. Essa  uma boa
oportunidade, afinal eu me encaixo no perfil.
   - Como assim? Ian  e riu descrente  ningum vai acreditar que voc
resolveu do dia para a noite virar uma mula. No d, tira isso da cabea.
   - Eu no quero ser uma mula Ana.  respondeu achando graa de sua
confuso. S uma vtima, como esse tal Luiz. E assim, posso ser
encontrado morto um dia.
   - E como voc faria isso?
   - Sei de algum que pode arranjar um corpo.  falou misterioso.
   - Mas voc no usa drogas! - lembrou Ana. A garota comeava a ficar
nervosa.
   Ele esta falando srio. J pensou em tudo.
   - Nunca  tarde para comear  brincou, rindo um pouco antes de ver
a cara da garota que a fez parar.
   - E voc acha que isso vai fazer sua me se sentir melhor?
   - Olha, eu sei que  cruel o que estou fazendo, mas eu no sei como
fazer diferente.  o olhar o garoto agora era duro  Assim pelo menos eu
fao com que ela tenha uma lembrana ruim de mim. Talvez assim seja
mais fcil pra ela tentar me esquecer, sei l. E ela vai ter o Nathan para
consol-la depois.
   - Nathan? - perguntou surpresa.
   Ele pareceu surpreso com a dvida de Ana, mas depois levou a mo 
cabea dando uma tapa na prpria testa.
   - Ah, esqueci de te falar, no ? Minha me est grvida. Trs meses.
Souberam do sexo anteontem.  anunciou com um sorriso.
   - Serio? - Ana ficou radiante - que legal - E depois seu sorriso
desanimou - Mas voc nem vai querer aproveitar o irmo.
   - No vai dar - disse o garoto tambm triste de novo - Acho que ele
vai faz-la se sentir melhor. Espero que sim.  bom no ser mais o filho
nico.
   - Parece que voc no vai desistir, no ? - disse desanimada
   - No  concordou Ian fitando seu sanduche intocado - At porque
minha me j tem pensado coisas desse tipo sobre mim.
   - No  possvel. - Ana riu de escrnio - Ela no pensaria isso de
voc.
                               ~ 221 ~
    - Na verdade, pensa sim  ele a corrigiu sem nimo - apesar de nunca
ter falado. Minha me tem ficado muito pavorosa com essas noticias e
tem se preocupado muito comigo por conta disso. - e completou meio
encabulado - E nos ltimos dias eu tenho feito coisas que acentuaram tal
preocupao.
    - No pode ser.  disse Ana, mas ento o momento da conversa com
Marta voltou a sua mente:
    No  que eu no confie nele  que... eu no confio nos outros
    Ela ainda se lembrava da sbita onda de dor que passou pelos olhos
dela, naquele momento da conversa quando a reportagem passou na
televiso. De fato ela estava preocupada com o filho.
    Por qu?
    - Como ela pode pensar isso? - perguntou Ana.
    - Bem. A verdade  que ultimamente eu tenho agido de forma um
tanto estranha.  ele parou um minuto suspirando  Eu no queria te
contar para no te assustar, mas acredito que agora o perigo j passou. -
disse voltando a ateno pra garota. - Nos ltimos dias eu percebi a
presena de um demnio pelo nosso bairro.
    - Um demnio?  Ana se curvou para junto de Ian a fim de que a
conversa fosse mais particular.
    - Sim, um possudo, eu achava.
    - Como assim?
    - Eu no sei explicar. Foi diferente. - ele parecia realmente confuso.
    Ana esperou, at que ele se props a divulgar.
    - Bem, vou te contar do principio:
    "H umas duas semanas, quando notei sua presena to prxima,
comecei a temer pela segurana de voc e de minha famlia. Falei com
Solange e ela tambm estava ciente da presena do intruso, s que ele
no fazia nada. Ficava sempre perambulando e rondando nossa rua sem
nunca se revelar.
    "Fiquei dias sem dormir por conta disso, saindo  noite e voltando
cada vez mais tarde para casa a fim de encontrar o desgraado e acabar
com ele. Mas o infeliz era escorregadio. Aconteceu que, com o tempo,
minhas chegadas em casa ficavam mais tardes e minhas desculpas mais
esfarrapadas. Isso j  o suficiente para uma me ficar desconfiada, mas
ela nunca me interrogou seriamente sobre o assunto e eu tambm nunca
dei maiores explicaes."
    - Por isso que voc esteve andado to cansado esses dias  comentou
Ana.
                               ~ 222 ~
    - , e isso minha me tambm percebeu. Teve um dia em que eu a
peguei vasculhando minhas coisas, provavelmente atrs de drogas. Essa
 a maior preocupao dela. - comentou triste - Ento da prxima vez
que ela procurar eu vou fazer com que ela ache algo. A eu sumo e peo
para meu amigo simular minha morte.
    - Ainda acho uma idia ruim - replicou Ana.
    - Mas  a melhor que eu tenho  cortou Ian  No quero que ela fique
esperando por mim a vida toda. Quero que ela siga em frente e tente ser
feliz.
    Ana lutava para no extravasar a raiva que sentia da idia dele e,
percebendo isso, Ian fitou seu rosto e tentou mudar de assunto.
    - No quer saber o que aconteceu com o demnio?  ele arriscou.
    Ana ainda estava com raiva dele, mas tambm estava curiosa. Era um
golpe baixo. Ento, confirmou com a cabea, mas sua expresso deixava
bem claro que aquele assunto ainda no havia encerrado.
    Ian deu um pigarro antes de comear.
    - Como eu disse, havia um demnio a solta. No sabia o que ele
queria, mas tinha quase certeza de que eu era seu alvo.
    - Como eu falei, j fui recrutado por essas criaturas antes, assim que
despertei para minhas verdadeiras lembranas. Ento, quando houve a
chance de viajar para o sitio da me de Laila, foi a hora certa de saber
quem era o alvo da criatura. Falei com Solange e ela aumentou a
prontido para o caso dele continuar na nossa rua. No podia deixar
meus pais desprotegidos. Mas no fim, eu estava certo.
    "Ento, viajamos e na primeira noite eu senti a presena dele de novo.
Na primeira noite, no consegui dormir. Eu tinha a idia de sair e caar
nosso intruso, mas a Laila e Fernanda, e depois voc, resolveram se
levantar. Tive de disfarar vendo um filme chato na televiso esperando
que vocs dormissem.
    "E quando finalmente todos se deitaram eu pude sair, mas j era
demasiadamente tarde. O canalha havia sumido de novo.
    "No dia seguinte ia tentar o mesmo. Sa mais cedo do quarto e
aguardei do lado de fora esperando pelo demnio, mas foi ento que
voc chegou. No preciso entrar em detalhes, s dizer que seu beijo me
deixou um tanto... perturbado.
    "Eu no estava preparado pra aquilo. Fazia tempos que no sentia o
toque de algum e acabei me deixando levar sentindo a besta reclamando
a posse de meu corpo. Bem, voc j sabe o que poderia acontecer. Enfim,
no consegui caar naquela noite tambm e fiquei o tempo todo trancado
no quarto tentando me controlar... voc sabe como.
                               ~ 223 ~
    "Ento, na ltima noite, voc resolveu sair de casa sozinha. Eu j
havia pressentido demnio naquele dia e no podia permitir que sasse
desprotegida.  claro que escolhendo seguir voc, eu deixei outras cinco
pessoas vulnerveis, mas voc era minha prioridade".
    Ana sentiu um frio na espinha. Estava prestes a chegar  parte da
histria em que se lembrava com preciso. A hora da voz. Aquela voz
fria, a mesma de quatro anos atrs.
    - Foi ento que aconteceu. Ele se revelou e eu no podia desperdiar
aquela chance. Tive de revelar minhas habilidades pra voc. Persegui o
infeliz por mata  dentro at encontr-lo. O enfrentei e at estranhei a
facilidade com que foi morto. Parecia ser um principiante atrs de
confuso. Mas ento...
    Ele hesitou nessa parte parecendo confuso.
    - O que houve?  sibilou Ana j curvada demais pra perto de Ian.
    - Bem,  estranho... - disse coando a cabea  Quando eu o matei,
ele virou p. Cinzas pra ser mais exato.
    - E isso no  normal.  deduziu
    - No  concordou  S h uma maneira de demnios atravessarem o
reino dos mortos e  atravs de uma possesso. Eles precisam de um
hospedeiro e por isso, quando os matamos suas almas, o esprito vai para
a mortalha ficando apenas os corpos dos hospedeiros.
    Ana sentiu um solavanco.
    - E eles morrem?
    - Calma.  disse Ian segurando sua mo  Sei que parece terrvel, mas
 necessrio. O hospedeiro tem que morrer geralmente.
    - Mas, so pessoas inocentes e...
    - A verdade  que os demnios no tratam bem os corpos de seus
hospedeiros.  explicou - Geralmente eles fazem as maiores loucuras
quando esto dentro de humanos. Loucuras, como entrar em conflitos
desnecessrios, arriscam a vida, tentam experincias sexuais nada
convencionais, entre outras coisas. E tais loucuras acabam por danificar
demais o corpo do hospedeiro. A nica coisa que os deixa vivos  a alma
demonaca alojada dentro deles e assim que so exorcizados, os corpos
morrem. No faz diferena um ritual de exorcismo ou a morte natural
para quem  possudo. A morte vir de qualquer jeito.
    Ana concordou com a cabea, mas ainda estava perplexa. No pde
evitar sentir pena das pessoas que tinham esse destino. Imaginar seu
corpo sendo controlado, usado para os mais terrveis fins e depois ser
simplesmente descartado.
                              ~ 224 ~
    - As pessoas ficam conscientes quando esto possudas? - perguntou
sem saber se queria a resposta.
    - Sim  respondeu. Era isso que ela temia.
    Ian pareceu decifrar o que ela estava pensando, pois comeou a alisar
a sua mo e, com uma voz doce, tentou acalm-la.
    - Se isso lhe serve de consolo, as pessoas possudas tendem a atrair tal
destino para si.  ficou em silncio esperando que suas palavras fossem
compreendidas  Homens e mulheres depressivos ou at muitas vezes
gananciosos, acabam por atrair determinadas criaturas. Sua fraqueza
espiritual  a porta de entrada para esses seres. Alguns at se deixam
possuir propositalmente, pois tem tendncias suicidas ou acreditam que
assim possam ser melhores. - e completou com ar esperanoso. - Isso
ajuda?
    - No, mas valeu.
    - De nada. - sorriu desanimado
    - Bem,  s isso?
    - No  respondeu Ian voltando ao foco  O que aconteceu naquela
noite foi estranho porque o corpo no ficou l. Ele simplesmente virou
cinzas, desapareceu.
    - O que voc pensa?
    - Nada ainda me ocorreu. - disse fitando o nada - Pretendo investigar
melhor quando partir.
    - Mas...  Ana disse subitamente, agora com um pouco de esperana -
Talvez seja melhor voc ficar ento. Pense bem, se esse sujeito apareceu
por aqui, podem ter mais. Seria at melhor para voc manter todos aqui
seguros.
    - Obrigado pela tentativa, mas no - cortou Ian com um sorriso 
Primeiro, no acredito que haja mais algum. Como eu disse, a maneira
como ele apareceu, de forma to descuidada, me pareceu mais um
encrenqueiro afim de confuso. E em segundo, se h mesmo mais
pessoas atrs de mim, quanto mais cedo eu cortar os laos com as
pessoas daqui, melhor.
    Ana no encontrou argumentos e mordeu o lbio inferior tentando
esconder a tristeza que sentia.
    - Eu no quero que voc v! - disse diretamente, mas a sineta tocou.
    - No podemos nos atrasar para a aula  declarou rapidamente
cortando o assunto.
    - No fuja de mim  chamou a garota quando ele se levantou e
ameaou sair.
                                ~ 225 ~
   - Ian! - ela chamou novamente tentando correr atrs dele, quando
sentiu algum segurando seu brao.
   - Ana, para de agir que nem histrica  era Laila falando no ouvido da
garota.
   - Laila, me solta - Ana tentou se libertar
   - Sossega menina  sibilou a garota - T pagando mico. Olha em
volta.
   Ana reparou e viu que tinham algumas pessoas olhando para as duas.
   - Correr atrs de homem no  bom. Melhor o deixar voltar pedindo
desculpas  aconselhou.
                              ~ 226 ~
   27  A especialista em sonhos.
    ngelo estava sentado na sala de espera do consultrio de Cassandra
admirando espantado a decorao multicolorida do lugar, que fez com
que ele se lamentasse ter se esquecido dos culos escuros. Mapas
espaciais, vus, velas coloridas e outras coisas enfeitavam o ambiente,
tornando-o um tanto agressivo para olhos despreparados.
    Cassandra, com certeza, no queria ser levada a srio. A decorao
seguia o que se esperava de um Centro de Tar comum, s que muito
mais exagerado. Aquilo devia ter a funo de dar a noo para um
visitante novo de que jogaria seu dinheiro no lixo se quisesse se consultar
com Cassandra.
    ngelo estava sentado num sof de dois lugares vermelho
confortvel, enquanto olhava as coisas em sua volta.  sua frente, uma
mulher magra com culos fundo de garrafa digitava alguma coisa
nervosamente e quando percebia que ngelo a olhava, dava-lhe um
sorrido expondo seus dentes meio tortos. De fato a mulher completava a
atmosfera estranha que preenchia o lugar.
    Enfim, ele ouviu o barulho da porta de Cassandra se abrir e um
senhor de terno e gravata saiu acompanhado da maga. O homem devia
ter seus quarenta anos, era branco, meio calvo e tinha uma barriga um
pouco avantajada.
    - Obrigado Cassandra  agradeceu o homem balanando a mo da
maga com fora. ngelo podia ver a pobre mulher lutar para se manter
de p com a fora do aperto de mo  Voc me tirou um peso de meus
ombros.
    - No se preocupe meu caro. Sua mulher o ama mais que tudo. No
duvide disso.  afirmou com um sorriso.
    O homem saiu dali radiante e assim que a porta se fechou, ela
murmurou para a sua secretria.
    - Coitado Esmeralda. A mulher dele deve estar com o jardineiro nesse
momento. Se ele correr ainda pega os dois. Depois deu de ombros e se
virou para ngelo. O garoto se revoltou com o que ouvira.
    - Mas ento porque no avisou ao homem? - disse se levantando -
Porque o deixou sair iludido?
    - Ora, pois foi pra isso que ele veio  comentou Cassandra como se
fosse a coisa mais bvia do mundo.  Ele j sabe h muito tempo disso,
mas queria que algum lhe dissesse o contrrio. Pessoas como ele vem
aqui apenas para se iludir. - e completou parecendo um pouco ofendida
com a ousadia do garoto - Ele esta pensando agora mesmo que sou uma
                               ~ 227 ~
golpista e nunca mais vai voltar aqui.  e deu de ombros - Pelo menos eu
o fiz feliz por um momento.
    - Ele quer se iludir?  comentou ngelo perplexo.
    - A ignorncia muitas vezes  uma ddiva ngelo. Ento? No veio
aqui fiscalizar meu trabalho, aposto.
    ngelo ficou surpreso, lembrando-se que no tinha lhe dito seu nome
antes.
    - Como a senhora sabe meu nome? - perguntou
    - Bem  ela sorriu  Voc mercou hora com Esmeralda ontem  noite
e lhe deu seu nome.
    Ouvindo isto, ngelo sentiu seu rosto corar e se calou e Cassandra
soltou uma risada com vontade.
    - No pense que vou fazer como nos filmes anunciando seu nome e
dizendo que j o aguardava querido. - disse a mulher achando graa -
Isso eu deixo para as pessoas que vieram aqui para serem enganadas.
Com meus camaradas, eu sou eu mesma.
    A mulher sorriu e o convidou a entrar. O garoto a seguiu,
imaginando que seus olhos pudessem ser mais maltratados, mas havia se
enganado. O ambiente interior era ainda mais colorido e berrante que o
anterior. Cassandra se sentou numa mesinha e convidou ngelo a se
ocupar a frente dela. Ele obedeceu olhando para a mesa aonde pde ver
cartas de tar e outras utilidades que ele no sabia identificar.
    A mulher, que estava vestida naquele dia com um manto rosa com
detalhes dourados, tirou um fino xale que lhe cobria os ombros e estalou
os dedos, fazendo as velas se acenderam. Depois, fitou ngelo com os
olhos cheios de curiosidade.
    - No imaginei que o Bispo traria algum aqui enfim.  ela falou se
sentindo lisonjeada em finalmente ser til.  Ento, resolveram me contar
mais?
    - Como sabe que sou da Ordem?
    - No  obvio? - respondeu - Quase todos vocs possuem a mesma
urea prateada. A Quintessncia de vocs  quase que padronizada e
especifica.  fcil reconhecer vocs. E acima de tudo, eu reconheci seu
nome.  ela o olhou como se estivesse estudando-o e depois falou numa
voz exaltada  ngelo, o mago prodgio. Ele fala muito de voc,
    ngelo no pde esconder o orgulho que sentiu estufando o peito,
mas foi interrompido pela entrada de uma algum na sala. Ela vestia
roupas semelhantes s de Cassandra, s que no tom verde esmeralda.
ngelo j tinha visto essa vestimenta antes. E a reconheceu como sendo
igual a da moa da recepo, mas no podia ser ela. A recepcionista era
                              ~ 228 ~
estranha e aquela mulher era deslumbrante. Era ruiva tambm, s que
seus cabelos eram melhores tratados e tinham um volume que realavam
suas bochechas, alm de ser muito mais jovem. Ela sorriu ao entrar,
mostrando dentes perfeitos. Mas o que mais chamavam ateno nela era
o verde de seus olhos.
    - Esmeralda querida  saudou Cassandra  Ento? Tudo acabado?
    - Sim  disse a moa com ar de triunfo - A senhora no ser mais
incomodada hoje. Despachei todas as visitas.
    - Esmeralda? - o queixo de ngelo caiu. No pode ser.
    -   Cassandra se divertia com a expresso de espanto de ngelo 
Ela vinha tendo problemas com alguns de meus clientes e adotou um
visual diferente para afast-los. - e se virou para a garota - Mas agora est
ao natural, no  querida?
    - Alguns homens no sabem dar o respeito  ela bufou soprando uma
mecha que ficou desalinhada na frente do rosto   melhor ouvir
piadinhas do que certas cantadas  e se sentou numa cadeira entre os
dois.
    - Espero que no se incomode de minha aluna ficar aqui. - comentou
Cassandra.
    - Eu... no...  disse ngelo tentando tirar os olhos da garota - Acho
que no seja uma boa idia.
    - Bem, - comeou ainda achando graa da falta de jeito do garoto -
Imaginei que o bispo no quisesse envolver aprendizes, mas pelo visto
mudou de idia. No vejo problemas em Esmeralda ficar ciente. Ela  de
confiana e eu no gosto de esconder nada dela.
    - At porque voc saberia se eu no fosse - Lembrou Esmeralda.
    - Saberia mesmo  sua voz subiu alguns oitavos.
    - Mas no foi o bispo quem me mandou. - cortou ngelo, comeando
a recuperar o dom da fala.
    As duas ficaram surpresas ao olharem para ele.
    - Ento... - comeou Cassandra - voc est aqui contra as ordens do
bispo?
    - No contra  ngelo tentou se defender - ele apenas no sabe.
    - Isso muda muita coisa  refletiu Esmeralda meio que de deboche.
    - Muita  concordou a mestra.
    ngelo percebeu que os nimos no local tinham se elevado.
Provavelmente as duas eram chegadas em burlar as regras.
    - Ento  incitou Cassandra  quer continuar?
    - Sim. -respondeu.
                                ~ 229 ~
    - Bem,  Comeou Esmeralda num tom cuidadoso  o que o levou a
agir por contra prpria?
    ngelo ainda no gostava da presena da garota e no sabia se era por
causa de ela ser uma intrometida naquele tipo de assunto ou se apenas
era sua beleza que colocavam seus votos em xeque. Mas no fim, deu um
pigarro e decidiu continuar.
    - O problema  que eu no sei se o bispo est em condies de lidar
coma situao.
    - S isso? - perguntou Cassandra com os olhos no garoto. - Isso
parece um pouco pretensioso da sua parte.
    Na verdade tinha uma coisa a mais. Uma idia que havia lhe ocorrido
h pouco, mas que mesmo assim no deixava de incomod-lo.
    - No  continuou  Tambm acho que tem coisas erradas
acontecendo...
    - Que tipo de coisas? - a ateno da sala agora era toda dele.
    - No  bem uma coisa... s... um pressentimento.
    - Bem, essa  minha especialidade. - disse feliz apoiando o queixo nas
mos com os dedos cruzados. - Me diga, o que o est incomodando?
    - No sei bem, s que ontem... nada. - desistiu
    ngelo no gostava de falar de pressentimentos, ainda mais com uma
sonhadora.
    - Assim no posso ajudar  lembrou Cassandra.
    ngelo se lembrou da plula que trazia no bolso e a pegou num
movimento rpido.
    Desde que vira o bispo naquele estado, no conseguia tirar da cabea
aquele pressentimento estranho, sentindo como se Csar estivesse sendo
negligenciado ou coisa do tipo.
    - A senhora tem algum conhecimento sobre remdios de ervas? - ele
estendeu a plula.
    Cassandra se surpreendeu com o ato.
    - Bem no, mas Esmeralda... - disse se voltando para garota.
    Antes que ela completasse a frase, a garota meteu a mo no
comprimido e o analisou com seus olhos verdes.
    - Feito de Beladona pelo que vejo. - disse de cara - Olhando eu diria
que  um remdio para conter uma inflamao.
    -  isso mesmo - confirmou ngelo se sentindo um tanto estpido.
    - Porque voc mostrou ento?  perguntou a garota.
     S pensei que tivesse algo mais.
    Esmeralda revirou os olhos tentando vasculhar a mente e depois
respondeu com simplicidade:
                               ~ 230 ~
    - s vezes sim...
    - Como assim?  exasperou-se ngelo - Ento veja se tem algo a
mais.
    - Estou dizendo que a composio est correta.  um remdio para
inflamao  cortou a garota irritada com a educao de ngelo.
    - Mas o que voc disse sobre poder ter algo mais?
    -  que uma das propriedades da planta Beladona  a de ser um bom
recipiente mgico - explicou um pouco impaciente -  possvel se
depositar magia nela.
    - Ento ela pode ter magia? Essa plula?
    - Bem, sim  Esmeralda deu uma boa olhada na apreenso do garoto -
A Beladona j foi usada muito como um recipiente para se guardar todo
o tipo de mgica: magia, necromancia, feitio, e outros. Era como ter
uma arma sempre a mo. Como numa guerra por exemplo. Antigamente
os magos colocavam magias ofensivas em recipientes feitos com base
nessa planta e depois largavam como se fosse uma granada.  bem til,
pois assim voc tem munio extra para o caso de ficar sem energia.
Mas... - e fitou o rosto de ngelo  S magos experientes so capazes
disso. De quem voc desconfia?
    ngelo baixou a cabea pensando se devia duvidar de um superior
assim para estranhos. A verdade  que no tinha prova alguma. Talvez
fosse s implicncia devido a fato de o frade estar o tratando to mal. Ao
olhar par frente, percebeu que as duas esperavam pacientemente pela
notcia como se fosse a ltima fofoca do momento.
    - O Frade Henrique  falou finalmente.
    Cassandra arregalou os olhos, espantada. Para Esmeralda a notcia
no quis dizer nada. Provavelmente nem sabia quem era.
    - Isso  muito srio ngelo  avisou Cassandra.
    - Eu sei  afirmou o garoto.
    - Conheo o Frade Henrique h muito tempo.
    - Mas... - ele ia dizer, quando foi interrompido
    - Bem, no tem nada. - ouviram a voz de Esmeralda.
    - Como? - Ambos se viraram pra ela.
    - No tem nada  repetiu a garota. - Acabei de checar. Nada. Vazia.
Nenhuma magia.
    - Isso diz muita coisa...  falou Cassandra.
    -   concordou ngelo cabisbaixo.
    - Mas eu estou curiosa para saber o que o levou a ficar to
desconfiado.
    - No  nada, s... um pressentimento. - falou se sentindo ridculo.
                               ~ 231 ~
    - Srio? - ela parecia interessada.
    -  - confirmou.
    Cassandra ficou pensativa.
    Meu Deus, o que estou fazendo batendo um papo com uma louca
dessas?
    - Mas tambm tem outras coisas  tentou se defender. No queria se
basear apenas em uma superstio para acusar o frade  ele tambm tem
agido estranho. Parece no... - mas no tinha argumentos. Melhor calar a
boca.
    - Vamos mudar de assunto?  props Cassandra e ngelo se sentiu
aliviado.  eu tenho novidades sobre o demnio que est caando.
    Essa notcia fez atiar sua ateno.
    - Sim. Mas como a Ordem dos Iluminados no tem interesses em
envolver mais ningum, eu no pretendo revelar meus segredos.
    O animo de ngelo se esvaiu.
    - Entretanto  ela deixou suas palavras fazerem efeitos na expresso
de ngelo.  tanto eu quanto voc estamos excludos nisso tudo. Ento,
acho que no h problemas em lhe contar.
    Ela limpou seus culos na toalha da mesa e continuou.
    - Desde a vez em que me encontrei com seu bispo, eu tenho ficado de
olho nesse sonho. Eu fiz at mesmo uma cpia pra mim das chamas da
lareira. E realmente o rastro de energia que essa criatura emana 
assustador. To assustador e incomum que  at mesmo possvel de ser
rastreado.
    - Eu j pensei nisso - respondeu presunoso.
    - Que bom  falou a mulher sem dar importncia ao gnio dele. - Era
o mnimo que deveria pensar  alfinetou
    O garoto fechou a cara:
    - Pelo que ando vendo, o sonho de seu mestre  muito claro e a
apario do demnio iminente. - continuou - O rastro deixado me
permitiu localiz-lo, mas sua posio real  muito imprecisa. Eu consegui
resumir a sua busca para algum lugar dessa regio.
    E mostrou um mapa. Na verdade, Cassandra estalou os dedos e num
movimento no ar, como se tivesse desdobrando uma folha, fez surgir
uma iluso perfeita de um mapa.
    Uma ilusionista. ngelo a olhou com desconfiana.
    - Sei que sua Ordem  contra pessoas como eu  falou Cassandra
interpretando as feies do rapaz  Mas voc no vai me julgar em tais
circunstancias, no ?
    - No. - respondeu.
                              ~ 232 ~
   - timo. Enfim,  essa a regio  ela circulou o dedo na rea que
engloba os bairros Vila da Penha e Vicente de Carvalho.
   - Reduziu bastante  admitiu.
   - Sim, mas ainda no  preciso.
   - Acho que posso cuidar disso  afirmou ngelo confiante.
   - Como?
   - Uma mgica especial  disse com certo mistrio.
   - Entendo. - comentou  No sei o que vocs da Ordem tem que no
confiam nos outros e sempre querem fazer tudo sozinhos. No me admira
que no consigam alianas.
   ngelo sentiu uma pontada no seu orgulho e a julgar pela expresso
da mulher, era exatamente isso que ela queria.
   - Mas no acho bom voc se meter assim, sozinho. - completou  No
sabemos se esse ser est s ou como est preparado. Mesmo voc sendo
um prodgio como dizem, no acho uma boa idia.
   - Agradeo a sua preocupao, mas eu sei me cuidar.
   Esmeralda deu mais uma bufada de impacincia.
   - Espero que saiba o que est fazendo  desejou insatisfeita.
   - No se preocupe.  comentou  Posso me cuidar sozinho.
   - Ento por que veio at mim pra comeo de conversa? - disse com
um sorriso presunoso.
   - S queria uma direo.
   - Entendo  disse com um ar meio vago. - Ento faamos um trato.
Voc tenta procurar esse ser sozinho. Mas no v fazer a besteira de
tentar enfrent-lo sem preparo. Entre em contato com seus superiores ou
conosco se o localizar.
   ngelo no gostava da forma como a mulher lhe tratava. Parecia a
sua me. Mas decidiu concordar para poder se livrar delas.
   - Bem, Obrigado. Tenho de ir.
   E se levantou, saindo sem esperar respostas.
   - Ele  um tanto irritante  comentou Esmeralda quando o garoto
fechou a porta atrs de si.
   Mas Cassandra no prestava ateno no que ela dizia.
   - Mestra?  chamou Esmeralda - A senhora est bem?
   - Ah, sim claro  ela parecia ter sado de um sonho  O que dizia?
   - Eu estava falando desse tal ngelo. Ele  um tanto arrogante. No
acho que v fazer o que prometeu.
   - Eu acredito que no querida  concordou com a voz ainda distante 
Mas na verdade no estou to preocupada com ele, mas sim com uma
coisa que ele disse.
                              ~ 233 ~
   28 - Revirando o passado
    As aulas enfim dariam uma pausa de meio de ano e Ana teve a notcia
de que no precisaria freqentar o resto da semana para fazer a
recuperao, j que suas notas eram razoveis. Ento estava oficialmente
de frias, at dia vinte e cinco do ms de julho.
    O que fazer com o tempo vago? Essa era a sua maior dvida. Na
verdade, no tinha muito que pensar. Queria aprender mais do mundo de
Ian e isso tomaria todo o ms. Seriam aulas nas frias, pensou. Mas esse
tipo de matria ela queria aprender. Mas ento lhe houve uma idia nova.
Uma coisa que h muito tempo precisava ter feito e que no podia mais
ser adiada. Olhou na sada a procura de Ian e o viu indo para casa.
Precisava falar com ele.
    A garota acelerou o passo, mas com cautela para no ser percebida.
Ainda tinha medo de que ele a visse e andasse mais rpido. Ian havia
adquirido o hbito irritante de fugir dela nos ltimos dias. E foi quando
percebeu que uma pessoa vinha na direo oposta fazendo-a ficar
preocupada ao reconhecer quem: Lucas. Ela estremeceu, no porque
ainda sentisse algo pelo ex, h muito esse no era mais um problema pra
ela, mas porque ele estava indo na direo de Ian.
    Ana se lembrava das ameaas que Lucas havia feito para ele e a
garota percebia a iminncia de um confronto e comeava a ficar
preocupada. Sabia bem agora que Ian tinha fora ao suficiente para
acabar com seu adversrio, mas havia aprendido tambm que ele no se
permitia entrar em brigas com medo de perder o controle.
    Sempre julgou Ian como sendo pacifico, por sempre evitar
confrontos, at mesmo nas brigas mais bobas da infncia. Mas agora que
sabia que a realidade era outra, no achava justo o garoto apanhar por
no poder se defender.
    Meu Deus. Pensou perdendo a calma e comeou a correr na direo
dos dois antes que se cruzassem. Faria qualquer coisa para evitar
desentendimentos entre eles. Mas foi quando Lucas percebeu Ian. Seu
rosto ainda tinha algumas escoriaes da ltima queda de moto. Mas o
que aconteceu depois, Ana no entendeu. Quando seu ex viu o garoto,
seus olhos se arregalaram e ele atravessou a rua para evit-lo.
    O que aconteceu? Ela parou sem entender. Lucas parecia com medo,
mas Ian no botava medo em ningum no bairro, nem mesmo nela que
sabia seu segredo. E voltando a olhar par frente, viu Ian olhando para ela,
parecendo esper-la com a expresso calma no rosto.
                               ~ 234 ~
   - Voc no  boa em seguir pessoas - comentou quando ela chegou
perto. Depois lhe deu um beijo de estalo no rosto e a convidou a
acompanh-lo.
   Depois de um segundo de hesitao, ela concordou. Ainda estava
perplexa com o acontecido. O caminho foi lento e silencioso e a
animao que Ana tinha para falar com ele parecia ter sumido no mar de
dvidas. Ela queria propor algo para Ian, mas decidiu tentar quebrar o
gelo com ele antes.
   - Ian  ela fitou o garoto que parecia tranqilo  No sei, mas me
pareceu que o Lucas tinha fugido de voc  ela viu a lbio dele sorrir.
Um sorriso traquina, controlado, culpado. - Voc por acaso...
   Ele a olhou nos olhos e dava para ver que ele segurava o riso, como
uma criana travessa.
   - O que voc fez?
   - Nada  ele disse parecendo sincero, mas ainda sim ocultando
alguma coisa  Ele s veio me bater, como prometeu.
   - Voc revidou? Brigou com ele?  Ana j via como a luta devia ter
sido injusta.
   - Na verdade no, eu s me defendi. A maior parte do tempo foi ele
quem se machucou.
   - Como assim? Como ele podia ter se machucado dessa forma
batendo em voc?
   - Bem. - ele pensou ainda achando graa. At que estendeu o brao
para ela - Aperta a minha mo.
   Ana o olhou meio hesitante.
   - No se preocupe  a acalmou  no  aquele velho truque do puxa o
meu dedo.
   Rindo de leve, ela apertou a mo: macia, quente, normal.
   - O que tem?  ela soltou.
   - Agora aperta de novo.  pediu
   - Ian, que palhaada  essa?
   - Vai  encorajou.
   Ana pegou na sua mo de novo e levou um susto quando a sentiu.
No parecia mais ser tecido vivo o que ela tinha nas mos. Continuava
quente, mas agora parecia que estava segurando um bloco de concreto.
   Ela largou pasma.
   - Como voc faz isso?
   - Concentrando minha Quintessncia nessa parte do corpo - explicou
 Isso  uma das bases do controle de energia que voc ainda deve
aprender. Eu posso com isso enrijecer uma parte do corpo, tornando-a
                              ~ 235 ~
to dura quanto rocha. Entre outras coisinhas mais.  Acrescentou com
falsa modstia - Mas por enquanto  tudo o que voc tem que entender. 
acrescentou  J da para imaginar o quando doeu nele me bater no?
    - Ian...
    - Desculpe  apressou-se em dizer  Sei que no foi muito nobre, mas
era o Lucas. Eu no queria apanhar pra ele de graa.
    - Entendo - ela no queria rir. Ainda achava um pouco injusto, mas
pensando bem at que merecia. - Pelo menos voc no bateu nele.
    - ...  concordou com um ar vago e Ana sentiu a mentira na sua voz.
    - Ian! - exclamou.
    - Foi s um  ele prometeu. Agora parecia uma criana se
desculpando  Juro, um s. S pra ele me deixar em paz. E... funcionou!
- Acrescentou orgulhoso.
    - Ento a queda na moto...
    - Ele inventou. Lucas no ia gostar de dizer que um garoto franzino
como eu havia batido nele. Por mim  at melhor.
    - Mas no  arriscado voc usar seu poder assim na frente de outros?
    - No tem perigo  afirmou - Ele jamais ira pensar em algo assim.
Lucas como qualquer adormecido, vai pensar em vrias teorias para
explicar aquilo. A preferida das pessoas  que algum teve um surto de
adrenalina  ele riu  Essa sempre funciona.
    Era engraado falar com ele dessas coisas. Ana se sentia de volta a
infncia e aonde tinha intimidade com Ian de falar essas loucuras.
    - Voc s me surpreende  comentou sorrindo.
    - Que bom.  ele disse. - Essa  a principal vantagem de se viver
como um mago. Voc sempre se surpreende. Confesse que  bem melhor
do que o mundo montono dos adormecidos. Vale at o risco de ser
caado.
    - Tenho que concordar  admitiu.
    - Pena que no terei muito tempo para te ensinar mais.
    Aquilo foi um aviso. Uma forma de Ian reforar para ela e para ele
mesmo, que estava decidido. E Ana sentiu mais uma pontada no peito e
ficou em silncio, deixando o sorriso de seu rosto desaparecer.
    - Voc veio comigo s para relembrar os velhos tempos ou tem algo a
mais? - ele decidiu mudar de assunto.
    Ele j sabia.
    - Acho que voc quer me pedir alguma coisa  ele continuou
despreocupado. - V em frente.  encorajou.
    - Por acaso voc sabe ler mentes tambm? - perguntou.
                              ~ 236 ~
    - No  respondeu  S te conheo. Contanto que no queira me pedir
para ficar  ele apressou-se em dizer  pode ser qualquer coisa. Ficarei
feliz em lhe realizar um ltimo pedido antes de ir.
    Na verdade, esse era seu principal desejo, mas Ian ainda estava muito
certo de sua escolha. Sabia que agora no conseguiria nada dele, mas
quem sabe ganhar um pouco de tempo? O pedido que ela tinha em mente
poderia lhe dar esse tempo.
    Tempo para faz-lo mudar de idia e assim, poderia realizar duas
coisas em uma s. Mas acima de tudo, era uma coisa que ela queria
fazer. Uma coisa que ela j devia ter feito.
    - Sim, eu gostaria de lhe pedir uma coisa. - confessou - Voc tambm
j est de frias, no?
    - Sim. - respondeu esperando que ela continuasse.
    Aquilo era como na noite do jogo da verdade. Ana sentia que o garoto
sabia exatamente o que ia pedir, mas esperava que ela falasse. Porque ele
no podia poup-la disso?
    - Eu queria que voc viajasse comigo nessas frias.  props.
    - Para Trs Coraes  ele completou. Ana no se surpreendeu
    - Sim.
    - Para saber o que aconteceu com suas tias.
    - Tambm, mas... - ela hesitou  eu tambm tenho coisas pra fazer l.
Pessoas que nunca mais vi. Lugares em que nunca mais estive.
    - Entendo  ele parecia sincero.  Conte comigo. - disse por fim.
    Ana sorriu em agradecimento.
    - Seus pais...  ele questionou.
    - No acho que eles vo fazer objeo  Ana sabia que esse era o
maior sonho de sua me: Ela voltar para visitar seu av e sua av. E ao
se lembrar da av Marieta, seu corao apertou. Queria poder olh-la de
novo, mas a ltima imagem dela ainda era forte em sua cabea. A
maneira como acabou enlouquecendo depois do incidente.
    E ficou imaginando que esse poderia ser seu destino. Seria seu
destino se no fosse... Ela parou de pensar. Ao mesmo tempo em que
isso lhe dava alegria, tambm lhe causava dor. Pois seu protetor desejava
deix-la.
    - Minha me tambm quer que eu viaje para espairecer  ele disse.
    - Por qu? - perguntou Ana.
    - Para me afastar de possveis ms companhias.
    Ana percebeu que a preocupao de Marta com o filho era realmente
mais sria do que pensava. Por isso Ian estava to convicto que seu plano
de fuga ia dar certo com ela.
                              ~ 237 ~
    - Obrigada.
    - No por isso - respondeu
    Eles se despediram ao chegarem em suas casas e Ana viu que sua
me voltara do trabalho mais cedo naquele dia. Ela sabia que uma bronca
a esperava, mas teve uma idia de como evitar esse confronto. E ento,
como parte do plano, correu animada para a cozinha onde a me
terminava o almoo.
    - Me! ela chamou deixando toda a sua animao transbordar.
Sentia-se ridcula atuando daquela forma, mas tinha que seguir o roteiro
em sua cabea.
    - Ainda bem que voc veio mocinha...  a voz dela era severa, mas
Ana no a deixou terminar de falar.
    - Eu entrei de frias hoje e...
    - Voc sabe que temos de conversar... - a me no dava muita ateno
    - Eu estava pensando em...
    - Sabe muito bem que...
    - Ir para Trs Coraes ver meus avs
    E foi quando conseguiu fazer Helena se calar, reao essa que Ana j
esperava. Ela pde notar um sorriso comeando a surgir no rosto da
mulher que ela tentava repreender, mas no conseguiu, pois parecia ter se
esquecido do motivo pelo qual estava brava h algumas horas.
    - Serio querida? - ela no parecia acreditar no que ouvia.
    - Sim  disse com animao  Eu pensei nisso hoje. Estou com
saudades deles e queria muito ir l.
    - Mas isso ... maravilhoso.  Helena estava radiante  Bem, eu e seu
pai no podemos ir, mas... - ela comeava a falar consigo mesma  ele
pode deix-la l e depois volta. A voc pega um nibus pra voltar... ou...
    Ana foi concordando com tudo o que ela dizia com movimentos de
cabea.
    - Mas me.  ela interrompeu  A idia foi do Ian  mentiu  Ele
poderia ir junto.
    - A idia foi dele?  o sorriso dela parecia ganhar mais fora  Que
bom. Claro, claro.
    Ana concordou com um sorriso meio tenso, pois j sabia do apreo da
me pelo garoto e com isso, acabara de ganhar mais pontos para ele com
Helena. O que ela vai pensar quando descobrir que Ian  usurio de
drogas? Pensou, e at conseguiria achar graa da idia se no fosse to
triste.
    - Ento, tudo bem? - perguntou esperanosa.
                               ~ 238 ~
    - Sim.  concordou Helena  Pode! Vou falar com seu pai hoje
mesmo.
    - Que bom e...  se fez de desentendida - o que voc queria conversar
comigo?
    A expresso de Helena mostrava que ela acabara de voltar a terra
quando escutou a pergunta. Mas no conseguiu sentir mais a raiva de
antes para dar bronca na garota. Vendo que sua autoridade foi perdida,
tentou da melhor maneira passar um sermo.
    - Voc sabe que fez coisa errada ontem, no ?  Helena tentava ser o
mais severa que conseguia.
    - Sei  e Ana tentava parecer o mais culpada que conseguia.
    - Ento no faa mais isso  apressou-se.
    - Prometo.
    - timo. Agora v tomar um banho para comer.
    - Sim senhora  e correu para o quarto.
    Chegando l, foi at a janela e viu que Ian j estava ali, esperando por
ela.
    - Ento? - perguntou  Sua me deixou?
    - Claro  sorriu Ana  e a sua?
    - Tambm  ele retribuiu o sorriso  Eu disse que ela queria muito
isso.
    - Que bom. Vou almoar agora. At.
    - At.
    E fecharam as janelas.
                                ~ 239 ~
   29  Caa ao demnio.
    Numa casa pequena, na Rua Oliveira Belo, morava uma pequena
famlia de classe mdia, composta de quatro pessoas. Mario, o chefe da
casa, estava em seu momento de lazer em frente  televiso esperando 
hora para voltar ao trabalho. Um servio que ele odiava, mas sustentava a
sua famlia e era isso o que importava. Ceclia, a esposa, estava ocupada
arrumando a baguna da cozinha, mantendo sua rotina diria. Cristiano,
o filho do casal de dez anos, estava mais uma vez trancado em seu quarto
com seu vdeo game novo e se recusava a acabar com sua distrao para
brincar na rua. Coisa que seu pai odiava, ameaando-o vrias vezes de
tirar-lhe o jogo, mas sua me sempre intercedia a seu favor. E Corine, a
sogra, que estava mais uma vez em seu quarto lendo seus preciosos
romances. Apesar de quase nunca abrir a boca, sempre que o fazia, era
para dar alguma reclamao. Seja pela vida sedentria de Cristiano, pela
rabugice do genro, ou pela capacidade sobre humana de sua filha em
suportar tudo isso.
    E como todos os dias comuns. Mario se recostava na sua poltrona
favorita vendo o noticirio da tarde tentando aproveitar cada momento
que tinha antes de voltar ao martrio de seu emprego. Ento a campainha
tocou.
    - Querido, pode atender?  gritava a mulher da cozinha.
    - Cristiano! A porta!  berrou, mas o filho no respondeu nada.
    No adiantava pedir a Corine, ento, mesmo resmungando, ele foi
atender.
    - Eu vou explodir o jogo desse garoto a ele me escuta...
    Quando abriu a porta, no se preocupou em parecer educado ao
visitante. Seja ele quem fosse. E quando viu quem chamava, tomou um
susto. O garoto era a coisa mais feia que ele vira. Coitado.
    - O que voc quer?  um dos amigos de Cristiano?  questionou.
    - No senhor. Eu s queria um minuto de sua ateno.
    Mario notou as roupas do sujeito: Calas sociais pretas, camisa de
boto bem passada. Cabelos arrumados e sapatos.
    Merda. Pensou.
    - No queremos nada.  e tentou fechar a porta, mas o garoto a
conteve.
    - Por favor, senhor. S quero lhe passar a mensagem de Deus.
    - Escuta aqui meu filho  ele falou baixo, mas com a voz dura  eu
tenho um emprego que detesto, uma mulher que no faz amor comigo,
uma sogra que me da nos nervos e um filho que vive em Matrix.
                              ~ 240 ~
Desculpa, mas a palavra de Deus no me parece muito atraente no
momento. E fechou a porta numa batida.
   - Quem era Mario?  gritou sua mulher da cozinha.
   - S mais um Crente.
   E a voz de Corine pde ser ouvida l de cima.
   - Francamente.  por isso que essa famlia desanda. Vocs so um
bando de Ateus.
   Mario decidiu ignorar o comentrio e voltou para sua televiso,
sentindo-se frustrado por ter perdido seus sagrados minutos.
    J  a stima porta na cara, contou ngelo. Estava bem difcil
encontrar o que ele queria. O garoto havia vagado pelos bairros da Vila
da Penha e Vicente de Carvalho conforme Cassandra havia o
direcionado, mas ainda no encontrou nada.
    Ele precisava de apenas alguns segundos para ver se seu crucifixo,
encantado com a Bssola de Ins, reagia. Claro que se ele fosse mais
habilidoso isso no seria necessrio, j que A bussola de Ins era to
poderosa que conseguiria encontrar a emanao energtica daquele
demnio a muitos quilmetros de distncia. Mas, infelizmente, ngelo
no tinha poder para tanto, tendo que se conformar com a verso
genrica da magia.
    Talvez se eu tivesse pedido ajuda ao bispo... Mas no. Ele havia
decidido continuar sozinho. Queria isso. E alm de tudo a Bssola era
uma magia complexa demais, at mesmo para Csar. At onde ngelo
sabia, nenhum mago, com exceo da prpria Ins, foi capaz de realizar
aquele encantamento com perfeio.
    Assim, para os demais praticantes de magia, era necessrio estar a
uma boa distncia do alvo para que a Bssola comeasse a reagir. E
naquela casa no havia nada.
    E pensando melhor, foi at bom o dono ser um grosso, pois assim ele
no perdia tempo e ganhava mais para visitar outra casa. Pior era quando
ele deparava com pessoas dispostas a discutir sobre e existncia de Deus
ou ento falar sobre suas prprias crenas. Esses dificultavam seu
trabalho.
    Respirando fundo e tentando recuperar o nimo, ele continuou a sua
busca. Passou por vrias casas e nada da Bssola reagir e comeou a se
questionar se tinha feito a magia corretamente, mas no gostava de
duvidar de suas prprias habilidades, preferindo por a culpa na velha
louca. Talvez ela tivesse errado na rea.
                              ~ 241 ~
    Como ainda faltavam casas a serem visitadas, continuou sua busca,
at que chegou a uma bonita residncia na Rua Feliciano Pena. J sem
esperanas de conseguir algo, ele tocou a campainha. E foi instantneo.
Assim que uma bela senhora abriu a porta, ele sentiu o crucifixo comear
a se aquecer dentro de sua roupa.
    - Sim?  a mulher surgiu para ele.  Em que posso ajud-lo?
    - Desculpe o incmodo senhora, - ele comeou a se sentir eufrico
com a possibilidade. A circulao de seu corpo se acelerou e ngelo
lutou para poder falar com preciso. -  que eu precisaria tomar um
pouco do seu tempo. Poderia me dizer o seu nome, se no for muita
ousadia?
    A mulher pareceu perceber do que se tratava e no estava muito
animada, mas ainda assim foi paciente.
    - Marta  disse sem muito nimo.
    - Bem, Marta. Eu fao parte de um grupo religioso que tenta
conscientizar as pessoas para a palavra de...
    Mas foi interrompido quando seu crucifixo pareceu entrar em
combusto em seu peito. Ele fez uma careta de dor colocando a mo no
peito e Marta o olhou com curiosidade.
    - Aconteceu alguma coisa? Se sente mal?
    - No, nada... - tentava falar enquanto ajeitava o crucifixo na blusa
para que ele no queimasse tanto a pele.
    - Me? Algum problema? - ouviu-se uma voz atrs dela e um garoto
apareceu na porta.
    O jovem parecia ter seus quinze ou dezesseis anos. Era alto e de porte
mdio. Seus olhos, no momento interrogativos, eram muito negros em
contraste com uma pele muito branca.
    A bssola queimava mais que nunca, agora que o garoto estava perto.
    - Nada Ian  a mulher disse dando um beijo no rosto do garoto - Vai
comer se no o almoo esfria.
    E o tal Ian saiu de vista. Mas por ltimo, lanou um olhar desconfiado
para ngelo. Agora seu peito se aliviava um pouco.
    - Voc est bem? - tornou a perguntar.
    - Sim senhora. Desculpe, mas tenho que voltar agora. Lembrei-me de
uma coisa. Outro dia continuamos a conversa, pode ser?
    - Claro  ela respondeu prontamente, embora sua voz mostrasse que
no desejava muito isso.
    - At  despediu-se ngelo
    - At  respondeu fechando a porta.
                               ~ 242 ~
    ngelo foi andando rpido, tirando o crucifixo rapidamente de baixo
da blusa. A ponta negra dele, onde havia recolhido a energia do demnio,
estava piscando. Ele finalmente havia encontrado.
    O garoto  jovem e eu no senti uma presena muito forte l dentro,
ento isso quer dizer que o demnio ainda esta adormecido. Preciso
agir, mas tenho que esperar ele ficar s.No  uma boa idia dar um
show na frente da me dele. Acho que posso exorciz-lo, mas no faz
diferena. O corpo no tem nenhum esprito alm do demnio, ento
mesmo que eu o esconjure, o corpo vai morrer.
    Pobre mulher, mas acredito que ela vai preferir ter um filho morto a
um possudo. Isso tem que ser feito.
    Ele no pode despertar.
                              ~ 243 ~
   30  Boa o bastante.
    Ana j estava na mesa do almoo com seus pais, esperando a me
tomar a palavra. Helena prometera dar a noticia e a garota queria saber se
ela usaria esse momento. Mas no teve que esperar muito, pois logo que
deixou um minuto de silncio para que a famlia saboreasse o prato, ela
se virou para Oscar, seu marido.
    - Querido, voc no vai acreditar no que nossa filha decidiu.
    - Agora  nossa?  ele comentou limpando a boca  At hoje de
manh era minha.
    Ana riu, imaginando que ela fora reclamar para o pai por ter dormido
toda ensopada.
    - Agora  nossa  ela disse sem se interromper  Ela decidiu passar
parte de suas frias com os avs em Trs Coraes.
    Oscar a olhou impressionado.
    - Srio? O que levou essa mudana?
    - Saudades eu acho. - respondeu a garota - Na verdade eu j tinha isso
em mente  mentiu  e o Ian tambm me deu uma fora para decidir.
    - O Ian?  ele disse feliz. - Gosto desse garoto. - comentou
    Sei que gosta, pensou Ana.
    - Por mim  uma excelente idia  sorriu Oscar  Se quiser te levo
amanh mesmo. No vou trabalhar e a, vejo meus sogros e volto.
    - Srio?
    - Bem, eu estava brincando um pouco  disse constrangido olhando
pra garota iludida  mas... - e pensou - pode ser. Eu no vou poder ficar,
mas a voc fica por l.
    - Seria bom  ela no queria esperar muito  Vou falar com o Ian  e
voltou a comer.
    - Por qu?  seu pai perguntou.
    - Ele vai comigo  disse simplesmente, voltando-se para seu prato.
Depois olhou para o pai e viu que ele no estava mais to contente 
Desculpe. Esqueci de comentar, eu acho.
    - Acho uma pssima idia  ele fechou a cara.
    Que mudana, pensou. Ana ia replicar quando sua me interveio na
discusso.
    - Amor.  o melhor amigo dela. - defendeu - Deve ser uma boa
companhia.
    - E eu no quero que seja boa demais. Francamente Helena. Os dois,
sozinhos.
    - Me  Ana gemeu.
                               ~ 244 ~
    - Calma  pediu estendendo a mo para que a garota se mantivesse
calada  Oscar, do que voc tem medo? Eles so amigos h tanto tempo
e voc sempre gostou dele.
    Gostava quando pensava que o Ian era gay. Por que resolveu mudar
de idia quanto a isso? Pensou em falar, mas preferiu se manter calada.
Tinha experincia e sabia que a me era melhor em argumentar com seu
pai do que ela
    - Oscar. Isso  uma verdadeira beno. H quanto tempo voc no
queria que Ana voltasse a ver os avs. Sabe como isso  importante para
meu pai e quanto  pra mim. No v estragar tudo por um complexo de
super proteo.
    Oscar bufou e Ana entendeu isso como um sinal de fraqueza. Preferiu
conter o sorriso nos lbios.
    - No sei ainda.
    - Meus pais estaro l. Nada vai acontecer de ruim. Francamente! O
que voc acha que pode acontecer?
    Ele ficou em silncio. Sabia que o pai morria de vergonha de falar
sobre essas coisas na frente da filha. Ento, comeram por mais um tempo
em silncio. Helena tinha um ar emburrado, mas Ana sabia que era
apenas uma de suas armas de manipulao. Era boa nisso.
    Quase uma feiticeira. Analisou.
    - Bem  comentou Oscar quando terminou  Vou lev-los amanh.
    - Obrigado!  ela correu para beijar-lhe a bochecha.
    - De nada. Mas juzo, por favor?
    - Prometo - e saiu correndo para pr o prato na pia e subir at seu
quarto antes que o pai resolvesse desistir. Ana ainda podia ouvir o que se
falava no andar de baixo enquanto se afastava.
    - Eu sempre fao o que voc quer - resmungou Oscar
    - Faz mesmo  riu-se Helena.
   No quarto, Ana viu que a janela de Ian estava fechada.
   - Ian  chamou  Ian, voc est a?
   Ela escutou um barulho vindo do quarto do garoto e depois a janela se
abriu.
   - Oi - ele apareceu
   - Vamos amanh mesmo  disse ela com alegria.
   - Amanh? - se espantou  Isso  um pouco precipitado.
   - Tem algum compromisso?
                               ~ 245 ~
   - No, s que eu queria te apresentar a algum antes  e depois deu de
ombros  Vou falar com minha me sobre essa mudana. Pode me
encontrar aqui em baixo daqui a meia hora?
   - Claro.  disse curiosa.
   - Legal. Vou l ento. - despediu-se.
   - Tchau  e fechou sua janela para poder trocar de roupa.
    Meia hora depois, estava na frente de sua casa esperando. Ian saiu e
veio de encontro a ela.
    - Ento?  perguntou impaciente.
    - Vou sim  disse ele  No disse que minha me quer se livrar de
mim?  completou fingindo-se de ferido.
    - No brinca assim.
    - Foi mal.
    - Ento  ela se animou  A quem voc quer me apresentar?
    - Voc no tem a menor idia de quem seja?
    - No - respondeu sinceramente.
    Ian se aproximou com calma dela segurando seu rosto com as mos.
Ana sentiu sua pulsao se acelerando conforme ele ia se aproximando,
fitando-a os olhos. Pega de surpresa, ela no sabia o que fazer naquele
momento e a apreenso fez com que o ar escapasse de seus pulmes. Foi
quando ele virou sua cabea em direo a casa de Solange e a garota se
sentiu feliz por no externar a impresso que teve das intenes do
garoto.
    - Solange  As palavras saram um pouco decepcionadas - Acho que
ela no gosta de mim. - comentou.
    - Que isso. Ela gosta de todos.
    - Eu tambm achava. At ontem.
    Ian riu.
    -  isso? - disse fazendo pouco caso  No ligue.  que ela me viu
saindo de casa naquela manh sabendo que eu tinha te contado tudo na
noite anterior. Como me viu muito pra baixo, imaginou que voc tivesse
fugido de mim depois de saber a verdade.
    - Eu nunca faria isso.
    - Mas ela no sabe disso. - lembrou - Ela gosta muito de mim e s
queria me proteger.
    - Eu imagino  disse inconscientemente, entre os dentes cerrados.
    - Como? - ele pareceu surpreso com a mudana de humor.
    - Nada. - tratou de se recompor. - Porque voc quer tanto me
apresentar ela?
                              ~ 246 ~
    - Se esqueceu de que ela  como eu? Solange tambm  uma maga.
Na verdade, membro de um grupo muito especfico: a Irmandade da
Rosa.
    -  verdade  lembrou-se Ana - E que tipo de grupo  esse da
Irmandade da Rosa?
    Fitando o amigo, Ana percebeu um sorriso travesso se formar no
rosto dele. Ela ainda tentou identificar o que significava, mas no
conseguiu.
    - Do que voc est rindo?
    - Nada  ele coou o nariz. Era mentira.
    - Fala! - mandou.
    -  que...  ele lutava para tirar o sorriso da boca  Voc vai se
espantar.
    Eles estavam parados de frente para a casa de Solange.
    - Acho que voc concorda que j passei por vrias coisas que podiam
ter me espantado, no?
    - Sim, mas...  ele ainda ria.
    - Fala logo Ian  ela comeou a lhe fazer ccegas na barriga.
    - T bom. Para!  levantou as mos em sinal de rendio   que...
Como vou explicar  ele fitou o horizonte atrs de respostas. No
conseguia para de achar graa e Ana comeou a pensar que ela estava
fazendo o papel de palhaa.
    - Existem,  comeou pensando ainda em dvida  vrias formas de
se liberar a quintessncia de um corpo. Ponto.
    - Voc me disse isso  respondeu Ana  Dana, meditao, luta. -foi
repetindo o que se lembrava - Continue.
    - Ento. - ele fez uma pausa - Voc conseguiu atravs de uma simples
concentrao. Ponto. - Porque ele no tirava aquele sorriso da boca? -
Mas existem outros meios. Ponto.
    - Para de falar ponto.
    - Sim. Ponto  e riu  Foi mal. Ento, alm dessas trs que voc citou,
existem as maneiras mais peculiares de se liberar energia do corpo. Tem
grupos que cultuam a dor e atravs de rituais de mortificao, liberam
sua magia. Outros preferem a abstinncia.
    - Sim...  incitou.
    - E tem a Irmandade da Rosa que tem como principal condutor
mgico o prazer  e acrescentou rpido  o prazer da dana, o prazer da
msica... e s. Essa  a Irmandade da Rosa. - encerrou.
                               ~ 247 ~
    Ana percebeu que ele acabou rpido demais. Ian tinha deixado algo
solto que a garota tentava pescar e quando finalmente conseguiu
compreender o que Ian deixara de falar, arregalou os olhos.
    Ele balanou a cabea afirmativamente ao ver suas expresses.
    - Eles usam...  a palavra engasgou em sua garganta - sexo como
ritual mgico?
    - Entre msicas e danas  tentou defender.
    - Isso realmente me impressionou - sua expresso no a deixava
mentir. Imaginar Solange realizando rituais sexuais era um golpe muito
forte para sua mente. Conseguiu superar a viso dela beijando Ian, mas
aquilo...
    - Bem Ana, pra entrar nesse mundo voc tem que quebrar certos
preconceitos. - explicou Ian.
    - No  preconceito,  que...  e apontou para a direo da casa 
imaginar ela...
    - Voc se impressionaria se soubesse como ela...  e parou no meio
vendo o rosto de Ana. Seu sorriso desapareceu e ficou serio  Ela  uma
boa... maga. - disse por fim.
    - Sei  disse a garota tentando esconder o incomodo que sentia.  S
que ela deve ter uns cinqenta.
    - Sessenta e cinco para ser sincero.
    Agora Ana se impressionou.
    - Nem parece. - admitiu
    - No ? - concordou Ian.
    - Ian?  ela se virou para encar-lo.
    - Oi.
    - Voc. - ela tinha dificuldades em perguntar, aquilo era uma
intimidade da vida do garoto que ela nunca se atreveu a tentar descobrir -
j participou de algum desses... - e gesticulou tentando faz-lo entender.
    Ian riu.
    - Infelizmente minha condio no permite. - lembrou.
    -  mesmo  concordou - A Besta.
    - S consigo participar dos menos insinuantes, ou os de msica  ele
sorriu.
    O beijo dado em Solange caia bem no quesito, menos insinuantes.
Diabos, por que no consigo me livrar disso?
    - Vamos entrar?  convidou ele.
    - Ah. - disse cortando seus pensamentos - Claro, mas... - hesitou ao o
ver abrindo o porto - No vai chamar?
                               ~ 248 ~
   - Ela no gosta dessas formalidades com pessoas ntimas. - explicou -
Vamos. Aposto que voc vai poder aprender muitas coisas com ela. Ela 
uma das magas mais poderosas que eu tive a oportunidade de conhecer.
E olha que eu tenho mais de cem anos de vida. - completou.
   E foi ento ela entendeu o objetivo de toda aquela animao em lhe
apresentar Solange. E essa compreenso fez a garota parar no meio do
caminho, e, vendo Ian se afastar dela, sentiu um peso no peito.
   Ele no quer que eu sinta falta dele.
   Ana percebia sua idia principal se esvaindo. Acreditava que Ian
demoraria a abandon-la, afinal, ele ainda tinha muitas coisas para lhe
ensinar sobre esse mundo, mas no era bem assim. Pois naquele
momento, ele estava tentando encontrar um novo mestre pra ela.
   Ian se virou ao notar que no era seguido.
   - Vamos, pode entrar. - encorajou
   Suspirando fundo, deixou a tristeza de lado e continuou. As palavras
dele ainda estavam vivas em sua cabea e ela se lembrou do que ele lhe
contou quando narrou sua vida como Ian.
   Quem sabe Solange no poderia lhe iniciar nas artes mgicas, afinal,
voc j teve muita experincia com suas tias.
    Acho que ele nunca se esqueceu desse plano. Percebeu.
    E os dois entraram atravessaram a porta e, ao entrar, Ana pensou que
tinha sido levada para outro mundo, pois a casa simples do lado de fora
no parecia suportar o luxo que tinha na parte de dentro. Ela olhava os
mveis de incrvel qualidade espalhados pela sala espaosa, com direito
at a um piano de calda.
    Como isso tudo coube?
    Ana e Ian tiraram os tnis antes de entrarem e os ps de Ana foram
recebidos por um tapete muito macio.
    - A vaidade  uma caracterstica muito forte na Irmandade da Rosa. 
comentou o garoto notando seu espanto.
    - Mas - ela tentou juntar as palavras  como  que ela consegue?
    - Por que voc acha que Solange, por mais simptica que seja, nunca
convida muita gente para a sua casa? - perguntou com ar divertido  Sua
casa  repleta de mgicas. Quando ela precisa realmente receber algum
adormecido ela pode simplesmente fazer uma iluso para que a pessoa
tenha a impresso que est numa casa humilde, digna de uma viva.
    - Bem vindos  ouviram a voz de Solange. Quando olhou, Ana pde
ver a mulher entrando na sala. Ela estava vestindo um roupo se seda
vermelho que realava seu porte corpulento, que no diminura com a
                              ~ 249 ~
idade. Vendo-a, Ana no pde deixar de invejar o corpo de Solange.
Mesmo que no parecesse uma jovem de trinta anos, a mulher conseguia
se manter bem conservada. Jamais diria que ela tinha mais de sessenta.
    - Bem, ento finalmente voc despertou.  ela perguntou sorrindo
amistosamente. Ian estava certo. Ela voltara a trat-la com a mesma
delicadeza de antes  O que acha desse novo mundo?
    - Fascinante  comentou Ana, ainda intimidada pela presena da
mulher.
    - Aposto que Ian ainda vai poder lhe mostrar muito mais. - disse a
mulher.
    Ana olhou hesitante para o garoto. Ser que Solange no sabia dos
planos dele de empurr-la pra ela?
    Mas Ian parecia naturalmente calmo com suas palavras. Depois da, a
conversa se seguiu tranqilamente entre os trs. Assuntos triviais
encheram o lugar, o que decepcionou um pouco Ana, que acreditava
poder ter mais lies sobre magia. Porm, Solange no parecia querer
falar desses assuntos naquele momento.
    Mas acima de tudo, a conversa corria tranqila e animada. Ana at se
sentia envergonhada por j ter pensado to mal daquela mulher um dia.
Mas ainda no conseguia deixar de ter um p atrs com ela. No fundo,
ainda sentia certo incomodo imaginando uma mulher daquela idade se
sujeitando a certos tipos de rituais. Ian havia dito para ela vencer esses
preconceitos, mas ainda era um pouco difcil. Precisaria de tempo para
digerir tudo aquilo.
   E foi quando menos percebeu, havia dado a hora de partir.
   Ana ainda tinha que organizar algumas coisas para levar para Trs
Coraes e provavelmente seu pai iria querer levar-lhes cedo na manh
seguinte.
   - Bem, acho que temos de ir. - falou para Ian e Solange.
   Ian concordou com a cabea j se levantando. Depois, se virou para a
mulher.
   - Eu posso falar com voc uns minutos? - e depois se virou para Ana
 Pode indo se estiver com pressa.
   Ana notou que aquilo era mais uma imposio do que um conselho,
mas fingiu no entender.
   - Vou lhe esperar aqui no jardim.
   - T certo. - concordou sem muita resistncia.
   Eles ficaram em silncio enquanto Ana saa do cmodo.
                               ~ 250 ~
    Ela queria perguntar o que eles fariam para no quererem sua
presena, mas no teve coragem para tamanha ousadia e concordou em
ficar do lado de fora, mas sua pacincia durou por apenas uns trinta
segundos, at que sua curiosidade lhe deu o golpe de misericrdia.
    Olhando a janela que dava  sala de Solange, ela foi se esgueirando
pelo quintal at ela e, sem aparecer, encostou o tronco na parede, a fim
de tentar ouvir melhor o que se passava l dentro.
    - Solange, ns combinamos  a voz de Ian era revoltada, mas ele a
mantinha sob controle. Provavelmente, no queria que Ana ouvisse a
discusso do lado de fora.
    - No combinamos nada  replicou Solange numa voz cortante Voc
tomou as decises achando que eu ia simplesmente concordar, mas no
vou.
    - Qual o problema? Ela tem potencial. E voc  uma excelente
mestra. Precisa se dar outra chance.
    - No estou interessada no momento, obrigada. - disse com sarcasmo.
    Ian ficou em silncio, mas Solange no.
    - E potencial apenas no  o bastante Ian.  continuou   preciso
mais,  preciso paixo. Coisa que muito falta nessa garota. - e fez uma
pausa entes de continuar - Voc mesmo disse que ela demorou dias para
finalmente conseguir vencer o seu ceticismo, mesmo quando as coisas
estavam debaixo de seu nariz. Como espera que ela possua a paixo
necessria para partilhar da Irmandade da Rosa?
    Tudo ficou em silncio. Ana comeou a pensar que eles tinham
acabado a discusso e talvez nem estivessem mais na sala, quando a voz
de Solange voltou.
    Estava mais fraca que o habitual e parecia estar carregada de dor.
    - Valria tambm tinha potencial, Ian. E voc sabe o que aconteceu.
No vou arriscar outra s porque  uma prodgio. Voc sabe o que eu
senti, ou quer sentir de novo?
    Parecia que aquela frase tinha posto a discusso por encerrada.
Valria? Esse nome no trazia nenhuma lembrana para Ana.
    - Desculpe por te incomodar  disse Ian com a voz dura  Vou-me
embora, ento.
    - Adeus - a despedida dela parecia bem carregada, como se
acreditasse nunca mais v-lo.
    Ana correu at a frente da casa e se sentou num banco da varanda
tentando disfarar. Quando Ian saiu pela porta, ela o olhou tentando
dissimular a decepo que sentia.
                              ~ 251 ~
    Ento no sou boa o bastante. Aquele pensamento a havia atingido
com mais fora do que esperava. Era lgico que ela queria um pouco
disso. Quem sabe com Solange se recusando a lhe ter como discpula, Ian
no teria de assumir esse cargo. Mas as palavras dela foram to duras e
lhe trouxeram tantas lembranas ruins.
    - Ento? Pronto? - ela perguntou.
    - Sim  ele olhava para baixo o tempo todo com um ar de derrota.
    E foram para casa sem se falar. Ana no queria perguntar nada com
medo que sua dvida a trasse e Ian acabasse percebendo que a garota
espiou tudo. Mas no fundo, ela acreditava que Ian j sabia disso. Mas ele
tambm no parecia entusiasmado para iniciar a conversa.
    Chegando ao quarto, ela pegou a mesma mala que usou para ir ao
sitio de Laila e tirou algumas roupas sujas que ainda estavam ali,
levando-as para o cesto de roupas sujas. Depois, comeou a organizar o
que levaria. A todo o momento olhava para sua janela, que dava viso
direta ao quarto de Ian. O garoto tambm parecia entretido em arrumar
sua bagagem, mas seus olhos denunciavam o aperto que sentia no
corao.
    Ele quer realmente se livrar de mim.
    Ana sabia que era infantilidade sentir isso, mas no conseguia evitar.
Desde que sua vida deu uma guinada para a pior ela sempre foi a
excluda. Das brincadeiras, das festas de aniversrio, dos grupinhos de
escola. S conseguiu remediar essa situao depois de algum tempo, mas
a sensao de excluso ainda a tomava. E agora que parecia que tudo era
diferente, onde finalmente acreditava ter conquistado seu espao nesse
novo mundo que se abria pra ela, descobriu que seu lugar ainda no era
bem definido.
    Ian no a queria por perto, com medo de feri-la. No podia culp-lo.
Se nem mesmo a poderosa Catarina durou minutos com ele, que chances
ela tinha. E Solange dizia que ela no tinha paixo. Mas que diabos
aquilo significava? Ian disse que ela tinha talento natural, ela era um
prodgio. Ainda gostava dessa palavra. Ela deixava-a lisonjeada e agora
tudo caia como um castelo de cartas. Tudo porque no tinha paixo.
    Ana temia a partida de Ian. O que seria dela, sem ningum para lhe
guiar nesse novo mundo? Ficaria bem sozinha? Ana j havia passado
muitas vezes solido. A solido de ningum acreditar nela. A solido de
se sentir como um aliengena em meio aos terrqueos. Isso j no a devia
incomodar tanto. Mas incomodava.
                               ~ 252 ~
    Incomodava por que ela sentia que uma parte muito importante de
tudo aquilo estava prestes a ir embora pra sempre. Havia superado a
solido sim, mas como? A verdade  que ela nunca esteve
completamente s, pois mesmo nos piores dias, sempre tinha algum
perto dela. Algum que a ouvia, que a protegia. Algum que por si s
supria toda a falta de todo o resto.
    Nunca se dera conta do tesouro que tinha em mos. S agora que
estava prestes a perd-lo. Quem sabe se eu nunca tivesse descoberto
nada? E se nunca houvesse atravessado o Vu e se permitir dar uma
olhada no mundo maravilhoso que se estende depois dele. Talvez assim
ela pudesse passar melhor pela falta que estava prestes a sentir. Talvez
seria mais fcil se despedir de Ian.
    No, pensou. Estou me enganando. Ainda assim uma coisa muito
importante seria perdida. No era do Ian mago que ela sentiria falta. O
Ian Garow. Era o Ian companheiro. O Ian protetor. O Ian de olhos
negros.
    Ana acabou de arrumar tudo e deixou a roupa que usaria amanh
preparada. No quero continuar sozinha daqui, pensou triste olhando a
janela  sua frente. Ian poderia v-la dali? Veria que ela estava chorando,
como h muito tempo no fazia?
    Saiu de frente dela. No queria ser vista assim. Resolveu ento matar
alguns minutos na frente do computador. Quem sabe um jogo de
pacincia no lhe daria sono e assim ela pudesse esquecer simplesmente
o que acontecia em sua volta.  No queria terminar aquela noite
conversando com Ian. Seria mais difcil hoje.
    O jogo no funcionou. Resolveu usar a internet, ver seu horscopo e a
frase do dia. E foi quando uma idia lhe ocorreu: e se isso fosse verdade?
Essas previses que se vem por a, seriam feitas por magos de verdade?
Pelo menos algumas delas? Ana sempre teve o hbito de ler essas coisas,
mas nunca por crena. Na verdade, no sabia o real motivo por se
interessar por Astrologia.
    Ento ela leu a sua frase do dia.
    S nos damos conta do valor das coisas quando estamos prestes a
perd-las.
    - Ta de saca voc tambm!  exclamou para mquina. A brincadeira
de astrloga a havia distrado bem, mas agora se tornara sem graa e,
desligando o computador, foi se deitar, forando-se a dormir um sono
que custava a chegar.
                               ~ 253 ~
   31  Compreenso.
    Fazia-se muito tempo que Ana no sonhava e talvez por isso tenha
tido tanta dificuldade em perceber que estava dormindo naquele
momento. Era noite ainda e ela estava correndo. Correndo como nunca
na vida por uma rua que parecia no ter fim. Corria como se sua vida
dependesse daquilo. Corria porque tinha que alcanar algum.
     sua frente, via uma pessoa andando. Sabia que quanto mais aquela
pessoa se afastava, mais seu corao parecia ficar apertado dentro do
peito. Por isso corria e corria. Mas a distncia nunca era vencida. S
aumentava cada vez mais, at ele quase sumir.
    -Ian  ela gritava  Espera!
    Mas ele no parecia ouvi-la e continuava andando. Cada passo que
Ana dava a frente era como se ele tivesse dado dois. Ian no corria,
andava e por mais que Ana disparasse em sua direo, no saa do lugar.
    At que finalmente desapareceu nas trevas.
    - Ian! - ela acordou sentindo o corpo suar. Ainda teve dificuldades
para perceber que tudo no passava de um sonho e que agora estava
segura na realidade.
    Olhou para sua janela e viu o quarto de Ian bem  frente. Percebeu
que ele estava ali e isso lhe deu mais confiana. Assim, respirou mais
fundo para regular a entrada de ar e passou a mo na cabea a fim secar o
suor, quando percebeu que alm da testa, o rosto tambm estava mido.
Ela tinha chorado.
    Levantou-se ento para comprovar para si mesma que ele ainda
estava ali e ficou olhando para dentro do quarto de Ian at ach-lo. E o
achou, dormindo num sono profundo abraado a um travesseiro. Agora,
vendo-o, pode enfim relaxar. Mesmo sendo um sonho, Ana notou o
recado nele. Era claro como a gua:  medida que o tempo passava mais
ele se afastava e ela no conseguia fazer nada para det-lo.
    Ian sempre estava um passo  frente. Havia planejado tudo e todas as
idias que Ana teve para tentar mant-lo, foram dribladas. O que eu
fao?Mais do que nunca a urgncia agora cobrava da garota alguma
atitude. Ento se lembrou de Solange e como ela no aceitara treinar
Ana.
    Por um momento, conseguia ver com felicidade aquela situao, pois
Ian no conseguia um substituto e assim ele teria de ficar mais tempo.
Mas e se ele for embora mesmo assim? E se me deixar a prpria sorte.
Ela balanou a cabea como que tentando jogar o pensamento para fora
dela. Ele nunca faria isso.
                              ~ 254 ~
    Agora, tentando, tirar a preocupao do pensamento, ela o olhava
dormir e via como ele se agarrava forte ao travesseiro. Havia lido em
algum lugar, numa revista de psicanlise talvez, que esse era um sinal
claro de carncia. E foi com essa compreenso que comeou a sentir
muita pena. Quantos anos ele teria vagado sozinho? Quanta culpa ainda
carregava por tudo? Sentia falta de Catarina?
    Ela queria poder saltar aquela janela e encurtar a distncia entre eles
que no conseguiu no sonho. Estar perto dele e poder suprir sua carncia.
Poder fazer isso por ele. E tambm, porque no, fazer por ela mesma?
Quanto tempo ainda teriam juntos? Quanto ainda poderia aproveitar de
sua companhia? Era muito incerto.
    Ele tanto podia ir embora daqui a muito tempo como agora mesmo.
Basicamente duas escolhas se estendiam pra ela nessa situao: Ela podia
tentar aproveitar o mximo aqueles momentos, deixar ser eterno
enquanto durasse, ou tentar romper desde j e tornar a despedida menos
dolorida. Mas sabia que nenhuma das alternativas era boa. Porque nunca
a despedida seria menos dolorosa e nunca os momentos seriam eternos.
    Ana j era capaz de sentir o buraco que aquela despedida ia fazer. J
conseguia sentir a dor e era forte demais, e acreditou que no
sobreviveria quando acontecesse. Ele ia embora e ela percebia isso mais
forte do que nunca. No conseguia lutar, por mais que tentasse.
    Ela corria e ele andava, mas nunca o alcanava. Ela queria ser forte o
bastante para poder segur-lo, mas no era. Queria ser rpida para
alcan-lo, mas no era. Queria ser resistente para suport-lo, mas no
era.
    No era Catarina, no era nem maga ainda. Que chances ela tinha?
    Voltou para a cama com todo o peso extra que agora carregava. Era
claro que alguma coisa estava mudando. Algo que ela queria manter sob
controle, mas no conseguia.
    No pode estar acontecendo. Por favor, no pode. Pedia ao se deitar.
    *
    Ana se sente voltando ao mundo real atravs de uma mo quente e
doce que acariciava seu rosto. Instintivamente ela agarrou a mo sem
abrir os olhos e a empurra para mais perto de seu rosto.
    - Filha, acorde.  escutou uma voz feminina falando. E isso foi um
estalo na sua mente que a fez se por de p num segundo. Esfregando os
olhos para faz-los se acostumar a nova claridade, ela olhou para a me
que a fitava, levemente espantada.
    - Com o que voc estava sonhando Ana?
                               ~ 255 ~
    - Nada  respondeu sentindo o rosto corar.
    - Eu hein! - ela riu-se  Mas desce logo. O caf est pronto e seu pai
quer levar vocs bem cedo.
    Ana olhou pela janela e viu que tinha acabado de amanhecer.
    - Meu Deus! - lembrou-se  eu nem falei para o Ian da hora que
agente ia.
    - No se preocupe  acalmou a me com a mo no ombro da filha 
Eu liguei para a Marta ontem  noite. Ele j deve estar acordado. Agora
se arruma.
    E saiu do quarto.
    Ana se arrumou vestindo a roupa que havia separado na noite
anterior: uma bata verde folgada, uma cala jeans e um par de sandlias
verde gua rasteiras. Quando desceu, seu pai j estava pronto lendo o
jornal na mesa, enquanto Helena servia-lhe um po com ovo e caf preto.
    Ana comeu em silncio, ainda lembrando o sonho da noite anterior.
    - nimo Ana - era me quem falava  No quer mais ir para a casa de
seus avs?
    - Claro que quero - Ana tentou consertar o rosto - S estou com sono.
    O pai sorriu por cima do jornal.
    - No est acostumada, isso que d.
    Ela sorriu em retribuio. Um sorriso fraco, mas ele nem reparou. E
voltou a comer.
    - Pai  Ana virou se para Oscar  Porque decidiu ir to cedo?
    - Bem,  melhor se eu quiser voltar ainda hoje.
    - No vai passar a noite l?
    - No, amanh trabalho. - lembrou - S estou indo hoje para
aproveitar sua animao e porque tambm tenho que entregar umas
coisas do Slvio que esto aqui h muito tempo.
    E sem dizer mais nada, Ana terminou seu caf e foi escovar os dentes.
Quando voltou, tudo j estava pronto e eles foram para a rua. Ian j
estava ali esperando por eles com a me o abraando e falando coisas a
seu ouvido. Estava uma manh um pouco mais fria e Ian no perdeu a
oportunidade deu usar uma camisa de manga longa branca com uma
cala jeans. O garoto balanava a cabea afirmativamente para o que a
me falava. Pela sua expresso, devia estar recebendo uma srie de
conselhos e dicas que todas as me davam e que todos os filhos j
sabiam, mesmo que muitas vezes no seguissem.
    Quando ele viu a garota saindo, seu rosto no escondeu o alivio. Ana
cumprimentou Marta e deu um beijo no rosto do garoto.
                               ~ 256 ~
    - Vamos?  perguntou  At breve tia Marta. Eu vou cuidar de seu
filho.
    - Ma faa esse favor - ela lanou um olhar torto para o garoto  Adeus
e juzo Ian.
    Ian falou com Oscar que lhe respondeu com educao embora um
pouco frio.
    - O que deu nele? - ele perguntou
    - Nada  ela sorriu  Acho que est pensando besteira por voc estar
indo viajar comigo.
    - Ele no pensava que eu era gay?
    - At ontem  tarde eu acho que sim. - respondeu.
    - E se eu contasse minha histria pra ele. Ser que ele ficaria mais
calmo? Pelo menos assim ele saberia que eu no tentaria nada com voc.
    - Acho que a que ele no ia deixar voc ir mesmo  comentou e ele
riu.
    Ana tentou retribuir o sorriso, mas ela sentiu que saiu to falso como
uma nota de trs reais.
    - Algum problema? - Ian analisava seu rosto.
    Ana tentava desviar a face fugindo do olhar penetrante do garoto.
Tinha medo que com apenas uma olhada ele pudesse ver todo o conflito
que se passava dentro dela.
    - No  nada  respondeu  S estou com sono.
    Ian fez uma careta e eles entraram no carro. Antes de entrar, Ana foi
falar com seu pai.
    - Pai, eu vou me sentar ali atrs com Ian, sim?
    Oscar lhe deu um olhar desconfiado, mas concordou.
    - Juro que voc  o nico homem da minha vida. - prometeu.
    - Voc disse a mesma coisa antes de conhecer o Lucas.
    Ana sorriu.
    - E mesmo assim nunca deixou de ser verdade. - garantiu.
    O pai sorriu forado e ela foi para o banco de trs e Ana o viu ajeitar
o retrovisor para poder ver bem os dois. . Quem precisa olhar quem
vem atrs no meio de uma avenida? Dando de ombros, Ana agarrou o
brao do garoto sem ligar que estavam sendo observados. Queria muito
tirar aquele tempo para conversar com ele.
    Sabia que o pai tinha o hbito de dirigir ouvido musica nos seus fones
de ouvido, pois no gostava de ningum falando com ele durante o
percurso. Mas mesmo assim, teria que tomar o cuidado de falar baixo, j
que no tinha total conscincia do grau de protecionismo do pai. Talvez
ele pudesse at ficar prestando ateno no que os dois conversavam.
                               ~ 257 ~
    Ian pegou seu aparelho de MP3 que levava na mochila e lhe ofereceu
um fone que ela ps no ouvido. E assim, seguiram viajem.
    Nos primeiros minutos ficaram em silncio, esperando que Oscar
parasse de olhar tanto para trs e Ana aproveitou esse tempo para ficar
sentindo a brisa que entrava pela janela escutando uma msica acstica
no MP3. Depois de um tempo, quando a barra estava limpa, olhou par
Ian.
    - Voc nunca foi para Trs Coraes, no ?
    - Voc nunca me convidou  ele lembrou.
    - Eu nunca mais fui  ela rebateu sorrindo  Acho que voc vai gostar
de l. - comentou -  bem calmo e perto da natureza.
    - Devo gostar sim  ele confirmou e agora diminuindo o volume da
voz  Ainda mais que podemos conhecer os espritos que suas tias
mantinham contato.
    - O que voc acha que so?  perguntou no mesmo tom de sussurro,
mesmo percebendo que o pai no prestava ateno.
    - No sei. Embora tenha minhas suspeitas.
    - Nada de ruim, no ?
    - Duvido. Os espritos que habitam as reas naturais podem ser bons
ou at mesmo neutros, mas nunca cruis.
    - Que bom. - respondeu - Odiaria pensar que elas mantinham contato
com alguma criatura horrvel.
    - Sem duvida tiveram  concluiu o garoto, mas depois tratou de
explicar ao ver o olhar de Ana  No estou dizendo que elas fizeram
algum pacto. Provavelmente o enfrentaram e acabaram...
    - Morrendo  completou.
    - Desculpe. - pediu encabulado.
    - No precisa  ela falou  Di, mas  bom. Sinto orgulho delas por
terem enfrentado um ser desses.  e sua mente a levou de volta para
aquela noite. Para aquela voz escondida atrs da ventania e o espectro
entre as chamas.
    - Voc no tem que se culpar  Ian falou parecendo ler seus
pensamentos  Voc era jovem demais. No tinha como fazer nada.
    - Eu sei. - concordou - No era e no sou to forte como Catarina  e
se arrependeu de ter feito esse comentrio. Por que foi fazer isso?
    Ian a fitou depois do comentrio, mas no parecia chateado, s
surpreso e pensou um pouco procurando o que devia responder.
    - Verdade. - concordou por fim  No . No por enquanto pelo
menos.
                              ~ 258 ~
    Ana lembrou-se do desenho. De como elas duas eram parecidas e
decidiu se esclarecer.
    - Voc v alguma semelhana entre mim e Catarina?  perguntou -
No sei,  que parece meio estranho ela ter sido seu primeiro amor e
depois voc vir a gostar de algum como eu.
    Ian pensou de novo. Ele parecia meio apreensivo como se qualquer
resposta que desse, pudesse coloc-lo em apuros.
    - Talvez alguma coisa.  respondeu cauteloso - Na aparncia talvez.
Seus traos so assemelhados aos dela agora que cresceu.
    - Srio?  Ana j tinha sido alertada disso, mas agora que ele falava,
sentia-se mais lisonjeada. Catarina era uma mulher muito bonita, pelo
menos como Ian se lembrava dela.  Talvez seja isso que lhe tenha
atrado - tentou no dar importncia a seu prprio comentrio.
    - Com certeza foi  ele concordou e Ana sentiu uma fisgada no peito
 Mas apenas no inicio. - ela olhou pra ele - Eu no contei pra voc
antes, mas quando te vi pela primeira vez, tomei um susto. Voc j era
parecida com Catarina, mas agora est ainda mais. Eu cheguei a pensar,
seria possvel ela ter conseguido se salvar, mas minha iluso durou
segundos. Eu sabia que no era assim. Assim como eu tinha certeza de
que Adele era Catarina, eu estava certo de que voc no era. No sei
explicar porque, mas  assim. Eu no te amei  o verbo no passado no
era convincente  por voc ser Catarina, mas sim porque voc era Ana.
Vocs duas tem muitas diferenas.
    - Cite algumas  desafiou.
    - Bem, primeiro voc  mais... feminina.
    Ana estranhou a tonalidade usada na ultima palavra.
    - E isso  bom ou ruim?  perguntou
    - Bom claro  ele riu - S que o que me atraiu em Catarina foi
justamente sua independncia. O fato de ela conseguir ser totalmente
livre numa poca bem mais machista que a nossa. Acho que eu gostei de
ser desafiado e ela foi a primeira a fazer isso.
    Ela ficou em silncio.
    - E depois  ele continuou - ela sempre cuidou mais de mim do que
eu dela. Acho que gostava disso tambm. Eu podia ser totalmente criana
perto dela. - e analisou suas expresses antes de continuar  Voc por
outro lado, era um pouco mais... - pensou um pouco  dependente, de
certa forma.
    - No entendo - ela interveio um pouco chateada  Ela era totalmente
o oposto de mim: corajosa, bonita, independente, forte. Ento porque
voc gostou de mim.
                               ~ 259 ~
    Ian a alertou com os olhos apontado para seu pai, que a sua voz tinha
aumentado. Depois respondeu num sussurro.
    - Acho que foi justamente isso. - disse meio sem jeito - Voc
despertou novos sentimentos em mim. Nunca pensei em ter algum para
poder cuidar, proteger. No sabia que eu era bom nisso. No incio eu me
via como seu irmo mais velho, apesar de minha idade fisiolgica ser
menor que a sua. - ele fez uma pausa - Mas a voc cresceu e as coisas
mudaram sem eu perceber. Voc despertou o meu lado protetor e acima
de tudo voc me queria e precisava de mim. H muito eu no sentia isso.
Eu passei anos da minha vida como Lucien, vendo as pessoas olharem
pra mim com dio ou medo. Voc no, me olhava com carinho, com
ternura. Foram armadilhas, que eu cai feito um patinho.
    - Desculpe.
    - Deve mesmo.  disse num sorriso zombeteiro - Voc  m.
    - E como voc est agora? - disse um pouco esperanosa.
    - Acho que j me curei  ele levou mais uma vez a mo ao nariz.
Mentira. Ana no sabia como se sentia com relao a isso. Ao mesmo
tempo em que lhe dava alegria saber que ele estava mentindo, no podia
evitar uma dor no peito.
    - Que bom  disse por fim.
    Ento, acabando o assunto, Ana apertou o brao de Ian com mais
fora, como se a qualquer momento ele pudesse pular pela janela do
carro e fugir. Seu corao j no estava em calma.
    Ele me ama.
    Ela queria se sentir culpada por isso, mas no conseguia. Estava feliz
por saber que seria difcil para ele a deixar. Talvez ele nem me deixe
mais. Era egosmo pensar nisso, mas quem disse que o amor no podia
ser egosta. Amor. Pensara nessa palavra quase que automaticamente.
Amor. Ela amava Ian, demorou um pouco, mas agora sabia disso.
    Toda essa ltima semana serviu para por sua a amizade em xeque. Ela
sobreviveu a tudo: aos segredos, aos perigos e ao beijo, mas quem disse
que tambm no se modificou? No posso am-lo. Ela no queria isso.
Sabia que ele nunca poderia ser totalmente dela. Mas ser que ter apenas
uma parte dele j no valeria  pena?
    Inevitavelmente comeou a compar-lo com Lucas, com o que sentia
por Lucas no comeo do namoro. No queria igualar, pois sabia que isso
era uma armadilha, mas no tinha escolha. Seu crebro estava
trabalhando sozinho. Ela se lembrou de quando achava que amava Lucas.
Quando comeou a namorar ele e como se sentia feliz em estar ao seu
                               ~ 260 ~
lado. Naquele tempo, ela podia jurar que aquilo era o amor. Estava bem e
feliz e isso era tudo o que importava.
    Mas tinha seu lado negro tambm. Com o tempo a paixo foi
morrendo. Nenhum dos dois sabia explicar o que tinha acontecido e
ento comearam a haver cobranas. Lucas dizia que era homem e tinha
necessidades. Esse assunto nunca fora mencionado entre eles e ela no
entendia porque era to importante de uma hora para a outra. Lucas a
acusava de no gostar dele, pois ela se recusava a se entregar. Queria
explicaes do por que disso. Mas Ana no tinha as respostas, nem
mesmo para ela mesma.
    Sabia que amava Lucas, ento porque tinha dificuldades em expressar
esse amor? Quando se questionava sobre isso no conseguia encontrar
motivos para no avanar um passo na relao. No era conservadora e
no tinha planos de se guardar para o matrimnio, ento qual era o
problema? Mas a j era tarde, ele j no mostrava mais interesse por ela.
A relao foi morrendo at se chegar o dia em que foi guiada pela voz at
o flagrante.
    Agora ela pde observar seus sentimentos com mais clareza. O que
ela sentiu na hora? Raiva. Mas raiva de que? Raiva por estar sendo
trada, enganada. Raiva, no de ele estar com outra, mas sim dele no ter
terminado com ela antes. Na verdade nunca se sentiu mal por estar
perdendo Lucas. Foi fcil deix-lo partir, mas agora era diferente.
    Ela se lembrava de seu primeiro dia de retorno a vida de solteira. Seu
primeiro dia na fossa. Mas que fossa? Sorvete, filmes tristes, ela apenas
estava reproduzindo os filmes piegas que assistia. Tentando agir como se
sentisse mal por ter terminado. Ela tentava reproduzir aquilo que no
conseguia sentir, mas porque no sentia? Droga, ela amava aquele
garoto, ento porque o deixou ir embora to facilmente? Por que no o
segurou, no prometeu melhorar? Mesmo que no fizesse nada disso,
porque no sentiu falta dele, ao menos? Por que no chorou?
    O que mais lhe doa no era ter deixado Lucas, mas sim como aquilo
no significava simplesmente nada pra ela. Como ela podia estar to
passvel a tudo? Como no conseguia sentir nada? Era insensvel e no
sabia? Seria Ana algum to fria?
    De fato ela no o amava como imaginava, tanto que no demorou
nem mesmo dois dias para se jogar nos braos de outro, alegando estar
tentando tampar o buraco provocado pela carncia. Mas a verdade  que
ela estava, inconscientemente, tampando um buraco muito maior que h
muito tempo vivia aberto em seu peito.
                               ~ 261 ~
    Era seu corao lutando por uma coisa que seu crebro relutava em
aceitar. Ficou tanto tempo enganando a sim mesma, quando estava tudo
to na cara. No sabia se foi mais difcil pra ela voltar a crer em magia ou
se perceber que estava gostando do amigo.
    As duas situaes eram bem parecidas. Ambas eram coisas que
estavam bem evidentes, mas ela sempre buscava outra explicao.
Lutava em fazer acreditar que eram apenas amigos, mesmo com tudo
mostrando ao contrrio. O sonho, o beijo na piscina e principalmente o
beijo roubado. Era como se ela previsse um momento assim. Como se no
fundo soubesse que ia acabar sofrendo. Deixar Lucas, no doeu nada.
Agora ela sabia o que era dor de verdade. Era aquilo que sentia agora.
    O desespero da partida, a urgncia em se tentar fazer algo para evitar
e a apatia em ver que nada dava resultados. Ana agarrava o brao de Ian
com mais fora ainda, percebendo a iminncia do adeus.
    No queria dizer adeus.
                                ~ 262 ~
   32 Possesso encubada.
    Com certo pesar, Marta escuta a campainha tocar e vai atender a
porta. H muito tempo havia uma dvida que a dilacerava. Um medo
terrvel e uma sensao de impotncia diante do novo desafio. Queria
desabafar urgentemente, mas no sabia com quem. Tinha medo de
revelar sua dvida para algum conhecido e no saber que reaes teriam.
    Quando abriu a porta, relutou ao ver que se tratava do jovem da tarde
anterior.
    - Bom dia dona Marta. Sou ngelo, lembra-se de mim?  anunciou o
garoto.
    - Bom dia. - a voz da mulher era trmula  lembro... claro.
    Esse no era o melhor momento para ouvir sermes, mas foi ento
que Marta percebeu nele uma oportunidade. Estava com medo em deixar
sua apreenso transbordar para os conhecidos, mas quando veria aquele
rapaz de novo? Provavelmente nunca.
    ngelo esperou paciente para ver se a mulher saa de seu torpor.
    - A senhora est bem?  ele tentou chamar sua ateno.
    - Sim... eh, mais ou menos  ela tentava parar de gaguejar.
    - Posso ajud-la?  ngelo se mantinha em sua postura impecvel de
frente pra porta.
    Marta ficou pensativa por mais um tempo, sentindo o conflito sendo
travado dentro de si. No era uma mulher muito religiosa, porm, tinha
motivos de sobrar para rezar nesses dias. Seu filho estava lhe dando
muita coisa com o que se preocupar. Provavelmente ele no imagina que
ela saiba as horas que ele vinha entrando em casa, ou suas sadas
escondidas. Sempre que tentava puxar esse tipo de assunto com o filho,
ele era evasivo. Ian estava lhe escondendo alguma coisa, ela sentia. E
tinha medo de j saber o que era.
    Voltando sua ateno para o jovem parado, ela o convidou:
    - Entre, por favor.
   ngelo adentrou e ficou esperando que seu crucifixo comeasse a lhe
incomodar, mas nada. O garoto no est em casa, deduziu. Virando-se
para encarar a mulher, percebeu que ela parecia prestes a cair em
lgrimas e, sem nada dizer, conduziu-a para um sof prximo, como se
fosse o dono da casa. Depois que ela se acomodou, ele falou:
   - Eu estou aqui para lhe ajudar senhora.
   - Eu no sei o que dizer a voc.  ela comeava com a voz engasgada.
                              ~ 263 ~
    - Pode me chamar de ngelo  acalmou o garoto.
    Ela respirou fundo. J no conseguia mais segurar as gotas que
desciam e ngelo segurou sua mo e aguardou que ela estivesse pronta
para falar. Estava muito surpreso por encontr-la assim, embora j
comeasse a ter suspeitas do que tinha causado toda aquela tristeza.
    - Desculpe por estar te alugando - pediu com os olhos suplicantes de
rasgar o corao.
    - Tudo bem senhora. Estou aqui para trazer-lhe paz  ngelo disse
em tom amvel.
    - Pode me chamar de Marta - e forou um sorriso.
    - Qual o problema, Marta?
    - Olha, eu no sou uma mulher religiosa e...
    - No tem problema. - acalmou - A palavra de Deus  para todos.
Mesmo que as pessoas tentem escut-la de formas diferentes, ele sempre
fala para todos.
    E Marta sorriu mais calma. No sabia por que, mas sentia que podia
confiar no jovem. Mesmo que no pudesse, no tinha chances de se
encontrarem novamente, ento ela podia desabafar.
    -  meu filho  finalmente soltou.
    Como imagine.
    - O que tem seu filho? - perguntou parecendo completamente alheio
ao assunto.
    - Eu no sei, - ela comeou pensando nas palavras - ele tem... agido
estranho ultimamente. Eu... no sei...
    - Como assim, agido estranho?
    - Ele vem mantendo segredos. Vem agindo diferente, chegando tarde
ficando noites sem dormir. Seu humor parece variar. Eu no sei o que .
    Era complicado escutar aquilo. ngelo sabia exatamente do que se
tratava. Ele estava despertando. O demnio do garoto comeava a dar
seus primeiros sinais. Pela descrio da mulher, o jovem estava passando
pelos primeiros estgios.
    Quando um demnio encubado comea a despertar, inicia-se um
processo de recuperao de personalidade que vem com a volta da
memria demonaca. O hospedeiro comea estranhando as mudanas que
vem ocorrendo com ele mesmo, as lembranas de coisas que no viveu,
as sensaes que nunca teve e geralmente esse  o perodo em que seu
humor comea a mudar. Alguns j tendem a apresentar uma
personalidade cruel desde o nascimento, mas outros no. Nascem e
crescem como crianas comuns. Muitos at como bons filhos: educados,
amveis e responsveis.
                              ~ 264 ~
    Ento, depois com o despertar, que a personalidade ruim comeava a
surgir. Pelo que via, esse tal Ian era o segundo caso. Pelo sofrimento da
me, ele devia ser um bom filho at agora. Pobre mulher. Em alguns
casos, as crianas comeam a sofrer de um sonambulismo perigoso.
Perigoso porque o esprito demonaco as obriga inconscientemente a
satisfazer seus desejos nefastos e o hospedeiro, sem entender, comea a
perambular pela noite. Em alguns momentos podem at tentar cometer
um assassinato por ordem do demnio. Entre as caractersticas bsicas,
perda de sono e mudana de humor, so as mais freqentes.
    Mas ngelo no sabia como dizer isso  Marta. Verdade ou
ignorncia? Qual seria a melhor naquela situao? Como no sabia como
contar pra ela, optou pela ignorncia e tentou usar um artifcio.
    - Seu filho, qual o nome dele?
    - Ian  disse enxugando os olhos com a palma da mo.
    - E esse Ian, como ele ? Ou era antes dessas mudanas?
    - Ele sempre foi excelente. - respondeu a mulher - Educado,
carinhoso, prodigioso at. Nunca deu trabalho.
    Prodigioso, era mais uma boa caracterstica. Normalmente as
crianas possudas tinham a tendncia a ter uma educao precoce,
devido  idade do espirito possuidor.
    - Ele era at bem dotado, digamos? - perguntou tentando dar pouco
caso.
    - Sim. - respondeu orgulhosa - Sempre tirou notas timas e sempre
era o primeiro da turma.
    - E o que a senhora pensa que ? - perguntou  Digo. O que voc acha
que o mudou?
    - Eu no sei  a sua voz era hesitante. Ela tinha uma suspeita.
    - Pode dizer. No tenha medo. - encorajou.
    Marta o fitou bem nos olhos e mais uma vez sentiu confiana no
rapaz.
    - Acho que so...  a palavra era difcil de sair. Tinha muito medo que
elas acabassem por se confirmar  drogas.
    Drogas? Era um bom libi, refletiu. Talvez seja realmente melhor
para a mulher acreditar nisso.
    No eram muitos que ficavam bem sabendo que seus filhos na
verdade eram demnios encarnados. Pensou em dar corda a essa crena,
mas no conseguia fazer isso. No conseguia confirmar seus temores. Ela
estava to arrasada, que ngelo comeou a sofrer de empatia por ela.
                               ~ 265 ~
    Decidiu, por fim, tentar acalm-la. Infelizmente, quanto a Ian, este
teria que morrer e rpido. No podia deixar que ele despertasse por
completo.
    - Minha senhora, digo Marta  corrigiu - Quantos anos seu filho tem?
    - Vai fazer dezessete daqui a uma semana.
    Dezessete era um pouco tarde para o despertar. Geralmente o esprito
comea a apresentar os primeiros sinais aos quinze. Mas podia ser um
mero atraso.
    - Desculpe se sou pretensioso, mas no creio que haja motivo para
alarme.
    ngelo se lembrou de Cassandra quando disse: A ignorncia muitas
vezes  uma ddiva. E naquele caso seria. No era a coisa mais honesta,
mas Marta j teria muito do que sofrer quando ele destrusse aquilo que
ela acredita ser seu filho. Ela no precisava antecipar essa dor. Pelo
menos por enquanto, ele poderia dar-lhe um pouco de paz.  o que ela
quer ouvir, pensou, lembrando-se mais uma vez de Cassandra.
    - Como assim?  ele pde sentir um pingo de esperana em sua voz e
isso o mortificava. Tentou manter o tom despreocupado ao continuar.
    - Bem, esse  um bairro pacato. Seu filho  aquele que eu vi ontem
no?  ela balanou a cabea confirmando  Ento. Ele me parece um
jovem saudvel. Saudvel, demais acredito. E talvez seja isso que o
esteja modificando. Todos ns passamos por um momento desses e isso
no quer dizer que o problema seja drogas. Ao julgar pela aparncia
saudvel dele eu diria que nem comer carne vermelha ele come.  s um
momento de rebeldia, hormnios, acredite.  acrescentou com mais
animao - Eu mesmo passei por algo semelhante antes de encontrar
Jesus.  e de repente lhe veio uma idia  Se a senhora quiser, eu posso
dar o endereo de nossa igreja e ele pode ir l um dia desses. Na verdade,
temos um culto hoje  tarde  e deu uma nfase a mais a palavra hoje.
    Ela enxugou as lgrimas parecendo bem mais aliviada.
    - Obrigada  Marta conseguiu sorrir agora  Pode ser uma boa idia 
comentou  Aquele garoto anda muito desligado da igreja ultimamente.
Claro que vou falar com ele quando voltar.
    - Que horas ele chega do colgio?  arriscou ngelo sem parecer
ansioso demais. Talvez pudesse at mesmo intercept-lo antes que
chegasse em casa. Queria acabar logo com aquilo e depois fugir,
ignorando o aviso da cigana.
    - No, ele no foi pra aula hoje  ela agora parecia um pouco mais
orgulhosa - Ele  um bom aluno e ganhou frias antecipadas. Ento eu o
mandei para uma viagem.
                               ~ 266 ~
   Ento, ngelo sentiu como se uns cinqenta quilos de concreto
cassem em seu estomago de uma s vez. Uma leve vertigem o acometeu
e foi com muita dificuldade que ele uniu as letras que formariam a
prxima pergunta:
   - Como?
   - Ele viajou com uma amiga para Trs Coraes. Deve voltar em dois
dias.
   Dois dias podem ser tarde demais! Ele queria gritar.
   - Quer um caf?  ofereceu bondosamente a mulher.
   ngelo balanou a cabea afirmativamente olhando o nada, mesmo
no gostando de caf. Na verdade, ele aceitaria at mesmo cachaa
naquele momento. A mulher se levantou para a cozinha enquanto o
garoto fitava a parede.
   Meu Deus, o que eu fiz? Porque no tentei cuidar disso ontem
mesmo? E agora?
   - Acar ou adoante?
   - Adoante  na verdade ele odiava adoante, mas respondeu a
primeira coisa que lhe veio  cabea. No estava em condies de pensar.
   E ento, passando os olhos pela sala como se aquelas paredes
pudessem oferecer a resposta que ele tanto clamava, viu uma folha de
papel que estava na mesa de cabeceira. At ento, nada que chamasse sua
ateno, mas as palavras Trs Coraes entraram em foco e ele a
agarrou. Tinha um nmero de telefone nele.
   Deve ser o nmero da casa onde ele vai ficar. Preciso descobrir o
endereo.
   E colocou o papel no bolso.
   Marta acabou de colocar o caf numa bandeja e foi servir. Com
certeza estava um pouco mais leve. Realmente no podiam ser drogas,
Ian esbanjava sade. Qualquer um que o visse diria isso. At mesmo suas
olheiras desapareceram quando ele comeou a dormir cedo.
   Ela havia deixado o noticirio a preocupar demais. Ainda bem que
no externou suas preocupaes com Ian. So tantos jovens entrando
nesse mundo, refletiu. Marta sentia pena das outras mes.
   Podendo agora sorris com sinceridade, chegou  sala trazendo a
bandeja com duas xcaras e viu ngelo de p.
   - Desculpe senhora, por no poder ficar  ele se apressou em dizer 
mas tenho que resolver assuntos urgentes.
   - Mas voc...
                              ~ 267 ~
   - Infelizmente no posso. Perdo e... adeus.  e saiu da casa sem
esperar ser acompanhado.
   - Foi alguma coisa que eu disse?  refletiu.
   ngelo saiu transtornado e acabou descontando parte de sua raiva
numa pobre lixeira, comeando a chut-la e a praguejar contra sua sorte.
Quando se sentiu calmo, pegou de novo o nmero do telefone nas mos.
Precisava agir rpido e j tinha um plano: Procuraria uma Lan House e l
acharia o endereo pertencente e esse nmero e depois, tentaria ver
alguma forma de conduo at Trs Coraes, nem que tivesse de
recorrer  Ordem.
   No podia deixar a coisa se seguir assim. Era arriscado demais.
                              ~ 268 ~
   33  A Testemunha.
    Com um bocejo involuntrio, Ana acordou e mais uma vez, percebeu
haver dormido durante a viagem. Que efeito ser que tinham as estradas
e os automveis nela.  medida que voltava no mundo dos sonhos,
comeou a se familiarizar com os sons a sua volta.
    Primeiro, a msica que tocava no MP3. Depois, as vozes: seu pai e
Ian conversavam, mas no sabia sobre o que. E por ltimo, o som, ou
melhor, a falta de som. No estavam mais no caos da Avenida Brasil.
    Ao olhar pela janela, viu que estavam comeando a entrar em Minas
Gerais.
    - Quanto tempo eu dormi? - perguntou
    Seu pai riu.
    - Acho que umas trs horas. J estamos chegando.  anunciou. Desta
vez ele no estava mais usando os fones de ouvido.
    - Nossa!
    - Voc estava mais cansada do que imaginava  comentou Ian.
    - Essa a sempre est cansada - debochou Oscar.
    Ao ouvir a piada, Ana no entendeu. Agora os dois estavam unidos
contra ela? Quando isso aconteceu? O que eles estavam falando que fez
seu pai parar de olhar para Ian como se tivesse o desejo de deix-lo no
meio da estrada? Ela perdera muita coisa nesse cochilo.
    - Que bom que voc acordou. - ouviu Ian cochichar em seu ouvido.
Ela viu que era um assunto confidencial  Tenho um exerccio para voc.
    - Um exerccio? Como assim?
    - Uma coisa que eu quero que pratique quando chegarmos, mas seria
bom voc comear a treinar agora.
    - Pode falar.  ela agora estava mais animada.
    - Ento, lembra quando eu te mostrei como consigo fazer minha pele
endurecer.
    - Sim. Voc vai me ensinar isso?
    - Tambm. Mas primeiro preciso que voc entenda o que eu fiz. - Ele
deu um pigarro antes de continuar - Pronta para uma aulinha?
    - Claro.
    - Bem, assim como suas clulas, a sua energia tambm tende a
circular pelo corpo atravs do seu sangue. - ele comeou - O sangue  a
essncia da Quintessncia de qualquer animal, e  por isso que os rituais
de sangue so to comuns. Pois bem, fechando o parntese, o que eu
quero que voc faa  se concentrar. Tende prestar ateno nas batidas de
                              ~ 269 ~
seu corao e assim tente sentir seu sangue circulando. Com isso, voc
vai poder comear a sentir a energia que roda em seu corpo tambm.
    - Parece complexo.
    - E . Mas voc  uma prodgio, no ter problemas  fez pouco caso
 Enfim, o que eu quero  que voc consiga sentir essa energia, pois esse
 o primeiro passo para poder control-la. Esse controle  de vital
importncia para a execuo de qualquer magia.
    - Mas e a parte de endurecer a pele? - ela parecia mais entusiasmada
com essa parte.
    Ian riu antes de responder.
    - Esse ser o segundo passo do exerccio. Controlar a Quintessncia
para mexer no corpo  o fundamental no ensino de magia. Com esse
controle, voc no s poder tornar sua pele mais resistente, como pode
fazer seus msculos ganharem maior potncia, ou suas pernas mais
velocidade. Pode controlar seu peso e... l eu lhe dou maiores
demonstraes. - prometeu.
    - T bom.
    - Mas eu gostaria que voc tentasse sentir sua urea desde agora. - ele
disse  Essa viagem de carro seria perfeita devido  calma da estrada.
Pena que voc perdeu mais da metade do percurso.
    Ana no falou mais e tentou seguir o conselho dado.
    Estranho. O que fez com que ele mudasse de idia sobre me treinar?
Por que ele est me ensinando coisas?
    Ana no queria se iludir, mas no conseguiu evitar sentir certa alegria
com tal possibilidade. Ele teria desistido de partir agora que ela no tinha
mais mestra? Talvez. E por isso, Ana no ia dar motivos para ele se
decepcionar. Quem sabe se ele visse o quanto ela progredia, isso no o
fizesse mudar suas metas. No tinha mais idia e se agarrou a essa.
    Comeou a tentar.
    Fechando os olhos, comeou a se concentrar novamente. Primeiro
passo: acreditar que isso era possvel. Ter f era  base da magia.
Atravessar o Vu era crer no que ningum mais cria.
    Concentrou-se.
    - Ela dormiu de novo?  escutou o pai incrdulo.
    Decidiu ignorar o comentrio.
    De olhos fechados, comeou a perceber as batidas de seu corao.
Eram bem rpidas. Em pensar que cada pulsao dessa era um jorro de
energia que andava pelo seu corpo. Sua quintessncia. Pensando assim,
ela at conseguia ver inmeras bolas de chama roxas, iguais aquelas que
ela conjurara no quarto de Ian, circulando pelo seu sistema.
                                ~ 270 ~
    Ela posicionou as mos em forma de cuia e sentiu Ian as tampando.
    - No faa isso aqui. - ele sussurrou.
    Ana at tinha esquecido onde estava. Recolheu as mos.
    Ento como farei? Como eu posso sentir essa energia que ele tanto
fala sem poder v-la? Como control-la? No podia desanimar. Ela
ainda pensava nele como seu mestre. Tinha que fazer merecer isso.
    E foi quando percebeu que ainda segurava o brao de Ian lembrando-
se que se no conseguisse, ele poderia ir embora. E o desespero voltou.
    Para, ela se ordenou. No fique nervosa. Ele no vai embora. No
ainda.
    E foi quando sentiu seu corao acelerar devido ao medo e um estalo
ecoou em sua cabea. Cada vez que se forava a pensar em sua partida,
ele acelerava. Em cada acelerada, maior o nmero de impulsos. Maior o
nmero de impulsos, maior a quantidade de energia liberada. E acreditou
chegar  chave de tudo: Sentimentos.
    Essa seria a forma de controlar o fluxo de energia no seu corpo. Se
pensasse em coisas que fizessem seu sangue circular mais rpido, a
energia liberada para o corpo seria maior, se estivesse relaxada, a energia
seria menor.
    - Sentimentos. Emoes - ela pensou alto.
    - Como?
    - A chave para se controlar. - falou baixo sem abrir os olhos - As
emoes.
    - Voc no cansa de me impressionar  ele parecia perplexo, apesar
de no poder ver seu rosto - como chegou a essa concluso to rpido?
    Ana no respondeu.
    - Bem, voc avanou um pouco na lio, mas ainda  importante que
voc consiga sentir essa energia. Ento v treinando mais. - aconselhou -
Deixe as coisas em seu devido tempo.
    - T  e voltou a se concentrar. Ele tinha se impressionado, esse era
um bom sinal.
    O resto do caminho, no teve maiores progressos, mas ela se sentia
muito mais animada.
   *
   Ao chegarem  casa dos avs de Ana, a garota olhou-a com
curiosidade e viu que continuava da mesma forma como se lembrava. A
casa de Slvio era espaosa e se situava afastada do centro do municpio,
onde rvores enfeitavam a paisagem e o cheiro do asfalto era substitudo
por terra e grama. Ela no fazia idia de como esse cheiro lhe fazia falta.
                               ~ 271 ~
J tinha ido para floresta da Tijuca e para o sitio de Mnica, mas nenhum
desses lugares tinha esse cheiro. O cheiro de casa, de lar.
    Eles saram do carro e Ian deu um grande suspiro enchendo os
pulmes de ar. A expresso dele era de contentamento. A idia de traz-
lo parecia a cada hora mais acertada na mente de Ana.
    - Meu Deus!  o som dos pssaros foi cortado por essa voz. Uma voz
fraca e doce, que Ana julgava estar esquecendo. Mas agora sabia que isso
nunca acontecera. Estava guardada para esse momento. Para que quando
fosse ouvida novamente, lhe trouxesse esse mar de emoes que estava
sentindo.
    Ela se virou em cmera lenta e viu a figura do av com lgrimas nos
olhos e braos estendidos para ela. Silvio tentava andar o mais rpido
que podia at Ana, mas a idade no o ajudava muito. Ele continuava
igual como ela se lembrava. Um homem um pouco acima do peso, de
barba branca parecendo com o Papai Noel, vinha em sua direo. Sua
pele era morena de sol e seus olhos eram castanhos, como os de Ana.
    Voc tem os olhos de seu av, era o que sempre diziam e ela via que
no era um comentrio equivocado.
    Finalmente, passado o primeiro momento, Ana conseguiu vencer a
inrcia que atingira seu corpo devido ao choque do encontro e disparou
na direo do ente querido. Sua velocidade era absurda e ela comeava a
imaginar se j no estava aprendendo o que Ian tinha lhe dito. Mas no,
era apenas a emoo do reencontro adiado por quase cinco anos.
    Ela correu o mais que pde, para vencer a distncia que os separa no
menor tempo possvel. E foi quando se aproximou, teve a idia de pensar
no impacto que aquela velocidade ocasionaria. Nos ltimos milsimos,
ela reduziu a velocidade e no ultimo tempo, se agarrou ao av com
lgrimas nos olhos.
    Nenhuma palavra foi dita. Mas nenhuma palavra era necessria. Ana
se deixou ficar o tempo que quisesse naquele abrao forte. No
importava quanto tempo passasse. No importava que anoitecesse ou
chovesse, ela no queria soltar.
    Quando enfim conseguiu se soltar do av, este deu uma boa olhada na
garota.
    - Meu Deus! - sua voz quase morria no meio da emoo - Olha pra
voc.
    - No estou to mal assim - brincou com a voz engasgada.
    - No. Esta tima. A cara de sua me.
    - Mas tenho seus olhos - lembrou.
    -  mesmo - concordou ainda chorando.
                              ~ 272 ~
    E aquela emoo toda no av fez Ana perceber o mal que devia ter
feito deixando de visit-lo por tantos anos. Comeou a se ver como um
monstro por tanto tempo de ausncia.
    Slvio olhou em volta e viu Ian.
    - No sabia que j namorava. - disse feliz  Quem  o garoto?
    - Ah no...  Ana desfez o mal entendido - Ele  s... amigo.
    Como era difcil dizer essa palavra depois da sbita compreenso do
carro. Ian se precipitou e apertou a mo de Slvio.
    - Muito prazer. Ian - ele anunciou num tom um pouco mais polido
que o normal, e Ana pde jurar que quem estava falando era Lucien e
no Ian.
    - Muito prazer.
    Oscar deu um leve pigarro. Ele no gostava de se sentir assim, to
excludo.
    - Ah, e voc Oscar. - Slvio parecia s ter notado a presena do genro
naquele momento - Como vai minha menina?
    - Muito bem cuidada, como sempre. Ela lamenta no poder vir e
prometeu que em nossas prximas frias passaremos uns dias aqui. A
famlia toda.
    - Como nos velhos tempos  a voz dele ainda era cheia de emoo.
Ele ainda se mantinha muito prximo a Ana. Talvez ainda pensasse que a
garota pudesse fugir de repente.
    Ela sabia como era isso.
    - Como nos velhos tempos  confirmou Ana.
    Todos entraram e Ana no pde evitar a avalanche de perguntas que
foram direcionadas a ela. Seu av queria saber de tudo: se estava bem, se
tinha namorado, como ia na escola e todo o resto. Em nenhum momento
citou sua ausncia ou o motivo dela. Ele no queria tocar nessas feridas e
Ana agradeceu mentalmente essa deciso.
    Ian tambm no escapou e foi o segundo a sofrer um interrogatrio,
embora quase todas as perguntas estivessem, de alguma forma, ligadas 
Ana: como eles se conheceram, quanto tempo eram amigos, se havia
algum podre que Ana no tinha contado, entre outras coisas. A conversa
com Oscar foi breve e o pai de Ana devolveu um ba cheio de pertences
dele e de sua av, que ficou na sua casa por muitos anos.
    O ba era pesado e Oscar pediu a ajuda de Ian. Ana teve que se
segurar para no rir quando seu av disse que Ian era franzino demais e
provavelmente no agentaria o peso. Ele se props at a chamar um dos
empregados, mas Ian afirmou que no precisava e se disps a pegar o
ba. Ele e o pai de Ana carregaram o peso at a sala de Slvio, onde o
                               ~ 273 ~
deixaram num canto. Ana podia ver Ian lutando para parecer que estava
fazendo algum esforo com aquilo. J seu pai, colocava os bofes para
fora.
    Emlia, a empregada de seus avs, que est na famlia desde a poca
de Ana, tambm foi uma que no resistiu ao impulso de agarrar a garota
e se debulhar em lgrimas, apertando Ana contra o corpo e criticando sua
magreza.
    - Voc no tem se alimentado direito, no ? - ela falava - Eu sabia.
Esse pessoal do Rio de Janeiro no sabe comer.
    Ana se sentiu lisonjeada com a crtica de Emlia, pois sempre se
considerava um pouco acima do peso, como todas na sua idade.
    E agora, completamente enturmada, experimentou uma leveza nunca
antes sonhada, pois conseguia enfim tirar o peso que a separao
prolongada criou em seu peito, mas ainda faltava algum.
    - E a av? Onde ela est.
    Ana notou a hesitao nos olhos de seu pai e seu av. Ela aguardou
at eles poderem falar. Sabia que a situao da av era ruim e eles
deviam querer poup-la daquilo tudo. Mas ela se sentiria horrvel se no
pudesse v-la.
    - Ela est l em cima, no quarto, mas... - tentou falar o av
    - Tudo bem, eu vou  prontificou-se antes que ele terminasse. - Vem
Ian - chamou e subiu as escadas escutando os passos do garoto atrs dela.
    Ela subiu correndo e acabou ficando sem flego no fim da escada. Ela
tinha se esquecido do quanto quelas escadas eram cansativas. Na
verdade, nunca notara. Quando criana e cheia de energia, aquilo era
muito fcil pra ela. Mas agora, precisava para tomar flego enquanto Ian
a esperava com o rosto bastante tranqilo e a respirao controlada e isso
a deixou um pouco invejosa.
    - Como voc consegue?  ela olhou para ele.
    - Muito exerccio.  comentou bem presunoso - No levo uma vida
sedentria.
    - At parece  debochou enquanto dava um belisco na sua barriga. -
Tem at pneu.
    - Ei! - ele deu um passo pra trs protegendo o abdmen.  No se
aperta a barriga de um homem quando ele est relaxado.
    Ela riu e voltou a andar. Na verdade, tinha se impressionado ao notar
como ela era dura. Mas no comentou, pois isso o deixaria mais
convencido. Quando chegou de frente para a porta, parou, levando a mo
 maaneta sem mex-la.
    -  difcil, no?  Ian dizia atrs dela.
                               ~ 274 ~
    - Um pouco. - admitiu - Sinceramente eu fico imaginando que
poderia ser eu ali.
    - Voc teve a sorte de ter a mente mais aberta na poca. Isso a ajudou
a superar o trauma, de certa forma. J sua av, estava completamente
desprotegida da avalanche de informaes que aquela noite causou. Foi
mais difcil pra ela.
    - Sem dvida.
    - E eu ainda acredito - ele continuou  que ela tenha visto muito mais
coisa que voc naquela noite.
    Ana se virou para encar-lo.
    - Voc acha que ela viu mais coisa do que aconteceu as minhas tias?
    -  um palpite. - alertou - Voc desmaiou cedo demais e  bem
provvel que ela tenha ficado acordada para poder ver mais. E esse mais,
fez toda a diferena.
    - Voc acha que ela ainda se lembra?
    - Com certeza, mas duvido que queira falar. E no seria justo
interrogar.
    - No, no seria. - murmurou um pouco desanimada.
    - Pronta? - ele perguntou lhe dando foras.
    - Acho que sim.
    E girando a maaneta, a enorme porta de madeira que dava acesso ao
quarto da av Marieta comeou a se abrir. Ana a empurrou at a metade
quando lhe faltou coragem de ir mais alm. A ltima imagem da av,
dopada numa cama de hospital, ainda a perturbava muito e tinha medo de
se deparar com a mesma cena ao entrar naquele lugar. Mas, foi quando
sentiu outra mo envolvendo a sua. A pele quente de Ian segurava sua
mo, dando-lhe foras. Ela no olhou para o garoto, mas agora tinha
maior convico para seguir em frente.
    Preparando-se para o choque, Ana adentrou o aposento e olhou em
volta a procura de sua av, mas o que viu, foi muito melhor do que podia
supor, dando-lhe uma sensao de alvio. A av estava l, sentada em
uma poltrona na varanda olhando a floresta que se seguia logo atrs da
casa. O quarto era todo branco e era muito bem iluminado pela luz da
manh que entrava e banhava o corpo da velha senhora com seus raios
Olhando melhor para Marieta, Ana ficou encantada com sua cascata de
cabelos prateados que eram banhados pelo sol da manh.
    Sua pele era mais plida que a do av. Provavelmente, por ficar a
maior parte do tempo trancada no quarto. Mas o que mais a encantou foi
a expresso tranqila em seu rosto. Ela parecia em paz olhando a
paisagem verdejante. Quando se virou para olhar quem entrava, sorriu ao
                               ~ 275 ~
ver Ana. No era o mesmo sorriso exaltado de seu av ou de Emlia, este
era mais um sorriso que mostrava o quo contente estava por receber
visitas, mesmo que de desconhecidos. Sua av no a reconhecera e isso
caiu como um martelo no peito te Ana.
    - Av?  sua voz era vacilante.
    A mulher sorriu. Um sorriso amvel e que serviu de convite para Ana
se aproximar, fitando seus olhos cinza. Esses olhos que transbordavam
ternura, carinho e acima de tudo, paz. Ao chegar bem perto, ajoelhou-se
em frente  Marieta e pegou na sua face enrugada com as mos. A av
parecia adorar aquela caricia e deixou o rosto cair nas mos de Ana.
    - Desculpe - sussurrou sentindo que ia perdendo o controle para as
emoes de novo  Desculpe por no vir antes.
    Ana via que a mulher no entendia o que ela falava, mas isso no
importava. Ela precisava aliviar aquele peso que sentia. Marieta agora
estendeu a mo e acariciou o rosto da neta. Um toque leve e confortante,
o mesmo de anos atrs. Um toque que nem mesmo a ausncia e a loucura
conseguiram modificar. O toque da sua av.
    Agora, Marieta passava seus olhos cheios de curiosidade para Ian,
que permanecia em p ao lado da porta. O garoto se aproximou
lentamente, se ajoelhando ao lado de Ana. A mo da av corria agora
pelo rosto do garoto, que sorria fitando os olhos da mulher.
    - Ela gostou de voc.  Ana comentou  Assim como toda a minha
famlia.
    - Tenho esse dom  brincou.
    - Convencido.
    O garoto deu um sorriso doce para ela que a deixou com um aperto
maior no corao. No poderia viver sem aquele sorriso.
    - Ela parece muito feliz  disse Ian
    - .
    E parecia mesmo. Por mais terrvel que a situao pudesse parecer,
Ana se sentia bem, pois via que a av alcanara um estgio de paz que
provavelmente todos os seres no planeta buscam. Ela estava feliz por
estar ali e conseguir tirar a ltima imagem da av numa cama de hospital
da cabea.
    A partir de agora, quando fosse pensar em Marieta, veria uma linda
mulher em paz, sentada numa poltrona, recebendo a luz do sol da manh
enquanto admirava uma bela paisagem.
    - Obrigado  Ana disse para Ian, mas o garoto no percebeu que era
com ele que ela falava.
    - Obrigado Ian  ela agora direcionou melhor o agradecimento.
                              ~ 276 ~
    - Pelo o que?  ele a fitou ainda recebendo os carinhos de Marieta no
rosto.
    - Por esse momento  ela olhou nos seus olhos negros -Se voc no
tivesse me mostrado a verdade. Se no tivesse me feito atravessar o Vu,
ainda ficaria presa no Rio e no teria essa oportunidade. Voc no sabe o
bem que est me proporcionando.
    - Amigos so para estas coisas- disse sorrindo.
    Amigos. Como sentia raiva dessa palavra agora. Parecia to falsa.
    E foi quando a porta do quarto se abriu e Emlia colocou a cabea
para dentro. A mulher sorriu ao ver o momento ntimo que se estendia
ali, hesitando estragar tudo. Mas Ana se virou para ela, encorajando-a a
falar.
    - O almoo est servido. - disse baixinho  vocs devem estar com
fome.
    - J vamos descer  anunciou Ana e depois se virou de volta para a
av.
    Deixou-se ficar mais uns minutos ali e depois se levantou e saiu com
os braos em volta da cintura de Ian.
                              ~ 277 ~
   34  Decises
    Dentro de um nibus na rodoviria do Rio de Janeiro, ngelo
aguardava impacientemente a hora de ir.
    O garoto nem acreditava em sua sorte. Assim que descobriu o
endereo atravs do telefone na casa de Marta, foi olhar os vos para
Minas Gerais e viu que no tinha nenhum para perto. Ele comeou a
perder as esperanas quando viu que a rodoviria tinha um nibus que
sairia naquela manh mesmo para Belo Horizonte e que dali poderia
pegar outra conduo para Trs Coraes. Provavelmente chegaria l
amanh de manh.
    E por sorte tambm que todos os membros da Ordem dos Iluminados
possuem um carto de crdito para situaes de emergncia. Assim
poderia tentar salvar um pouco a tragdia que havia ocasionado.
    Devido ao rumo que as coisas tomavam, ele viu que precisaria engolir
o orgulho, pois essa viagem poderia ser o tempo necessrio que o
demnio precisava para despertar no corpo do jovem Ian. Ele tinha que
ser detido. Decidiu ento que no podia mais continuar sozinho. Ligou
para a Ordem e como no atenderam, deixou um recado contando de
forma resumida e objetiva tudo o que ocorrera. Quem sabe com os
recursos da Ordem dos iluminados o Frade ou o Bispo no chegariam a
Trs Coraes antes mesmo dele.
    Caso no cheguem, terei de resolver sozinho.
    O demnio no teve tempo de se despertar por completo e
provavelmente ngelo mesmo poderia liquid-lo se chegasse a tempo.
No adiaria mais isso. Os sinais eram claros e ele no tinha mais dvida.
Ian era o demnio e tinha que morrer. Agora que sentara, sentiu o
cansao da correria cair sobre si. Ele havia revirado a cidade atrs do
demnio e agora o vira escapar para outro estado bem por entre seus
dedos.
    Fora um erro tentar agir por conta prpria e agora estava pagando por
ele. Deixara suas suspeitas o afast-lo do resto da Ordem. Chegara ao
cmulo de duvidar da fidelidade do Frade Henrique. Agora ele se sentia
pssimo por isso. Mas no fundo, ele ainda no conseguia deixar que uma
sensao de que alguma coisa lhe escapava fizesse pesar em seu
estmago. Ele estava se esquecendo de algo, podia sentir.
    - Sexto sentido  escarneceu. O convvio com os loucos dos
Sonhadores o deixara to doido quanto eles. Como pde deixar um mau
pressentimento abalar seu raciocnio lgico e pior, como pode deixar que
isso o desviasse de sua misso e o afastar do frade e do bispo.
                              ~ 278 ~
    A doena de Csar avanava a longo passo e o frade Henrique estava
duas vezes atarefado tentando cuidar de sua sade e resolver essa
importante misso. E em vez de ngelo ajud-lo com a segunda tarefa,
deixou seu ego comandar e tentar fazer tudo sozinho.
    Recuperado novamente, deixou seus pressentimentos de lado e tentou
se concentrar no objetivo a sua frente: Matar o garoto. Em seu colo tinha
apenas sua mochila com algumas de suas anotaes das aulas com Csar.
Na correria, no pegou roupas ou qualquer outra coisa que precisaria
numa viajem. Mas no fazia tanto mal, afinal, ele no pretendia ficar l
muito tempo. Se a Ordem no tivesse recebido seu recado a tempo, ele
enfrentaria o demnio sozinho e a, seria matar ou morrer. Qualquer uma
das duas reduziria o tempo de sua visita em Minas Gerais.
                              ~ 279 ~
   35  A discpula das fadas.
    Ana no se lembrava de ter comido tanto na vida. Realmente a
comida de Emlia fazia falta em seu sistema e era muito bom matar essa
vontade de anos. Como toda a comida mineira, esta era bem temperada e
pesada e a garota sentia que nem mais um pedao de po conseguiria
descer por sua garganta.
    - No me diga que voc j parou querida?  Emlia erguia a colher
ameaadoramente em direo ao prato da garota. - Que tal mais um
pouco de Tutu?
    - No - ela a segurou  No agento mais,  serio. Obrigada
    - Por isso est to magra  e se virou para Ian  E o namorado, vai
querer?
    Ana desistiu de tentar esclarecer esse mal entendido e Ian no estava
interessado em corrigir aquela que o alimentava e, sem pensar duas
vezes, ergueu o prato.
    - Esse  um dos meus!  exclamou Emlia cheia de orgulho e saiu.
    - Isso vai entupir suas artrias  avisou Ana.
    Ian engoliu antes de responder.
    - Habilidades mgicas requerem muita energia. Tenho que rep-las de
alguma forma. - explicou.
    - Mas essa comida  muito pesada. Pode fazer mal.
    Ian parou mais uma vez e a olhou nos olhos antes de falar:
    - Ana  disse com a voz calma e um sorriso  Os nicos prazeres
carnais aos quais posso me entregar em anos so os culinrios. Por favor,
no em tire isso.
    Ana levantou as mos num gesto de rendio.
    - Desculpe.  e descansou enquanto Ian acabava.
    Quando o garoto finalmente acabou, eles foram at a varanda onde o
pai se despedira.
    - At logo pai  disse dando um abrao em Oscar.
    - Se cuida e juzo  avisou o pai dando uma olhada de rabo de olho
para Ian.
    - Tudo bem  e depois, se lembrando, perguntou  Vamos ficar at
quando?
    - Eu venho busc-los em dois dias. Quinta de manh eu estou aqui.
    -  pouco  refletiu Ana  Mas  bom por enquanto.
    - Sei que voc tem muitas saudades daqui, ento nas nossas prximas
frias passaremos umas duas semanas com seus avs. Prometo.
    - Eu no vou esquecer. - lembrou Ana.
                              ~ 280 ~
   - Nem sua me  completou Oscar. Depois se despediu de Slvio e de
Ian e foi embora.
   Slvio acenava at que o carro desapareceu numa curva e depois se
voltou para os dois.
   - Ento? Vo descansar o almoo?
   - Eu pensei em caminhar pelo campo - sugeriu Ian.
   - Realmente o dia est bonito hoje, mas vocs acabaram de passar
pela comida de Emlia. Voc  novato nisso garoto e Ana est em
abstinncia h quatro anos. No acho que deveriam ir to fundo. Podem
passar mal e vocs ainda tm a amanh toda.
   - No vamos nos esforar muito. - avisou Ian - Prometo.
   Slvio ficou indeciso e olhou para Ana.
   - Tudo bem  ela falou sorrindo - No se preocupe v. Eu estou
mesmo querendo matar toda a saudade daqui.
   E Slvio se deu por vencido.
   - Tudo bem ento, mas cuidado. - alertou - Voc ainda se lembra os
caminhos, no ?
   - Claro.
   - Ento, boa caminhada.  e entrou na casa.
   Ana e Ian foram adentrando a humilde floresta que tinha atrs da
casa.
   - Qual o motivo da caminhada? - perguntou.
   - Bem, achei que seria bom pra voc conhecer um pouco o mundo das
suas tias.
   Assim que Silvio atravessou a porta, Ian fez sinal para que Ana o
seguisse e, juntos, adentraram a floresta que ficava atrs da casa.
   - Estamos indo pra onde exatamente?  Ana no tinha inteno de
esconder a excitao.
   - Nos perder.  respondeu simplesmente.
   Ela parou de caminhar olhando para Ian.
   - Como?
   - Nos perder. - repetiu se virando pra ela - Se suas tias forem de fato
druidas, elas devem ter uma espcie de altar em homenagem aos espritos
por entre essa floresta.  e apontou mata adentro - Claro que no  um
local de fcil acesso, ento duvido que voc conhea o caminho. Ento,
temos que nos perder se quisermos encontrar.
   Esse no era um convite muito tentador, mas Ana no fez objeo
quando o garoto estendeu a mo a convidando para que o acompanhasse.
Eles andaram por um longo tempo de mos dadas, num ritmo lento e
constante. Ana comeava a ficar cansada e a sentir uma leve apreenso
                               ~ 281 ~
por no saber mais como voltar para casa. O tempo estava claro ainda e
ela agarrava a mo de Ian com fora. O garoto sentiu seu medo e tentou
confort-la.
    - Confie em mim. Vamos conseguir voltar.  e depois sorriu  E
acabo de ver uma fada.
    - Uma fada?  a voz de Ana era perplexa. Ela olhava para a direo
onde Ian mantinha o foco.
    - Sim. Os espritos da floresta que eu digo, so tambm conhecidos
pelo nome de fadas, duendes, entre outros. Eu gosto de fadas.
    Ana olhava, mas no via nada. Uma fada? Parecia um tanto
fantasioso demais.
    - No acredito que posam existir...  ela comeou a falar, mas se
conteve ao perceber o olhar de censura de Ian.
    - Eu no acredito, no  a coisa certa a se dizer. Lembre-se Ana, o
primeiro passo  acreditar.
    Ana se sentiu envergonhada por esquecer a principal regra da magia:
- A f cega  e tentando concertar as coisas, olhou de novo tentando
procurar a fada, tentando imaginar como seria. Talvez encontrasse uma
pequena boneca voadora como a Sininho de Peter Pam, mas nada
parecido se fez presente. Teria ela passado to rpido que Ana no fora
capaz de ver?
    E j ia perguntar para Ian se ele ainda era capa dez ver a tal fada
quando uma bela borboleta cruzou seu caminho. Ana, normalmente no
daria ateno ao animal se a beleza dele no fosse to grande. Em todos
os aspectos era um inseto, s que um pouco maior que a mdia. O
tamanho do animal era igual  de sua mo aberta e suas asas eram
coloridas de um azul vivo. Mas o que mais chamava a ateno de Ana
era o brilho que caia do animal quando este ruflava as asinhas.
    - Que linda!  exclamou.
    De repente, Ana viu que ela no estava sozinha. Num segundo,
dezenas de borboletas surgiram, todas do mesmo tamanho da primeira,
porm, cada uma de uma cor diferente. Elas voavam num bal na mata
deixando cair seu brilho por toda a vegetao.
    - De onde elas surgiram?
    - Elas estavam aqui h alguns minutos, mas voc demorou um pouco
para v-las  explicou Ian.
    - Como?  perguntou soltando-se da mo de Ian e andando, como que
hipnotizada em direo a elas.
                              ~ 282 ~
    - Como eu te disse, quando falamos de magia, as regras da cincia de
ver para crer no funcionam. Voc tem que fazer o contrrio. - explicou -
Quando acreditou, elas apareceram pra voc.
    - Ento elas so...
    - Fadas?  completou Ian  Sim. No so como as que voc deve ter
imaginado, mas so reais. Elas so as guardis dessa floresta e com
certeza os seres que concederam os poderes  Teresa e Samanta.
    - So lindas!
    E agora que estava bem prxima do grupo de fadas, quase as tocando,
que um animalzinho comeou a voar em volta da garota e fazendo
ccegas quando tocava seu rosto.
    - Elas gostaram de voc - disse Ian satisfeito  Devem ter lhe
reconhecido como herdeira das duas bruxas anteriores.
    Ana no respondeu. Ainda olhava maravilhada o bal areo que os
minsculos insetos faziam bem acima dela.
    Ela pulou para tentar tocar em uma delas, sentindo-se criana de
novo.
    - Tome cuidado! - Alertou o garoto  Elas podem ser poderosas, mas
so frgeis.
    - E como isso  possvel? - perguntou. De alguma forma, aquilo no
fazia sentido.
    - Bem, fadas so seres mgicos poderosssimos, mas que se recusam a
usar seus poderes contra seres humanos adormecidos...
    Ana analisou o tom de voz do garoto e sentiu que ele queria falar
mais.
    - E... - encorajou.
    - E por isso que grandes florestas so devastadas todos os dias e nada
acontece que impea. As fadas no usam seus poderes contra quem no 
capaz de se defender e assim, as pessoas destroem suas casas e dizimam
milhes desses seres e elas so incapazes de se defender.
    - Que horrvel! - disse espantada.
    -  sim - concordou Ian  Depois que abandonaram a magia como
maneira de resolver seus problemas, a humanidade partiu para um
caminho mais seguro e tambm mais destrutivo. Cometemos um erro no
passado, eu admito.  Ana sentiu que ele falava de todos os magos  Mas
isso no justifica a destruio que esto fazendo, a fim de conseguir
satisfazer suas necessidades e caprichos.  dava para sentir certa revolta
na voz do garoto. -  triste ver as coisas terrveis que esto acontecendo.
                               ~ 283 ~
    Ana ficou em silncio at ele se recuperar da sbita revolta. Foi s
quando ele deu um suspiro e parecia ter voltado ao normal, que Ana
perguntou:
    - Mas e o que voc disse sobre no usar com adormecidos? Ento
voc...
    - Elas me matariam se me achassem uma ameaa  falou com
naturalidade  E elas podem ser mortais quando querem. Isso me faz
lembrar...  e se agachou numa reverncia para as borboletas - Elas so
caprichosas  e sorriu.
    Ana se curvou tambm, reverenciando os belos animais. Agora, mais
borboletas se aproximaram e rodearam a garota. Agora, algumas fadas
batiam de leve em suas costas e Ana sentia como se elas a quisessem
levar a algum lugar. Olhou para Ian um pouco assustada e o garoto fez
um gesto afirmativo com a cabea, estimulando-a.
    Mais confiante, foi deixando ser empurrada pelas fadas com Ian
seguindo atrs dela. Eles andaram por mais uns minutos at chegarem a
uma clareira na floresta. No meio da clareira, recebendo luz do sol, havia
alguns pedestais de mrmore j abandonados e sinais de fogueiras
extingas, j a muito esquecidas, no cho.
    Era tudo muito simples e demonstrava ser um local para rituais bem
primitivos de adorao a natureza.
    - Achamos  disse Ian. Ana continuava a olhar tudo aquilo
maravilhada.
    - Era aqui que minhas tias faziam seus rituais?
    - Sim. Foi aqui que elas ganharam seu poder e foram instrudas pelas
fadas. Aposto que foi aqui que elas fizeram o ritual que acabou com o
perodo de pestes na histria que voc me contou.
    - Deve ter sido. - concordou sem prestar muita ateno.
    Ela vasculhava cada centmetro do local  procura de mais e mais
coisas. Notou Ian se dirigindo ao altar central e colocando a ponta do
dedo indicador na boca. Antes que pudesse questionar o que ele estava
fazendo, pde percebeu seu intento e tentou fechar os olhos, mas era um
pouco tarde e acabou vendo os dentes do garoto rasgaram a carne do
dedo, produzindo uma fina linha que escorreu em gotas at que o garoto
a estendeu diante do altar, fazendo-as cair em uma tigela de barro rstica.
As fadas ento voaram em sincronia, parecendo mais agitadas, mas
felizes com a oferenda.
    - Fazia anos que elas no recebiam nada - Ian comeou a falar
calmamente  Ento decidi fazer uma oferenda. No precisa contribuir
                               ~ 284 ~
no  acelerou em dizer quando viu que a garota levava o dedo a boca,
mas hesitava em cort-lo  Umas gotas j so mais que o suficiente.
    Ela no pde deixar de se sentir aliviada. No gostava de auto-
mortificao.
    - Eu imaginei que rituais de sangue eram coisas de quem
compactuava com demnios.
    - Tambm  corrigiu Ian  Todas as tribos mgicas possuem rituais
de sangue. Afinal, ele  o fluido com maior quantidade de energia do
planeta, pois contem toda a Quintessncia de um ser vivo. Mas as bruxas,
ao contrario dos demais grupos, so os nicos que utilizam este sangue
com base no sacrifcio de um inocente. As fadas s aceitam sangue que
for dado de bom grado e no resultar na morte do doador.
    Ana olhava as borboletas gigantes rodarem Ian, contentes.
    - Guarde seu sangue  avisou  Afinal, voc deve ter que fazer muitas
oferendas a elas ao longo do tempo. Achei que seria legal voc assumir o
lugar de suas tias. Acha que consegue se tornar responsvel por esse
templo?
    - Seria uma honra  falou contente.
    - Que bom.  Ian parecia animado  Em troca, voc vai ganhar muitos
conhecimentos, assim com Teresa e Samanta. E a oferenda no precisa
ser s sangue. Voc pode trazer animais filhotes para que elas cuidem, ou
sementes. Nada morto, por favor, nem mesmo os animais. Elas no
gostam de sacrifcios. - lembrou.
    - Ento os animais significam o que? E as sementes.
    - Recomeo. Tanto os filhotes como as sementes, significam um novo
comeo para a natureza e as fadas gostam de cuidar deles.
    - Vai ser timo poder cuidar de uma coisa que foi de minhas tias.
    - Sabia que voc ia gostar. Por isso resolvi te trazer.
    - Obrigada de novo. - e sorriu para ele que retribuiu.
    Ana sentiu um calor lhe invadir o peito com aquele sorriso. Era tudo
to mgico. Em tempos atrs, duvidaria que isso fosse possvel. Mas
esses tempos passaram e ela agora podia enxergar toda a beleza que o
mundo da magia tinha a oferecer. Ana queria falar, mas sentiu que ia
perdendo o controle de suas emoes e decidiu se calar. Segurou as
lgrimas de emoo que desciam para que Ian no percebesse. Ainda
sentia vergonha de chorar na frente do garoto, afinal, ele nunca a viu
fazer isso.
    O sol comeava a se despedir da clareira e, chegando ao horizonte,
tingiu o cu de laranja deixando o lugar onde estavam envolto na
penumbra. H quanto tempo estariam fora?
                              ~ 285 ~
    - Acho que ficamos tempo demais aqui. Melhor voltarmos.  sugeriu
Ian, j andando de volta. Ana o seguiu sem falar nada e antes de sair da
clareira, deu um ltimo olhar para as fadas que comeavam a entrar em
alguns troncos de rvores. E seu brilho desapareceu da floresta deixando-
a mais escura.
    Ian segurou a mo de Ana e foi a guiando. Ela agora s ouvia a sua
voz alertando-a contra possveis acidentes ao longo do percurso, pois
Ana era incapaz de ver qualquer  sua frente.
    - Grave bem o caminho. Qualquer coisa, ns voltamos amanh para
que voc o memorize.
    - Claro  garantiu  Acho que j gravei. Acredito at que minhas tias
j o tenham me trazido aqui algum dia. Mas faz muito tempo.
    - No duvido. Provavelmente elas iam querer que voc aprendesse
tudo sobre as fadas. Elas seriam boas mestras. - comentou.
    Sem duvida, concordou em silncio. Ainda bem que eu tenho voc pra
substituir.
    E continuaram andando em silncio. Mesmo naquele escuro, Ana no
sentia medo e seguia o caminho traado por Ian sem opinar. Podia
confiar nele. Ela sentia seus dedos entre os dela aproveitando o toque.
Ultimamente o garoto evitava encostar nela. Desde o beijo que nunca
mais recebeu os carinhos dele e isso fazia falta.
    Queria tanto poder falar pra ele o que demorou tanto pra descobrir,
mas uma coisa a impedia. Ela ainda se lembrava na noite em seu quarto e
como ele ficou apavorado com a idia de que Ana pudesse gostar dele.
Devia ser bem ruim pra ele se controlar, mas o que pensaria se fosse
correspondido? Como se portaria se soubesse que Ana sentia mesmo?
    Provavelmente fugiria agora mesmo. Pesou desanimada.
    Ana sabia que gostar dele significaria investir nele. Tent-lo.
Provavelmente ele no ia querer arriscar a besta novamente. A besta. O
que seria? Ana no conseguia deixar de pensar que Ian exagerava um
pouco nisso. Ela conhecia o garoto e sabia o quanto era controlado. Ele
no perdia a calma com facilidade e imagin-lo como um animal
descontrolado estava fora de cogitao. Talvez ele estivesse se
subestimando.
    Era um pouco insensvel pensar aquilo. Lgico que Ian no arriscaria
perder o controle com ela. J bastava Catarina. Ele no ia arriscar matar
Ana tambm. Mas e se ele realmente estivesse mais controlado do que
quando era Lucien? Era bem provvel isso, mas era melhor no externar
seus pensamentos. No ainda.
                              ~ 286 ~
    Ia anoitecendo e a floresta ganhava cada vez mais um aspecto
macabro. Ana agora mal conseguia ver Ian, que estava bem na sua frente.
Eles andavam em um ritmo mais lento agora, para evitarem tropeos e
Ana olhava as rvores com seu aspecto mais terrvel agora de noite, mas
ainda no sentia medo, pois sabia que aquele lugar, por mais assombroso
que parecesse agora, era o lar de criaturas to engraadinhas e belas
como as fadas.
    Pensando assim, uma dvida veio at ela. E suas tias? O que de fato
tinha acontecido a elas?
    - Ian?  ela parou de andar.
    - O que foi? - ele parava tambm e se virou para ela. Agora, eles
estavam sob uma pequena clareira onde a lua conseguia jogar sua luz
prateada de modo que as feies de Ian eram mais ou menos
reconhecveis.
    - Eu estou pensado. Se minhas tias no tinham pacto com nada
demonaco, ento como explicar a morte delas.
    O garoto pareceu pensar um pouco.
    - O fato de elas no compactuarem, no as tornam imunes a essas
criaturas.  ele fitou a lua antes de continuar  Meu palpite  que em
algum momento elas se depararam com um demnio. Provavelmente
tentaram combat-lo, mas o ser devia ser muito poderoso e elas...
    - Caram  completou Ana.
    - Sim  respondeu  Sinto muito.
    - No sinta  ela o olhava com os olhos cheios de lagrimas. Ainda
bem que estava to escuro.  Sinta orgulho, como eu sinto. Elas lutaram,
elas enfrentaram uma criatura terrvel, mas...  ela balanava a cabea,
mas no conseguia mais segurar e as lgrimas comearam a cair.
    Ian passou a mo em seu rosto sentindo as lgrimas que desciam por
sua face e Ana deixou o rosto cair na mo dele. Ele continuava a
acariciando quando comeou a afastar sua franja limpando sua testa,
fazendo-a estremecer com aquele gesto. Depois, puxou-a pra perto num
forte abrao. Ana sentiu a fora do garoto contra ela, mas no era
incomodo aquilo, era bom. Ela se deixou ficar ali, recebendo cafuns na
cabea enquanto molhava a camisa do garoto com suas lgrimas.
    Quando finalmente conseguiu parar, ela olhou para ele e viu que
estava com os olhos azuis.
    - O que houve?
    - Desculpe  pediu tentando conter a raiva na voz  No gosto de v-
la chorando. Se eu pudesse encontrar o desgraado que fez isso...
                              ~ 287 ~
    - No!  a voz dela acabou saindo mais alta que imaginava  No. 
disse agora mais controlada.  No faa isso.
    Ana estremeceu com essa possibilidade e a cena da casa em chamas
voltou  sua mente. Ela no agentaria perder mais ningum para aquilo.
    - No faa isso. No tem como achar ele.  ela agarrava o garoto com
mais fora.
    - Eu no tenho muitas esperanas de encontr-lo.  disse tentando
acalm-la  No sabemos nem ao menos quem fez isso. Mas se um dia
eu tivesse a chance, juro que faria isso por voc.
    - Mas no faa. No quero que voc se... machuque  a palavra que
ela ia usar era morra, mas no quis pensar nisso.
    - Eu sou forte Ana  a voz dele era divertida  No dizendo que suas
tias no eram, mas eu tenho a experincia de meu cl para combater
criaturas desse tipo. Alm do mais, eu sou um guerreiro. Estou
acostumado a combates. Suas tias no eram boas nisso e tambm,
lembre-se que tenho cerca de cento e vinte anos de experincia. 
completou com um sorriso, exibindo os longos caninos como um
diabinho travesso.
    Ao ver sua cara, Ana no pde evitar rir da expresso que se formara,
apesar de ainda estar nervosa com a possibilidade de Ian enfrentar a
criatura. Ento, para mudar de assunto, ela falou:
    - Como  ter mais de cem anos? Digo... como se sente?
    - Velho.
    Ela riu.
    - Srio. - confirmou como se ela no estivesse acreditando - Sempre
fui assim, me sentindo um tanto precoce. E isso mesmo antes de
despertar para minhas memrias passadas. Eu sempre me senti como um
aliengena no meio das outras crianas.
    Ele agora ria.
    - Teve um dia - disse se lembrando - que uma criana no jardim de
infncia me perguntou de onde vinham os bebs. Eu tinha seis anos na
poca.
    - E voc?
    - Contei a ela. - respondeu simplesmente achando graa - Ela me
olhou com espanto e se afastou de mim. O pior  que eu nem tinha idia
de onde eu sabia isso.
    Os dois riram agora. E ficaram abraados por mais um tempo. At
que Ian falou:
    - Seu av deve estar preocupado  ele sussurrava em seu ouvido 
Acho melhor irmos pra casa antes que ele ligue para seu pai.
                              ~ 288 ~
   -  verdade. - concordou.
   E seguiram de volta.
   - Eu tenho que ir  antiga casa de minhas tias  falou enquanto
andavam.
   - Amanh  falou Ian com doura. Est tarde e j vimos coisas
demais.
    Chegando em casa, a preocupao de Ian acabou se mostrando
acertada, pois seu av quase mandara chamar a polcia atrs dos dois.
Ana viu a hora e j passavam das onze. No tinha idia que caminharam
por tanto tempo.
    Ana ento se desculpou, prometendo no sair mais aquele dia e o
jantar decorreu tranqilo. Slvio estava feliz demais com a visita da neta
depois de tantos anos para ficar irritado com to pouco. A av de Ana
tambm comeu na mesa e desta vez, Ana pediu que dispensassem Emlia
da tarefa de aliment-la. E ela mesma fez isso.
    Ian, mais uma vez, comeu por trs e Emlia estava muito contente
achando que sua comida fazia sucesso. Ana achou melhor no comentar
que Ian comeria at mesmo carne crua se colocassem na sua frente, pois
ela estava to feliz com aquilo. No valia a pena estragar tanto orgulho
de um trabalho que Ana sabia que Emlia fazia muito bem.
    Na hora de dormir, Slvio anunciou que o quarto de Ian seria ao lado
do seu. Ana sentiu o dedo de Oscar nessa medida, mas o garoto no se
incomodou. Despediram-se no corredor quando foram dormir e ele lhe
deu um beijo na testa depois de tirar sua franja rebelde de seu rosto. Que
bom que ele voltara a fazer essas coisas.
    Ana colocou a av para dormir e foi tomar um banho para se deitar. A
caminhada foi cansativa e ela logo adormeceu. Nesta noite, fadas
danaram em seu sonho.
                               ~ 289 ~
   36  No quartel.
    Andando pelo Largo da Carioca, podem-se ver inmeros edifcios
prdios cortando o cu, cada um parecendo competir com outro em quem
chega mais perto de tocar as nuvens. Mas dentre todos os prdios
encontrados, h um que chama a ateno em especial, no por sua
arquitetura, ou por sua fachada, pois nisto, ele  igual aos outros, mas
sim pelo que ocorre em seu interior.
    O homem de terno preto chegou at ele olhando rapidamente para a
fachada que anunciava o local como sendo pertencente a uma respeitvel
indstria de Software, mas que ele sabia bem o que era no interior.
    O homem de terno preto entrou no enorme edifcio sendo
cumprimentado por uma bela recepcionista.
    - Bom dia senhor Andr  disse em voz profissional.
    E um gesto de cabea foi o suficiente para servir de resposta e ele se
dirigiu at a parte dos elevadores, aonde entrou em um especial com a
placa dizendo: PRIVATIVO. Sozinho, ele olhou para o painel aonde se
mostravam os botes correspondentes a cada andar. Logo abaixo,
encontrava-se um orifcio reto na vertical com cerca de uns dois ou trs
centmetros. O homem vasculhou seus bolsos atrs de alguma coisa,
quando finalmente encontrou uma chave de prata onde o chaveiro
representava de uma pequena cruz. Introduzindo a chave no pequeno
orifcio, ele fez com que o elevador comeasse a descer muito alm da
garagem subterrnea.
    Assim que as portas se abriram, um cenrio espetacular apareceu para
ele. Agora, devendo estar a uns duzentos metros abaixo da terra, todo o
lugar era iluminado artificialmente por uma fileira de lmpadas
fluorescentes que se estendiam durante um longo corredor aonde um
senhor obeso - o mesmo que encontrou dentro do Astra naquela noite
chuvosa - ao v-lo, veio em sua direo. Este parecia ansioso, mas como
sempre, no conseguia tirar aquele sorriso do rosto.
    - Rauch, at que enfim  o homem se precipitou  O conselho
recebeu seu relatrio e gostariam que voc adiantasse o fim desse caso.
    - Eles acreditam que as informaes conseguidas com os padres j
so o suficiente?  perguntou Rauch em seu tom frio habitual.
    - Sim e agora chegou  ltima parte da misso: Eliminar os que esto
por dentro.
    - Entendo. - concordou  Pode dar o recado a cpula que os Membros
da Ordem dos Iluminados sero eliminados em no mximo setenta a duas
horas Vitor.
                               ~ 290 ~
    - Setenta e duas horas? - perguntou incrdulo. No acha que  tempo
demais.
    Mas um simples olhar j havia dado a Vitor toda a resposta que ele
precisava, mas mesmo assim, Rauch resolveu explicar:
    - Pretendo interrogar o velho s mais uma vez. Depois os libero. -
disse simplesmente. E continuou seguindo o corredor. Rauch foi
acompanhado por Vitor at uma pequena sala com trs computadores,
onde apenas um jovem ficava responsvel pelos trs.
    O garoto era a imagem tpica de um Nerd: Magro, culos, roupas
sociais e no desgrudava o rosto das telas.
    - Bom dia Rauch  cumprimentou o garoto sem tirar os olhos da tela.
    - Bom dia Cris  respondeu  J fez o que lhe pedi?
    - S mais um minuto.
    Ele esperou. Dava para ver que Vitor estava muito curioso pelo
assunto, mas lutava para no perguntar. Rauch, tambm no ajudou. No
gostava dele, era irritante demais.
    - Bem Rauch.  comeou meio hesitante  Ento todos os membros
da Ordem esto sobre controle?
    - Sim - respondeu simplesmente.
    - E...  ele tentou de novo  Agora falta apenas um ltimo
interrogatrio para podermos elimin-los?
    - Sim.
    - Ento est tudo terminado?
    Rauch deu um suspiro se rendendo  insistncia do companheiro.
    - Na verdade, eu descobri que um aprendiz tambm foi informado por
Csar de nosso acordo  disse - Por isso estou atrs dele antes de por um
fim a tudo. No quero que ele espalhe que ns e os Iluminados tnhamos
um acordo antes de termos todos os membros da Ordem.
    - Excelente  felicitou Vitor muito animado  Essa escria j devia
ter sido eliminada h muito tempo. Em pensar que queriam voltar a se
aliar a ns. - completou como se isso fosse um absurdo.
    - Enquanto eu for importante aqui nos Inquisidores, isso nunca
acontecer.  garantiu Rauch.
    - Eu tambm  concordou o outro  Mas me diga Rauch. E toda
aquela histria de demnio reencarnado?
    - No me diga que acreditou?
    - Bem... no! S que...  Vitor j se mostrava constrangido pelo
comentrio.
    - Voc sabe bem que essa coisa de demnio no existe  garantiu o
primeiro.
                              ~ 291 ~
    - Mas ento o que estivemos caando durante tanto tempo na histria?
    E Rauch deu mais um suspiro de impacincia. Ele tentava se lembrar
que Vitor ainda era novo naquela histria toda. Ao contrrio da maioria
dos Inquisidores, ele no fora recrutado e treinado desde a infncia,
nascendo e crescendo como um mero adormecido: trabalhador honesto,
chefe de famlia honrado e cidado modelo. Mas tinha um pequeno
defeito: era bom demais no que fazia.
    Ele trabalhava como detetive para casos especficos no Rio de
Janeiro, que com o tempo foi ganhando destaque. Seus casos, cada vez
mais bombsticos, mostravam o talento do homem e seu faro natural para
encontrar as causas dos principais eventos do planeta. Tal habilidade no
passou despercebida pelos olhos dos Inquisidores. E logo seu trabalho
comeou a se mostrar um risco para sociedade.
    Grande parte das pessoas que contratavam os servios de Vitor eram
mulheres atrs de pulos do marido, ou parentes de pessoas desaparecidas.
De vez em quando, era recrutado para solucionar um crime sem
explicao. Ento, o faro natural do homem comeou a infiltr-lo no
mundo que se estende alm do Vu e os Inquisidores acabavam tendo
que lutar muito para manter o sujeito afastado desses assuntos, mas ele
era bom demais e comeava a descobrir coisas demais.
    Quem diria que por trs desse rosto bobo e redondo se escondia um
crebro. Pensou. No fim, os Inquisidores tinham duas escolhas: Matar
Vitor ou inclu-lo na folha de pagamento. A cpula optou pela segunda,
levando-se em conta as habilidades dedutivas do homem. O problema 
que como no fora treinado devidamente, Vitor ainda desconhecia muita
coisa sobre os praticantes de magia. Logo, era comum perguntas daquele
tipo sarem de sua boca.
    Apesar de no gostar de bancar o professor, Vitor era um Inquisidor,
um companheiro, e ele tinha a obrigao de esclarec-lo.
    - Vitor  comeou no tom mais paciente que conseguiu  Eu sei que
voc deve ter aprendido que um dos motivos ligados a inquisio, era a
caa a bruxos, pois esses tm pacto com o demnio, mas isso  um mito.
Esse tipo de coisa no existe, s usamos tal desculpa, pois a Igreja era
uma das principais associadas ao nosso grupo e eles precisavam de um
libi para justificar suas aes. Ns s fingamos que acreditvamos
quando na verdade sabamos que os verdadeiros demnios eram todos os
praticantes de magia em geral.
    - Mas ento esses padres, eles...
    - Acredito que no. Eles no devem ter mentido. - explicou sem
deixar Vitor expressar suas dvidas - Na verdade, existem sim lunticos
                              ~ 292 ~
que acreditam nessa baboseira. E a Ordem dos Iluminados  uma. Esses
caras vem demnios em todo o canto e talvez at acreditem que estejam
fazendo algum bem afinal. O erro deles foi pensar que pensaramos a
mesma coisa.
    - Nossa! - exclamou  No sabia disso, mas... - ele olhava para Rauch
como que pedindo permisso para continuar a perguntar. No recebeu,
mas isso no o impediu - no acha que tem alguma coisa a? No sei.
Acho que eles no arriscariam entrar em contato conosco se no fosse
algo grande.
    Rauch balanou a cabea com um sorriso descrente e Vitor ficou
apreensivo. O comandante quase nunca sorria, mas quando o fazia,
parecia ter pouca prtica, pois seu sorriso sempre saa com um ar
sombrio que amedrontavam todos  sua volta.
    - Meu amigo  disse no que deveria ser um tom amvel  existem
duas possibilidades: um,  que eles esto blefando. Os Iluminados h
muito tempo no conseguem aliados nesse mundo e percebem que o
cerco esta se fechando entre eles. Eles no tm o apoio dos magos que
antes eles ajudaram a caar e tambm no tem o nosso. Logo, eles
querem apenas cair nas graas de algum de novo.
    "A segunda, possibilidade  que realmente exista alguma coisa
surgindo, mas que com certeza no  um demnio. Eu j lhe disse como
esses clrigos so supersticiosos. Vem demnios em tudo. No comeo,
fingamos acreditar s para termos sua ajuda, mas nos dias de hoje? No.
Com certeza se trata de um desses mgicos imundos, que ns vamos
cuidar depois. Primeiro, temos que aproveitar essa oportunidade que nos
foi dada e eliminarmos de uma vez essa Ordem que tanto nos chateia.
Depois, conferimos se suas crenas so reais".
    Vitor no tinha mais o que discutir. No gostava de importunar
Rauch. Na sua presena, tentava manter o ar mais calmo possvel, mas a
verdade  que aquele homem lhe causava arrepios.
    - Ento.  Vitor tentou mudar o foco  Qual ser o prximo passo?
    - Como voc mesmo disse: eliminar os envolvidos. - disse parecendo
mais relaxado - Csar e Henrique j esto sob controle, ento podem
esperar. Mas existe o fedelho.
    - Ento temos que peg-lo primeiro.
    - Exatamente. Ele provavelmente no sabe ainda de nada do que est
acontecendo em sua Igreja e assim deve ser. Ns conseguimos o
endereo de vrias sedes da Ordem dos iluminados, graas e Henrique e
Csar, e seria terrvel que o tal ngelo os alertasse e impedisse nosso
                              ~ 293 ~
ataque surpresa. Por isso, antes de agirmos contra os outros dois, temos
que peg-lo.
    Vitor ficou em silncio parecendo satisfeito no momento. Graas a
Deus, pensou o comandante Rauch. No gostava daquele interrogatrio
todo. Era muito chato ter que explicar o bsico, mas era bom manter
Vitor informado de tudo. Pois quanto mais ciente dos magos ele
estivesse, mais til seria para a sociedade.
    Rauch sabia que a cpula estava planejando colocar Vitor em uma
investigao especial contra as atividades dos magos logo. Ele tinha um
interesse especifico sobre uma onda de desaparecimentos que estavam
acontecendo no Rio de Janeiro. No momento, a mdia local dizia que os
seqestros, seguidos de morte em alguns casos, eram obra de traficantes
internacionais, mas ele sentia que tinha algo a mais naquilo.
    Eram os magos com certeza. Cada neurnio de Rauch o alertava
quanto a isso. Se Vitor tivesse metade da capacidade de resolver enigmas
de magos quanto tinha para humanos, ele seria uma pea fundamental.
    - Cris  Rauch falou com o jovem no comando dos computadores.
Vitor at tinha esquecido que aquela terceira pessoa estava ali.
    Cris nem mesmo olhou para eles enquanto abria uma janela no
computador. A imagem de um jovem magro e de cabelos grandes e
oleosos apareceu na tela.
    - Quem  o feioso?  perguntou Vitor.
    - Parece que o principal pupilo de Csar. O pirralho que falta
pegarmos. Pelo que me consta, o bispo passou informaes para ele.
    - Entendo. E onde ele est?
    Desta vez, quem respondeu foi Cris. Em muitos meses de servio era
a primeira vez que Vitor ouvia o hacker falar.
    - Eu o rastreei como pediu Rauch. Parece que ele usou o carto da
Ordem dos Iluminados para compra uma passagem de nibus.
    - Para onde?
    - Belo Horizonte, e depois para Trs Coraes.
    - Ento vamos para l  ordenou Rauch  mande uma equipe de cinco
para Trs Coraes e deixe ordens para que no se preocupem em traz-
lo vivo. Duvido que ele tenha algo a nos oferecer.
    - Sim senhor  Cris respondeu enquanto pegava o aparelho de
telefone na sua mesa e discava. Rauch saiu da sala e Vitor o seguiu.
    - Porque voc acha que ele foi para l, Rauch?
    - No sei. Provavelmente caando seu demnio.
    - Ento no seria melhor mandar uma equipe maior?
    Rauch virou e encarou Vitor, que ficou mudo.
                              ~ 294 ~
    - Como eu j disse, no acredito que se trate de um perigo real, ento,
no h necessidade de preocupao. Deixe que eu sei fazer o meu
trabalho.
    E saiu de novo deixando o companheiro fixado na mesma posio.
    No gosto dele, pensou Vitor, antes de se virar e ir embora pela outra
direo.
                               ~ 295 ~
   37  Primeiras aulas.
   ngelo desceu em Trs Coraes s seis da manh de tera feira.
Dormiu no nibus no caminho e j se sentia revigorado. Na verdade, a
adrenalina da caada o deixava aceso. Ele sentiu o cordo se aquecer em
seu peito assim que chegou. Por sorte, tinha aproveitado algumas horas
da noite, em que a maioria dos passageiros estava dormindo, para tentar
melhorar alguns defeitos da bssola.
   Agora, ela parecia trabalhar melhor e j estava reagindo mesmo longe
da presena do demnio. O municpio era pequeno ento no demoraria a
encontrar o Ian. Que Deus esteja comigo. E foi numa igreja prxima e
parou para orar antes de seguir em frente. Quando saiu, foi para uma
parte pouco movimentada e segurou a cruz, apoiando-a deitada na palma
da mo por um tempo, at que ela comeou a girar. A parte negra
apontava para o norte.
   E foi pra l que ele seguiu.
    *
    A alguns poucos quilmetros dali, Ana despertou. Ao se sentar na
cama, sentiu o corpo dolorido e decidiu esperar at que seus olhos se
acostumassem com a claridade que entrava pelas frestas da janela para se
levantar. Acho que estou meio fora de forma. Pensou se lembrando da
caminhada da noite anterior.
    Enfim, ela conseguiu se levantar e descer para o caf. Chegando 
mesa da sala, v que tanto seu av quanto Ian j esto acordados.
    - Vem minha filha  chamou Slvio  Estvamos esperando voc.
    Ana olhou bem para as migalhas de po espalhadas pela mesa antes
de responder:
    - Estou vendo. - e sorriu - Obrigada.
    - Desculpe, no resistimos  falou Ian com uma falsa expresso de
culpa. Ele parecia estar timo e Ana se perguntou o quanto ele ficou
cansado do exerccio de ontem. Talvez nada, concluiu.
    - Espero que vocs no tenham planos de sumir hoje, ouviu Ana? 
falou Slvio quando a garota se sentou e Ana ia pedir perdo quando Ian
se intrometeu.
    - Desculpe tio Slvio. A culpa  minha. Estava to doido para que Ana
me mostrasse tudo que a fiz perder a hora. Slvio encarou o garoto, mas
seu olhar no era severo, depois, deu de ombros e continuou passando
manteiga no po.
    Slvio foi o primeiro a sair e Ian ficou esperando Ana acabar o caf.
                              ~ 296 ~
    - Obrigada - disse
    - No por isso.
    Ana voltou sua ateno para sua comida e Ian continuou a falar.
    - Espero que voc coma bem, afinal, hoje voc vai precisar de
energias para as aulas que vou te dar.
    - Aulas? - ela tentou esconder a excitao
    - Sim. Eu fiz voc atravessar o Vu e ento  importante que eu te
guie nesse novo mundo enquanto puder. No quero te deixar como cega
no meio do tiroteio.
    Ana tentou conter a emoo.
    - Essas aulas, sero como exatamente?
    - A continuao do que eu te falei. Controle de energia. Voc tem
treinado? - pela a acusao de seu olhar, Ana sentiu que ele j sabia a
resposta.
    Ana baixou a cabea encarando o prprio caf e o garoto deu uma
risada.
    - Estou de brincadeira. - falou - Sei que no teve tempo alm da
viajem. Quero lhe dar umas demonstraes para voc ver bem do que
estou falando. Ento, quando acabar de comer, vamos voltar para a
floresta.
    Ana no respondeu e tratou de comer mais rpido. Estava muito
animada com essa tarde. Ao subir, escovou os dentes e deu um jeito no
rosto e no cabelo. Por incrvel que pudesse parecer, todo o cansao havia
sumido de seu corpo com a expectativa de ter aulas de magia.
    Ao se arrumar, parou de frente para a mala tirando toda a roupa e
decidindo o que iria vestir para a ocasio. Como se veste para ter aulas
de Magia? Ana pensou nas habituais vestes compridas que sempre via
nos filmes e ilustraes, mas no tinha nenhuma. E tambm seria
complicado usar aquele tipo de roupa para treinar numa floresta.
    E Optou por um vestido amarelo que tinha. Era curto e confortvel.
Permitiria a ela se movimentar com facilidade pelo caminho acidentado.
Pensou bem no comprimento da roupa e achou melhor por coisas a mais
para que seu av no tivesse um infarto. Ento, mexeu a bolsa atrs de
um top e um short para por baixo do vestido.
    - Pronto - disse quanto acabou e se olhou no espelho. Pelo menos
assim no mostraria coisas demais caso houvesse algum acidente.
    Era engraado, mas naquele momento ela comeava a fazer as pazes
com o espelho, gostando muito do que via refletido. No sabia o que era,
mas ela parecia estar com um brilho diferente. Na verdade, tinha muitos
motivos para estar mais feliz. Tudo ocorria bem. Ela recuperava seu
                              ~ 297 ~
vnculo com o passado, suas crenas e sua famlia renegada. Estava
aprendendo coisas novas que lhe enchiam os olhos e acima de tudo,
sentia que Ian estava desistindo de partir.
    Ele quer ser meu mestre. Pensou animada. Seria eu uma daquelas
alunas apaixonadas pelo professor? Continuou com seus devaneios. De
fato era.
    E desceu para encontrar Ian. Antes de avisarem a Slvio da sada, Ana
passou na av para poder cumpriment-la e dar-lhe um beijo. No queria
ficar um dia a mais sem fazer isso. E assim, saram de casa prometendo
estarem de volta para o almoo. Entraram na floresta mais uma vez e
Ana deixou Ian guiando o caminho.
    - Aonde vamos?
    - Para um lugar discreto. - disse simplesmente.
    Saram da trilha que estavam seguindo e Ana comeou a ouvir o som
de um rio prximo. Ao chegarem, os dois podiam ver a gua cristalina
que cortava ao meio a floresta. A correnteza era muito fraca ali e Ana
teve uma sensao de Dj-v
    - Aqui est bom. Acho que ningum deve vir aqui.  falou Ian
olhando em volta.
    - Eu j estive nesse lugar. - lembrou-se Ana - Vinha aqui com minhas
tias. Era um timo lugar para nadar. A gua  muito boa.
    - Ento acha que aqui  um lugar bom para ficarmos? - perguntou Ian.
    - Sim, . Acho que as nicas que conheciam essa parte eram minhas
tias - Ana falou maravilhada com o sopro de lembranas que aquele lugar
lhe inspirava.
    Ela sabia que logo atrs haveria uma clareira onde, uma vez, fez uma
fogueira quando tinha mais ou menos nove anos. Ela, Samanta e Teresa,
ficaram ali contando historias de bruxas e comendo besteiras enquanto
olhavam as estrelas. Ana se lembra ainda que aquela fora a primeira vez
que ouviu a histria dos Garow. Seu fascnio por esse cl a atingiu de
imediato.
    E imaginar que estou de frente para um agora.
    - Ana?  Ian estava na sua frente sacudindo a mos para lhe chamar
ateno - Volte para a terra.
    Ana deu um pulo com o susto. No imaginava que havia viajado
tanto, pois, em um segundo, Ian estava longe e agora, aparecera em seu
lado. Como um piscar de olhos pde durar tanto tempo?
    - Com o que estava sonhando?
    - Nada  ela disse rapidamente  s... lembrando.
    - Ah. Bem, vamos comear?
                              ~ 298 ~
    - Claro  Ana agora estava totalmente na terra.
    Ian ficou andando pela borda do rio enquanto pensava em como
comear at que uma idia lhe veio  cabea e ele e se virou para Ana.
    - Voc me disse, ontem no carro, que sentimentos eram a chave para
se controlar seu fluxo de energia. - comeou em seu tom metdico.
    - Sim  concordou Ana se lembrando vagamente. Na verdade ela
estava muito sonolenta naquele dia.
    - Bem, voc encontrou de fato a chave para desencadear o fluxo de
energia de seu corpo. Os sentimentos so como vlvulas de escape que
voc regula para aumentar ou diminuir o fluxo de energia.
    Ana concordou com a cabea e Ian continuou.
    - Ento, sentimentos fortes como amor, dio, desespero, tendem a
aumentar esse fluxo, pois aumentam os batimentos sangneos e assim
liberam mais sangue carregado de energia para o organismo. - ele fez
uma pausa - E a calma, a tranqilidade, a apatia, entre outros, tendem a
diminu-lo. Isso voc j concluiu, Agora o segundo passo  aprender a
canalizar essa fora.
    Ele agora caminhava para um local onde havia uma pedra, do
tamanho de uma bola de basquete, repousada na grama. Ian apoiou o p
em cima dela, falando:
    - Como todo o ser humano da minha idade e do meu porte eu teria
dificuldades em erguer essa pedra e muito mais dificuldades se quisesse
quebr-la. Isso  uma limitao natural que eu teria que vencer, caso
quisesse quebr-la com um chute, por exemplo. Para que isso ocorra, eu
teria que seguir dois passos: um, seria canalizar o mximo de energia
para o meu p e, dois, controlar meus sentimentos para liberar o mximo
de energia possvel.
    E sem mais explicaes, Ian ergueu o p ameaando chutar a pedra
com toda a fora. No susto, Ana no teve nem mesmo a reao de gritar
e tudo o que foi capaz de fazer foi virar o rosto para no ver a cena. E foi
ento que ela escutou um som muito semelhante ao de uma exploso
ecoar pela floresta. E quando se atreveu a olhar de novo, viu uma
quantidade de poeira voando e, percebendo rpido, conseguiu enxergar
estilhaos do que antes foi uma pedra atingirem a outra borda do rio e,
alguns deles, golpearem com fora as rvores prximas, ricocheteando
entre elas.
    Ian deu um sorriso amarelo coando a cabea ao ver o estrago que
tinha feito.
    - Melhor eu maneirar se no as fadas vo comer meu couro  e se
voltou para Ana  Bem, isso  uma demonstrao do que se pode fazer.
                                ~ 299 ~
Como eu tive uma educao para ser um guerreiro, isso  fcil pra mim.
Na verdade, esse  um exerccio padro que todo o mago iniciado sabe
fazer, mas nem todos o usam ou tem muita prtica com ele. - e se
aproximou de Ana a olhando nos olhos - E agora vou usar uma deixa sua
para dar uma demonstrao do que no se deve fazer.
    - Eu?
    - Sim. Hesitar.  ele esperou que ela entendesse do que ele estava
falando.  Quando eu escolhi quebrar aquela pedra, alm de concentrar
toda a minha energia no meu p, tambm tive que liberar certa raiva
contra aquele ser inanimado para que um fluxo de quintessncia
considervel chegasse ao meu membro. - fez uma pausa esperando que
ela assimilasse - Se eu hesitasse, por um nico minuto que fosse. Se eu
tivesse medo de me ferir ou pena da pedra. Esses sentimentos fariam
meu fluxo de energia cair. Poderia at chegar a um nvel insuficiente para
quebr-la. E voc imagina o que aconteceria?
    Ana ficou em silncio sem querer responder.
    - Voc provavelmente teria que me carregar de volta com uma trilha
de sangue seguindo atrs de voc - respondeu como se isso fosse uma
coisa do dia a dia.  Ento, quando for chutar uma pedra, no hesite.
    - Vou me lembrar disso  respondeu, embora no acreditasse precisar
disso em seu futuro.
    Ian riu e depois a olhou srio
    - Mas  srio. Quando voc vai lanar qualquer magia, hesitar  a
linha que separa o sucesso do fracasso total, pois a hesitao altera o
fluxo de energia em seu corpo. Entendido?
    - Entendido.  Ana confirmou, olhando maravilhada a pedra destruda
 sua frente. O p do garoto estava totalmente ileso, apresentando apenas
alguma sujeira provocada pela poeira.
    - Voc ainda acha incrvel demais para acreditar? - perguntou fitando
seus olhos.
    -  fantstico sim, mas d pra acreditar  respondeu eufrica.
    - Que bom!  ele sorriu  Outros em seu lugar tentariam dar alguma
explicao.
    - Acho que seria difcil no acreditar depois de ver isso - comentou.
    - Nem tanto Ana  respondeu  No subestime o ceticismo das
pessoas. Ou se esqueceu do quanto voc demorou a acreditar mesmo
depois de me ver em ao?
    A garota baixou a cabea um tanto encabulada.
    - No fique assim.  natural no mundo de hoje. Acreditar em mito na
sociedade moderna  fazer papel de louco.  e concluiu - por isso as
                               ~ 300 ~
pessoas hoje em dia podem ver milagres a sua frente o tempo todo e
continuarem cticos. Muitos so capazes at mesmo de fazer magia sem
crer nela.
    - Fazer magia?
    - Sim.  explicou - Essa demonstrao que acabo de lhe dar, por
exemplo. Quantas vezes voc no soube de casos em que as pessoas so
capazes de feitos at mesmo sobre-humanos quando a necessidade
aperta. Pense numa me vendo seu filho num carro em chamas. Ela quer
salvar a pessoa que ama. Nessas circunstncias, ela at mesmo poderia
criar uma fora monstruosa e arrancar  fora a porta do carro. Isso se
chama Mgica Espontnea.
    - Mgica espontnea  repetiu como que tentando gravar o nome.
    - Sim.  respondeu   a mgica que  feita quando a necessidade
aperta, de forma inconsciente. Essa me, por exemplo, mesmo no
sabendo usar magia,  capaz de fazer o sangue circular rapidamente
atravs de seu corpo de forma o suficiente para lhe dar foras, nem que
por um segundo, de salvar o filho.
    Ele fitou o horizonte e depois continuou.
    - Outro exemplo de Mgica Espontnea  a que me fez nascer como
Ian. Quando me taquei do alto daquele penhasco, meu desespero era
tamanho que eu acabei ativando a magia de ressurreio sem querer.
    Ele ficou em silncio por um tempo.
    - Bem - continuou olhando em volta tentando mudar o assunto  Essa
foi uma demonstrao do uso de Quintessncia para aumentar a fora do
usurio  e ficou em silncio enquanto pensava em algo - mas... existem
outras finalidades para essa energia. - Agora ele parecia ter reassumido o
fio da aula  Para todas elas,  necessria uma canalizao adequada de
quintessncia do usurio e tambm um fluxo regular e exato de energia.
    - Entendo. E o que mais pode se fazer, exatamente?
    - Muitas coisas. Quando se sabe controlar o fluxo de energia, voc
basicamente possui um controle extensivo de seu prprio corpo  ele se
agachou  Voc pode fazer uma infinidade de coisas que parecem
impossveis, como levar fora aos msculos das pernas para um bom
salto  e sumiu um borro
     Foi como se Ian tivesse sido abduzido de repente. Num segundo, ele
estava l, e no outro, no. Ana olhou nervosamente em volta  procura do
garoto at que escutou sua voz vinda de cima.
    - Ou relaxar para que seu fluxo de energia seja menor, reduzindo seu
peso.
                               ~ 301 ~
    Quando Ana olhou para a direo, viu que Ian estava e cima de um
galho de rvore. Aquele pedao onde ele estava era muito fino e
provavelmente quebraria sob o peso de um pequeno animal. Mas ao
contrrio de partir, o galho apenas oscilava um pouco, como se em cima
tivesse no um homem, mas um passarinho.
    - Assim como voc pode colocar energia no corpo para aumentar o
peso e a fora, voc tambm pode tirar para reduzi-los.
    - Isso deve ser maravilhoso para magas com problema de peso 
brincou Ana, mas viu que a piada no agradou.
    - Bem...  ele revirou os olhos tentando voltar ao assunto  tambm
podemos usar a quintessncia para ganhar velocidade  e sumiu num
outro borro.
    - E usar nossa reduo de peso para sermos silenciosos  um sussurro
fazia-se ouvir no ouvido de Ana.
    Ela levou um susto e quando se virou, Ian estava a meio centmetro
de seu corpo. Nem o ouviu chegar.
    - Outra coisa muito til  levar energia para os sentidos para que se
possa perceber a chegada e os movimentos do inimigo. - lembrou.
    O garoto tinha os olhos azuis naquele momento e eles fitavam seu
rosto com ar divertido. Ela correu os olhos rapidamente e podia ver as
garras em suas mos e uma presa, que pulava para fora de sua boca
mesmo fechada.
    - Nossa!  exclamou Ana.
    - Legal n?  disse ele muito contente  Como eu disse, essas so
habilidades muito usadas por guerreiros como eu, mas qualquer
praticante de magia sabe us-las embora alguns cultos no sejam muito
especialistas nelas. Na verdade, muitos magos no sabem brigar. -
completou  mas essa prtica se tornou muito mais comum devido aos
riscos que corremos.
    - Fala dos Inquisidores? - perguntou Ana.
    - Eles tambm - respondeu  Mas principalmente pelos demnios.
Quando eles assumem um corpo, suas condies fsicas so muito
maiores que a de um humano comum. Logo, aprender a controlar a
energia do corpo acabou por ser tornar um princpio para qualquer mago.
    - Entendo.
    Agora o olho azul de Ian se dirigia ao rio e um sorriso presunoso
surgiu em seus lbios.
    - O que foi?
    Ian no respondeu e comeou a se direcionar em direo  gua,
parando na borda antes de olhar para Ana.
                              ~ 302 ~
    - Magia tambm nos permite fazer milagres.  e saltou de p na gua
do rio.
    Nesse momento, Ana no precisou desviar o olhar. Aquela parte do
rio no era funda e a correnteza no era forte, ento no oferecia perigo.
S ficou um tanto espantada com tal atitude, espanto esse que no foi
nem metade do que experimentou ao ver o que se seguiu. Mas mesmo
acompanhando cada detalhe, Ana no conseguiu explicar o que houve.
Quando imaginou que Ian sumiria dentro da gua, eis que ele fica de p
como se na verdade estivesse ainda com os ps no solo. Quando Ana
olhou para seus ps, seu queixo caiu. Ian estava de p em cima da gua,
sorrindo para ela. Ele poderia estar como se em cima do solo se no fosse
por um leve balanar que era ocasionado pela fraca correnteza.
    - Se fosse um lago ou um rio mais calmo, seria como se estivesse no
cho. - disse enquanto tentava no perder o equilbrio devido  oscilao
da gua - Esse truque era muito til para o pessoal do meu cl, pois
haviam pocas em que os lagos no estavam congelados, mas isso no
quer dizer que a gua no estivesse fria. Ento, usvamos isso para
atravessar as lagoas e rios para encurtar nossa viajem. - ele pareceu
finalmente encontrar o ponto de equilbrio.
    - Isso  um milagre realmente  ela estava maravilhada.
    - Bem, um pouco.  disse modesto  Essa no  uma tcnica fcil de
usar.  necessrio muito controle do fluxo de energia para se deixar o
corpo com uma densidade menor que a da gua. Qualquer distrao, eu
afundo.  difcil usar isso em situaes de tenso, mas no  impossvel.
    - Jesus Cristo seria um mago, ento?
    - Possvel, quem sabe?  ele deu de ombros. Ana sabia que as
convices religiosas de Ian no eram fortes.
    A garota ficou mais um tempo visualizando o espetculo que era tudo
aquilo. Ian parecia querer brincar com ela e dava mortais para trs caindo
com os ps em cima da gua e sorrindo pra ela. Deveria ser maravilhosa
a sensao.
    Seus olhos correram da pedra espatifada at o galho e depois para o
rio e ficou ali, olhando.
    - Uma moeda por seus pensamentos  ofereceu Ian, parando de pular.
    - No  nada,  s que...  tudo to lindo.
    - Magia  bonita Ana. Seria muito melhor se todos a usassem ao invs
de destruir o planeta, mas no podemos mandar nos outros.
    -  que...  Ana pensava em como falar  Desde que minhas tias
faleceram que eu tenho olhado a magia com uma viso negativa.
Primeiro, no acreditando nela e depois, vinculando-a ao mal. Entende?
                               ~ 303 ~
    - Entendo bem  falou Ian, solicito  Eu admito que a magia tenha
seu lado negro, mas isso no  culpa dela. Ela  uma ferramenta, e sua
utilidade depende do uso dado por quem manuseia.  ele ia se afastando
at a outra borda enquanto falava e Ana tentou perguntar o que ele estava
fazendo  Assim como a energia nuclear que foi descoberta por Einstein
a fim de ajudar a humanidade, foi pega por algum idiota para se criar a
famosa bomba A, a magia tambm pode se tornar perigosa nas mos de
pessoas mal intencionadas.  agora ele se virou para Ana sem sair do rio
 Ento, mesmo uma magia que foi usada anos atrs para fazer uma
criana chorar...  agora ele levou a mo at a boca e sussurrou algo ali
que Ana ao conseguiu identificar o que era.
    Ana ia perguntar o que ele estava fazendo quando sentiu uma brisa
passar por seu rosto. O vento comeou a passar por suas orelhas
produzindo um som que a deixou assustada com as lembranas que
causava. Mas logo serenou, pois a voz que ali se produzia estava longe
de ser aquela medonha e fria do dia da morte de suas tias.
    Esta era doce e dizia-lhe uma frase linda demais.
   Eu te amo.
   Ana sorriu reconhecendo a voz de Ian no vento.
   -... pode fazer, anos depois, uma mulher sorrir. - completou a frase.
   Ana agora no podia deixar de sorrir. Era como se tivesse
desaprendido a no expor os dentes, tamanha era a sua alegria.
   - Essa magia se chama Mensageiro. - explicou - Muitos grupos
primitivos de magos conhecem-na  falou se aproximando de novo de
Ana.  Ela usa a capacidade do ar em conduzir as ondas sonoras e faz
com que uma determinada informao seja anexada ao vento,
ocultamente. Assim ela pode ser transportada at o receptor.  uma
forma segura de mandar mensagem.
   Ele sorriu. Ana se aproximou da borda do rio. Ian se mantinha ainda
dentro da gua.
   - Ento, essa  a forma mais segura de se mandar mensagens?  Na
verdade, ela tinha um assunto mais importante para falar. A frase dita
pelo vento ainda ecoava em sua cabea.
   - Uma das mais eficientes talvez, mas no a mais segura  corrigiu
Ian  Qualquer mago com percepo boa pode interceptar o contedo do
mensageiro se estiver no caminho do vento.
                              ~ 304 ~
    - Ento, qual  a forma mais segura? - O que isso importa? Pensou.
S queria ficar mais perto dele, mas a fronteira do rio a impedia.
    - Me permite demonstrar?  o Garoto tinha um ar de mistrio. Seus
olhos azuis a fitavam intensamente.
    - Claro  disse Ana olhando-o e sentindo todo aquele desejo que
sentira na noite do primeiro beijo.
    -  uma arte bem rebuscada...  falou hesitante conforme foi se
aproximando mais e inclinando o rosto em sua direo  A Irmandade da
Rosa o usa constantemente...  respirou fundo e seus olhos
demonstravam o conflito em sua mente  Normalmente eu no me
permito usar, mas...  Ana no sabia o que fazer, contemplando seu
rosto que se aproximava a cada palavra dita.  Eu...
    E foi quando ele se ps na ponta dos ps e, sem sair da gua, beijou-a.
    Ana ficou imvel, presa nos primeiros momentos da surpresa. Ento,
instintivamente, fechou os olhos para sentir melhor o contato dos lbios.
Foi um toque tmido e suave, mas que conseguiu fazer com que suas
pernas bambeassem. Ana avanou um pouco, forando sua lngua a
entrar na boca dele, mas no foi capaz. Isso por que, algo inesperado a
impediu.
    Num segundo uma seqncia de imagens invadiram sua cabea. Elas
eram rpidas demais para que Ana conseguisse identificar o que se
tratavam, deixando-a confusa. Com clareza, ela s conseguiu entender
uns poucos momentos.
   *
   Numa cena, ela estava dentro do quarto de Ian. Ana se encontrava
apoiada na janela vendo seu quarto  sua frente. Ali, dentro do quarto,
conseguiu ver ela mesma, s que mais jovem, penteando os cabelos em
frente a um espelho. O que esta acontecendo? Perguntava-se.
   Mas a cena acabou.
   E foi para outro momento. Neste, ela estava sentada numa cadeira em
uma festa estilo brega. Ela reconheceu o lugar como o aniversrio de
Fernanda, onde comeou a namorar Lucas. Ana, agora, observava
sentada, ela mesma, abraada com o recm namorado dando-lhe um
beijo apaixonado.
   Ela no pde explicar como, mas sentiu uma dor aguda em seu peito
ao ver aquela cena.
                               ~ 305 ~
    A terceira que ela conseguiu pegar foi a mais consistente. Nela, Ana
estava agarrada a ela mesma, abraando-a, protegendo-a. Eles estavam
no meio de uma estrada de terra com matos altos em volta, que ela
reconheceu como a estrada do sitio, no dia em que ela e Ian saram para
comprar coisas de ltima hora para Mnica.
    Ana agarrava a ela mesma num desespero terrvel. No podia permitir
que Ana  ou ela mesma, j no sabia  se machucasse. Ela vasculhava o
lugar a procura do ser que estava conjurando aquela espcie de vulto
negro que os rodeava, sentindo uma vontade louca de rosnar para a
criatura. Uma raiva comeava a surgir dentro de seu peito, mas ela tinha
urgncia em mant-la sobre controle. No podia arriscar nada com Ana
ali, to prxima.
    Quando a sombra chegou bem perto de Ana  a que ela estava
abraada  Ana  a real - a agarrou e, levando energias para as pernas,
saltou para trs. Um salto muito maior que a mdia humana, mas a garota
encolhida em seus braos parecia nem perceber.
    Ana tinha raiva. No queria que ela mesma, que estava em seus
braos naquele momento, fosse ferida. O rosnar comeava a crescer
dentro de seu peito e ela mostrava os dentes feito um co raivoso para
tentar intimidar a criatura escondida nas sombras. Tinha que ach-la. E
seus olhos vasculhavam cada centmetro da mata.
    E foi quando finalmente sentiu uma energia vinda de uns cem metros
de onde estava. Era ali. Ento largou uma Ana no cho pedindo para que
ficasse ali em segurana enquanto se lanava no escuro querendo acabar
com o demnio que havia conjurado aquele ser espectral.
    *
    Ana se afastou de Ian sentindo uma leve dor de cabea. Nada muito
forte, mas incmodo mesmo assim. Voltando a realidade, ela tentava
assimilar os flashes que vinham em sua mente.
    Eu fui Ian, ela concluiu. Estava em sua mente por alguns segundos.
    - O Beijo - disse Ian se afastando. Dava para ver que ele se
arrependera de ter se permitido ir to longe   a forma mais segura de se
mandar uma mensagem. Alm de voc conseguir mandar muito mais
informao, incluindo imagens e sons, um mago pode transmitir
fragmentos de sua memria atravs do beijo. Lanando sensaes e
sentimentos para que o receptor saiba exatamente sobre alguma coisa. - e
concluiu -  uma maneira impossvel de ser interceptada. Por mais
habilidoso que o algum seja.
                               ~ 306 ~
    Ana ficou olhando Ian com a mo nos lbios e o garoto deu um
sorriso fraco ao continuar.
    - Como  puramente um ato mgico, sem a necessidade de um
contato ou envolvimento mais ntimo, eu posso us-lo.  e depois ficou
cabisbaixo de novo  Embora eu no seja totalmente imune.
    Ana lembrou-se do dia em que viu Ian e Solange se beijando e
imaginou...
    - A Irmandade da Rosa tem esse meio de comunicao como seu
favorito  Informou como se pudesse ler seus pensamentos e uma alegria
incontrolvel surgiu no rosto da garota.
    - O que foi?  perguntou Ian, erguendo as sobrancelhas.
    - Nada  disse exaltada  Nada mesmo. Est tudo timo.
    Ana sentiu um calor enorme abrasar-lhe o corpo. Mesmo tendo se
esquecido do ocorrido, por um tempo, aquele acontecimento ainda a
incomodava muito, mas agora, explicado, fez a garota rir sem controle.
    Foi s um ritual mgico! Mas o que ser que ela passou pra ele... Ah,
pouco importa. Foi s um ritual mgico. Ian olhou intrigado para ela,
que, num acesso de riso, abanava o corpo tentando fazer o calor abrandar
em sua pele. E foi quando olhou para a gua que o garoto estava pisando.
Devia estar tima.
    - Que calor - comentou e Ian ficou em silncio.
    Lembrando-se que tinha um top e um short por baixo do vestido, ela
meteu a mo na barra da saia e o puxou com toda a fora para cima,
despindo-se num s movimento.
    - Ah! - escutou Ian gritar junto com o som de algo caindo
pesadamente na gua.
    Ana tirou o vestido de frente da cara, segurando-o nas mos. Ela
olhava em volta, mas o garoto havia sumido.
    - Ian? - vasculhou com os olhos o lugar  procura dele.  O que
aconteceu? Onde voc est?
    Ana j comeava a ficar preocupada quando uma mo surge de dentro
do rio e se agarra  borda. Ao ver o garoto se apoiar para subir enquanto
tossia nervosamente a gua que havia ingerido, ela se questionou sobre o
que teria acontecido, quando ele falou em uma voz engasgada:
    - Eu te disse que no poso em distrair...  tossiu de novo - Enquanto
estiver sob a gua.
    E foi ento que a vontade de rir veio com mais fora do que nunca ao
olhar o estado do garoto a sua frente.
    - Voc me deu um susto  disse o garoto enquanto tentava recuperar o
flego.
                              ~ 307 ~
   - Desculpa!  gritou Ana no meio das fortes gargalhadas que lhe
faziam doer o peito.
   O garoto a olhou com uma expresso carrancuda no rosto, mas depois
no resistiu e comeou tambm a rir, parando em alguns momentos para
tossir novamente a gua. Ana foi perdendo a fora nas pernas e se
ajoelhou com as mos na barriga. Tinha que se controlar ou morreria por
insuficincia respiratria.
   Ambos estavam muito alegres ali e nem percebiam que a alguns
metros de distncia, algum os observava.
    *
    ngelo finalmente havia encontrado o demnio.
    Ele estava l com uma garota que no devia saber o tamanho da
ameaa que ele representava. O crucifixo em seu peito parecia que ia
torrar a sua pele, mas isso no o incomodava tanto quanto o que acabara
de ver.
    Ele chegou h apenas alguns segundos, mas j viu coisas demais.
    Ele consegue andar sob a gua. Isso  magia elevadssima. Meu
Deus me ajude a det-lo aqui e agora. Ele no pode sair daqui vivo.
                              ~ 308 ~
   38 - O confronto.
    Ana tentou ajudar Ian e se levantar, mas no conseguiu reunir foras
o suficiente, pois o riso atrapalhava. Ento ambos foram se apoiando um
no outro at que conseguiram ficar de p.
    - Gente, mas eu queria ter visto  comentou tentando regular a
respirao.
    - Acha graa?  que no foi voc quem afundou. - respondeu o garoto
sem poder parecer zangado como queria  Bebi tanta gua que quase
explodi.
    - Mas o que aconteceu pra voc cair desse jeito?
    Ian baixou a cabea. Estava constrangido demais para falar e Ana
olhou para o vestido em suas mos.
    - Ah... t. Isso  ela sentiu o rosto corar um pouco.
    Enfim, ela se virou de costas, dando uns passos para frente e se
distanciando de Ian para poder colocar novamente a roupa. A idia de
pular na gua havia sado de sua cabea, mas foi essa a deixa necessria
para o que aconteceria a seguir.
    Tudo aconteceu de forma muito rpida. Num instante, ela parou de
escutar o riso de Ian atrs de si e quando se virou, mal viu o garoto se
jogando em sua direo e ele j havia a segurado e se jogando com ela
para uma direo da floresta ao mesmo tempo em que se escuta o som de
uma exploso. Sem entender o que acontecia, ela sentiu o corpo sendo
levado para o interior da vegetao at que Ian os escondeu atrs de uma
rvore.
     No susto, havia se esquecido de respirar e agora, enchia o ar de
pulmes para compensar a falta de oxignio. Percebendo a tenso no ar,
traduzida na respirao descompassada vinda do peito dele, tentou
sussurrar:
    - O que est acontecendo?
    - Algum nos atacou  ela notava os olhos azuis vasculhando cada
centmetro da floresta - E se escondeu.
    - Mas quem? As fadas?
    - No, esse no foi um ataque de uma fada. E ns no fizemos nada
que merecesse isso  Sua voz era uma mistura de fala e rosnar  Foi um
mago quem fez isso.
    Ana olhou na direo da exploso que escutou e seus olhos se
arregalaram com a cena. Havia um buraco enorme no caule da rvore
atingida. Era como se uma bomba fosse acionada ali. A pedra deveria ser
                              ~ 309 ~
dez vezes maior do que a que Ian havia destrudo, e estava em migalhas
naquele momento.
    A alguns metros dali, ngelo blasfemava.
    Merda! Errei. O ataque dado foi muito bem concentrado para poder
destru-lo em um nico momento, mas no ltimo segundo, o demnio
percebeu a investida.
    ngelo olhava com cuidado para a direo onde o demnio correu
com a garota. Por algum motivo, Ian queria proteger a companheira e
agora ngelo comeava a duvidar a inocncia da jovem. No incio,
achou que fosse algum por fora do assunto e por isso esperou que ela se
afastasse para atacar o demnio sem molest-la, mas agora no tinha
certeza se ela devia ser poupada.
    O garoto olhava para a rvore onde os dois correram e preparou um
novo ataque com a mesma potencia do anterior. Tinha que aproveitar o
fato do demnio ainda no ter descoberto seu esconderijo e segurando
seu crucifixo e o apontando em direo  rvore, comeou a se
concentrar.
    - Ana  Ian falou ao seu ouvido  Fique aqui e no importa o que
acontea...
    - O que voc vai fazer?  ela lutava para que sua voz no se elevasse
muito.
    - Vou distra-lo. Obrigar que se revele.
    - No Ian...
    Ele tampou a sua boca.
    - Isso no se discute  ele ordenou  primeiro... - e seus olhos
focaram em um ponto. Droga!
     Ele a abraou novamente arrastando-a para outra parte quando a
rvore onde estavam explodiu.
    - Agora eu achei  rosnou.
    E largando Ana atrs de uma grande pedra, disparou em direo ao
inimigo. Ian pensou em fazer um ataque direto, pois quem quer que
estivesse atacando, no deveria ser bom num combate cara a cara e isso
lhe daria vantagem. Assim, correndo em ziguezague e evitando a chuva
de esferas prateadas que lhe eram lanados, ele foi se aproximando.
    Peguei.
    E quando chegou a uma boa distncia, fincou o p no cho freando o
corpo e fazendo uma pequena nuvem de poeira ser fez elevada enquanto
realizava um movimento com as garras como se estivesse arranhando o
                              ~ 310 ~
ar. Concentrando energia nas pontas dos dedos, ouviu-se o som
semelhante ao de uma serra enquanto quatro linhas brancas apareciam no
ar se direcionando rapidamente em direo a uma rvore prxima, onde
estava o mago agressor.
   Ele me viu. ngelo se desesperou e tentou atac-lo rapidamente, mas
o maldito era rpido e evitou todas as magias lanadas. Agora era ele
quem investia contra o iluminado e algo que parecia com quatro linhas
brancas vinham em sua direo numa velocidade alucinante. As rvores
eram muito estreitas e ele no sabia como se movimentar rapidamente
entre elas.
   Sua chance era ficar na clareira junto do demnio e enfrent-lo frente
a frente. Como no tinha como se esquivar com sucesso do ataque,
ngelo apenas juntou as mos em orao e liberou sua energia.
    Assim que tocaram o tronco, Ian viu sua magia atravessar a rvore
como se ela fosse manteiga. Depois, se seguiu uma exploso e uma
nuvem de poderia subiu. Enquanto a neblina se dissipava, Ian aguardava
o resultado de seu ataque. No viu ningum sair do lugar, ento
acreditava ter atingido seu alvo. E quando a poeira se dissipou, ele pde
ver que atingira sim, mas no surtiu o efeito esperado.
    Uma barreira translcida num tom prateado, semelhante s esferas
que foram lhe lanadas a pouco, envolviam o corpo de um jovem magro
e de cabelos longos e claros. Quando conseguiu focalizar bem o rosto do
garoto, Ian se lembrou dele. Era o mesmo garoto que estava em sua casa,
falando com sua me anteontem.
    Sabia que ele era um Iluminado, pois o reconhecia pela cruz que
segurava. Mas o que um Iluminado quer comigo?
    ngelo estava ofegante.
    Que ataque! Pensou surpreso. Ainda bem que conjurei a barreira a
tempo. Mas no fundo ele estava feliz. Pelo menos o demnio ainda no
havia despertado completamente. Ao julgar pela energia emanada pelo
sonho do Bispo, um ataque daquela criatura deveria ser to terrvel que
atravessaria sua barreira e lhe cortaria ao meio. Mas no foi assim.
    Tinha que acabar com ele agora. Ou ele podia despertar enquanto
lutavam.
    - O que voc quer de mim?  falou o garoto e ngelo se surpreendeu
por ele querer conversar.
    Mas no respondeu.
                              ~ 311 ~
    - Sei que voc  um Iluminado  continuou - Ento responda. O que
voc quer comigo?
    Ento o demnio me conhece.
    No  de se espantar, afinal demnios e Iluminados so inimigos
declarados por sculos.
    - Se sabe quem eu sou sabe o que quero demnio  gritou ngelo
enquanto saia em direo  clareira.
    - Do que est falando?  Ian gritava em resposta, parecendo
sinceramente confuso.
    Ele no deve se lembrar completamente, mas eu no vou esperar que
isso acontea.
    E fechando os olhos, ergueu o crucifixo para frente e logo o cho
comeou a tremer. Ento, vrias pedras se colocaram levitando entre ele
e Ian e com um gesto com a mo livre, elas avanaram em direo ao
garoto.
    Ian conseguiu se desviar com perfeio se lanando em direo a uma
das rvores. Mas ngelo no desistiu, fazendo as pedras seguirem seu
adversrio enquanto ele tentava escapar. A chuva de rochas mantinha
uma distncia muito arriscada de Ian, impedindo-o de arrumar tempo
para contra-atacar.
    Enquanto ele o perseguia, ngelo tomava cuidado para que o garoto
no conseguisse se aproximar mais. No era bom em combates corpo-a-
corpo. E num gesto com a mo livre, fez parte das pedras se separarem
indo por outro caminho enquanto um grupo continuava seguindo o
demnio de perto.
    Enquanto mantinha um grupo prximo, fazia as outras darem a volta
para fechar seus caminhos.
   Ian saltava e corria, mas no conseguia evitar a rajada de rochas
pontiagudas que o seguiam de perto. Decidiu ento usar a estratgia mais
antiga do mundo e correr em direo do Iluminado para faz-lo se atingir
com seu prprio ataque, mas ao pensar nisso viu que era um pouco tarde.
Metendo os ps na terra para conseguir frear, ele viu surgindo  sua
frente outro grupo de pedras que fechavam seu caminho. Sem tempo para
desviar ele se fechou os braos em volta do corpo.
   - Ah!  o grito de Ian fez Ana dar um pulo onde estava.
   No! Por favor.
   Ela olhava em direo de Ian onde viu uma densa neblina de poeira,
levantada pelo ataque do mago invasor. Sem tirar a ateno enquanto a
                              ~ 312 ~
poeira se dissipava, ela enfim pde constatar que Ian estava bem. Pelo
menos continuava de p, mas as pedras o pegaram em cheio. Vrios
arranhes marcavam o corpo do garoto e boa parte de suas roupas tinham
rasges.
    Ana deu um suspiro de alivio ao constatar que Ian conseguiu
endurecer o corpo a tempo ou o resultado seria pior. Ela queria poder
fazer alguma coisa, mas o que? Sentia que, como sempre, o medo lhe
fazia ficar imvel e muda atrs daquela pedra, sentindo-se
completamente impotente.
    ngelo se espantou quando o garoto tirou os braos de frente do rosto
e pode dar uma boa olhada em seus olhos.
     o demnio, com certeza.
    Ele escutava o rosnar que era emitido por Ian e sentiu uma leve
pontada de medo. Parecia um animal selvagem que estava de frente pra
ele, mas o que mais o assustava era a tonalidade que seus olhos, antes
azuis, comeavam a ganhar. Era como se uma mancha vermelha
comeasse a tomar conta da ris do garoto se espalhando por todo o olho
 medida que ele rosnava.
    E um frio na espinha lhe acometeu, mas ngelo no tinha tempo para
sentir medo, no podia fraquejar. Ento, mantendo a concentrao,
preparou um novo ataque que nem ao menos passou perto de seu alvo,
deixando o iluminado surpreso com a velocidade com que Ian desviou
dessa vez. Com certeza estava mais rpido que antes. Desta vez ele nem
havia conseguido acompanhar os movimentos dele e agora sentia a
apreenso de no saber onde o inimigo estava.
    Tinha que ach-lo. Ele parecia ficar mais forte a cada minuto.
    Ian se colocou por trs de uma rvore prxima. Parece que havia
conseguido despistar seu caador e isso lhe dava tempo para se
preocupar com algo um pouco mais urgente. Olhando para o prprio
corpo, percebeu os ferimentos provocados pelo mago e logo a dor das
pedradas o fez sentir raiva.
    Via alguns cortes nos braos, pernas e tronco, mas no eram to
importantes e logo passariam. O que mais o preocupava era a raiva que
sentia. Devido  adrenalina que a luta proporcionava e a fria por ser
ferido, ele comeava a sentir a presena da besta bem prxima, querendo
assumir o controle da situao.
    Ele tentava controlar a respirao, assim mantendo a calma. Fazia
muito tempo que no enfrentava algum assim. O Iluminado era bom e
                              ~ 313 ~
isso era diferente de lutar contra Lucas ou o demnio do sitio. Os dois
eram fracos e por isso Ian no precisou se entregar de corpo e alma a
luta, como era forado a fazer naquele momento. Suas mos tremiam
involuntariamente e  medida que passava, sentia a besta tentando sair
para o mundo. Seria timo arrancar a cabea daquele garoto, mas os
riscos eram grades demais.
    No podia permitir, no podia perder o controle ali. Ana correria
muito perigo se isso acontecesse. Ian tinha que se concentrar numa forma
de derrot-lo sem gastar muita energia. No podia usar todos os seus
poderes contra ele sem libertar a besta. Ento, sem arrumar uma idia
melhor, juntou as mos cruzando os dedos bem na altura de sua barriga e
comeou a se concentrar. Foi quando uma pequena bola azul ganhou
forma em suas mos.
    E no demorou muito para o clima comeou a mudar.
    ngelo vasculhava as rvores com os olhos sem sair do lugar, quando
percebeu uma neblina densa que surgia.
    Esse demnio controla o clima? Pensou espantado. Quer me cegar,
no ? No vou permitir.
    E levando a mo at os olhos e colocando a ponta dos dedos acima
das plpebras fechadas, ele ativou a sua Viso da Aura. ngelo ainda se
lembrava da urea do demnio. Ela era negra e por isso ficaria muito
visvel naquela floresta, onde se predominava a cor verde. Com ela, seria
fcil localiz-lo.
    E quando abriu os olhos novamente, eles eram to claros que quase
no se notava a existncia de ris. Com eles, o Iluminado vasculhava a
floresta, mas no viu nenhuma mancha negra no meio de tudo. Onde ele
est? Teria ido to longe assim?
    Mas quando percebeu o vulto azul que disparava em sua direo, era
um pouco tarde. ngelo s viu o garoto quando este estava bem ao seu
lado, erguendo o punho em direo a seu brao. E se desesperou. Sua
fora iria destro-lo, mas como no teve tempo para conjurar uma
barreira, concentrou toda a energia que tinha para endurecer o membro
para que pudesse sobreviver ao impacto. Mas foi quando se surpreendeu
com a leveza do golpe. Ele nem podia dizer que aquilo tinha sido um
soco. Parecia mais que o garoto estava batendo numa porta do que contra
seu inimigo.
    Ele viu o vulto do demnio passar por ele e se virou para encar-lo.
Ao fitar seus olhos, que voltaram ao tom azul, percebeu que Ian tinha um
sorriso presunoso em seu rosto, mas no entendeu o que isso significava
                              ~ 314 ~
at sentir a dor agonizante em seu brao. Num espasmo violento, ngelo
sentiu como se tivesse farpas penetrando em sua carne. A dor o fazia
gemer e cair de joelhos no cho, parecendo que seu brao iria ser
arrancado a qualquer momento.
    O mago olhou para o prprio brao e no via nenhum machucado
nele. O que  isso? Pensava desesperado. Era uma dor aguda demais, e
foi ento que reconheceu aquele sintoma: Era hipotermia. Ele via seu
membro ficando acinzentado e logo perdeu o controle sobre ele deixando
sua cruz cair no cho. Pensava em pegar sua arma cada, mas o mnimo
movimento fazia com que a dor aumentasse.
    Ele olhava para o demnio  sua frente enquanto ele fazia um gesto
com mo que fez sua cruz voar para dentro do rio. Agora ngelo estava
perdido. Os olhos furiosos do demnio o encaravam enquanto ele se
aproximava vagarosamente, parecendo estar curtindo o momento
deixando o garoto experimentar a tenso agonizante.
    - No sei por que diabos voc resolveu me atacar  a voz do garoto
era controlada e fria  mas na verdade isso no me importa.
    Ele ergueu a mo em forma de garra contra ngelo, que tentou
conjurar uma nova barreira com a mo boa, mas sem seu crucifixo era
intil. Num golpe apenas, todo o escudo foi destrudo e ele viu vrios
fragmentos de sua barreira cair como cacos de vidro e desaparecerem no
cho.
    O garoto o olhava com seus olhos brancos cheios de pavor e agora
percebia uma coisa. Algo estava errado. A urea do garoto era azul clara
e no negra. Por qu? Era pra ser negra como a do demnio que eu
estive caando. Porque ela no  negra? Ser que... E a possibilidade o
aterrorizou. Teria se enganado? Teria feito a magia errada e estava o
tempo todo caando um inocente?
    - Meu Deus! - Exclamou. S podia ser isso.
    Ele caou a pessoa errada e agora estava prestes a morrer por isso.
Queria explicar o mal entendido, mas o garoto j erguia a mo em forma
de garra para um novo ataque. E este, com certeza, rasgaria sua carne.
    ngelo no tinha mais foras para conjurar barreiras e a dor no seu
brao o impedia de sair dali ou sequer pensar em algo til. Enfim, no
tendo mais escolhas, fechou os olhos esperando a morte.
    Perdo Mestre. Eu falhei.
                              ~ 315 ~
    39 - Ataque surpresa.
    A neblina comeava a se dissipar e Ana podia enxergar de novo.
Assim, pensou em arriscar uma nova olhada no confronto desejando que
a situao j estivesse ao seu favor. Por favor, Ian, esteja bem. O que ela
viu, porm, aliviou-a. O inimigo estava no cho e Ian acabava de destruir
sua barreira.
    Agora ele estava no controle e avanava calmamente em direo do
mago invasor. Seu gesto, porm, apavorou-a. Ele ergueu uma das mos
em forma de garra mais uma vez e desta vez, o garoto no cho no
parecia capaz de se defender. Ana levou a mo  boca temendo o que Ian
pretendia fazer.
    No!
    ngelo queria que ele acabasse logo com isso. No agentava mais
manter os olhos fechados esperando o golpe de misericrdia. Ele orava
enquanto esperava que aquelas garras rasgassem toda a sua carne e
possivelmente os ossos tambm. S torcia para que fosse rpido.
    Foi quando ouviu:
    - No!
    Era um grito de mulher. Uma voz que veio como msica para seus
ouvidos. Seria um anjo que veio em sua salvao? ngelo abriu um olho
e percebeu que o mago de olhos azuis parou com a investida.
     - Ana, volte!  ele ordenou para a garota em sua companhia  
perigoso.
    - Ian no faz isso, por favor.  ngelo podia ver as lgrimas querendo
cair do rosto da tal Ana. Sentiu-se aliviado por ela interceder a seu favor
e culpado tambm.
     Em pensar que eu quase a matei.
    Ian hesitou e ngelo viu a oportunidade de tentar se consertar.
    - Espere...  ele tentou falar, mas quando sua voz saiu, Ian se voltou
para ele pegando-o pelo pescoo e o erguendo do cho.
    - Cala a boca  ordenou em um rosnado - Ana, volte.
    - No Ian. - ela insistiu - Por favor, no mata ele.
    - Ele estava me caando  defendeu-se Ian - eu j vi o desgraado.
Ele foi at a minha casa anteontem e agora est aqui.
    ngelo queria ao menos se livrar da mo e poder respirar, mas no
conseguia. Alm de aquela garra estar fortemente agarrada em seu
pescoo, ele sentia que o mago liberava aos poucos um ar frio em
ngelo, que causavam hipotermia em todo o seu corpo, impedindo-o de
                               ~ 316 ~
se concentrar para liberar Quintessncia. Assim, no tinha foras nem
para se defender, nem para trazer sua arma de volta. Estava
completamente vulnervel.
    - Foi um engano  ele cuspiu as palavras no meio dos engasgos
    O garoto se virou pra ele com os olhos cheios de raiva.
    - Engano? Ento foi engano voc ir at a minha casa e foi engano me
seguir at aqui? - e completou com ironia  Ou talvez o seu engano foi o
de julgar que poderia me matar, no?
    - No  ele tossiu  eu o confundi... com... outra coisa.
    - Ian  suplicou Ana que agora estava bem do lado dele, segurando
seu brao. Ian hesitou, provavelmente se odiando por ceder, e depois o
largou no cho.
    - Explique-se  falou com ngelo assim que ele caiu no cho e depois
se virou pra Ana  Espero que seu senso de julgar as pessoas esteja
correto.
    Ana sorriu agradecendo a Ian com o olhar. Ainda bem que no
presenciara nada mais trgico, pois no queria v-lo matando algum,
no conseguia suportar essa idia. Os braos do garoto tremiam e Ana
via que ele lutava com a besta interna para manter o controle sob o
corpo. Talvez se ele matasse o mago cado isso poderia desencadear toda
a fria que sentia.
    Ento, voltando  ateno para o garoto no cho, observou. Deve ter a
minha idade. E percebendo isso, no conseguia pensar nele como uma
ameaa, apesar de ter-lhes atacado h pouco.
    Queria dar um voto de confiana. S esperava no se arrepender.
    ngelo no conseguia acreditar na sua sorte. Realmente aqueles dois
no podiam ser coisa ruim, mas agora ele tinha que convenc-los de que
ele tambm no era.
    - Perdo  foi a nica coisa em que conseguiu pensar.
    - Bom comeo  zombou Ian.  Agora, porque veio atrs de mim
ento?
    - Vai parecer estranho, mas estava caando um demnio. Um
demnio que pensei que fosse voc.
    - E como chegou a tal concluso?  o rosto dele no tinha uma
expresso definida.
    - Usei uma espcie de rastreador mgico que me levou at voc. -
explicou com rapidez, como se a qualquer momento ele pudesse perder a
pacincia a atac-lo novamente.
                              ~ 317 ~
   - Acho que deve melhorar seus truques ento Iluminado.  escarnou e
ngelo sentia que ele ainda no estava muito a fim de perdo-lo.
   Apesar de no gostar de ter suas habilidades menosprezadas, decidiu
no discutir com algum que lutava para no dilacerar-lhe a carne.
   - E como conseguiu saber que estava errado? - perguntou a garota.
   - Quando vi sua urea. - disse para Ian - A do demnio era negra e a
sua  azul.
   ngelo ficou feliz ao ver no rosto de Ian, que ele comeava a
acreditar.
   - Quando voc estava escondido eu tentei usar a viso da urea para
localiz-lo.  explicou ngelo  A vi que estava errado.
   - urea?  questionou Ana.
   -  a manifestao da Quintessncia no corpo  explicou Ian  
como aquele fogo que voc conjurou. S que ele fica circulando em volta
de seu corpo constantemente e funciona como se fosse uma identidade
mgica de cada ser. Com a viso certa, voc pode enxergar isso nas
pessoas.
   - Eu sei, mas. No podem existir duas iguais?
   - No. - respondeu Ian e ngelo percebeu o que tinha feito. Havia
acabado de atrapalhar a aula de um mestre com sua pupila. - Geralmente
as diferenas so sutis, mas existentes.  como uma impresso digital e
com a observao certa voc nota as diferenas. - explicou sem tirar os
olhos de ngelo.
   - E no tem como voc disfar-la? - ela parecia muito curiosa a
aprender.
   - Muito difcil e...  e lanou um olhar disfarado para ngelo  Voc
tambm no ta ajudando.
   - Perdo  Ana conteve sua curiosidade.
   - Ela  sua discpula? - perguntou ngelo
   Ian pensou um pouco antes de responder.
   - Sim. - ngelo no sentiu firmeza na sua voz, mas no era
importante isso agora.
   O Iluminado ficou esperando para ver se tinha se safado. A dor j
havia passado e se quisesse poderia se defender de novo, mas no tinha
mais motivos. S conjuraria seu crucifixo de volta se fosse
absolutamente necessrio.
   - Ento?  a garota olhou suplicante para o companheiro.
   Ian parecia confuso. Ele lanava olhares de ngelo  Ana e dava para
ver que ainda estava com raiva, mas parecia que a garota tinha algum
controle sobre ele. Era bom que ela estivesse do seu lado.
                              ~ 318 ~
    - Acho que...  ele lutava contra as palavras e seus olhos comeavam
a mudar de cor: do azul para o preto. ngelo ficou intrigado com aquele
fenmeno. J era a terceira cor que via. Queria perguntar, mas o que
aconteceu depois no lhe deu chance.
    Os olhos do garoto interromperam a mudana rapidamente voltando
ao azul intenso. Sua ris, muito menor que a mdia, focou em algum
ponto distante atrs de ngelo, que precisou de alguns segundos a mais
para perceber o que ele estava olhando. E foi quando sentiu que algum
se aproximava por trs.
    Quando se virou para ver, teve se agir rpido para evitar o disparo
que veio em sua direo. Da forma mais rpida que encontrou, conjurou
uma barreira que impediu sua cabea de ser atingida por uma bala.
    Escutou outros disparos e ouviu um rosnado vindo do garoto. Ian
agarrava Ana, se colocando entre ela e os disparos. ngelo viu uma
pequena mancha de sangue nas suas costas antes de ele pular com ela
para algum ponto distante.
    A nica coisa que ele teve tempo de fazer foi se proteger atrs de uma
rvore.
    Mais uma vez as coisas aconteceram rpidas demais para que Ana
tivesse tempo para entender. Num segundo, escutou o som de disparos e
no outro um rosnar de Ian que a segurava e a arrastava para longe.
    Ana olhava para a rvore ao lado e via o outro mago tambm
escondido. Podia ouvir o rosnar baixo de Ian bem prximo de seu
ouvido.
    Ela o olhou e viu que seus olhos estavam fechados e suas presas
trincadas. Abraando-o, sentiu um lquido quente em suas costas e
quando puxou a mo para ver do que se tratava, notou o lquido rubro
que a sujava.
    - Ian! - se alarmou, mas o garoto no pareceu lhe dar ateno.
    Ele abriu os olhos mais uma vez e comeou a vasculhar o lugar
    - Um... dois... trs  ele sussurrava  quatro... merda! Cinco
Inquisidores.
    Inquisidores?
    Ana se encolhia nos braos do garoto, quando ouviu o som de mais
tiros que atingiram as rvores onde eles e o outro mago estavam. Ela
tentava alertar Ian sobre o ferimento em suas costas, mas ele parecia estar
mais ocupado tentando se comunicar com o outro Mago. Estava
apontando a localizao dos inimigos.
    O garoto confirmou com a cabea.
                               ~ 319 ~
   - Estranho eles aparecerem assim - Ian comentava consigo mesmo 
Ataque direto no faz parte do feitio deles.
   - Ian.  ela sussurrou - Voc est ferido.
   - Eu sei  respondeu ainda concentrado na direo dos Inquisidores 
depois eu cuido disso. S queria entender o que est acontecendo.
   - Eles devem ter pensado que conseguiriam acabar com vocs com
um nico tiro - Ana sussurrou.
   - Pode ser. Mas por que ento s atiraram no iluminado e a depois
resolveram apontar pra agente?
   - Talvez no esperassem encontrar outro mago aqui. Podiam estar
vindo atrs dele.
   ngelo estava tremendo. Teria o bispo mandado os Inquisidores aqui
aps receber seu recado? Esperava que no. Agora que descobriu caar
miragens, tinha medo pelo que eles poderiam fazer com aqueles dois.
Com certeza no os deixariam sair dali vivos.
   No, no  isso, refletiu. Aquele tiro foi apontado pra mim, eu tenho
certeza. Talvez nem soubessem que o outro tambm era um mago. Tanto
que eles atiraram em Ana e o nico motivo para Ian ter sido atingido foi
que ele se atirou na frente.
   Droga, eles esto me caando. Por qu?
   Ele viu Ian lhe dizer a localizao dos demais. Pelo menos o garoto
no acreditou que ele tivesse algo haver com isso.
   ngelo se concentrou um pouco pensando em seu crucifixo e
conseguiu fazer sua arma saltar para sua mo, mas isso denunciou a sua
posio. Uma varada de tiros penetrou na rvore onde ele estava e
quando menos percebeu, seu crucifixo voou de sua mo, indo parar no
meio da floresta.
   O que?
   ngelo no sabia o que fazer, eles pareciam ter vindo preparados para
mat-lo.
    Ian fez Ana se abaixar.
    - Fique aqui. No se mexa.
    Desta vez, a garota no reclamou e Ian desapareceu de vista. Saindo
do esconderijo, ele tentou se aproximar cautelosamente de um dos
atiradores, mas, ao perder a proteo da rvore, foi atingido de raspo no
brao. A dor lhe causou uma onde de raiva que ele no tinha o direito de
sentir.
                               ~ 320 ~
    Aguardou atrs de outra rvore para se recuperar da dor. Ele tinha que
se aproximar com calma, os Inquisidores no se mostrariam se no
tivessem alguma coisa a mais. Mas por mais que ele olhasse em volta,
no conseguia achar nada.
    Estranho.
    Ian sentia que todas as miras estavam apontadas para a sua rvore e
tinha que arrumar um jeito de sair daquela ratoeira. Ento, viu um
enorme galho bem na sua frente e pensou. O truque mais velho de todos.
    Ento, pegou o pedao de madeira e o arremessou com tudo numa
direo e, assim que ouviu a chuva de disparos, lanou-se na direo
oposta.
    Correu o mais rpido que pde tentando se tornar invisvel para os
atiradores. Ao aguar seus sentidos para poder capt-los, acabou
escutando um fragmento de comunicao.
   - Sim senhor, tem outro aqui. E no parece ser principiante.
   Ento, eles realmente no estavam preparados para mim. Tal
pensamento aguou a excitao nas veias do garoto. Pelo menos tinha a
vantagem da surpresa. Vendo que tinha que acabar logo com aquilo, se
lanou rumo aos inimigos usando as rvores para se esgueirar.
   Acabou por encontrar um deles, que ficou de rosto plido ao v-lo.
No fez perguntas e com apenas um golpe na cabea fez o homem
tombar. Ao cair, o rdio que usava caiu no cho e a voz de dentro dizia
nervosamente.
   - Carlos, Carlos voc est bem?
   Com um piso, o aparelho foi despedaado. Ian olhou em frente e
notou que um dos Inquisidores o viu e se lanou ao lado antes que ele
conseguisse disparar. O homem comeava a mandar balas
desesperadamente, mas as habilidades de Ian no meio das florestas, coisa
que ele aprendeu como Kalish, garantiam que conseguisse escapar e se
aproximar de seu alvo.
   No demorou muito e o segundo homem estava no cho.
    ngelo escutava os disparos, mas nenhum deles vinha em sua
direo. Pelo visto, Ian se mostrou um alvo mais tentador do que ele e
essa era a sua chance de localiz-los e terminar com aquilo.
    Ficou pensando em quantos j haviam cado. O garoto era realmente
muito bom. Melhor at que eu. Concordou a contragosto.
                               ~ 321 ~
    Mas ainda estava interessado naqueles olhos. Nunca tinha ouvido
falar de nada parecido. Esquece isso agora. Recomendou a si mesmo. E
continuou com calma a procura para no chamar ateno. No era um
guerreiro, ento no era seguro dar as caras. No tinha sua arma para se
garantir e nem cincia de quantos apontavam as armas pra ele.
    Quando finalmente encontrou um, ele estava virado de costas para
ngelo. Quando o garoto ia atac-lo viu o que tinha acontecido com sua
arma. Ao lado do homem, estava uma espcie de cubo de metal parecido
com uma caixa de som, s que no local onde deveria ser a sada dos
rudos, sua cruz estava grudada com muita fora.
    Eles de fato vieram apenas para mat-lo e com certeza no esperaram
encontrar outro mago ali. Toda aquela emboscada tinha sido preparada
pra ele. Dava para ver pelos sinais. Primeiro, eles se mostraram muito
facilmente. Caso soubessem que tinha algum guerreiro no lugar, teriam
esperado mais e preparado uma armadilha melhor. Segundo, aquela
mquina. Ela exercia uma trao magntica forte o bastante para
desarmar qualquer Iluminado numa grande distncia.
    Conseguindo desarmar ngelo, seria mais fcil derrub-lo.
    O homem vestido em uniforme preto se virou, percebendo que no
estava sozinho, mas no teve tempo de reagir. Com um movimento de
mo ele foi atingido por uma espcie de escudo invisvel. Voou cerca de
trs metros, indo bater de encontro a uma rvore prxima.
    ngelo ouviu os tiros cessarem. Demorou a se acostumar com o
silncio e ficou aguardando para ver se no sobrava algum. E foi quanto
Ian apareceu atrs dele
    - Acabou a?  perguntou.
    - Sim. - respondeu levando um susto.
    - Beleza, ento acabou de vez. S vieram cinco.
    ngelo ficou surpreso com a informao.
    - Voc derrotou quatro?
    - Eles no vieram preparados pra mim  disse tentando parecer
modesto  Acho que eles nem esperavam encontrar algum alm de
voc.
    - Tenho que concordar  ngelo olhava para a caixa preta.
    Ele se dirigiu a ela tentando encontrar uma forma de deslig-la,
quando achou um interruptor na parte de baixo. Ao deslig-lo, sua cruz
caiu no cho.
                              ~ 322 ~
    - Ento, eles vieram a sua procura  Ian falou. No era um pergunta e
sim uma deixa para que ele se explicar.
    - Acho que sim.
    - Por qu?
    Agora que no estavam mais agitados com o confronto, a cabea de
ngelo pde comear a se preocupar com outras coisas.
    - Bispo!  ele exclamou.
    - Quem?  Ian ergueu as sobrancelhas.
    - Eu s... - mas no conseguia falar. Ento, seus medos estavam
certos. Alguma coisa de muito grave estava acontecendo na Igreja. Os
Inquisidores de alguma forma penetraram as suas paredes e devem ter
visto recado deixado por ngelo.
     Meu Deus! Mas como?  Ele falava sozinho.
    Como o bispo pde permitir que eles adentrassem seu santurio
sagrado. Por qu?
    Ele tinha que correr.
    - Desculpa cara - apressou-se ngelo  eu tenho que correr. Eles
esto atrs de mim. De meu grupo. Eu preciso fazer algo.
    E correu. Ian nada fez para impedir.
                              ~ 323 ~
   40  Um novo mundo.
    Ana ainda tampava os ouvidos com fora para afastar o barulho das
balas. Mesmo depois que o tiroteio havia cessado, ela no conseguia tirar
as mos, pois tinha medo de que o som dos tiros fosse substitudo por
algo pior como o grito de Ian.
    Era uma verdadeira loucura. Mal tinham sado de um problema e j
entraram em outro. Quando finalmente conseguiu desgrudas as mos dos
ouvidos, arriscou uma olhada para a floresta, quando sentiu uma mo em
seu ombro. No inicio levou um susto, mas logo seu corao se acalmou
ao ver que era Ian.
    Sem dizer nada, ela apenas se atirou nos braos do garoto deixando a
respirao ir se regulando aos poucos com a cabea encostada em sua
camisa rasgara e suja e areia. Ele estava todo sujo, mas ela no ligava,
estava muito feliz que tudo tinha acabado. S esperava que agora fosse
pra valer.
    - Acabou  ela o ouviu sussurrar a seu ouvido  Fica calma.
    Ela comeava a tatear o corpo dele a procura de novos ferimentos,
mas h no ser por um arranho no brao, ele estava como antes e foi
quando se lembrou da bala alojada em suas costas. Ela se precipitou para
olhar o ferimento, mas ele a segurou.
    - Relaxa. - disse  eu vou ficar bem.
    Ana sorriu com aquela declarao. Finalmente conseguia respirar
normalmente de novo e seu corao comeava a entrar no compasso. Ele
parecia um mendigo, todo sujo e desfiado, mas Ana conseguia ach-lo
ainda mais bonito assim.
    Ele sorriu para acalm-la.
    - Mas como?  ela ficou perplexa  E suas feridas.
    Ele riu baixinho parecendo um tanto surpreso.
    - Estranho voc ainda no me perguntar sobre os Inquisidores ou pelo
o outro mago  e depois sorriu pra ela  mas fico feliz que sua
preocupao comigo seja prioridade. Obrigado.
    - Fala srio  ela conseguiu rir - lgico que estive preocupada
contigo. Nem sei como foi, s fiquei ali escutando tiros e imaginando se
voc estava bem.
    - No se preocupe. Parece que os caadores vieram apenas atrs do
nosso amigo ali. No estavam preparados pra se encontrarem com um
Garow  ele deu uma entonao a mais para a ltima palavra.
    - Mas voc est ferido  lembrou com a voz fraca.
                              ~ 324 ~
    - Pode parar de se preocupar um pouco? Alm do primeiro, eles s
em acertaram mais um de raspo  disse mostrando o brao  E o
Iluminado me atingiu com as pedras, mas eu consegui endurecer o corpo
no ltimo segundo a s levei alguns arranhes.  ele levantou a blusa e
mostrou as costas arranhadas. Depois comentou - Assim  melhor, a
podemos falar para deu av que eu apenas levei um tombo feio. 
acrescentou com um sorriso. - ele no precisa ver o tiro nas costas.
    - Fala srio Ian. Eu ainda estou preocupada.
    - Eu sei - ele ficou mais srio. Mas no acredito que aqueles caras vo
voltar. Como eu disse, eles mandaram poucos, pois acharam que o
Iluminado era a nica ameaa. Ento, no deve haver mais nenhum em
Trs Coraes at amanh de tarde. E at l, j estaremos longe.
    - Mas e quando eles acordarem? Eles podem querer ca-los de novo.
    Ian ficou em silncio. Ana viu que suas feies ficaram um pouco
mais sombrias e ele provavelmente tinha alguma coisa a contar, mas no
sabia como. Quando finalmente entendeu, sentiu sua voz ficando fraca ao
fazer a prxima pergunta:
    - Eles... no vo acordar, no ?
    - No - disse simplesmente.
    Ana ia falar, mas Ian a interrompeu:
    - Ana escute  disse segurando-a pelos ombros  Sei que isso tudo 
novo pra voc, mas tem que entender que esse mundo para o qual voc
est entrando tem seus lados negros.
    - Mas voc disse que no gostava de ser um assassino.  ela gemeu
em resposta.
    - O que eu disse  sua voz era dolorida. O que Ana tinha dito o havia
machucado  era que eu no suportava matar mais inocentes. Ana  ele
acrescentou olhando nos olhos da garota  esses homens vieram com um
nico motivo. Na verdade, eles vivem com um nico motivo: Matar o
mximo de ns que encontrarem. Deix-los vivos seria assinar nossa
sentena, pois eles teriam gravados nossos rostos e com certeza, viriam
at ns mais tarde.
    Ana ficou em silncio. Fazia total sentido, mas mesmo assim...
    - Escute Ana.  continuou numa voz vagarosa  At agora voc
apenas testemunhou o lado romntico da magia, e isso  minha culpa.
Realmente ela tem uma face muito bonita, mas essa no  a nica. Eu te
disse que estamos numa guerra. Temos os demnios de um lado e os
Inquisidores do outro e estamos bem no meio dela.  ele respirou fundo
antes de continuar  Olha. Eu sei que tirar uma vida deve ser terrvel pra
voc. Sei bem que voc s me impediu me matar aquele Iluminado, pois
                               ~ 325 ~
no queria me ver como um assassino, mas Ana, aquilo era uma questo
de sobrevivncia.
    - Eu entendo  sua voz continuava fraca. Matar era uma coisa que
Ana se perguntava se seria capaz de fazer um dia.
    - Que bom que voc estava certa sobre aquele cara  falou em tom
mais despreocupado tentando acalm-la  se no estaramos fritos. - e
sorriu. - Mas pense bem no mundo em que est entrando. Voc pode at
ter a sorte de passar uma vida inteira sem confrontar com nenhum dos
perigos que ronda nosso mundo, mas aviso, isso  sorte de muito poucos.
    Ana se lembrou de suas tias inconscientemente.
    - Pense bem  continuou  voc pode decidir continuar por esse
caminho ou virar as costas pra ele e fechar a porta atrs de si.  uma
escolha sua. Assim como voc vai encontrar beleza e alegrias na magia,
tambm vai ver dor e sofrimento. - e mudou o tom para um mais
divertido ao completar  embora eu duvide que algum seja capaz de
fechar a porta depois que se descobre do que nosso mundo  feito. Voc
vai ver magia em tudo agora e ela sempre vai estar com voc.
    Ana deu um meio sorriso em retribuio. Agora que ela se lembrava
do outro mago que estava com eles.
    - Onde est o Iluminado?
    - Os Inquisidores esto atrs dele. Ele foi ver o que acontecia com os
demais membros do seu grupo.
    - E no vamos ajudar?
    - Infelizmente no da  Ian fez uma careta de susto com o vamos.
    - Por qu?
    - Bem,  um pouco complexo. A Ordem dos Iluminados est meio
que renegada das demais organizaes mgicas do planeta. Por isso eles
tendem a no confiar em mais ningum, alm deles mesmos. Se fosse ao
contrrio ele teria pedido a minha ajuda, mas no o fez. Preferiu seguir
sozinho.
    Ana agora se lembrava da historia que Ian lhe contou. Lembrou que
durante anos os Iluminados lutaram ao lado dos Inquisidores para
destruir as irmandades mgicas existentes. Lembrou-se tambm que
tinha dito um bem feito depois que descobriu que agora eles tambm
estavam sendo caados. Mas agora, vendo o que era realmente ser
caado, se comovida com a situao do jovem. No desejava aquilo a
ningum.
    - E ainda tenho mais  Ian cortou os pensamentos da garota  Eu no
sei se seria bem recebido.
    - Por qu?
                               ~ 326 ~
   - Bem  ela viu que essa lembrana o deixava um pouco triste.  Nos
primeiros anos em que eu descobrir estar amaldioado, recorri a um
grupo de Iluminados.
   - E?
   -  que eles me consideraram um possudo pelo diabo e tentaram me
matar. Inmeras vezes pra ser sincero.  completou  Sorte o nosso
novato no saber de minha situao, ou nossa luta s acabaria com a
morte de um.
   - Nossa. - agora Ana entendia a relutncia de Ian em poupar o garoto.
    - Ento, o que faremos agora?  ela perguntou.
   Ian olhou para o relgio e depois falou:
   - Bem, primeiro, ponha seu vestido. Depois vamos pra casa descansar
e comer alguma coisa. Depois vemos o que faremos do nosso dia. - e
olhou em volta - Nossa aula de hoje acaba aqui. Classe dispensada.
                              ~ 327 ~
   41  Traio.
    ngelo chegou ofegante a uma parte da floresta. Agora, bem afastado
do rio e dos outros dois, ele podia dar asas a seu desespero. No era f de
demonstrar emoes na frente dos outros. Mestre, Frade, como eu pude
abandon-los? Se ele tivesse dado ateno  sua intuio, nada disso
teria acontecido.
    Tenho que voltar ao Rio de Janeiro. Merda, onde deixei a mochila?
    O garoto vasculhava o local  procura do pertence quando finalmente
o encontrou encostado atrs do tronco de uma grande rvore. Ele se
precipitou para pegar a bolsa e na pressa acabou derramando seu
contedo no cho.
    - Droga!  praguejou. Andava fazendo muito isso ultimamente. Teria
que se confessar depois.
    Ele catava os papeis com pressa colocando-os de qualquer maneira
dentro da bolsa. Grupo por grupo, os papeis foram sendo amassados
dentro da mochila, quando um deles fez ngelo parar o que estava
fazendo.
    Ele ficou perplexo por alguns minutos, olhando para o pedao de
papel que continha a sua letra. Era a anotao que ele fizera em uma de
suas aulas com o Bispo. Agora ngelo entendia o que era a sensao de
deixar algo passar que o atormentava h quase uma semana. Na folha,
estava uma espcie de orao em latim, que ngelo sabia que no era
nada religioso, mas sim uma forma de encobrir o que de to poderoso
estava entre as suas linhas.
   *traduzido do Latim.
  Que as asas dos anjos o guiem para a face da luz,
  Que o senhor seja seu guia e te controle para que evites o
caminho das trevas.
   A orao de Lucas Levstross! Sua mente retornou a cerca de quatro
noites atrs, quando saa de uma conversa com o Bispo Csar e
encontrara o Frade Henrique orando em frente ao altar.
   As mesmas palavras da orao de Henrique. ngelo sabia que
nenhuma orao da ordem usava essas palavras. Henrique, no momento
da orao, havia recitado-a em portugus, e por isso ngelo no foi
                               ~ 328 ~
capaz de fazer a comparao de imediato, pois s a havia aprendido em
latim.
    No acredito que no percebi
    Ento as lies do bispo ecoaram em sua cabea causando-lhe dor do
peso na conscincia.
    O fato de um feitio ter sido banido no significa que seu uso tambm
o foi
    ...
    Ainda h resqucios deles em toda a parte e no duvido que existam
pessoas dentro da prpria Ordem que se sintam tentados em us-los.
    ...
    Identific-los  de vital importncia para se interceptar um feitio
lanado contra voc
    ...
    Francamente garoto. Voc deve prestar mais ateno. Assim nunca
vai se tornar um grande mago.
   E eu no prestei. Pensou cheio de culpa.
   Mas ele podia estar usando esse feitio contra os inquisidores,
pensou com mais esperana do que com lgica. No fundo, sabia que essa
teoria no era vlida. ngelo conhecia a fidelidade do bispo  Ordem e
sabia que Csar jamais usaria uma coisa condenada pela igreja. Mesmo
contra seus inimigos.
   Assim como no permitiria a entrada de um Inquisidor na sua igreja
a menos que... estivesse controlado.
   Agora tudo fazia sentido.
   Meu Deus.
   Abaixo da orao, havia algumas anotaes sobre feitios: Anotaes
que ngelo tinha lido  apenas alguns dias, atrs.
   A segunda caracterstica de algum enfeitiado  a
fraqueza que a pessoa sofre quando o controle  quebrado.
Quando algum  vitima de um feitio, ela no est
completamente alheia ao que acontece. Dentro da mente da
vtima  travada uma batalha entre seu subconsciente e o
invasor. Tal luta tende a deixar uma fadiga muito grande para
                              ~ 329 ~
trs, logo,  comum as vtimas desmaiarem aps serem
controladas por outro mago.
    Ele se lembrava do bispo desmaiado do sof da Igreja e de como sua
urea estava fraca. Meu Deus. Eu ainda me considero um prodgio.
    Quanto mais raciocinava, mais via que as coisas estavam na sua cara
o tempo todo. Mas tinha uma coisa que ainda no se encaixava. Ele
conhecia o Bispo, sabia de suas habilidades, ento como no conseguiu
interceptar o frade antes que ele o enfeitiasse?
    Quem lhe respondeu foi uma voz feminina que veio em sua mente.
   Uma das propriedades da planta Beladona  a de ser um bom
recipiente mgico.
   ...
   A Beladona j foi usada muito como um recipiente para se guardar
todo o tipo de mgica: magia, necromancia, feitio, e outros.
   ...
   S magos experientes so capazes disso. De quem voc desconfia?
   Ele usava a Beladona para depositar feitios. Assim a magia ia
direto ao corpo do bispo sem ele perceber.
   ngelo comeava a entender tudo. Tantas explicaes de uma vez o
deixavam at um pouco confuso, mas no queria perder a linha do
raciocnio.
   Quando o frade fez a orao eram apenas alguns minutos antes de
conversar com o bispo. Lgico, ele  muito esperto, para colocar a
magia em todas as plulas do bispo de uma vez. Alm de aumentar as
chances de Csar descobrir, ainda tinha o inconveniente de algum v-lo
num estado de torpor.
   Por isso ele s enfeitiava as plulas nos momentos exatos.
   ngelo sentia raiva agora. O bispo confiava em Henrique, tanto que o
deixou a par de tudo. Entregou toda a sua sade nas mos dele.
   O garoto gritou. Um grito para ningum ouvir, h no ser as rvores e
pedras prximas. Um grito que servia apenas para desabafar. Liberar a
tenso.
   Decidido, ele se levantou e correu em direo  rodoviria.
                              ~ 330 ~
   42  Os guardies do segredo.
    Ana e Ian chegaram  casa e o av j estava pronto para dar um
sermo pelo atraso da dupla, quando viu o estado do garoto.
    - O que aconteceu?  disse ele num tom que era mais de surpresa do
que de comoo.
    - Ca  disse Ian com um sorriso amarelo.
    - Estvamos caminhando e Ian caiu de um pequeno barranco 
acrescentou Ana, dando corda a mentira.
    - Meu Deus!  Ana viu que Slvio estava achando mais graa do que
compaixo pela situao do garoto, mas disfarava muito bem o riso e
lutava para manter a postura sria. O av tinha essa veia sdica  Voc
est bem?
    - Sim. No me machuquei  garantiu Ian.
    - Ento vo tomar um banho que vou mandar a Emlia servir o
almoo.
    Sem dizer mais nada, eles subiram as escadas at os banheiros. No
demorou muito e eles puderam escutar a risada vinda do trreo. Ian fitou
pra ela com uma expresso divertida e os dois riram tambm. Ana olhava
o garoto que parecia bem  vontade apesar dos arranhes.
    Pelo menos no  nada to grave. Pensou quando seus olhos bateram
na mancha de sangue atrs da blusa.
    - Melhor vermos isso agora  ela apontou para o ferimento.
    - O que? - ele perguntou. Parecia que tinha esquecido completamente
do buraco de bala em sua pele.
    - Tira a camisa.  mandou
    Ian obedeceu e eles entraram no quarto da garota par a ela poder ver
melhor o buraco nas costas do garoto.
    - Ian, voc foi atingido!
    - Shiiiii!  o garoto colocou a mo na boca dela  Quer estragar o
disfarce? Relaxa! Eu j sei.
    - Mas quando foi exatamente? Foi to rpido.
    - Foi na hora em que os Inquisidores dispararam pela primeira vez. -
ele falou olhando o buraco na frente de um espelho  Como eu disse, eles
no deviam estar esperando por mim. Tanto que alm de s darem o
primeiro disparo no Iluminado, eles tambm miraram o segundo tiro em
voc
    Ele falava com naturalidade do ocorrido, mas Ana sentiu uma
apreenso ao descobrir que aquela bala estava endereada a ela. E falou
um tanto triste:
                              ~ 331 ~
    - Ento voc teve...
    - A eu me joguei na frente. Foi to rpido que no tive tempo de
endurecer a pele por completo e acabou que ela entrou  e olhava mais
no espelho sem dar muita ateno ao sofrimento da garota. - Mas no foi
nada grave. Pelo menos consegui endurecer o suficiente para que ela no
atravessasse meu corpo ou atingisse algum rgo vital.
    - Desculpe. - pediu encarando o cho, sentindo-se envergonhada.
    - No tem porque se sentir culpada  Ian se virou pra ela  Balas so
fogo mesmo. So rpidas demais para voc esquivar com perfeio e
potentes demais para de absorver todo o dano.
    - Mas se eu pudesse me virar voc no teria que levar a bala por mim.
    - Por favor, no fala merda.  comentou e Ana se assustou com a
delicadeza. - Por enquanto, voc  minha aprendiz e eu tenho
responsabilidades sobre voc. E alm do mais  completou  eu jamais
me perdoaria se acontecesse algo com voc.
    Ana sorriu.
    - Vou ter que tir-la daqui. - comentou voltando a ateno para o
espelho.
    - Como?  Ana se surpreendeu.
    - A bala. Est dentro do meu corpo, mas no muito fundo.  e
comeou a tentar enfiar o dedo na ferida.
    Ana mordeu o lbio inferior e se virou rpido para no olhar.
    - Ai!  ele gemeu e a garota tentou se virar e olhar o processo, mas
quando viu a linha de sangue sair o ferimento do garoto conforme ele
tentava tirar a bala, desistiu.
    Ela sabia que tinha que ter estmago forte nesse novo mundo que Ian
lhe falou, mas tudo tinha seu tempo.
    - Ufa! At que enfim.  ele falou.
    Ana se virou agora e viu que ele segurava a bala nos dedos.
    - T aqui a desgraada  disse erguendo o projtil.
    Ana viu que a dor tinha o feito manifestar o fentipo do cl. Os dedos
que seguravam a bala tinham garras e os olhos azuis estavam com um ar
divertido, apesar da dor, enquanto ele a encarava com um sorriso cheio
de dentes afiados e quatro caninos avantajados.
    Outras transformaes tambm aconteciam quando ele se
transformava, como os cabelos que ficavam um pouco mais ouriados e
os msculos mais realados, sem ganhar volume. E eram justamente
esses msculos avantajados que ela olhava agora, sentindo o rosto
ficando vermelho pela semi-nudez dele. Era raro v-lo sem camisa.
                               ~ 332 ~
    Alm do peito nu, partes da cala tambm estavam rasgadas,
mostrando alguns pedaos de pele. Ian lembrava um modelo de
campanhas de itens de aventura, naquele estado to selvagem. Ela
decidiu puxar um assunto para ver se conseguia para de olh-lo. Foi
quando ele levou a mo at o ferimento de novo e Ana j se preparou
para virar novamente, quando viu a uma energia azul na palma de sua
mo.
    A curiosidade a fez continuar a olhar enquanto ele botava a mos
sobre o ferimento e, depois de alguns segundos, o buraco sumira.
    - Bem melhor  disse mexendo a coluna comprovando que o antigo
ferimento no o incomodava mais.
     - Porque no faz isso com os outros arranhes  sugeriu Ana ainda
maravilhada com a cura.
    - Tenho que manter o libi da queda no barranco.  ele disse dando
de ombros  Melhor deix-los se curar sozinhos.
    - Deve ser complicado guardar esse tipo de segredo, no?
    - Mais ou menos  disse Ian  s temos que ser assim com os
adormecidos. Geralmente ns nos isolamos da sociedade normal e
vivemos com os nossos poucos companheiros. Eu que sou uma aberrao
e tive de me isolar deles tambm. - completou com um sorriso largo
exibindo as presas para Ana.
    - No fale assim  Ana comentou irritada. No gostava quando ele se
menosprezava.
    Ele riu.
    - Desculpe  e continuou para deixar essa passar  Alm do mais, ns
temos um forte aliado para nos manter ocultos.
    - Quem?
    - Os Inquisidores.
    Ana ficou em silncio.
    - Eu falei que eles nos querem mortos e por isso eles trabalham para
que estejamos de fato mortos para todos. - comeou sabendo que logo ele
teria que responder as dvidas da garota - Eles tm muitas influncias na
polcia e na imprensa, e so capazes de abafar a nossa existncia em um
piscar de olhos  e depois de dobrar a camisa em cima do brao
continuou  voc ficaria surpresa em saber quantas notcias ditas como
acidentais ou tragdias naturais, no foram na verdade manifestaes
nossas encobertas.
    - Hum...
                              ~ 333 ~
   - .  concordou  Mas nem sempre  culpa nossa  tratou de se
defender  muitas desgraas acontecem por que esses caras insistem em
nos caar e nos obrigam a tomar medidas drsticas.
   - Entendo  concordou Ana  Como hoje.
   - Como hoje  confirmou  Aposto que os mortos sero escondidos
antes de serem achados por qualquer autoridade da regio e os tiros
dados vo ser atribudos a algum caador eventual.  e se voltou para o
espelho para conferir que a feria estava totalmente fechada.
   - Chega a ser assustador o controle deles  refletiu Ana.
   - E . Por isso que eu te disse, que no pense que tudo  beleza
quando se atravessa o Vu. Voc tem que estar preparada para se
defender.
   - Eu sei. Vou aprender. - disse confiante. - Tenho um timo mestre. -
completou,
   Por um segundo, Ian desviou os olhos para o cho, foi um gesto
rpido, mas que Ana captou no momento exato. J tinha muita
experincia em decifrar a linguagem corporal de Ian e no gostou nada
do que percebeu. Tinha certeza que os planos de fuga ainda estavam
vivos na cabea do garoto, mas podia manter-se calma, por enquanto.
Afinal, Ian mesmo disse que no queria deix-la sozinha, que tinha
responsabilidades para com ela. Enquanto ele no arranjasse um
substituto, ela ficaria bem.
   -  mesmo  disse com um sorriso forado  Ento vejamos seu
progresso  e se aproximou levando o rosto pra perto dela.  Me bate.
   - Como?  ela se assustou com o pedido.
   - Me bate  repetiu como se aquilo fosse algo costumeiro  Quero ver
como est o seu controle de energia.
   - Eu no posso bater em voc.
   - Claro que pode.  ele encorajou   s me imaginar como uma
pedra. No se preocupe. Voc ainda no deve ter fora para me matar
com uma porrada. Vai!  e virou o rosto de forma a facilitar o ngulo de
seu golpe.
   - Mas eu no posso  insistiu rindo  Voc mesmo disse que eu tenho
que ter raiva para poder liberar minha energia e eu no sinto raiva de
voc.
   - Bem lembrado, mas voc sempre pode criar raiva dentro de si.
Vamos imagine  e a segurou pelos braos  Pensa que eu sou um tarado
e quero te agarrar a fora. O que voc faria? S no bata l  concertou
rpido apontando com os olhos para as partes baixas - No sei se posso
endurecer ali com eficincia.
                              ~ 334 ~
    Ana gargalhou.
     - E se eu no quisesse oferecer resistncia se voc me agarrasse 
fora?  ela atiou.
    - No brinque com isso  apesar do sorriso, sua expresso ficou mais
seria. Ele largou os ombros da garota.  Tem gente que no sabe brincar
 comentou e revirou os olhos tentando mudar de assunto - Acho que
temos de tomar banho. Estou com fome e j tive situaes demais para
me policiar por hoje.
    E saiu do quarto dela.
    - Covarde - murmurou baixinho quando ele saiu e depois foi se lavar
no banheiro do quarto.
    Depois do banho, eles desceram para comer. Ian, como sempre,
comeu pelos dois e isso garantiu a ele vrios elogios de Emlia.
    Slvio acabou comentando no meio da refeio.
    - Ainda bem que vocs vieram logo.  melhor no andarem pela
floresta mais hoje.
    - O que houve?  perguntou Ana interessada.
    - Parece que temos uns caadores fora de poca. - disse tomando um
gole de suco - Ns ouvimos tiros vindos da floresta e a polcia est
vasculhando as redondezas.
    - Acharam alguma coisa? - perguntou Ian.
    - Nada ainda. Simplesmente sumiram.  respondeu Slvio  Mas
ainda acho melhor no voltarem para a mata hoje.
    Ian deu um olhar para Ana que queria dizer claramente: No disse?
    - Mas foram muito rpidos  disse Ana respondendo a Ian, mas se
arrependendo depois.
    - Eu sei  concordou av obviamente no entendendo a real inteno
do comentrio  Geralmente s temos caadores no vero.
    Ian lanou um olhar de alerta para Ana que respondeu com um
desculpa, que no saiu som.
                              ~ 335 ~
   43  Pacincia.
    O local tinha as paredes rochosas como as de uma caverna e as nicas
luzes que ali havia eram as que provenientes de uma srie de tochas
enfileiradas nas paredes, que acabavam por contribuir para o ar
fantasmagrico do ambiente. Ali, uma pessoa estava aparentemente
sozinha. Fitando o interior de um recipiente de barro que continha um
lquido rubro semelhante a sangue.
    A bela jovem de longos cabelos prateados e pele branca parecia estar
esperando alguma coisa surgir. Com a expresso paciente, ela mexia no
lquido rubro com a ponta do dedo, parecendo acariciar-lhe como se faz
com um animalzinho.
    - Satine.  uma voz fraca e fria parecia vir do nada.  Como est o
andamento das coisas, minha filha?
    - Se acalme meu senhor  disse a mulher numa voz doce  logo eles
retornaro de sua viagem e eu duvido que fiquem juntos aps isso.
    - Essa espera est me matando Satine. - murmurou a voz que vinha do
recipiente.
    - Peo que tenha um pouco mais de pacincia meu amo.  seu olhar
era de profunda devoo para com aquele lquido falante  No vai
demorar muito e vamos conseguir a garota. Assim que seu guardio a
abandonar, ela estar vulnervel a ns. Peo que tenha um pouco mais de
pacincia  tornou a pedir.
    - Pacincia eu tenho Satine. O problema  que eu sinto urgncia
nisso. No sei como, mas algum sabe de ns, de nosso plano.
    - Mas isso no  possvel  continuou a mulher sem se abalar - Como
algum poderia saber? No envolvemos mais ningum.  e deu um
sorriso para o recipiente.
    - Eu tambm no sei. - comeou a explicar calmamente - Mas
enquanto minha alma foi trazida para esse mundo por seu encantamento,
eu senti que minhas energias estavam sendo percebidas por um mago.
Um bispo para ser mais exato. Um membro dos Iluminados.
    Satine torceu o nariz demonstrando nojo pelo nome.
    - No acho que esses padres possam nos impedir meu senhor. - disse
confiante
    - Provavelmente no, mas tentaram.
    Agora ela estava surpresa.
    - Como?
                              ~ 336 ~
    - Percebi um membro perambulando pelo bairro. Um novato, mas ele
acabou seguindo uma pista falsa - e riu. Uma risada fraca, mas muito
sincera.
    - Ento no h problemas.  a mulher sorriu de novo.
    - No, no h. Mas espero que quando aqueles padres malditos
voltarem a nos procurar, eu j esteja forte. Sabe que nossa posio 
pouco favorvel aqui.
    - Eu juro lhe proteger com minha vida!  garantiu.
    - Sim, eu sei que voc  capaz disso, mas no quero lhe sacrificar em
vo, minha menina. Por isso no quero que voc enfrente o Garow. Caius
tentou e voc viu o que aconteceu.
    Satine mostrou-se comovida com essas palavras.
    - Ah, meu amo. O senhor  to bom. Eu sei que no sou capaz de
enfrentar aquele garoto, mas eu prometo que com o meu plano aqueles
dois vo se separar e a o caminho estar livre. Ana no ter para onde
fugir.
    - Ana...  ele parecia se deliciar com o nome   uma pena no t-la
matado enquanto pude. Um erro tolo, mas que no tinha como eu saber.
    - O senhor no erra meu amo. O senhor a poupou quando ela era
apenas uma garotinha.  uma pena que ela acabou se tornando uma
pedra no nosso caminho.
    - Ela seria uma boa aquisio para o nosso time.  ele no parecia ter
prestado ateno ao ultimo comentrio de Satine.  Sinto um forte
potencial naquela menina.
    Satine fechou a cara tirando seu dedo do liquido. A voz riu
novamente.
    - No fique assim minha Satine. Voc  fiel a mim e isso  uma
virtude que eu sei reconhecer acima de tudo. Eu s estava comentando.
Aquela garota jamais aceitaria se juntar a ns. No depois do que eu fiz.
 sua voz no tinha culpa e sim parecia se divertir com alguma
lembrana.
    - Aquelas duas no tiveram chance contra o senhor. Seu poder 
impressionante  Satine mostrava excitao.
    - E  por isso que eu quero a garota. Preciso voltar a ter aquele poder.
    - Ela ser sua. No dou mais que dois dias para que isso acontea.
    - Eu confio em voc minha queria. Confio em voc.
                                ~ 337 ~
    44  Adeus Tias.
    Quando finalmente acabaram de comer, Ian e Ana foram para o
quarto e decidiram arrumar logo sua bagagem para o dia seguinte.
Infelizmente, a curta estada em Trs Coraes j chegara ao fim e os
acontecimentos marcantes do decorrer da visita deram a sensao de uma
passagem ainda mais rpida do tempo.
    - Vamos deixar tudo pronto para amanh  sugeriu Ian  Quero ir
com voc a um lugar e depois podemos passar as ltimas horas com seus
avs.
    -  verdade  concordou Ana  tivemos tanto o que fazer e tantas
coisas aconteceram.  E depois, se lembrando, perguntou  para onde
vamos?
    - Se esqueceu? Do que me pediu?
    Ana ficou em silncio. Tinha entendido o que faltavam fazer naquela
viajem.
    - Tenho que dizer adeus a elas - murmurou para Ian depois de um
tempo.
    - Essa vai ser a parte mais difcil  alertou.
    - Mas minha viajem no estaria completa sem isso  acrescentou Ana.
    - Vamos daqui a pouco - sugeriu Ian  A voltamos  noite e ficamos
com seus avs. Eles sentiram muito a sua falta e merecem isso.
    Ana confirmou com a cabea e juntos terminaram de arrumar a
bagagem. Falaram com Slvio avisando da sada e prometeram voltar
cedo. Mais uma vez o av no os impediu, apesar de no estar muito
feliz com isso. S os fez prometerem que no andariam pela floresta e os
liberou.
    Agora, os dois caminhavam pela estradinha de terra que dava at a
antiga casa de Teresa e Samanta. Suas tias viviam ainda mais isoladas do
centro de Trs Coraes preferindo assim para estar mais prximas a
natureza. Ao chegar a um trecho do caminho, Ana se lembrou do
momento em que, naquele mesmo lugar, anos atrs, ouviu pela primeira
vez a voz trazida pelo vento. A mensagem de morte que tanto a assustou.
    - Eu s no entendo uma coisa  apesar de estar fitando o horizonte,
ela falava com Ian  Porque ele no me matou naquela noite.
    Ian ficou em silncio.
    - Digo  ela continuou  ele teve a chance. Eu, de certa forma,
testemunhei o que ele fez. No penso como ele podia me permitir viver
depois disso. Por que apenas elas?
                              ~ 338 ~
    - Aquele demnio tinha um alvo Ana. Eram suas tias e ele no
considerou voc uma ameaa. Seja l o que ele queria, tinha muita pressa
em chegar at as duas.
    - Mas ele parou para me assustar. Porque fez isso?
    - Por prazer. O medo  um dos sentimentos que mais animam um
demnio. Causar dor, tormento, e outras frustraes, mexe com a
excitao destes seres. Eles so to atormentados que s conseguem ser
completamente felizes se conseguirem provocar isso em outras pessoas.
    Ana ficou em silncio.
    - Eles j tinham um alvo traado naquela noite.  agora ela olhava
para o garoto. No era uma pergunta. Ana sabia que sim.
    - Sim  respondeu assim mesmo.
    - S queria saber por qu?
    - Infelizmente, no acredito que vamos descobrir hoje.  e pensou
bem antes de continuar - Talvez no saibamos nunca.
    A garota baixou a cabea percebendo verdade nas palavras de Ian. E
quando se sentiu mais forte, levantou-a novamente e forou um sorriso.
    - Mas eu no estou aqui atrs de vingana. No hoje: s quero me
despedir.
    - E  isso que vamos fazer  ele retribuiu o sorriso.
    Ana segurou na mo do garoto e juntos caminharam sob o sol da
tarde at a antiga casa. Ana no tinha mais medo. Ela se lembrava ainda
da voz, mas ela no lhe causava mais pavor, pois sabia que aquilo foi
apenas um truque. O mesmo truque usado por Ian, mas no para assust-
la e sim para lhe fazer feliz.
     - Sabe, durante muito tempo eu passei a ter medo do vento. Uma
simples brisa j me deixava nervosa e uma ventania me apavorava
completamente. Demorei muito at perder esse medo. Engraado que
quando eu o senti daquela vez em que...
    Ana parou de andar de repente.
    - O que houve?  Ian parou ao seu lado
    As expresses de Ana mudaram rapidamente. Da surpresa, para a
dvida, da dvida para a raiva, da raiva para a satisfao. No fim, ela
olhou para Ian com um sorriso incrdulo.
    - Foi voc, no foi?
    - Eu o que? - o garoto foi pego de surpresa.
    - No dia do meu aniversrio? Quando eu dei um flagra em Lucas?
    Ian revirou os olhos. Culpado.
    - Voc me guiou at l com o Mensageiro.  essa parte no era uma
pergunta.
                              ~ 339 ~
    - Confesso que no me orgulho,  assumiu  mas meu cime e minha
raiva por ele me fizeram fazer isso. Eu queria tanto voc naquele
momento e ver que quem te tinha no estava dando o devido valor, me
fizeram cometer essa loucura. Eu devia imaginar que voc entraria em
pnico ao escutar mais uma vez o Mensageiro.
    - Mas eu no fiquei com medo  Ana o corrigiu.
    - E isso foi o mais estranho  ele riu incrdulo  No sei como voc
no saiu correndo. Infelizmente eu s pensei nessa possibilidade depois
de fazer. Que bom que voc no se assustou  ele voltou a encar-la 
Mas por qu? Porque voc no correu naquele dia? Porque confiou em
mim? Digo... em minha magia.
    - No sei  respondeu sinceramente  acho que no fundo eu sabia que
as vozes eram diferentes. A de quando eu era criana queria me destruir,
mas a sua queria me salvar. No sei como, mas pude sentir a diferena.
    - Mesmo assim isso no justifica o que eu fiz. Desculpe.
    - Mas eu no te culpo.  acrescentou Ana rpida  voc me ajudou,
abriu meus olhos. Ultimamente voc tem feito muito isso  acrescentou
fazendo o garoto sorrir sem graa.
    Ana no queria mais constrang-lo e resolveu continuar andando em
silncio. Ela s queria confirmar uma coisa que j sabia e agora
conseguiu.
    Estava feliz. Gostou de saber que Ian sentia cimes dela. Isso a fazia
se sentir bem, querida. Engraado, refletiu consigo mesmo. Ele leva um
tiro por mim, mas saber que sente cimes me faz acreditar mais no seu
amor.
    Continuaram a andar. Uma feliz demais com seus devaneios e outro
constrangido demais para puxarem algum assunto, quando finalmente
chegaram ao que antes era a confortvel casa de Teresa e Samanta. O
lugar havia sido deixado de lado. Ningum pareceu mostrar interesse
pelo terreno e os escombros continuaram iguais h anos atrs, com a
nica mudana  que o mato havia crescido bastante mesclando a
natureza naquele cenrio de destruio.
    Ficaram ali, parados, contemplando a paisagem. Ana deixou a
emoo inflar em seu peito enquanto Ian aguardava que ela estivesse
pronta para falar. Imagens do passado vieram  tona, muitas de uma vez
e demais para qualquer ser humano conseguir assimilar.
    Ana sentia como quando Ian havia lhe demonstrado O beijo. As
lembranas vinham rapidamente, permitindo a Ana no mais do que uma
leve espiada naqueles tempos to felizes. Mesmo estando no local da
morte, o dia do assassinato foi a nica lembrana no despertada. Havia
                               ~ 340 ~
pouco tempo para ficar ali e ela no queria perder tempo com uma
memria que j ocupou tanto tempo em sua vida.
    - Eu vivi muitos bons momentos aqui - murmurou para Ian.
    - Sei que sim. Por isso queria tanto que voc viesse aqui.
    - Engraado  ela comentou  Tantas lembranas e nenhuma
referente aquela noite.
    - Que bom! - exclamou o garoto  No  bom guardar coisas tristes.
    - Mas  difcil se lembrar de coisas positivas quando sentimos
saudades.  ela se perguntou se ele entenderia o duplo sentido de sua
frase.
    - Eu sei, mas se prender a coisas ruins no ajuda. Tudo termina um
dia, todos se vo. Tentar lembrar as coisas boas no trs ningum de
volta, mas ajuda a aliviar a tristeza.  ele tinha entendido e estava
rebatendo.
    Ana desistiu de discutir. Ela tentava fazer uma ligao da despedida
de suas tias com a que Ian queria for-la afazer, mas o garoto rebatia
muito bem. Ento, ela entrou nos escombros. O fogo realmente havia
devorado tudo e Ana no conseguia reconhecer muito pouco do que fora
antes. A nica coisa que a fazia reconstruir aquele local como a casa de
suas tias, eram suas lembranas.
    As brincadeiras, as histrias, o carinho que recebia.
    Ian estava logo atrs dela adentrando os diferentes cmodos da velha
casa. No havia mais paredes ento ela conseguia ver por onde ele
andava. E perguntou-se ele tentava encontrar pistas sobre o assassino,
mas no conseguia imaginar que tipo de pistas aquilo deixaria.
    Aqui foi o lugar onde tudo mudou. Nesse lugar, uma garota cheia de
sonhos e fantasias se tornou uma adolescente descrente e solitria. Foi
aqui que minha vida deu uma guinada para trs. Foi aqui que comeou
o processo de transformao, onde eu tive que passar depois por
inmeros especialistas, a fim de me curar.
    Mas tambm... lembrou-se. Foi aqui que marcou o inicio de uma
histria nova. Uma histria que me levaria de encontro ... ele.
    Ian voltou pra junto da garota e se surpreendeu ao ver que ela o
fitava.
    - O que foi?  perguntou meio sem jeito.
    - Nada.  disse emocionada  S estou pensando.
    - Posso saber em que?
    - Claro  ela deu de ombros  Estava pensando em como nossos
caminhos se cruzaram.  e ergueu os braos para o local  comeou aqui.
    Ele ficou um tempo calado at finalmente entender.
                              ~ 341 ~
    -  verdade. - disse enfim - Esse ser realmente deu uma guinada em
nossas vidas.
    - E o que voc diz dessa guinada?
    - Como assim?
    - Foi positiva ou negativa?
    - Pra mim ou pra voc?
    - Para ns.
    - Bem, - ele revirou os olhos a procura da resposta  No consigo
dizer que foi negativa. Embora quisesse.
    - E porque voc acha que deveria dizer que foi negativa?
    -  s olhar para os fatos. - disse - Se isso no tivesse acontecido voc
no perderia suas tias, no teria de passar por todo um tratamento que te
deixaria arrasada. Voc provavelmente seria uma maga feita a essa altura
e com certeza sua vida seria melhor.
    Ana tinha que concordar com o que ele disse. Muita coisa ruim
aconteceu, mas gostava de pensar que tambm lhe aconteceram coisas
boas. O garoto  sua frente era uma delas. Resolveu no entrar nesse
assunto ainda.
    - E quanto a voc?  ela perguntou.
    - Bem, - disse hesitante - Voc acabou adiando todos os meus planos
de vida. Voc me fez amar de novo, voc me fez sentir querido de novo.
Mas acima de tudo, voc me fez querer viver de novo.
    Ana estranhou o tom de voz dele.
    - Voc fala com uma conotao negativa.
    -  que no meu caso . Morrer seria a coisa mais decente que eu
poderia fazer, mas voc me impediu.
    - Talvez porque no seja a sua vez de partir.
    - Minha vez de partir foi h trezentos anos. - ele lembrou - Mas eu
burlei as regras e permiti que muito sangue inocente fosse derramado. - e
suspirou parecendo cansado de ter de explicar a mesma coisa - No
mereo viver, Ana. E s voc no consegue enxergar isso.
    - Eu ainda digo que no era a sua hora. - insistiu mordendo o lbio
inferior. Odiava quando ele falava assim - Talvez todas essas suas vidas,
s o estivessem lhe preparando para essa  ela se surpreendeu com a
sabedoria que parecia sair da sua voz  Talvez voc no pudesse morrer
sem viver como Ian. Sem descobrir que no  um monstro.
    - Mas eu sou um monstro  e argumentou  Tenho um currculo
extenso que mostra todos os que eu j matei para provar.
    - E tem outro que mostra quantos voc j salvou.  contra-
argumentou.
                                ~ 342 ~
    - Eu no entendo  ele comeava a se exaltar  Todos me vem como
monstro. Todas as pessoas a quem conheci viram o monstro em mim,
mas voc se recusa a enxergar. Por qu?
    - Porque no h monstro para enxergar. Porque a verdade no  que
eu no enxergue e sim que eu enxergo melhor que os outros. Eu consigo
ver melhor que os outros. Eu te conheo
    Ian ficou em silncio e Ana se odiou por dentro. No era isso que ela
queria dizer. Essa era a chance perfeita para falar o que estava a muito
tempo engasgado. O que ela deveria ter dito a noites atrs quando ele
declarara seu amor por ela, o que ela deveria ter dito na manh de hoje
quando ele perdeu por um segundo todo o controle disse as palavras eu te
amo sopradas ao vento.
    Porque eu te amo, era isso que ela devia ter dito, mas a sua covardia
no permitiu.
    - Eu no entendo  ele repetiu balanando a cabea.
    Ficaram em silncio mais um tempo. Uma eternidade em um
segundo.
    - Quer fazer mais alguma coisa?  ele falou enfim com os olhos no
cho desistindo do assunto e Ana percebeu mais uma vez que deixara a
oportunidade escapar.
    - S uma  e saiu da casa.
    Depois, voltou e deixou um buqu improvisado no cho dizendo um
ltimo adeus. Eles saram de volta  casa do av. O sol ia se despedindo
no horizonte, deixando um cu laranja que aos poucos ia escurecendo.
Seguiram seu caminho em silncio, assim como na ida. Um silncio
constrangedor, que fez Ana ficar se perguntando se Ian sabia o que ela
queria ter dito h horas atrs.
    Ele saberia que ela o amava? No. Ela havia destrudo essa crena
quando disse que o beijo que havia lhe dado fora apenas fruto de
carncia. Na poca, ela acreditava nisso, mas agora sabia que no era
verdade. O que ela tinha era medo de dizer eu te amo pra ele. O que
aconteceria quando finalmente contasse? Quando finalmente declarasse
seu amor?
    Ana sentia a Roleta Russa girar sempre que refletia sobre essa
deciso, pois, assim como poderia significar o ato libertador que faria Ian
definitivamente desistir de ir embora, poderia ser o catalisador de sua
fuga. Tinha medo de j saber a resposta.
    Ela conhecia o medo que Ian tinha dela se apaixonar por ele. E por
isso que tentava fazer o mximo para que ela ficasse bem em sua
                               ~ 343 ~
ausncia. Para que ela no sentisse a sua falta, mas j era tarde. Tarde
demais.
   Ana se assustou quando percebeu que j tinham feito todo o trajeto da
casa de suas tias at a casa de seus avs. Tinha se esquecido como as
duas eram prximas. Quando viu seu av na sala, Ana se lembrou que
ainda faltava aproveitar isso em sua viajem. Na manh, seguinte voltaria
ao Rio de Janeiro e tinha que dar ao seu av e a ela mesma esses
momentos juntos.
                              ~ 344 ~
   45  O caador de magos.
    Rauch socava a mesa esbravejando palavres.
    - Que inferno! Como falharam?
    Apesar de toda a fria do homem e do fato de ele estar naquele
momento socando a sua mesa, Cris no se demonstrou temeroso. Ele
continuava calmamente mexendo em seu computador.
    - Pelo que me informaram senhor, havia outro mago no local.
    - E porque no o abateram tambm? No so treinados para isso?
    - Sim, mas eles no haviam levado equipamento para enfrentar um
mago daquele tipo. Pelas poucas mensagens que me enviaram aquele
parecia ser um guerreiro e tanto. - continuou com seu tom de voz
profissional.
    - Inferno!  Rauch comeava a tentar manter a calma  No fazia a
menor idia de que ainda havia desses em Trs Coraes. Pra mim
aquele lugar estava livre dessa peste.
    - Todos pensavam assim, senhor - respondeu Cris.
    - Droga!  Apesar de ainda gritar, comeava a se sentir mais calmo 
Ento eu devo presumir que esse garoto em breve estar aqui no Rio, no
?
    - Quanto a isso eu j no tenho certeza  ele abriu uma tela no
computador enquanto falava  Estava olhando as ltimas transaes dele
e vi que esse ngelo usou seu carto de crdito para comprar uma
passagem de nibus, mas no para o Rio de Janeiro. - completou - Ele
est indo para So Paulo.
    - So Paulo? Mas o que diabos ele estaria fazendo em So Paulo?
    - No sei senhor. Pode ser um truque para nos distrair, agora que sabe
que est sendo caado.  sugeriu Cris.
    - Talvez. Ou...  ele comeou a refletir.
    - O que?
    - Talvez ele deva estar recrutando mais gente. Mais gente da laia dele.
    - Como assim? - Cris parecia sinceramente intrigado.
    - Com o contato que tive com os administradores daquela parquia no
centro, soube que esses tais Iluminados possuem algumas cedes em So
Paulo.
    - Entendo. - refletiu Cris - Mando pessoas intercept-lo?
    - Claro.  concordou Rauch  Apesar dele jamais conseguir chegar
aqui a tempo, no quero que alerte os demais da laia dele. At porque
pretendo terminar meu trabalho com o Frade e o bispo e amanh mesmo
                               ~ 345 ~
devo t-los eliminado. Depois partirei para caar os demais membros da
Ordem.
    - Entendo  o garoto voltou-se para seu computador. - desta vez no
vou medir esforos.
    - Excelente  felicitou - Vou me preparar para o interrogatrio de
amanh. Mais algumas informaes e tanto o bispo quanto o frade sero
dispensveis.
    Rauch se dirigiu a porta de sada quando a voz de Cris o fez parar.
    - Posso lhe fazer uma pergunta, senhor? Pessoal?
    Rauch no entendeu. No se lembrava de Cris interessado na vida das
pessoas. Geralmente seu relacionamento com os demais colegas de
trabalho no atravessava a barreira do profissional.
    Como no recebeu respostas, Cris perguntou mesmo assim.
    - Sabe, - disse se virando pela primeira vez para encarar o homem -
todos ns aqui fazemos esse trabalho por que acreditamos que estamos
fazendo um bem a todos nos livrando desses magos. Mas o senhor 
diferente. Sei que no  da minha conta, mas acho que aconteceu alguma
coisa com o senhor que o fez odiar tanto eles. Da para ver isso pela
maneira como voc fala. Estou certo?
    - Voc tem razo  falou o homem  no  da sua conta.  e saiu.
    Andando pelos corredores, Rauch no conseguiu conter a raiva que
sentia da abordagem de Cris. De fato o garoto havia acertado na mosca e
Rauch sentia seus pensamentos lhe fazendo voltar no tempo. Numa
poca em que ele morava com a famlia em Niteri. Numa poca quando
ainda era conhecido como Rafael e no como Rauch, nome que adotou
quando entrou para os Inquisidores.
    Naquela poca, ele podia se considerar uma criana feliz. Tinha
dinheiro, pais que o amavam, amigos. Nada lhe faltava at que tudo lhe
foi tirado. Rauch ainda se lembra perfeitamente do dia em que estava
dormindo tranqilamente em casa quando ouviu o som de um grito. A
voz lhe causou um profundo terror quando reconheceu ser de sua me.
    Se lanando para o cho e correndo o mximo que pde, conseguiu
abrir a porta do quarto de seus pais a tempo de ver a cena que mudaria a
sua vida.
    Alm de seu pai e sua me, havia uma terceira pessoa no quarto.
Algum que Rafael nunca tinha visto na vida. O homem era alto e
magro. Seus cabelos eram mal cuidados e suas roupas pareciam
esfarrapadas, mas o que mais assustou Rafael no foi a sua aparncia e
sim o que ele estava fazendo.
                              ~ 346 ~
    Inclinado prximo de sua me, ele segurava uma garrafa prxima de
seu pescoo onde uma fina linha rubra caia de uma fenda feita na jugular
da mulher, at o interior do vidro. Ele se lembra de que ficou paralisado
por interminveis segundos. Nesse tempo, o homem percebeu que tinha
um espectador, mas isso no o impediu de continuar seu ato. Parecia
apenas que ganhava mais um incentivo para continuar.
    Lentamente o sangue enchia o recipiente. Rafael olhou para o lado da
me se perguntando por que seu pai no fazia nada, quando notou que ele
tambm tinha um corte no pescoo. Sua pele estava plida e ele tinha os
olhos esbugalhados na direo do garoto.
    Quando finalmente conseguiu sair da inrcia, Rauch disparou contra
o agressor e lhe distribuiu uma serie de socos, que em nada afetaram o
homem. Apesar de sua aparncia frgil, ele se mostrava bastante
resistente a surra e com um simples bofeto, o garoto foi lanado contra a
parede e ali caiu inconsciente.
    Quando acordou, pensou que tudo no passava de um sonho, mas ao
abrir os olhos e se ver na cama de um hospital com alguma coisa
imobilizando seu pescoo, a dura realidade bateu nele como um soco no
estmago. Deu seu depoimento aos policiais que vieram lhe visitar e eles
atriburam a culpa a um manaco qualquer. Desde aquele dia, mesmo
tendo apenas treze anos, um desejo mortal de vingana brotou no seu
peito como uma semente cruel. Um desejo que cresceria dentro dele e
criaria razes em seu peito pelos prximos doze anos que se seguiriam at
chegar  vida adulta.
    Naquele dia, Rafael j sabia o que queria ser quando crescer. Seria
detetive. Algum que caaria manacos, como o que matou seus pais. Ele
se vingaria colocando no s o assassino de sua me, mas todos os
manacos na cadeia. Depois de duas semanas, quando recebeu alta do
hospital ele foi levado a um orfanato.
    Seus bens seriam congelados at que completasse a maioridade e
como no tinha outros parentes  seus pais nunca falaram deles  teria de
passar o resto da sua juventude ao lado de outras crianas sem lar. No
orfanato onde esteve, no pde dizer que teve vida. Ele estudava muito e
fazia exerccios fsicos dirios almejando um dia ser policial, mas no
conseguia fazer amizades. Isso se devia mais por culpa dele mesmo do
que pelos outros.
    Rafael no conseguia se enturmar, principalmente quando algum
tentava puxar assunto sobre seus pais. Ele era muito irritadio e sempre
arrumava briga. Com o tempo os outros garotos aprenderam a respeit-lo
assim como a tem-lo.
                               ~ 347 ~
    E foi quando completou quinze anos, que finalmente recebeu uma
visita que marcaria a segunda mudana em sua vida. Ele estava em seu
dormitrio lendo um exemplar de A Arte da Guerra que lhe fora
emprestado por um dos professores, quando uma das responsveis pela
arrumao lhe chamou, avisando que tinha uma visita importante a
receber.
    Sem entender quem ia querer lhe visitar depois de tantos anos, Rafael
foi curioso at a sala de visitas. Chegando ali, encontrou apenas um
senhor bem vestido, aparentando ter mais ou menos uns cinqenta anos
de idade, que lhe aguardava. O homem usava um terno azul marinho e
tinha os cabelos e a barba rala muito brancos. Sua pele era morena e seus
olhos cinza. Tinha um porte atltico, mostrando que mesmo depois da
velhice, no abandonara os exerccios.
    Rafael ficou parado olhando curioso para seu visitante inesperado.
    - Voc deve ser o Rafael.  disse o homem com um sorriso - Porque
no se senta ao meu lado?  ele dava tapas no lugar vago no sof onde
estava  Tenho uns assuntos a tratar com voc que acredito serem de seu
interesse.
    Sem falar nada, o garoto se aproximou mantendo certa distncia ao se
sentar. Seu olhar ainda mostrava muita desconfiana.
    - Pelo visto voc no est muito interessado em bater papo e deve
estar se perguntando o que trouxe um velho como eu at aqui.
    Rafael se limitou a balanar a cabea confirmando.
    - Bem, ento vou direto ao assunto. Meu nome e Evandro Martins e
eu comando um internato especial para jovens e gostaria que voc fizesse
parte de nossas fileiras de aprendizagem.
    Rafael continuou em silncio.
    - Ns recrutamos jovens com certos... potenciais para receber ensino
gratuito em nossas instalaes e voc foi selecionado Rafael. Voc deve
estar perguntando o que nos chamou a ateno para voc  disse
rapidamente ao ver a boca do garoto comeando a se abrir  Pois eu digo
que no estamos atrs de voc por causa de seu comportamento, que no
 dos melhores, nem por suas notas, apesar de serem muito boas.  deu
um suspiro antes de continuar.  O que nos chama a ateno  a sua
motivao meu jovem.
    Ele no entendeu e Evandro continuou:
    - Sabemos sobre seus pais.  disse simplesmente.
    A expresso de Rafael passou da dvida para a raiva. J ia fazer
meno de se levantar e sair quando o homem falou:
                              ~ 348 ~
    - E se eu disser que lhe daremos a chance de se vingar? - incitou - Se
falarmos que sabemos quem foram e quem so as pessoas capazes de
tamanha monstruosidade e lhe dermos condies de combat-las?
    Agora o garoto tinha toda a sua ateno para o homem.
    - Eu sei o que voc pensa Rafael. Que a morte de seus pais foi fruto
de um mero psicopata. Mas eu digo que no. - completou  Infelizmente,
se tornar policial no vai ajud-lo a combater o tipo de gente que fez
aquilo com seus pais.
    - Como o senhor sabe?  era a primeira vez que ele falava e a dureza
em sua voz espantou o homem.
    - Sei, porque essa  minha especialidade  disse mantendo o tom
casual.  Sei por que passo minha vida caando gente como essa. Sei por
que, como voc, pessoas assim me tiraram coisas, coisas importantes.
    Evandro parecia ter se emocionado um pouco, mas se recomps num
segundo para continuar:
    - Minha escola especial  responsvel pelo treinamento de pessoas
que assim como ns, esto assustados com essa ameaa que nos ronda e
que querem fazer algo a respeito.
    - Mas que tipo de ameaa  essa que voc est falando? At agora
voc no me disse o que matou meus pais.
    O homem deu um pigarro, provavelmente desaprovando o tom
autoritrio de Rafael, e depois lhe respondeu:
    - Se eu lhe dissesse agora, no acreditaria em mim. No iria lhe
culpar, afinal, voc no teve nenhuma experincia muito fantstica com o
assassino.  e pensou um pouco  Entenda apenas que existem pessoas
ligadas a uma espcie de... seita. Uma grande seita. Imagine o assassino
de seus pais assim.
    Era fcil para ele imaginar isso, era a teoria da policia tambm ao
julgar o assassinato ser um tanto ritualstico.
    - Isso eu j imaginava. - respondeu.
    - Mas o que voc no imaginava era que esse cara no  um mero
doido varrido e sim um membro de algo muito maior, organizado e
perigoso.
    Rafael ficou em silncio.
    - Bem, eu no posso te provar nada aqui, mas estou-lhe convidando
para vir  nossa escola. J falei com sua diretora e ela autorizou uma
visita. Se voc no gostar, no precisa aceitar, embora eu acredite que
no desperdiar essa oportunidade. Eu j recrutei outros garotos como
voc e todos garantiram para si um excelente futuro, pergunte a sua
diretora. O que me diz?
                               ~ 349 ~
    Rafael no tinha muito que pensar.
    - Acho que uma visita no ser ruim.
    - Assim se fala!  o homem lhe deu uma tapinha no ombro.  Vamos!
    E saram do orfanato e foram de carro para um prdio no Centro de
Niteri.
    - Aqui  a escola?  Perguntou vendo o prdio que parecia um
edifcio comercial.
    - No  riu-se o homem  Estou aqui apenas para lhe mostrar sobre o
que lhe falei. Mostrar-lhe os assassinos de pessoas como os seus pais.
    Entrando, Rafael se sentiu numa empresa das que aparecem em
filmes. O mrmore branco predominava se contrapondo aos moveis
cinzas e as aparelhagens modernas que enchiam o lugar.
    Ali havia um balco onde uma recepcionista cumprimentou Evandro
e eles seguiram at o elevador. Enfiando uma chave num buraco logo
abaixo do painel com os andares, Rafael sentiu o elevador descendo
muitos andares antes que as portas se abrissem mostrando um enorme
corredor que deixava o do andar superior no chinelo.
    Vrias portas se passaram enquanto Rafael e Evandro passavam. Em
algumas partes da parede havia janelas de uns seis metros de largura e
Rafael se permitiu dar uma espiada. Ali, ele viu um laboratrio numa
sala e em outra uma espcie de sala de tiro ao alvo, onde homens
vestidos com uma roupa preta da cabea aos ps treinavam com uma
espcie de culos na cabea.
    Rafael percebeu que estava ficando pra trs e acelerou o passo para
alcanar o homem, que apesar da idade, andava bem rpido. No fim do
corredor havia uma porta por onde eles entraram. Ali, uma sala espaosa
com um grande computador deixou o garoto de queixo cado e um
homem de jaleco branco que se mantinha sentado, levantou-se para
receb-los com um sorriso.
    - Ento esse  o recruta?  disse olhando para Rafael
    - Se Deus quiser, sim  riu-se Evandro. E depois se virou para Rafael
 Esse  Miranda e ele vai lhe explicar melhor sobre o que conversamos.
    Antes que o garoto pudesse falar algo, o homem j tinha se sentado
na frente do computador ignorando seu cumprimento. A mo do garoto
ficou estendida  toa e ele a recolheu de volta.
    - Bem Rafael  disse clicando numa tecla  Voc deve reconhecer
essa cena.
    Na tela gigante, mostrou-se uma imagem que causou um frio na
espinha do garoto. Nela, um homem adulto, diferente do que ele vira h
                              ~ 350 ~
dois anos, segurava o pescoo de uma criana enquanto sangue vertia de
um corte em seu pescoo.
    - Lembro sim  disse trincando os dentes.
    - Ento, como voc v, o sujeito est praticando uma espcie de ritual
com o sangue dessa criana, que ele vai usar depois, sabe-se l pra que.
Provavelmente num encantamento mgico.
    - Esse homem  diferente do que atacou meus pais  falou Rafael.
    - Sim, mas no pense que eles so os nicos. - respondeu Miranda -
Junto com eles existem vrios. Uma centena ainda eu diria.
    Rafael ficou surpreso. No imaginava que houvessem tantos malucos
que matassem suas vtimas para roubar-lhes o sangue.
    - Ento est me dizendo que esse cara faz parte de uma espcie de
seita que acredita ser capaz de realizar magia com o sangue das pessoas?
- perguntou incrdulo.
    - Infelizmente no s acham Rafael,  corrigiu Miranda  eles so
realmente capazes disso.
    O garoto deu uma risada de escrnio, mas quando olhou a expresso
seria dos homens, calou-se.
    - Isso no  possvel  falou acreditando que estavam brincando com
ele.
    - Infelizmente .  falou Miranda  Felizmente, poucos sabem disso.
Se todos soubessem seria um caos, mas voc assim como ns foi
escolhido para combater gente assim  e ao olhar o rosto ctico do garoto
ele concluiu  Mas no precisa acreditar em mim agora. Deixe-me lhe
mostrar mais umas coisinhas
    As prximas passagens foram um estupro  objetividade do garoto.
Vrias cenas, algumas at em vdeos, mostravam pessoas capazes de
fazer as mais incrveis coisas: voar, lanar fogo, conjurar objetos, entre
outras coisas. As imagens eram perfeitas demais. Difcil crer existir
algum com tamanho talento para cri-las em computador.
    - Como voc pode ver,  narrou Miranda  existem pessoas em nosso
planeta capazes das coisas mais fantsticas. Com certeza algumas coisas
parecem bonitas na primeira olhada, mas no se engane. Elas so
terrveis. Elas criam o caos, elas so egostas e atrs de seu poder est o
sacrifcio de inocentes. Inocentes como seus pais.
    Os dentes de Rafael trincaram mais uma vez.
    -  isso que combatemos Rafael. Pessoas assim  agora a imagem
mostrava os atos mais terrveis praticadas por magos. Pessoas sendo
queimadas vivas, outras sofrendo lavagem cerebral. E algumas, como os
pais dele, perdendo seu sangue em nome de rituais. Essas ganharam um
                               ~ 351 ~
espao especial de tempo na tela. - Esses so Magos, garoto. Eles so
aberraes que vo contra as leis da natureza.
    Com o tempo, Rafael foi perdendo o ceticismo. Logo ficou espantado
com tudo aquilo. Quando saiu dali, j tinha a deciso tomada. E uma
semana depois foi enviado para Braslia onde ficava academia. Diferente
do orfanato, ali ele fez muitas amizades. Os outros internos eram como
ele, pessoas que foram brutalmente lesados por aqueles seres.
    Rapidamente ele foi ganhando destaque dentro da Sociedade e
quando completou dezoito anos, foi chamado para servir em misses.
Ali, tambm se destacou e acabou se tornando lder de tropas com apenas
vinte e dois anos. E depois, comandante de unidade aos vinte e nove e
chegou agora  lder de base aos trinta e um.
    Ele ainda se lembra do feliz dia em que capturaram o assassino de
seus pais. Ele havia ganhado o presente de poder ficar sozinho com o
monstro numa sala de interrogatrio. Ali, no se  necessrio narrar os
acontecimentos. Ele ainda se lembra do homem pedindo perdo pelos
seus crimes, chegando ao absurdo de alegar que estava possudo por um
demnio na noite do assassinato
   - Demnios  bradou Rauch com sarcasmo, voltando  realidade -
Todos alegam isso.
   Para os magos existe uma barreira que os separam, onde se dividem
os magos do bem, preocupados apenas em manter suas tradies e os do
mal, que so sedentos de poder e compactuam com demnios a fim de
alcan-los.
   Para Rauch, todos eram aberraes e deveriam ser dizimados. Estava
fazendo isso naquele momento. Com as informaes conseguidas pelo
bispo e pelo frade da Igreja da Iluminao, acharia toda uma rede de
membros da Ordem dos Iluminados. Mal podia esperar para completar a
misso.
                              ~ 352 ~
   46  ltima noite.
    Faltavam cerca de dez horas para que Oscar viesse buscar os dois.
Eram nove da noite e Ana decidiu passar seus ltimos momentos em
Trs Coraes com os seus avs. Durante um tempo, ela ajudou a av a
tomar banho e se arrumar e, depois, jantaram juntos e passou o resto da
noite na sala com o av vendo televiso.
    Infelizmente, aquela viagem tinha durado bem pouco, mas o que
confortava Ana era saber que era a primeira de muitas outras. No
agentaria mais ficar muito tempo longe dali. Ainda mais agora que
sabia sobre as fadas. Poder cuidar de uma coisa que suas tias se
dedicaram tanto lhe faria um bem enorme.
    O av se recostava em sua poltrona enquanto Ana e Ian estavam
sentados no cho com as costas encostadas no sof da sala. A garota ia
passando os canais  procura de algo interessante, quando passou por
uma notcia dizendo que mais dois jovens haviam desaparecido
misteriosamente. A notcia fez brotar o nervosismo em Ana ao se
lembrar do plano de Ian para fugir. Nem um dos dois comentou nada
sobre a reportagem. Foi Slvio quem o fez.
    - Esse Rio de Janeiro est muito perigoso  ele disse com
desaprovao. Ana sabia que a violncia foi o motivo para Slvio nunca
ter se mudado para perto da filha e o que o faz evitar visitas a neta. O av
morre de medo de assalto.  Porque vocs no vm morar aqui por uns
tempos? At essa onda parar.
    - Eu adoraria vov, mas estou no meio do ano na escola e meus pais
no podem largar o servio.
    - Mas eu ficaria bem mais tranqilo se vocs estivessem longe desse
caos.
    - Eu sei que sim - concordou Ana com um sorriso - por isso eu te
amo.
    O rosto de Slvio comeou a corar e ele tentou mudar de assunto para
evitar que os outros percebessem.
    - O que est passando de bom a?
    Ana continuou viajando pelos canais at que parou em um filme que
parecia ser interessante e acabou optando por ele mesmo. Era um filme
de suspense chamado A visita, que narrava uma histria de assassinato de
uma jovem no Brooklin aps ter recebido uma visita misteriosa e a
tentativa de um amigo de conseguir solucionar o caso.
    O filme foi ficando interessante at que seu av se levantou.
                                ~ 353 ~
    - Bem jovens, j so onze e isso j  demais pra mim. No se
esqueam que amanh seu pai vem buscar vocs cedo Ana.
    - Tudo bem  garantiu Ana  S vamos esperar acabar o filme.
    - Mas acho que o garoto no vai agentar muito no. - comentou
olhando para Ian.
    Ian riu.
    - Mas tenho  respondeu  Quero saber quem  o assassino.
    Ana olhou para ele e viu que o av estava certo. A cara de Ian
mostrava que ele estava realmente com muito sono.
    Quando o av saiu, ela comentou:
    - Voc est mesmo cansado, no?
    O garoto deu um sorriso fraco e respondeu:
    - Gastei muita energia hoje. Primeiro contra o Iluminado e depois
contra os Inquisidores. Estou um pouco esgotado.
    - Por que no vai dormir ento?
    - Porque quero ter certeza que Sophie  a assassina.
    Ana olhou para o filme e depois para Ian.
    - Voc acha que foi ela? - sua voz mostrava descrena  Mas ela est
ajudando tanto o Peter a encontrar o assassino. E ela tambm no tem um
motivo real para ter feito aquilo.
    -  isso mesmo. Ela ajuda demais  e bocejou  Provavelmente ela
esta tentando mesmo  fazer o Peter seguir por um caminho errado e se
safar.
    - Mas e que motivo ela teria pra matar a amiga?
    - No sei. Isso vai se revelar no fim do filme. - garantiu
    Ana continuou sem levar f. Pra ela o assassino era Brent. Ela era o
ex-namorado e apesar de parecer bom moo ela sentia que ele ainda tinha
cimes da vitima. Ficaram acompanhando o filme por mais um tempo
em total ateno e foi quando Ana pensou em comentar com Ian uma
cena, que sentiu a cabea dele caindo em seu ombro.
    Por um segundo ela estremeceu com o contato, ento percebeu que
ele tinha os olhos fechados.
    - Ian? - uma respirao pesada foi o que ela ganhou em resposta. Ele
estava dormindo pesadamente em seu ombro. Ana sorriu para ele quando
percebeu que e a sua cabea escorregava perigosamente at o cho.
    Rapidamente, ela a segurou com delicadeza a o apoiou em suas
pernas onde ele se ajeitou sem acordar.
    A garota ficou fazendo cafun em sua cabea enquanto acompanhava
o filme, mas sua ateno agora estava dividida entre o que se passava na
TV e expresses tranqilas do garoto dormindo e foi quando chegou 
                              ~ 354 ~
concluso de que gostava mais de Ian assim, adormecido, pois alm de
parecer mais relaxado, tinha outro ponto a favor.
    Pelo menos dormindo ele no foge de mim. Se estivesse acordado,
Ana tinha a certeza que o garoto teria se levantado com o carinho que ela
fazia e se afastado. Recordou-se do sitio, quando dormiu agarrada a ele.
Ela sabia que se ele tivesse acordado naquele momento, teria a
empurrado e fugido dela. Pelo menos no meio dos sonhos ele era menos
precavido.
    O garoto se mexeu um pouco ajeitando a sua posio e agarrando
com fora a coxa de Ana. Com certeza ele jamais faria isso acordado.
Pensou se divertindo com a idia. Ela comeou a acariciar o rosto dele e
depois passou a mo no brao onde sentiu as cicatrizes da batalha contra
o Iluminado. Lembrando-se da luta, foi quando comeou a sentir
vergonha de si mesma, por refletir sobre a sua participao no
acontecimento: ficar o tempo todo escondida atrs de alguma proteo
tampando os ouvidos.
    Ana ainda no se acostumara totalmente com esse novo mundo. A
mesma sensao de excluso que sentia antes de atravessar o Vu
permanecia com ela s que de forma diferente. Antes, ela se sentia
excluda por ser diferente, agora por se sentir intil. Intil, ela pensou
melhor na palavra. Mas era assim realmente que se sentia.
    Nos dois momentos em que suas vidas corriam perigo, ela s vez
ficar escondida atrs das rvores. Mais uma vez se lembrou de Catarina,
a primeira mulher que Ian amou e se perguntava como ele podia gostar
dela depois de conhecer aquela maga to poderosa e independente. Com
certeza se fosse ela quem estivesse com Ian na floresta, a luta teria sido
mais fcil. Eles poderiam ter lutado juntos, e vencido com mais
facilidade e sem cicatrizes.
    Com certeza ela no estava aos ps de Catarina e isso a martirizava.
Era mais como uma criana irritante, que sempre tinha de ser fiscalizada
e protegida enquanto torrava a pacincia dos adultos com suas perguntas
idiotas. Infelizmente, sentia que nunca tinha nada a oferecer em troca.
    Era sempre ele: ele a ajudava, ele a protegia, ele a ensinava. Onde
estava o retorno?
    - Eu s queria ser um pouco mais til para voc  ela sussurrava para
o garoto adormecido  Poder estar ao seu lado sem voc precisar me
proteger de tudo, sem que voc precisasse me proteger de voc mesmo. -
ela falava enquanto acariciava o rosto do garoto.
    Ana suspirou, sentindo o peito ficando apertado.
                               ~ 355 ~
    - Eu queria poder fazer alguma coisa por voc. Te dar algo do que
voc est me dando. Retribuir de alguma forma. Eu... - ela criou
coragem para terminar a frase  Eu te amo tanto.
    Mesmo com ele dormindo era difcil falar. Ainda tinha medo que ele
pudesse estar escutando alguma coisa.
    - Eu tenho que medo de que voc saiba disso e fuja de mim. Eu sei
que voc no quer que eu goste de voc, mas eu no escolhi isso.
Desculpe. - falava com mais nfase sem aumentar o tom de voz - Eu s...
queria que voc olhasse para mim e no me visse to frgil quanto sou.
Que voc no me visse fraca e incapaz de ficar ao seu lado. No quero
que voc pense que tem que me proteger de tudo. Queria que voc me
visse como uma igual, se possvel.
    Ela sentiu a emoo comear a se manifestar. Era bom poder botar
aquilo pra fora, mesmo com ele adormecido.
    Com os sentimentos aflorados, ela acabou colocando muita fora em
uma carcia, fazendo o garoto se mexer com o toque. Por um segundo,
ficou nervosa com a possibilidade de t-lo acordado, mas no fim, ele s
se mexeu um pouco coando a regio atingida como se fosse uma mosca
que tivesse pousado nele.
    Segundos depois, sua respirao voltou a ficar pesada.
    - Para quem tem uma ligao com os ces voc tem o sono bem
pesado  riu-se sentindo o aperto diminuir.
    Ento, depois de j ter dito tudo o que queria, resolveu aproveitar o
momento que lhe restava. Aquela era a ltima noite que passaria em Trs
Coraes e provavelmente a ltima que passaria to junto de Ian. Quando
voltassem ao Rio, eles no dormiriam mais juntos e ela no poderia se
aproveitar de sua sonolncia. Ainda teriam suas janelas, mas no seria a
mesma coisa depois de hoje.
    O filme acabou e no fim, Sophie era realmente a assassina.
    - Acho que no posso competir com sua experincia de cem anos -
comentou surpresa. Aconteceu exatamente como Ian havia falado e o
motivo do crime foi justamente cime. Parece que Sophie gostava do ex-
namorado da vtima e se martirizava lembrando que mesmo aps o
termino ele ainda gostava dela.
    Voc acha que as mulheres so to ciumentas a ponto de matar? -
comentou com Ian como se ele estivesse acordado.
    - Se fosse assim, ainda bem que Catarina est morta, - refletiu - Ela
me destruiria se pudesse ver agente aqui.
    - Gente, mas que coisa horrvel de se pensar  concluiu. Mas Ian nem
se quer se mexia.
                              ~ 356 ~
    Acho melhor dizer amanh que o assassino era o Brent. Sabia que o
amigo ia se vangloriar por ter acertado e era bom ele pensar que estava
errado s para variar um pouco. Se divertindo com a idia, desligou a
televiso e pensou em chamar Ian para irem para os quartos, mas se
lembrou que teria de dormir separado dele. Ento, olhou o tapete e,
vendo que era bem confortvel, pegou uma almofada e se alinhou ao seu
lado.
    - Boa noite  sussurrou para Ian roubando-lhe mais um beijo.
     Aconchegou-se para mais perto dele e ali fechou os olhos e mais
rpido do que queria, adormeceu.
                              ~ 357 ~
   47  Volta.
    Ana sente algum lhe balanando e, mesmo lutando contra o
despertar, sente que seu corpo comea a voltar para a realidade e aos
poucos ela se percebe no cho da sala de deu av com Emlia a
sacudindo.
    - Acorda menina  chamava a mulher  Vai tomar um banho. Imagina
se teu pai chega e lhe v dormindo aqui.
    - Que horas so?  disse numa voz meio confusa devido ao sono.
    - So cinco e meia.
    - Ento ainda falta muito pra ele chegar  reclamou.
    - Mas seu av tambm no vai gostar nada de v-los dormindo aqui. 
lembrou.
    Ana se levantou. Agora que se lembrava de ter passado a noite
dormindo com Ian no cho. Ambos se puseram de p sem mais
reclamaes e foram at os quartos. No seu, Ana tomou um banho, o que
lhe ajudou a despertar e desceu novamente.
    Em baixo, seu av j lia o jornal do dia.
    - Madrugou hoje, hein querida.
    - Acho que estou me acostumando  respondeu com um sorriso fraco
pelo cansao.
    Nesse dia, os dois tomaram caf e passaram as ltimas horas com os
avs de Ana. Pelas dez horas, o pai da garota chegou para busc-los e,
ficando apenas algum tempo, o suficiente para descansar, pegaram a
estrada novamente.
    - Como foi Ana? Se divertiu?  seu pai perguntou.
    - Melhor do que o esperado.  respondeu com sinceridade.
    - E voc Ian, o que achou?
    - Muito bom. Realmente o lugar  demais.
    - Que bom. Quem sabe no voltamos em breve.
    - Seria bom  Ana disse.
    Ficaram em silncio. O sono estava forte demais e Ana olhava para o
garoto e via que este estava to ruim quanto ela. Por um momento se
surpreendeu. Era comum ela acordar cedo com cara de zumbi, ele no.
    - Parece bem cansado - comentou.
    - Est to evidente assim? - ele deu um riso fraco.
    - Acho que voc est to ruim quanto eu  disse, sorrindo pra ele.
    - Nossa! - exclamou - acho que estou mesmo enferrujado - completou
baixo, apesar do pai dela estar usando seus habituais fones de viajem.
    -  por causa da luta com o Iluminado? - sussurrou
                              ~ 358 ~
    - A verdade  que faz muito tempo que no me exercito tanto. Ele me
fez gastar muita energia.
    - Deve estar ficando velho - zombou.
    - Possvel. Voc acha que uns cento e treze anos, aproximadamente, 
muito velho?
    - No - debochou - Est na flor da idade.
    - Obrigado.
    - Aquele mago era bem poderoso. - mudou o foco.
    - Muito - concordou o garoto - e era to jovem.
    - Acha que ele  como voc?
    - Como assim?
    - Igual a voc. Voc sabe. Um reencarnado.
    - Ah no!  descartou - Duvido muito disso. Essa mgica que eu usei
foi original. No sei de mais nenhum mago que a tenha descoberto. Acho
que era um prodgio mesmo.
    - Um prodgio? E ele pode chegar a ser to forte assim em pouco
tempo? - Ela se interessou. - Digo. Voc  muito mais velho que ele e
devia ser mais forte. - pensou com lgica.
    - No necessariamente. - ele corrigiu. Dava para ver que era difcil
admitir aquilo - Eu sou de fato mais experiente, mas no necessariamente
mais forte. Tenho alguns pontos fracos em relao a ele.
    Ana estava curiosa em saber, mas no achou delicado perguntar. Ian
percebeu seu interesse e continuou.
    - Bem. A magia  a arte de se controlar as energias, tanto do prprio
corpo quanto do ambiente em sua volta. Minha mgica  voltada ao
controle da natureza. Em especial do elemento gelo.
    Ele ficou pensado, provavelmente em como usar palavras simples.
    - E como eu te disse, magia tende a ir contra todas as leis da natureza
e nem mesmo ns magos, vamos contra as leis sem sofrermos
penalidades. Quando mechemos na realidade, ela se volta contra ns.
    - Como em Efeito Borboleta?
    - Exato  ele pareceu ter encontrado uma forma melhor de explicar
coma deixa dela   a Teoria do Caos. Lembra quando o personagem do
Ashton Kutcher, sempre que voltava no tempo para tentar mudar algo ele
acabava mexendo em mais coisas do que queria.
    - Lembro.
    - Ento  mais ou menos isso. No meu caso quando eu uso meu poder
de controlar o clima, tenho que tomar cuidado, para que a corrente fria
que eu conjurar no atinja demais o meio ambiente onde eu estou.
    Ele olhou pela janela por uns segundos como que se estivesse perdido
                               ~ 359 ~
em pensamentos.
    - Lembra quando eu convoquei aquela neblina?
    - Sim - ela j imaginava que tinha sido ele.
    - Ento. Aquilo foi uma pequena manifestao de meus poderes. Eu
podia ter convocado uma nevasca em cima dele, porm,  muito
arriscado. Eu poderia acabar mudando o ciclo de chuvas de Minas Gerais
com isso. E voc sabe que mais conseqncias poderiam isso acarretar,
pois eu j lhe expliquei antes. Voc entende, no?
    - Sim, voc no aceita perder e esta achando uma desculpa  brincou.
    Ele riu com vontade.
    - Bem, possivelmente. Mas, alm disso, eu tenho outro probleminha
contra mim.
    - Qual... - mas ela se calou entendendo do que ele estava falando.
    - A besta - ele se preocupou em falar mais baixo essa parte. -
Adrenalina de mais  uma das coisas que podem me fazer perder o
controle. Lembre-se que eu sempre tenho que me vigiar mais que as
pessoas normais.
    A garota concordou. Era engraado ouvir Ian falar assim. Tinha horas
que parecia que ele fazia uma tempestade num copo d'gua. Ela sabia
que era triste pensar assim. Era injusto talvez, mas ainda assim, os nicos
momentos em que sentiu essa besta que Ian tanto falava foi num breve
lampejo em seus olhos quando se beijaram, mas at ali no sentiu em
nenhum momento o perigo de que ele tanto a alertava.
    Ela tinha certeza que Ian era mais controlado agora do que como
Lucien e que poderia muito bem subjugar sua besta com mais facilidade.
Quem sabe ele nunca mais tivesse problemas com ela, afinal, nunca
perdeu o controle como Ian.
    - Sem falar que eu estou h muito tempo parado. - ele falou cortando
suas concluses - No tenho tido muita ao nessa vida. Como Ian tem
sido uma existncia calma e pacata. Estou muito fora de forma.
    Ana despertou com a voz de Ian. Tinha viajado em suas reflexes de
novo.
    - Voc est bem? - ele perguntou.
    - Sim - riu sem graa - s viajei.
    - Pensando em que?
    - Nisso que voc me disse - e pensou bem antes de falar - Sobre o
mago, o prodgio.
    - Interessada em ficar to poderosa quanto ele?
    - Um pouco - admitiu - mas acho que ser uma prodgio no  o
suficiente.
                               ~ 360 ~
    - Porque est dizendo isso? - ele ergueu as sobrancelhas.
    - Eu escutei o que voc conversou com Solange - ela sorriu amarelo -
Sobre uma tal de Valria
    Ian ficou em silncio.
    - Quem foi Valria?
    Ele respirou fundo antes de falar.
    - Valria foi uma aluna de Solange. Na verdade, a nica que ela j
teve.
    - E o que aconteceu com ela?
    - Enlouqueceu, se tornou uma Catica.
    Era a primeira vez que ouvia falar de um catico. Ian s tinha dado
uma passagem rpida sobre o assunto com ela antes.
    - E ela? E Solange? - Ana no tinha certeza se queria saber a resposta.
    - Teve de mat-la.
    - Ela matou a prpria discpula? - Ana se exasperou o que mereceu
uma reprimenda do garoto.
    - Eu me prontifiquei a fazer isso na poca, mas ela fez questo. - disse
com a voz inalterada - Dizia que era responsvel por tudo aquilo e por
isso ela teria de encerrar. - depois ele olhou pra ela - Ento no pense que
o problema  com voc. Solange ainda no se sente pronta para ensinar.
Acho at que esse papo de paixo que voc com certeza escutou. -
completou com um olhar torto - Acredito que seja apenas uma desculpa.
No sei, no cabe a eu julgar.
    - Entendo - murmurou - Acho que isso tambm  um pouco de culpa
minha.
    - Por qu?
    - Bem, ela me conheceu quando me mudei pra sua rua. Ela viu como
eu estava abalada. Provavelmente no acreditou que eu fosse capacitada
para esse novo mundo.
    Ian ficou em silncio. Provavelmente ele concordava com ela, mas
no queria falar e acabar a magoando.
    -  uma pena  ele disse  Solange tem grande potencial em ensinar.
Todos falaram o belo trabalho que fez com Valria, mas ela no podia
controlar as decises da pupila. No foi culpa dela o que aconteceu, mas
ela no se perdoa. - e depois olhou para Ana  Aposto que voc seria
uma maga muito poderosa se a tivesse como mestra. Ela  melhor que eu
em ensinar.
    - Mas voc  um grande mestre - falou.
    - Mas no chego nem aos ps de Solange nesse assunto. Aprendi
muito com ela, mesmo sem querer. Ela  como eu, uma guerreira, e alm
                                ~ 361 ~
de mgicas ofensivas ela conhece inmeros rituais da Irmandade da
Rosa. Acho que voc aproveitaria melhor com ela.
    - Mas ela no me quer  lembrou a garota.
    - ... - e deixou a frase solta.
    A partir da o assunto morreu e o resto da viajem foi muda. Nem
mesmo Oscar se virava para puxar qualquer tipo de conversa e Ana sabia
que o interrogatrio a esperava em casa, com a sua me. A viagem de
volta foi tranqila. Ningum falou mais e Ana aproveitou o silncio par
chupar bala de menta oferecida por Ian e dormir ao som de uma melodia
que tocava no aparelho do garoto.
    Quando acordou, j haviam chegado.
    - Acorda Ana  era a voz de Ian.
    Ela se ergueu em um salto e tirou a cabea do ombro do garoto.
    - J?  se surpreendeu.
    - Voc dormiu o caminho todo  falou Ian.
    - Acho que ainda no me acostumei a acordar com os galos.
    - Acho que nunca vai se acostumar  atiou o pai com um sorriso
malicioso.
    Ela se despediu de Ian e chegando em casa, desarrumou as malas. Seu
pai foi para o trabalho e como no tinha o que fazer, pensou em passar na
casa do garoto para falar com ele, mas esse foi o momento em que sua
me chegou e ela teve de dar os detalhes da viagem. O problema era que
ela no tinha feito muita coisa que Helena pudesse saber, com isso, sua
narrativa da viagem teve que ser simples. Ana acabou enrolando mais em
alguns detalhes para dar a impresso que de fato havia feito alguma coisa
em Trs Coraes que no fosse converter Oxignio em Gs Carbnico.
    Depois de seu detalhe sobre a viagem, Helena se mostrou muito mais
animada em passar as prximas ferias em famlia na casa de seus pais.
Ana achava que a viagem tinha feito muito bem a ela mesma, porm, ao
ver a alegria da me, percebeu que sua felicidade no era nem metade da
dela.
    - Ana  ela parecia pensar em como perguntar  como voc est se
sentindo?
    - Como assim?
    - Digo. O que foi que aconteceu em to pouco tempo para voc
mudar tanto? - ela sorriu  no me entenda mal, eu estou muito feliz com
mudana, mas ainda sim fico intrigada. Voc melhorou muito nessa
ltima semana.
    - Voc acha?
    -  visvel filha. Voc parece mais alegre e tambm... eu no sei...
                              ~ 362 ~
parece brilhar.
    Ana riu com o comentrio.
    - Est apaixonada? - ela foi direto ao ponto.
    - Eu? - Ela tentou se desviar da pergunta  Claro que... - mas sabia
que no adiantava mentir para a me. Helena era um radar para essas
coisas  talvez.
    - Eu sabia! - ela deu um pulo  E o Ian? Tambm?
    - Como voc sabe que ... - mas viu nos olhos da me que parecia
uma coisa bvia demais. - Eu no sei. Acho que sim.
    Helena abraou a filha.
    - Mas no conte nada ao pai - ela falou - Acho que ele no esta pronto
ainda.
    - Voc acha? - a me riu  Voc no sabe nem a metade. Ele ficou
resmungando o tempo todo: Onde j se viu uma garota viajar sozinha
com um homem ou eu sabia que esse tal Ian no era uma boa coisa.
    - Mas ele gostava tanto dele  Ana riu da imitao.
    - Gostava enquanto pensvamos que ele no era uma ameaa.
    - Voc tambm pensava assim?
    - Bem filha  disse a me revirando os olhos  Agente nunca o viu
com ningum antes, no ?
    Ana riu. Era melhor no falar mais nada. No tinha como defender
Ian sem dizer a verdade, ento era melhor deixar o mal entendido como
estava.
    - Ento nada de contar ao pai. - ela lembrou.
    - Claro. - ela afirmou -  melhor ele continuar pensando que o Ian 
gay assim como pensa que voc  virgem.
    - Mas me  ela falou meio constrangida - eu sou virgem.
    - Srio? - ela pareceu surpresa.
    - Srio!  confirmou  O que voc anda pensando?
    - No sei  disse meio sem graa   que as coisas esto to diferentes
e voc namorou o Lucas por tanto tempo que... Deixa pra l.
    O assunto morreu a e Helena voltou  cozinha para terminar o
almoo. A refeio foi bem animada e quando finalmente acabou de
comer, sentiu o sono da ps-refeio e tambm todo o cansao da
viagem. Ao bocejar, desistiu de visitar seu vizinho Garow e foi dormir.
Chegando ao quarto, fechou a janela para que todo o cmodo ficasse
escuro e depois se jogou na cama.
    Agora que tinha deitado, deixou sua mente viajar, at que se sentiu
sendo arrastada para o mundo dos sonhos.
                               ~ 363 ~
   48 - Liberdade.
    Ana acordou sentindo o vento batendo em seu rosto. Olhou para a
janela e uma bela Lua minguante sorriu pra ela. Dormi demais. Pensou,
quando rapidamente se lembrou de ter fechado a janela antes de dormir.
Estranho. E ento, sentiu uma presena que lhe acompanhava. Havia
mais algum no quarto.
    Olhou em volta tentando controlar o nervosismo que crescia em si
mesma, quando viu uma silhueta muito prxima da sua cama. Levou um
susto e segurou o grito fitando melhor a figura que se mantinha
escondida nas trevas.
    Mas a apreenso durou pouco, e logo ela pde respirar melhor
quando o silncio foi quebrado e Ana reconheceu a voz de quem a
acompanhava:
    - Perdo, no queria te assustar - dizia a voz de Ian vinda da
penumbra. - Mas tambm no queria te acordar.
    - Meu Deus Ian! - disse a garota se sentando na cama. A alegria de
ver o garoto j tinha feito esquecer o medo de poucos segundos atrs -
Voc quase me matou de susto com isso. - ela ria enquanto ligava a
lamparina - Da prxima vez voc...
    Mas sua voz se perdeu quando a luz revelou o garoto prximo de sua
cama. Seu sorriso aos poucos foi sumindo sem deixar outra expresso
reconhecvel no rosto da garota enquanto corria os olhos pelo Garow.
    Ian estava em p, bem vestido, como que se fosse para sair. Com seus
jeans, tnis e casaco habituais. Mas ele tambm tinha um acessrio a
mais. E era justamente esse acrscimo que era responsvel pela mudana
de humor da garota.
    Cruzando seu peito, uma tira de pano grossa fazia o olhar de Ana
seguir at uma mochila vermelha que Ian mantinha jogada nas costas.
Nada foi dito nesse tempo. Ian parecia envergonhado demais para
comear e Ana parecia ter esquecido como se juntar vogais e consoantes.
    A garota sentia que comeava a perder o ar  medida que olhava para
o objeto, mas no conseguia se lembrar como fazia para que os pulmes
se enchessem de oxignio novamente. A mochila era grande. A mesma
que o garoto usou para ir ao sitio de Laila, mas tinha a deixado de lado
quando foi a Trs Coraes. Mas agora, ela estava ali de novo.
    Sua mochila de viagens estava ali e Ana se esforava para pensar em
tudo, menos no que aquilo parecia significar.
    - Bem - a voz do garoto era hesitante - Eu no podia fazer isso sem
falar com voc antes. Sem me despedir. - ele tentava sorrir pra ela.
                              ~ 364 ~
    Despedir. Num segundo, era como se que nada houvesse sado da
boca dele a no ser essa palavra que parecia uma lana vinda em sua
direo.
    - Acho que j fiz o que podia por voc. - ele continuou - Voc vai
ficar bem nesse novo mundo. Pode se tornar uma boa Druida, como suas
tias foram - ele falava o tempo todo olhando para todos os lados, menos
para ela  As fadas so boas mestras, elas quem ensinam os druidas tudo
o que eles sabem. Assim como suas tias.
    Ana mordeu o lbio inferior. Como no tinha percebido o plano de
Ian antes? Era por isso que ele fazia tanta questo de lhe mostrar aquele
lugar.
    - Bem, eu j te dei as bases que voc deve saber e agora sei que voc
no vai se arriscar demais. No temos mais nenhuma ameaa prxima,
ento sei que voc vai ficar bem  ele fez uma pausa tentando se lembrar
de mais uma coisa - Ento... acho que voc no vai mais precisar de mim
pra nada e eu...
    Mais silncio. Ele tambm tinha esquecido como se falava e no
conseguia terminar a frase.
    - Eu vou indo - disse olhando finalmente em seus olhos - Adeus.
    Essa ltima palavra fez um impulso eltrico correr pelo corpo da
garota e ela finalmente conseguiu sair da paralisia opressora em que
estava. Num nico movimento, pulou da cama e se lanou em direo ao
garoto. No trajeto, acabou tropeando e caindo em seus braos e
aproveitou o momento para enlaar a cintura dele prendendo-o num forte
abrao.
    Ian a segurou com habilidade impedido que ambos fossem levados ao
cho e Ana apertou seu abrao com toda a fora que conseguia reunir,
segurando seus corpos selados um no outro.
    - Eu tambm vou sentir saudades Ana - ele deu uma risada fraca,
ignorando a gravidade daquele momento.
    A garota no disse nada e continuou a segurar o corpo dele junto ao
seu. Neste momento, ela desejou poder canalizar toda a sua fora em
seus braos para fazer com que ele no pudesse mais se livrar dela.
    - Ana, eu posso respirar um pouco? - disse ainda no tom de
brincadeira. Ana odiava esse tom. No era o momento para isso.
    - Ana  sua voz em fim ficou mais sria. Agora ele falava com
delicadeza em seu ouvido - Me solta, por favor.
    - Voc no pode ir - gemeu. Finalmente havia encontrado a voz
perdida.
    - Eu preciso Ana. Ns j havamos combinado isso.
                              ~ 365 ~
    - No combinamos nada! - ela sentia os olhos enxerem de lgrimas
enquanto em seu peito um misto de raiva e tristeza a deixavam louca. -
Voc decidiu sozinho. Voc decidiu tudo sem falar comigo! Voc nunca
parou pra pensar em mim.
    - Isso  injusto, Ana - sua voz estava um tanto alterada como se ela o
houvesse ofendido - A pessoa em que mais pensei ao tomar essa deciso
foi voc. Em sua segurana.
    - Mas no pensou no que eu quero - ela comeava a falar alto  Eu
no quero que voc v. Eu no vou deixar voc ir. - e apertou mais o
abrao como conseguiu.
    - Ana, me solta - ele a empurrava com delicadeza, mas ela se
recusava a ceder - Eu preciso ir.  melhor pra voc, pra mim, pra todos.
Eu preciso manter essa maldio longe daqui. Se no puder me curar,
pelo menos tenho que garantir que ela no machucar mais ningum.
    Ela no soltou. Ana envolveu o pulso com a outra mo fechando o
garoto como se fosse um grilho.
    - Ana entenda. - ele continuava - Eu sei que somos amigos e isso no
muda. Em nome da nossa amizade, eu peo que voc me solte.
    - Eu no quero a sua amizade - ela sentia o corao apertando ao
pronunciar cada palavra. Sentia-as querendo romper o caminho pela sua
garganta para encontrar a sada. - Eu no quero que seja meu amigo. - era
agora. Podia falar. Era sua ultima cartada - Eu te amo!
    Ana sentiu o alvio gigante que aquelas trs singelas palavras podiam
provocar fazendo sua respirao voltar a funcionar normalmente como se
um alimento entalado tivesse sido finalmente removido de seu esfago.
    - O que? - sua voz era estranha. Ele parecia no acreditar e at riu
baixinho como se fosse uma piada.
    - Eu te amo. - repetiu - Por favor, no vai. - e o segurava mais.
    - Isso  golpe baixo Ana - ele parecia chateado agora - Voc sabe
quanto eu gostaria de te ouvir dizer isso. Por favor, no use esse meio
para me manter. Machuca.
    - Eu no estou usando nada - sua voz era engasgada - Por favor, no
vai. Fica.
    Ela agora enfiava a cabea em seu pescoo, beijando-o. Ela subia o
rosto tentando fazer com que seus beijos chegassem at os lbios dele,
mas Ian no permitia.
    - O que voc tem na cabea sua doida? - ele perguntou descrente no
que ouvia  O que te deu na cabea de se deixar levar por mim?
    - Eu no escolhi isso.
    - Ana, voc deve estar se confundindo. Voc deve  estar triste por eu
                               ~ 366 ~
ir, afinal somos amigos, mas no diga que me ama. Voc no pode me
amar. No tem esse direito.
    - Voc poderia parar de dizer o que eu posso ou no fazer? - ela
tentou colocar dureza na voz, mas falhou ao tentar.
    - Meu Deus  disse tentando conter a emoo - Eu posso te matar -
lembrou.
    - Voc no faria isso e eu no tenho medo. - rebateu. Agora ela se
sentia uma criana birrenta, mas no se importou com isso.
    - Ana, voc no faz idia do que est dizendo. No sabe como eu
tenho que lutar a cada segundo da minha vida contra o desejo de ter
voc. Voc no sabe como  difcil para eu evitar cada pensamento
amoroso quando estou junto de voc. Isso est me destruindo. J  muito
difcil esconder o que sinto sem voc gostar de mim tambm. Por favor,
no fale isso.
    - Eu no tenho escolha. No quis isso. Como voc, aconteceu.
    Ficaram em silncio e Ana tirou a cabea do pescoo do garoto. Ela
olhava para ele e fitava seus olhos negros um tanto avermelhados devido
ao pranto. Tentou procurar seus lbios, mas ele virou o rosto. Ana no
desistiu e na segunda tentativa, ele no conseguiu resistir.
    Suas bocas se encostaram e ao contrrio do primeiro beijo da piscina,
este no teve tempo de comear envergonhado. Todas as emoes foram
transbordadas desde o primeiro instante, pelo menos por parte de Ana.
Ian ainda tentava manter o controle. Seus dentes se selaram para impedir
a entrada da lngua da garota, mas nem mesmo isso funcionou como um
balde de gua fria para as emoes dela, e com uma pequena persuaso
ele foi cedendo e finalmente ela teve o beijo que tanto esperou.
    O segundo no qual ambos se entregaram totalmente foi breve, porm,
intenso. Ian a pegou pela cintura e a puxou para mais perto de si. Ana
no mudou sua posio. Ainda no sentiu segurana em largar a cintura
dele. Mas o sonho acabara e ela sentiu as mos dele chegando aos seus
pulsos. Ana tentou colocar toda a sua energia em seus membros, mas no
podia lutar contra a fora dele.
    Com muita suavidade, apesar da fora monstruosa, Ian conseguiu
fazer seus braos cederem e o largarem, sem machuc-la. No tinha
como lutar e em segundos ele havia separado os dois. Seus lbios foram
a ultima parte e se largarem.
    Ana via que os olhos negros haviam desaparecido novamente e o
Garow estava em sua frente. Seus olhos azuis estavam cheios de dor
enquanto a lua iluminava sua pele branca. Era um sonho. Se fosse, Ana
queria acordar o mais rpido possvel. No queria mais sentir aquela dor.
                              ~ 367 ~
No queria v-lo partir.
    - Eu te amo - ele enfim falou -  por isso que eu tenho de ir.
    - No - ela tentava falar no meio da tristeza.
    - Por favor - ele insistiu - Se voc no faz isso por voc mesma, faa
por mim. Me deixe ir.
    Ana queria dizer no, mas no foi capaz. Ele tinha dado um golpe
baixo.
    - Voc no sabe como  duro lutar contra cada um dos meus desejos.
Lutar contra tudo o que sou. Voc no sabe o mal que me faz ter voc
perto sabendo que nunca vai ser completamente minha. Nunca vou poder
me entregar de corpo e alma pra voc. Por favor, me liberte.
    Seus olhos estavam cheios de lgrimas, mas por algum motivo elas
no caiam, deixando a viso de Ana embaada. Ela no sabia mais como
argumentar, mas agora, alm de ele ir embora, ele queria mais. Queria
que ela o libertasse. No sabia se podia fazer isso.
    - Por favor. - insistiu  Eu j sofri muito. Eu sei que no mereo isso,
mas, por favor, tenha piedade.
    Ana se afastou um passo e colocando a mo dentro de sua blusa, ela
puxou o pingente. Abriu-o e recolheu o velho pedao de tecido e, sem
falar nada, o entregou ao garoto.
    Ian o recebeu, mas quando percebeu do que se tratava, tentou
devolver as pressas.
    - No  ele disse erguendo o velho emblema de seu cl pra garota  
seu. Foi presente de suas tias.  sua lembrana.
    - Na verdade  seu  sua voz naquele momento no demonstrava
emoes. Por um momento toda a dor sumiu, deixando para trs apenas
um vazio em Ana.  pertence a seu cl e...  tentou sorri, mas no tinha
vontade disso. No estava feliz, ento no queria demonstrar isso.  eu j
tenho com o que me lembrar delas  Ergueu o colar mostrando a ele.
    - Ento fique para se lembrar de mim.  ele deu um sorriso fraco, mas
esperanoso.
    - E quem disse que quero me lembrar de voc? - falou sem pensar e
viu que as palavras haviam atingido o garoto como um soco no
estomago, mas no se arrependeu. No sabia o porqu, mas queria que
ele sentisse aquela dor. Era uma maneira de se vingar pela dor que ele
estava provocando nela.  Se voc no pensa em mim na hora de ir, por
que eu tenho de pensar em voc depois?
    - No diz isso  ele pedia se aproximando dela. Sua mo alisou seu
rosto, pela ultima vez, limpando sua face e tirando o cabelo rebelde que
cobria sua testa. E aquele toque trouxe de uma forte nostalgia na garota,
                                ~ 368 ~
pois sabia que nunca mais receberia esse gesto e sentiu mais raiva ainda
dele, por ter feito sua tristeza voltar. Ento, juntou toda a determinao
que tinha para desferir as prximas palavras:
    - J acabou? - seu tom era frio, ou pelo menos tentou ser - ento est
esperando o que?
    - Como? - ele ficara surpreso.
    - J acabou?  repetiu - Agora ento pode parar de enrolar. Voc no
queria ser livre? Vai! Liberte-se logo e para de enrolar
    Ele a largou e ficou parado olhando-a com a cabea e ombros cados,
fazendo-o parecer cachorro arrependido. Ela via a dor que suas palavras
estavam causando e apesar de sentir pena, no pde evitar que uma parte
doentia dentro dela se sentisse vingada.
    - Anda! - ela gritava agora - Vai, Vai embora. Vai!- e parecia querer
enxot-lo dali.
    Ian se aproximou da janela e se virou para Ana esperando que ela
falasse algo. Uma ltima palavra que no fosse uma ofensa ou uma
expulso, mas ela nada fez. Dava para ler na face do garoto como era
duro pra ele ouvir tais palavras sendo as ltimas que viriam dela. Ela no
mudou de postura e ficou o encarando como se estivesse impaciente para
ele ir logo.
    Sabia que no era justo o que estava fazendo. Sabia que desde o
comeo ele tentara tornar esse momento o menos doloroso possvel.
Sabia que ele no queria mago-la, mas isso no importava. Ele a estava
magoando. Estava a ferindo como h anos no acontecia. Ela estava
experimentando uma dor que desde a morte de Teresa e Samanta no
sentia. Ele no queria machuc-la, mas machucou.
     Ento, ela tinha o direito de retribuir.
    - Adeus Ana - ele disse antes de desistir e desaparecer pela janela.
    Ela teve de esperar ainda uns segundos para ter certeza que ele no
ouviria.
    - Adeus Ian.
                               ~ 369 ~
   49 - Sexto sentido.
    Em um dos prdios da Avenida Presidente Vargas, no Centro da
cidade do Rio de Janeiro, segundo andar, a cigana Cassandra distribua
rapidamente as cartas sobre a mesa. A cada momento, recolhendo-as e
embaralhando-as novamente e voltando a lan-las.
    Sem dar ateno  porta de sua sala que se abriu ou a sua discpula
que acabou de entrar, soltando seus longos cabelos e sacudindo-os com
os dedos para voltarem ao volume natural. Ela se manteve concentrada
em seu trabalho.
    .
    - Bem mestra, hoje o movimento no foi to bom - comentou sem
perceber que a mulher nem tinha notado a sua presena - pelo menos
consegui colocar algumas coisas em ordem e agora...
    Ela parou olhando para a mestra que parecia numa espcie de transe.
Decidiu ficar em silncio ento at que ela voltasse ao mundo real. Tinha
experincia em lidar com Cassandra e sabia bem que nada a deixava
mais irritada do que algum interromper sua linha de pensamento.
    - Meu Deus! - ela finalmente voltou.
    - Algum problema mestra? - Esmeralda se aproximou devagar - Quer
alguma coisa antes de eu ir?
    Cassandra olhou a pupila parecendo not-la pela primeira vez ali e
depois de se recuperar da surpresa, comeou a falar enquanto apoiava a
cabea em cima das mos com os dedos entrelaados. Seu olhar ainda
era distante, mas pelo menos agora ela falava com Esmeralda.
    - Querida, acho que temos um pequeno problema em nossas mos -
disse em seu tom proftico de sempre.
    - O que aconteceu?
    - Voc ainda se lembra do garoto que veio aqui h uns dois ou trs
dias, no lembra?
    - Como ia esquecer? - comentou a garota com desdm - Arrogante e
louco.
    - Concordo com a primeira, mas tenho que objetar  segunda. - disse
ainda com o olhar perdido.
    - O que houve? - Esmeralda ainda no mostrava muito interesse.
    -  sobre o que ele me disse sobre o frade Henrique...
    - Sobre ele ser um traidor? A senhora o conhece h muito tempo.
Pensei que fosse algum de confiana sua.
    - Conhec-lo no quer dizer que confie nele querida. - corrigiu -
Afinal, lembro a voc que eu o conheci como um espio dos Iluminados
                              ~ 370 ~
e que nossa relao est basicamente pautada na simples troca de
informaes e experincias. Assim como Henrique tem relaes comigo
ele tambm possui ciclos de amizades com Bruxos e Inquisidores.
    - Tudo bem, mas... - ela calculou bem as palavras - onde a senhora
quer chegar?
    - Desculpe querida, eu acabei viajando de novo - ela deu um leve
risinho - O que estou dizendo  que desde que recebemos a visita desse
garoto chamado ngelo, que eu tenho tentado prestar mais ateno no
que vem acontecendo na Igreja deles. E algumas coisas comearam a me
incomodar.
    - Estranho. - interrompeu Esmeralda - Pensei que a senhora no
estivesse compartilhando da dvida desse garoto sobre uma traio
dentro da ordem.
    - E no estava - concordou - Mas uma coisa que ele disse me chamou
muito a ateno.
     - O que?
    - Ele disse que teve um mau pressentimento.
    Se fosse h alguns anos atrs, antes de receber seu treinamento com
Cassandra, Esmeralda riria do que ela dizia. Porm, conhecendo a mestra
muito bem, a garota sabia que duas coisas em Cassandra jamais deviam
ser questionadas: uma, era seu gosto para moda, que apesar de horrvel,
ningum devia questionar e o segundo, eram seus pressentimentos.
    - Sei que voc ainda se mostra um pouco descrente minha querida -
disse a mulher finalmente olhando em seus olhos  E  isso que eu quero
que voc mude. Voc no pode ser uma boa Sonhadora sem acreditar em
pressentimentos.
    Esmeralda fitou um pouco o cho sem conseguir encarar Cassandra.
A mulher tinha uma capacidade em colocar energia naqueles olhos
negros que deixavam qualquer um se sentindo inferior.
    - Voc  mulher minha querida - continuou a velha mestra - Confie
em seus sentidos, mais do que em sua lgica. Esse  o nosso dom natural
e por isso somos boas em perceber as coisas que os homens no
conseguem - ela deu um pigarro voltando ao assunto - Aquele garoto, por
exemplo. Dava para ver com o que ele lutou para poder dizer que estava
tendo dvidas com relao  fidelidade de um de seus superiores. Ele no
tinha nenhuma prova objetiva que os homens tanto buscam para basear
suas teorias e dava para sentir o conflito interno dentro de sua cabea.
No podemos culp-lo minha cara, ele  homem - Cassandra falava como
se estivesse comprovando um defeito clssico - Ele tende a confiar mais
em seu raciocnio do que em seus instintos. - e depois, deu uma
                              ~ 371 ~
balanada na cabea voltando ao assunto - Mas o que importa  que para
ele falar conosco sobre o que sentia, era porque j devia estar sendo
atormentado por essa dvida h muito tempo. Eu tenho certeza que h
coisas acontecendo dentro daquela Igreja. Coisas grandes, que obrigaram
aos Iluminados a envolverem gente como ns.
    - E tem - ela interrompeu mais uma vez - Um demnio.
    - No  apenas esse o problema - Cassandra no gostava de ser
interrompida - Existe algo a mais e no momento devemos dar prioridades
aos nossos vizinhos.
    - O que a senhora est pensando?
    - No s pensando querida - disse cheia de orgulho - J investiguei.
Mandei uma pessoa de confiana ficar de olho na Igreja nesses dias.
    - E ela viu alguma coisa? - a garota agora se sentara de frente pra ela.
    - Sim - a mulher deixou o mistrio no ar uns segundos. Tinha gostado
da sbita onda de interesse que surgiu na pupila - Parece que eles tm
recebido muitas visitas de certos homens estranhos.
    - E... - Esmeralda j estava se roendo de tanta curiosidade.
    - E, que pela descrio, eu reconheci um desse homens que os visita
constantemente. - e parou enquanto tomava um gole de gua na garrafa
que tinha ao lado de sua mesa - Parece que estamos lidando com um
Inquisidor chamado Rafael, mais conhecido como Rauch.
    - Um Inquisidor? Na igreja? Acredito que o bispo responsvel jamais
permitiria.
    - Jamais - concordou a mulher  Eu conheo pouco Csar, mas sei o
quanto aquela igreja significa para ele. Ele ajudou a reconstru-la e
jamais permitiria que algum perigoso entrasse l.
    Cassandra agora pegou novamente as cartas e comeou a jog-las na
mesa. Esmeralda ficou pensando no que a mestra havia lhe dito e agora
concordava que havia algo muito suspeito naquilo tudo, mas no sabia se
era de interesse delas.
     A mulher continuava a jogar as cartas. Esmeralda percebeu que ela
tinha entrado no mesmo torpor que estava quando entrou h pouco. Com
certeza aquele assunto a estava deixando muito perturbada. Esmeralda
ficou olhando as feies vazias de Cassandra enquanto ela jogava a seu
tar e sua mente acabou viajando para o momento em que seu destino
cruzou com o daquela estranha mulher.
    Esmeralda nasceu em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Sua
famlia no era de bruxos e ela acabou entrando em contato com a magia
graas a uma vizinha que sempre ficava de bab quando seus pais saiam.
Lusa era o nome da velha senhora, V Lusa para os ntimos.
                                ~ 372 ~
    V Lusa lhe ensinou as bases de toda a sua educao mgica. Ela era
especialista em magia indgena e desde pequena, Esmeralda teve contato
com as ervas medicinais e os rituais primitivos dos druidas brasileiros.
Mas o problema era que Lusa j estava muito velha, o que a obrigou a
deixar a discpula muito prematuramente.
    Com sua morte, Esmeralda tinha herdado um grande tesouro: Uma
grande quantidade de dirios onde ela relatava suas experincias e seus
conhecimentos. As folhas dos cadernos eram cheias de frmulas de
poes, rituais antigos e outras coisas e a ajudaram muito na ausncia da
velha.
    Mas ainda assim, a educao de Esmeralda fora comprometida pela
ausncia de V Luisa e ela acabou deixando esses conhecimentos de lado
e se dedicando aos seus estudos normais. Acabou completando o ensino
mdio com dezessete anos j conseguindo passar no vestibular logo no
primeiro ano e comeou a cursar biologia na UFMS.
    Se formando com louvor com vinte a um anos, ganhou bolsa para
estudar no Rio de Janeiro e completar sua graduao na UFRJ. Ao se
mudar para o Rio de Janeiro, ela tinha que arranjar um emprego para
conseguir se manter. Tinha medo que o dinheiro da bolsa de estudos no
fosse o suficiente. E foi numa manh de segunda-feira que toca o
telefone no prdio em que alugou no Centro.
    - Al, Esmeralda, por favor - era a voz de uma mulher madura quem
falava. A pessoa na linha parecia muito animada.
    -  ela. - Esmeralda respondeu - Quem deseja?
    - Ah querida. Desculpe no reconheci a sua voz.
    - E eu conheo voc? - perguntou a garota.
    - Ah claro que no, mas eu conheo voc querida e vim lhe propor
um emprego como minha assistente.
    - Espere um pouco minha senhora - Esmeralda estava achando aquilo
doido demais  Primeiramente, quem  voc?
    - Ah... Perdo querida, como sou desmiolada. Eu me chamo
Cassandra, sua futura patroa, e meu endereo  esse: Rua Baro de
Albuquerque 105, segundo andar. Venha me visitar e eu lhe darei o
emprego que voc tanto quer.
    Antes que Esmeralda pudesse interromper, a mulher repetiu o
endereo para que a garota pudesse gravar.
    - Te vejo amanh as nove querida. - disse - Sei que voc no tem aula
nesse horrio. Tchauzinho...
    - Mas espera...  mas ela j tinha desligado
    - Que mulher maluca!  exclamou. Mas o que a incomodava era que
                              ~ 373 ~
ela tinha razo. Esmeralda no tinha nada para fazer naquele horrio.
Como sabia?
    Acabou pensando na estranha Cassandra at a hora de dormir.
Esmeralda no sabia por que, mas sentia-se tentada em ir ao encontro da
mulher. Como ela conseguia saber tanta coisa? Como sabia sobre seu
horrio? Como sabia que estava atrs de emprego?
    Acabou dormindo. Acordou s sete horas da manh e como tinha
muito tempo e nada para fazer, resolveu ir at o tal endereo. S esperava
no estar entrando em roubada.
    O lugar era um edifcio prximo a Avenida Presidente Vargas. Um
lugar movimentado, ento, no tinha tanto o que temer. Entrou e subiu
at o segundo andar e assim que tocou a campainha, um show de cores
atacou seus olhos quando a estranha mulher, que parecia uma borboleta
pela forma como estava vestida, atendeu.
    - Oi Esmeralda. Que bom que voc pde vir. Venha! - e abriu
caminho - Quer um ch?
    - N.. No obrigada - e entrou ainda pasmada com a figura
multicolorida a sua frente.
    Cassandra a convidou pra sentar de frente para uma mesa com uma
poro de tentaes. Havia biscoitinhos de coco, que ela adorava, um
bule de caf fumegante, que lhe abria o apetite, e um bolo de limo, que
completava a viso que estimulava a sua gula.
    - Coma querida. So seus favoritos, no?
    - Um momento - a garota no estava acreditando em tudo aquilo e
encarou a mulher seria antes de falar - Como voc sabe dessas coisas?
Como sabe que quero emprego? Como sabe sobre o que eu gosto? E
como sabe o meu nome?
    A garota comeava a elevar a voz, mas a mulher no parecia se abalar
com aquilo. Esmeralda podia jurar que ela estava se divertindo com tudo.
    - Eu tambm sei sobre a V Lusa - disse num tom brincalho
enquanto se servia de uma xcara de caf.
    Ento Esmeralda ficou mais calma.
    - Entendi - disse sorrindo mais aliviada - Voc conheceu a V Lusa.
Foram amigas?
    - Na verdade eu no conheci. - disse revirando os olhos - Sei que ela
foi uma grande maga, mas dai a conhec-la... - e balanou a cabea - no.
    - Agora voc esta me deixando louca - ela riu nervosamente.
    - Calma querida, eu vou explicar - disse pousando a xcara na mesa -
Assim como sua V Lusa e voc, eu tambm sou uma desperta. A nica
diferena entre agente  que eu tenho uns dons a mais. Pouca coisa. -
                               ~ 374 ~
completou humildemente - S consigo ver umas coisinhas a mais. Como
eu vi voc.
    - Um dia, eu estava jogando as cartas em meu escritrio, logo ali atrs
- ela apontou para uma portinha nos fundos da sala - E acabei vendo
voc. Vi que j  uma iniciada. Vi que vinha para o Rio de Janeiro. Vi
que sua mestra morreu. E vi tambm que eu seria sua nova mestra.
    - Como?
    - Sim - disse alegre - No sei por que, mas estamos destinadas a
ficarmos juntas como mestra e discpula.
    Esmeralda olhou para o caf e viu que ela precisava de algo mais
forte - e com um pouco de lcool tambm - para engolir tudo aquilo.
    - Venha querida - ela se levantou puxando a garota com ela - Vou lhe
mostrar tudo.
    Sem muita escolha, Esmeralda foi aprendendo todo um resumo sobre
a seita dos Sonhadores e, na verdade, fascinou-se com a filosofia da
coisa.
    Com o tempo, ela foi aprendendo mais e mais e, depois de se formar
como mestra em biologia, no conseguiu mais deixar o culto.
   Realmente  um historia bem doida. Pensou voltando  realidade.
   E foi quando Cassandra pareceu finalmente despertar num salto de
seu torpor. Um grito fez Esmeralda pular da cadeira, olhando assustada
para o rosto da mestra. A expresso de Cassandra mostrava um profundo
pavor.
   - O que houve mestra? - ela se ergueu e circulou a mesa levando as
mos para o ombro dela.
   - Precisamos ir para a igreja - disse rapidamente passando um suter
pelos ombros e se levantando.
   - O que houve? - a garota tentava acompanhar a velha que seguia at
a porta mais rpida do que a idade permitia.
   - Te explico no caminho - disse rapidamente.
   Esmeralda, sem entender, apenas obedeceu e, pegando sua jaqueta,
saiu atrs de Cassandra. Ela s trancou a porta rapidamente sem nem
passar o pega-ladro e correu escada abaixo atrs da louca mulher.
                               ~ 375 ~
   50  Ombro Amigo.
    Ana no sabia quanto tempo ficou chorando em seu quarto at
conseguir fazer a dor aliviar um pouco. Ela olhava pela janela onde o
vira pela ltima vez tentando acreditar que tudo no passava de um
sonho, um terrvel pesadelo que a faria acordar chorando, mas que uma
hora ela acordaria. Esgueirando-se at a janela, ela podia ver o quarto do
garoto que estava em sua frente, vazio, escuro.
    As memrias eram cruis e no esperaram para virem com toda a
fora. As noites em que ficava por ali conversando com o amigo
passaram por sua cabea como filmes. Ela ainda se lembra de quando
contou para ele, toda animada que comeara a namorar Lucas.
    Enquanto falava, lembrava-se que ele no estava muito paciente
naquele dia e, alegando cansao, disse que iria entrar. Ana sentiu raiva
por ter sua historia feliz cortada pela metade e ofendeu Ian em
pensamentos enquanto ia se deitar, desejosa de poder contar a algum o
quanto estava feliz.
    Como eu no percebi? Porque ele no me contou antes? E pensou
por fim. Porque ele me contou?
    Agora que chegara a essa concluso. E se ele no tivesse se
declarado? Talvez nunca tivesse gostado dele. Talvez essa partida
pudesse ser menos dolorida. Mentira, concluiu. Ela j gostava dele antes,
mas nunca percebeu. Ela sempre foi apaixonada por ele, mas deixava a
mscara da amizade esconder o verdadeiro sentimento que nascia aos
poucos dentro dela.
    No tinha como essa partida ser menos dolorida. No se pode se
desfazer de quatro anos de vida assim to facilmente. E se ele no tivesse
se declarado, como seria? Ana sabia a resposta. Ela no teria tido aquele
beijo. No teria nada o que guardar e depois passaria a vida inteira se
lamentando por ser to cega.
    Aos poucos, seu corao comeava a se acalmar. A idia de que, de
alguma forma, amar e perder seria melhor que nunca amar, aliviava o
aperto. Essa frase feita no fez a dor sumir, mas a confortava e fazia as
lgrimas comearem a secar em seu rosto.
    Nesse instante, a campainha da sua casa tocou e o primeiro
pensamento que lhe ocorreu foi o de deixar como estava. Fazer o seu
visitante acreditar no ter ningum em casa, mas no fim, pensou que
seria bom ver algum. Naquelas circunstncias, falar sobre algo diferente
com qualquer um seria a melhor coisa para distra-la por alguns
momentos
                               ~ 376 ~
    Ento, desceu at a porta, se preocupando em lavar o rosto
rapidamente antes. E ao atender, tentou dissimular um sorriso no rosto e,
viu que quem a esperava era Laila. A garota sorriu abraando a amiga
assim que a viu.
    - Amiga! Que saudades. Soube que voc viajou e... - ela se afastou
para poder olh-la melhor, e foi quando seu sorriso sumiu - Aconteceu
alguma coisa? - ela tinha o olhar hesitante.
    Parece que suas habilidades em interpretao no eram boas. A
tristeza devia estar estampada em sua cara e Laila foi capaz de perceber
numa primeira olhada. Ana ficou em silncio, sentindo toda a tristeza
que lutou tanto para controlar voltarem.
    - Ana, para de chorar - Laila parecia muito preocupada  Ana, me
conta, o que aconteceu?
    As lgrimas comearam a rolar pelo seu rosto.
    - Fala mulher! - ela comeava a ficar exaltada.
    Ana agarrou a amiga, abraando-a e colocando a cabea em seu
ombro. E ali, comeou a soluar
    - Calma Ana - Laila acariciava os cabelos dela. Sua voz era de uma
emoo maternal que Ana no estava acostumada, mas agradeceu por
dentro a amiga ser capaz de tal gesto.
    Sempre viu Laila to dona de si, to independente, que at pensou
que fosse insensvel. Mas tinha se enganado. Que bom. Laila esperou
pacientemente e Ana deixou seu corao se acalmar novamente. No
tinha certeza se devia contar a causa de seu pranto para a amiga.
    No tem problema, falava para si mesma, ela vai saber que ele fugiu,
mais tarde. Quando encontrarem um corpo que a policia vai dizer ser
dele. Quando o vincularem ao trfico. Quando eu for ao seu enterro.
    - O Ian - falou finalmente.
    - O que tem ele? - ela pareceu surpresa e mais alguma coisa que Ana
no conseguiu captar de imediato.
    - Ele foi embora. Fugiu.
    Ana esperava a chuva de perguntas de Laila, mas surpreendentemente
ela no fez nenhuma.
    Talvez estivesse pasma demais ou no tivesse acreditado nela, no
importava. Ana agradeceu por poder ficar abraada a amiga, sem
perguntas, sem cobranas. Era s ela chorando e a Laila consolando. No
queria outra coisa.
   Naquele instante, Laila mantinha a garota encostada em seu ombro
deixando que suas lgrimas sujassem a sua blusa nova.  sua frente,
                              ~ 377 ~
havia um quadro pintado em espelho muito bonito, que mostrava a
imagem de uma tropa de cavalos correndo sob uma bela plancie. Laila
olhava para seu reflexo e conseguia ver muito bem a imagem de Ana
abraada a uma mulher.
    Mas ao contrrio de uma mulher morena, a pessoa a quem Ana estava
abraada era alta, esguia e loura. Satine sabia exatamente que s ela
conseguia enxergar tal imagem. Sabia que se Ana olhasse para o espelho,
s veria ela mesma agarrada  Laila.
    Satine sorriu.
    Finalmente havia chegado a hora. O protetor de Ana havia partido e
ela podia lev-la para seu senhor.
                              ~ 378 ~
   51  A hospedeira.
    Ana foi voltando aos poucos ao mundo real e a primeira coisa que a
conectou ao mundo foi a forte dor de cabea que sentiu, arrancando-lhe
um gemido da boca. Seu corpo estava pesado e ainda no se encontrava
completamente desperto para que as foras lhe permitissem levantar.
Seus sentidos voltavam aos poucos e ela, com certa dificuldade, ia
tentando identificar onde estava.
    Havia um forte cheiro de terra e outra coisa, uma coisa ftida que
concluiu ser mofo. O cho estava duro, parecia pedra ou talvez cascalho
e sentia que a cada vez que mexia, sua pele era arranhada. Ela tentou
mexer os braos e viu que no dava. Alguma coisa estava envolvida em
seus pulsos e os mantinha unidos bem  frente de seu corpo.
    Ana tentava se lembrar dos ltimos acontecimentos. Lembrava-se de
Ian sumindo em sua janela, dela chorando, a campainha tocando e Laila a
consolando. Foi ento que tudo ficou negro. A ltima coisa que ela 
capaz de descrever com clareza  um impacto rpido e potente em sua
nuca.
    Alguma coisa a golpeou de forma to ligeira que Ana nem teve tempo
de sentir dor antes que o mundo se tornasse uma mancha negra. Aos
poucos, seus olhos foram se abrindo e ela enxergava uma espcie de
caverna onde a nica luz disponvel eram as chamas vindas de tochas
espalhadas pelas paredes rochosas, que contribuam para o aspecto
macabro do lugar.
    Ana olhava em volta a procura de algum e se lembrou de Laila. E
comeou a sentir medo pela amiga. Onde estaria? Teria sido capturada
tambm? Mas quem? Por qu?
    A ltima coisa que Ana pde reconhecer foi uma espcie de altar de
mrmore branco, prximo de uma das extremidades da caverna. Em
cima, havia um vaso de aparncia rstica, de barro talvez. No conseguia
ver o que havia em seu contedo, era impossvel daquela posio.
    Pensou em se levantar quando percebeu que seus ps tambm
estavam presos. Agora ela via cordas que envolviam seus pulsos e
tornozelos. As que prendiam os tornozelos iam at uma das paredes onde
se encontravam muito bem amarradas em uma estaca fincada na rocha.
    Tentou puxar para se soltar, mas era intil. No tinha fora para tanto.
Seu corao comeou a palpitar em um desespero controlado quando
finalmente ouviu o som de passos vindos em sua direo. Ana se
petrificou olhando o corredor rochoso que se estendia ao seu lado direito.
                                ~ 379 ~
Agora, uma sombra comeava a ganhar forma e antes que Ana pudesse
identificar quem era, Laila surgiu para a luz das chamas.
    - Laila! - exclamou em alegria, mas logo sua felicidade se
transformou em dvida quando olhou bem a expresso da garota. Laila
sempre teve um ar presunoso tinha o hbito de olhar os demais com
certa superioridade. Mas esta quem estava ali no era Laila. Ana podia
ver a vaidade mil vezes acentuada naquela mulher. Seus olhos eram frios
e demonstravam at certa repulsa ao olhar para Ana.
    - Quem  voc? - ela tentava manter a voz o mais tranqila possvel.
    A mulher riu alto. Sua voz ecoou pelas paredes da caverna e Ana teve
a certeza de que no era Laila. A voz que saia do corpo da amiga era
muito mais fina, mais bonita at, s que mais fria. No era humana.
    - Finalmente percebeu - disse a mulher falando atravs da boca de
Laila - Fico feliz em ter conseguido enganar voc e Ian por tanto tempo.
Se ele me descobrisse eu estava frita - ela falava tudo como se fosse um a
espcie de jogo.
    - H quanto tempo voc est nos enganando? Onde est Laila?
    A mulher alisou o prprio corpo antes de dizer:
    - Bem aqui - ela olhou para Ana com um ar divertido - Quer dar um
oi pra ela? Eu mando o recado. - Zombou.
    Ana a fuzilava com os olhos.
    - Sabe que eu gostei desse corpo. - ela falou -  quase to bonito
quanto o meu.
    - Demnio  falou entre os dentes - Voc  uma demnio. - no foi
uma pergunta.
    - Muito bom gnio - debochou - Como percebeu? Pela voz ou pelo
jeito?
    Ana trincou os dentes de raiva. Aquilo estava dentro do corpo de
Laila e s Deus sabe que barbaridades ela j fez com sua amiga.
    - Quem  voc? - gritou para a mulher.
    - Laila  respondeu achando graa do prprio comentrio e ficou uns
segundos se divertindo com a expresso de ira da garota.
    - Meu nome  Satine - disse enfim.
    Satine ficou andando de um lado para o outro da caverna fitando a
garota com olhos curiosos.
    - Eu no entendo o Kalish - ela parecia estar falando consigo mesma -
Francamente menina, o que voc acha que ele viu em voc?
    Ana ficou em silncio recebendo o olhar investigativo da demnio.
                               ~ 380 ~
    - Eh! Nem voc sabe, no ? - zombou mais uma vez e continuou a
andar de um lado para outro. Ela parecia estar esperando algum e Ana
se perguntou quem ou o que ainda estaria por vir.
    - H quanto tempo voc est no corpo de Laila? - Perguntou por fim.
Sua voz era semelhante a um rosnar. Por um segundo, se lembrou de Ian.
    - S por umas duas semanas. - ela olhou com travessura para a garota
- No se preocupe, no machuquei sua amiguinha - disse alisando mais
uma vez o corpo de Laila. - S a peguei para poder separar o casalzinho.
    - Como?  essa parte ela no conseguiu compreender.
    -  querida. Nosso alvo sempre foi voc, o tempo todo. Mas com o
Ian do seu lado, no tnhamos como te alcanar. Caius tentou e se deu
mal.
    Ns? Ela agora tinha certeza que mais algum era esperado. Quem
seria? Seria esse tal de Caius? No. Da maneira como ela falava parecia
que Caius havia cado, mas quando... E se lembrou do demnio no sitio
de Laila. O ser que Ian derrotou.
     - Sinceramente eu no entendo, mas realmente aquele garoto ficou
caidinho por voc.  ela continuava com seus devaneios - E isso foi
pssimo para nossos planos. Aquele Garow era muito forte eu admito. Eu
no era louca de enfrentar o Ian num combate cara a cara e ele estava
sempre perto de voc. No tinha um lugar para onde voc fosse que ele
no estivesse l de sombra.
    Ela comeou a rir.
    - Voc no sabe como vocs dois eram ridculos  agora ela, com
certeza, falava com Ana  Somos apenas amigos  imitou 
Francamente, isso no enganava ningum. Ele at tinha um motivo para
agir assim, mas voc...  ela balanava a cabea descrente  era idiota
mesmo. E foi a que eu percebi. Ironicamente, a nica maneira de separar
vocs dois era os juntando.
    Ana ficou em silncio, sem ter o que responder.
    - Depois que matou Adele  Ana se impressionava pelo fato da
mulher conhecer todos aqueles nomes. Como ela sabia to a fundo da
vida de Ian? - o pobre Lucien nunca pensou se apaixonar de novo e
quando isso aconteceu com voc  ela falava de Ana como se fosse um
animal asqueroso  foi um tormento pra ele. Ele no suportaria te ferir
como fez com a pobre Catarina.
    Como ela sabe de tudo isso?
    - Ele  uma bomba atmica e o mnimo de desejo faz com que ele
detone. Ele suportava isso quando voc era indiferente, mas quando
comeou a tentar investir... A no.
                              ~ 381 ~
    Ela deixou essa frase no ar e Ana sentiu raiva de si mesmo.
Lembrava-se de como tinha sido induzida a ficar com Ian por influncia
de Laila, ou melhor, Satine.
    - Voc no acredita como foi fcil  ela ria consigo mesmo. Aquele
riso irnico que estava deixando Ana com vontade de acabar com ela 
Foi to fcil te convencer a dar em cima dele.  claro que voc no leva
muito jeito pra isso, mas...  e deu de ombros  enfim, funcionou. Ele
caiu. Eu daria tudo para que voc o visse depois que vocs se beijaram.
Que voc visse ele trancado naquele quarto sozinho, tentando espantar as
imagens luxuriantes que vinham na cabea dele  ela alfinetou.
    - O que?
    Satine deu um sorriso presunoso.
    - Voc no viu  ela sorria com prazer  como foi lindo ele naquele
quarto, sozinho se ferindo para que a dor afastasse todo o pensamento
que fazia sua besta interior vir  tona. - e depois olhou pra ela com os
olhos faiscantes   Ana. Feriu-se. Ele se mutilava para tentar espantar
seus desejos.
    - No! - Apesar de no querer concordar, ela sabia que Satine dizia a
verdade.
    - Sim! - ela zombou de novo  parece que voc beija bem menina.
Fazia tempo que ele controlava seus desejos carnais em prol de sua
estabilidade, mas seu beijo o desconjuntou. - ela riu - Ele ficou com tanto
medo de perder o controle ali que se trancou como um animal s para
no correr o risco de arrancar sua cabea.
    No. Ela se desesperava. Podia ver a cena se passar em sua cabea.
Quando ela ficou em frente  porta do quarto vago na casa de Mnica. O
choro e os arfares que escutava em seu interior. Nunca imaginaria que
Ian estava na verdade se machucando ali dentro.
    - Na verdade se ele tivesse matado voc isso facilitaria o nosso
trabalho.  concluiu - E se Caius no estivesse l com certeza Ian fugiria
de voc naquele dia. E isso tambm facilitaria nosso trabalho  refletiu
com certa tristeza forada.  e Caius no teria que ser destrudo  e deu
de ombros  Bem, a culpa foi dele. Eu avisei que ele no tinha chances
contra o garoto.
    E respirou fundo, deliciando-se com o efeito que suas palavras
provocavam na garota.
    - Bem - disse se aproximando   hora de colher os frutos do trabalho
duro e da pacincia. Foi bom ficar com voc esse tempo.
    Ela chegou bem perto de Ana se abaixando fazendo seus rostos
ficarem a apenas alguns centmetros um do outro.
                               ~ 382 ~
    - Pelo menos serviu para fazer uma pesquisa de campo e descobrir
onde voc escondia. - E com um movimento rpido, Ana sentiu uma dor
no pescoo ao ter seu cordo arrancado.
    Ento o som de liquido entrando em ebulio comeou a se fazer
ouvir no lugar e Ana percebeu que tal barulho saa do recipiente em cima
do altar.
    Satine se virou para o recipiente muito contente.
    - Eu no disse que conseguiramos senhor? - disse erguendo o
medalho.
    - Duas grandes notcias no mesmo dia - disse uma voz rouca. Ana
tentava localizar de onde vinha, mas parecia surgir de toda a parte, ento,
ela focalizou o recipiente tendo-o como a fonte.
    Uma sensao familiar tomou conta dela. Era uma espcie de
angstia que ela no sabia como surgia. Mas sentia algo muito familiar
naquela voz.
    - Duas? - surpreendeu-se Satine - E qual seria a segunda?
    - Logo, logo voc vai saber - disse num ar de mistrio - Mas eu estou
ansioso. Pegue o smbolo Garow. - ordenou
    Satine abriu triunfante o pingente de Ana e seus olhos se arregalaram
quando s encontrou as fotos de Teresa e Samanta ali dentro. A mulher
demnio no sabia o que dizer e olhava assustada para o recipiente.
    - O que aconteceu? - urrou a voz.
    - N... No est aqui.
                               ~ 383 ~
   52 - Armadilha do diabo.
    - Como assim no est a? Voc mesma disse que a garota sempre o
carrega a dentro.
    - Mas ela carrega. Digo, s podia estar aqui.  a mulher, visivelmente
apavorada, tentava se explicar. Depois se virou para Ana com os olhos
em brasa - Onde est o emblema garota?
    Ana no sabia de onde tinha vindo, mas sentiu uma vontade doentia,
porm irresistvel, de rir. Sabia que sua gargalhada era mais fruto de
desespero do que de graa, mas ela no conseguia cont-la.
    - Do que est rindo desgraada? - ela agarrou o pescoo de Ana -
Onde est o emblema?
    - Vocs... - ela falava engasgada - vocs tentaram tanto tempo tomar
isso de mim e agora... ele est longe.
    - De que voc esta falando? - a mulher perdera a pacincia - O que
voc fez com o emblema que suas tias te deram?
    - Eu... Eu o devolvi... para seu legitimo dono - Ana tinha um sorriso
presunoso - Dei para Ian.
    Os olhos da demnio se arregalaram  medida que sua mo,
inconscientemente, apertava o pescoo da garota.
    - Est mentido - apesar do volume baixo da voz dava para ver que ela
estava se contendo para no quebrar o pescoo da garota, embora no
estivesse tendo muito xito, e Ana sentia que o ar comeava a lhe fazer
falta.
    - Satine! Largue-a! - ordenou a voz e Ana foi ao cho, tossindo
copiosamente.
    -  - zombou Ana, tentando falar - Vocs tentaram tanto tirar isso de
mim sem enfrentar o Ian...  e massageava a garganta dolorida - e agora
no tem escolhas se no tirar dele. Isso  - lembrou - se o acharem.
    Satine ergueu a mo contra Ana, mas a voz vinda do recipiente a
conteve.
    - Basta! - Urrava - Satine, ainda no.
    - Como assim mestre? - a mulher estava alterada - No v o que ela
est fazendo? Nos ferrou e ainda esta a zombar de ns. Vamos mat-la!
    S espero que seja rpida, por favor. Apesar do medo que sentia da
mulher, Ana ainda estava um tanto satisfeita. Pelo menos morreria
desafiando aquele ser. S gostaria de poder fazer alguma coisa por Laila
    - No. - disse com muita calma - Precisamos dela para trazer o garoto
de volta com o nosso artefato.
    - Mas senhor, perdo pela insolncia, mas... - Ana percebia o medo
                               ~ 384 ~
em sua voz - eu no acho que o senhor esteja em condies de enfrent-
lo. No sem seus poderes. E eu...
    - Calma, minha pequena Satine, calma. - a voz parecia se divertir com
o pnico da garota - Como eu disse, temos uma segunda boa notcia hoje.
    Satine o olhava com desconfiana e Ana comeou a sentir medo da
idia. Eles queriam trazer Ian de volta. Ela estava feliz com a idia de
saber que ele estava longe dali, mas agora eles o atrairiam para uma
armadilha. E ela seria a isca.
    - Qual o seu plano mestre? - perguntou Satine relutante.
    - Pelo o que eu conheo de Kalish, ele ainda no deve estar longe. Eu
ainda posso senti-lo por perto e vou mandar uma mensagem pra ele. Vou
mostra-lhe sua amada aqui, como nossa prisioneira.
    - E depois? - perguntou impaciente.
    - Talvez voc tenha que atras-lo um pouquinho at que a nossa arma
secreta chegue.
    - Arma secreta?
    - Sim Satine. A nossa segunda boa noticia de que falei. Temos mais
uma pessoa que abraou a nossa causa. Uma que aquele mago no
poder derrotar.
    Ana comeava a ficar mais nervosa com a situao. Agora teria mais
um demnio para Ian enfrentar. Um que ele no poderia derrotar.
    - Eu at que gostaria de bater um papinho com ele eu mesmo, - falou
o demnio  Tenho coisas que gostaria de lhe contar, mas em minhas
condies no posso. Tenho que esperar at que eu tenha meu corpo de
volta.
    - Vou cham-lo agora - completou a voz - No podemos nos arriscar
que ele se distancie mais at sumir. Conto com voc para distra-lo?
    - C... Claro senhor? - ela tentava parecer um pouco mais confiante,
mas ainda assim no conseguia parecer natural.
    - Use o corpo dessa garota para atras-lo. No quero que machuque o
seu, que levou tanto tempo para ficar pronto.
    - Claro senhor - ela sorriu ainda trmula.
    Ana no entendeu o final, mas temeu o que era discutido. Alm de
Ian, Laila tambm ia sofrer. Ela tentava se livrar das cordas, mas no era
possvel. Tentou se lembrar das lies sobre controle de energia. Tentou
mais uma vez canalizar sua quintessncia para o brao, mas no foi
capaz. Emoes no lhe faltavam para fazer o sangue circular mais
rpido, mas ainda lhe carecia de disciplina para control-lo.
                               ~ 385 ~
    *
    H alguns quilmetros dali, em p no alto do telhado de um prdio de
sete andares, Ian observava a lua minguante com seu sorriso irnico e
escondido nas nuvens. No conseguira ainda sair dos limites do bairro,
por ter a cabea cheia de coisas com o qual pensar. Ainda refletia sobre
as palavras de Ana. Na maneira como ela o expulsava, na forma como o
desprezara.
    Sabia que era da boca pra fora. Que aquela exploso foi resultado da
despedida. Mas mesmo assim, doa saber que essas seriam as ltimas
palavras que ele a ouviria pronunciar.
    Mas no fundo a culpa  minha, refletiu. Se eu tivesse ido embora h
quatro anos no teria de suportar isso.
    No teria se apaixonado e a despedida seria menos dolorosa.
Abandonar a sua me j era bem difcil, agora abandonar Ana tambm,
era como morrer. Teve de deixar as duas nicas mulheres que conseguiu
amar nessa sua droga de vida. E as nicas mulheres que conseguiram
amar o monstro que ele era.
    Ela me ama. Lembrou-se subitamente levando as mos aos lbios.
Ele no pode deixar de lembrar-se da declarao de Ana. Aquilo quase o
fez desistir de fugir, mas no podia fazer isso. No podia arriscar a vida
dela como fez coma de... E experimentou uma pontada no peito que fez
seus punhos enrijecerem ao se lembrar daquela noite. A imagem do
corpo mutilado num quarto em Michigan ainda tomava conta de seus
pesadelos. No podia permitir que isso acontecesse de novo.
    No podia imaginar isso com Ana. Se um simples beijo j lhe
despertou tanto xtase, como seria quando ela quisesse algo mais? No,
ela merece algum mais saudvel. Mas ainda assim no podia evitar a
alegria que sentia ao saber que era correspondido. Ainda mais sabendo
que ela o aceitara do jeito que ele era. Sabendo dos seus crimes e de sua
maldio.
    Pare de rir seu idiota. Ordenou a si mesmo. Pois voc nunca vai t-
la. No tinha outro jeito. E desistindo de sonhar e apertando o tecido em
suas mos, ele pensava agora na prxima questo de sua vida:
    Para onde ir?
    E uma vontade louca de rir veio. Havia pensado em todos os aspectos
de seu plano de fuga. Desde o momento exato para servir de libi at a
ajuda que Solange lhe daria arranjando um corpo para se fazer passar por
ele.
    Mas no tinha pensado para onde partiria.
                               ~ 386 ~
    Foi to mais fcil como Lucien. Na sua segunda vida ele pde fugir
simplesmente sem dar explicaes. No tinha laos com ningum, foi
simplesmente sair e nunca mais voltar. Sem despedidas, sem lgrimas, s
ele e Adele.
    Adele. Pensou com culpa. Esse crime o perseguiria para sempre. Mas
o pior foi permitir a chance de comet-lo por inmeras vezes mais. Por
sorte, nunca perdeu o controle como Ian. Pelo menos nessa vida ele
estava limpo. Mas o banho de sangue que provocou como Lucien
mostrava que sua ficha jamais seria limpa.
    Era hora de acabar com tudo. Concluiu finalmente. J tinha feito
antes, mas de forma errada. Mas se fizesse agora, seria definitivo. No
tinha nada que pudesse salv-lo da morte. E foi quando ele olhou para o
cho tentando com a idia. Aquela altura seria o suficiente para ele? J
que no sabia para onde ir, talvez o melhor caminho fosse para baixo.
Um caminho que ele ter que fazer um dia.
    J que no enganaria mais a morte e como estava atrasado para com
ela, porque no agora? J tinha feito isso como Lucien. Numa poca em
que no tinha nada a perder. Nada que o prendia ao mundo dos vivos.
Mas o que o prendia hoje? Sua me j o ia ver como morto daqui a um
ou dois dias. Solange, por mais que estivesse ao seu lado durante dois
anos, jamais demonstrou muito apego a ele e Ana mesmo j tinha dito
que era hora dele partir.
    No tinha pra onde ir e nem quem o estivesse esperando. No tinha
realmente nada que o prendesse ali. O que o esperava depois dali? O que
faria se decidisse viver? Com certeza, passaria seus ltimos dias isolado
do convvio das outras pessoas, para se impedir de matar mais algum.
Mas por quanto tempo conseguiria viver assim? No podia viver mais se
privando de tudo. No podia viver sem sentir raiva, paixo ou emoo.
Viver assim no era viver. Viver sem amor no era viver. Viver sem Ana
no era viver.
    Agora a altura parecia menos opressiva a mais tentadora. Pensou na
liberdade que sentiu quando se tacou como Lucien, da sensao de
leveza, como se por uns leves segundos fosse capaz de voar. Era doentio,
mas era nisso que ele estava tentando se agarrar e assim o medo
comeava a abandon-lo.
    E foi quando um vento forte comeou a bater em seu rosto. Ian ficou
surpreso com a corrente inusitada e levou as mos aos olhos para
proteg-los. Ento, o som que passava pelos seus ouvidos foi ganhando
ganhar forma, at que palavras comeavam a ser entendidas, mensagens
que se revelavam escondidas atrs das correntes de ar.
                              ~ 387 ~
    Ian. Chamava a voz fria que o vento trazia e aquela foi a nica
palavra dita. O resto foi uma seqncia de imagens que o fez levar as
mos  cabea. Uma enxaqueca aguda o atingiu enquanto ele via em
flashes uma caverna iluminada por tochas, Ana amarrada a uma das
extremidades, Laila em p a sua frente, rindo dela.
    A dor de cabea atingiu um nvel mais alto fazendo Ian cair de
joelhos ao testemunhar a ltima cena, que foi a de uma fachada de uma
casa em runas. Um lugar que ele conhecia muito bem. Ficava na rua
acima da sua onde morava. O lugar estava abandonado h anos.
    Num dos cmodos daquela sala, Ian sabia que encontraria um alapo
que o levaria para os tneis cavernosos da primeira viso. Tudo isso lhe
foi enviado em apenas alguns segundos. Tudo trazido pelo vento.
    Seja rpido. A voz dizia. E venha sozinho.
     uma armadilha, ele percebeu de cara quando a dor de cabea se
desfez e ele pde aproveitar o silncio reconquistado. Mas as imagens
eram to reais. Ele sabia que elas eram frutos de uma transmisso de
memrias, que  muito comum quando se da o Beijo mgico. Mas no
sabia que podiam ser transmitidas atravs do Mensageiro. Quem teria
poder para tanto?
    Sabia que essas imagens eram reais e isso o deixava louco. Tinha
deixado Ana para mant-la segura e agora ela estava em perigo
justamente por que ele a deixou. Tinha que voltar. Sabia onde ficava o
lugar, mas ainda no entendia o que estava acontecendo.
    No fazia sentido aquilo. Por que atra-lo para l? Por que escolher
logo o momento de sua partida? Mas no tinha tempo para descobrir e
apenas tomou o caminho de volta saltando de prdio em prdio.
                              ~ 388 ~
   53 - A perda da f.
    No salo principal da Igreja da Iluminao, Henrique caminhava pelo
tapete vermelho que se estendia da entrada at o altar, olhando tudo com
de despedida e, se pondo de joelhos de frente para a Imagem da Virgem
Maria, comeou a rezar. No sabia na verdade para que estava rezando.
Se para agradecer, pedir perdo ou para garantir uma viagem tranqila ao
reino dos cus.
    Penando sinceramente, concluiu que perdo no era. No se sentia
culpado.  certo que suas atitudes acabariam provocando a morte de
inmeras pessoas, incluindo sua prpria, mas sentia que era tudo por uma
causa maior. ngelo j devia estar morto e Csar era apenas uma questo
de tempo. Logo os Inquisidores entrariam por aquela porta para finalizar
o servio.
    Henrique tambm no tinha esperanas de sair vivo. Sabia que os
Inquisidores s o deixaram respirando at agora por que ele era til. Mas
essa utilidade no seria eterna e ele seria descartado. Mas no fim, isso
tambm no lhe fazia diferena. Afinal, ele tambm era parte do grande
mal a ser combatido e por isso merecia morrer. S esperava que seus
ltimos atos lhe garantissem a redeno divina.
    Henrique sempre foi um homem fervoroso. Sempre respeitou as
inscries e sempre valorizou a moral e os bons costumes. Quando
entrou para os Iluminados, ele se viu no paraso. A magia para ele era a
manifestao do milagre de Deus na terra e a Ordem era a portadora
dessa luz.
    Devido ao seu carisma e habilidade e conhecimentos de lnguas, ele
acabou recebendo a misso de ir conhecer os diferentes grupos mgicos
que existiam no mundo e durante muito tempo foi os olhos da Ordem nos
diferentes cantos. Servindo de espio, Henrique se infiltrou em diferentes
cultos para descobrir seus segredos e servindo de diplomata, ele tentou
melhorar as relaes dos Iluminados com o as demais ordens.
    E foi nesse perodo de sua vida, que ele acabou conhecendo os podres
daquela existncia, que de certa forma ele fazia parte. Na Frana, entrou
em contado com a Irmandade da Rosa, um grupo que praticava a
libertinagem em seus rituais. No Oriente, deparou-se com os Filhos do
sol. Um grupo terrorista que pregava a morte em homenagem a um Deus
falso. No Japo, conheceu os Pensadores do Futuro. Uma organizao
que mesclava cincia com magia. Um povo do mais alto nvel de atesmo
que esse mundo podia ver.
    Todas as irmandades mgicas eram degeneradas. No havia salvao.
                               ~ 389 ~
Todas praticavam inmeras formas de pecado. Eram um risco a moral e a
famlia por sua forma libertina de se viverem. O paraso em que ele
acreditava era falso. Os magos eram longe de serem pessoas de bem.
Eles tinham que ser detidos. Eles desvirtuaram os milagres de Deus.
    E foi quando se infiltrou em um grupo pequeno de Inquisidores. Ali,
ele entrou como um espio. Algum para conseguir informaes para a
Ordem. O lder Rauch o aceitou bem. Ele sabia que no poderia criar
vnculos com esse grupo, pois sua encomenda de morte no tardaria a
chegar, mas mesmo assim, no tempo em que ficou infiltrado neles,
acabou por absorver sua filosofia.
    Durante o tempo em que esteve infiltrado ali, foi tratado como um
irmo. Bebeu dos ensinamentos e ao contrrio do que via nas irmandades
mgicas, ali sim havia pessoas direitas. Pessoas de famlia que
respeitavam a f e os bons costumes. Cidados descentes que cumpriam
suas obrigaes e mantinham lares saudveis.
    Foi quando sua f caiu drasticamente. Henrique perdeu toda a sua
crena na magia e comeou a v-la como uma verdadeira ameaa e seu
maior dio foi contra a sua prpria instituio. As histrias contam de
um passado, quando os Iluminados lutavam contra os demais grupos
mgicos alegando defenderem a estabilidade e ordem no planeta.
Hipocrisia. Pensava. Eles usavam o mal para combater o mal e isso no
era certo. A verdade  que sua organizao s estava interessada em uma
coisa na poca: poder.
    E foi ento que ele voltou a sua Ordem e mostrou para os membros
do conselho seus relatrios. Mentiu, alegando que nenhuma organizao
mgica tinha interesses em se juntar aos Iluminados. A verdade era que
muitas organizaes se mostravam prontas a perdo-los, mas Henrique
preferia assim. Deixar as coisas como estavam e manter a ordem isolada.
    Ele j tinha um plano em mente naquele momento e s faltava
coragem de execut-lo. Henrique tinha o desejo enorme de que os
Inquisidores acabassem com toda a forma de perverso causada pela arte
mgica.
    E foi quando entrou em contado com Rauch, e lhe contou tudo o que
era. O homem, no principio, tinha vontade de esgan-lo, mas pareceu se
segurar ao enxergar o potencial de seus servios. Apesar de ser algum
importante dentro da Ordem, ainda existiam muitas limitaes no
prestgio de Henrique. Muitas informaes caras aos Inquisidores o frade
no possua e Rauch acabou lhe passando uma nova misso: a de tentar
conseguir informaes com algum mais influente.
    A Ordem do Conselho e a sbita doena do bispo Csar, chegaram
                              ~ 390 ~
para ele como um aviso dos cus. Um sinal de que ele engrenava pelos
caminhos certos e que Deus o ajudava. Pois monitorando Csar de perto,
poderia conseguir muito mais coisas.
    Ento, durante um ms ele usou um forte feitio injetado nas plulas
que dava a Csar. O feitio era forte o suficiente e fazia o Bispo
responder a todas as perguntas e ainda garantia que o homem no se
lembrasse de nada depois de um interrogatrio. Como o feitio era muito
poderoso e a fora de vontade do homem tambm, acabava que o efeito
s durava por alguns minutos, antes de Csar cair exausto sem poder
dizer mais nada.
    Rauch sempre demonstrou interesse em levar o velho para seu QG e
interrog-lo l, mas Henrique sempre garantiu que Csar era um homem
de profunda lealdade e que jamais daria qualquer tipo de informao,
mesmo que sob o efeito das maiores drogas e das mais pesadas torturas.
    Com pacincia e habilidade, Henrique conseguia dar a medicao ao
frade que tinha uma confiana cega nele. Henrique tinha a habilidade de
enganar as pessoas devido aos seus anos em que trabalhou como espio e
diplomata para a Ordem dos Iluminados. Mas uma coisa que sempre
preocupava Henrique, era manter suas comunicaes com Rauch sem
levantar a ateno do Bispo.
    E foi quando Csar teve o sonho que o deixaria to abalado. No
inicio, Henrique pensou em no dar maiores atenes s loucuras do
velho, mas foi quando ele enxergou nisso uma grande oportunidade.
Mexendo seus pauzinhos, convenceu o velho homem a aceitar uma
ousada empreitada: a de tentar um acordo com os Inquisidores. Nesse
plano, uma srie de fatores conspirou a seu favor:
    Primeiro, o fato da Ordem dos Iluminados se encontrar isolada nos
tempos modernos. Fator esse que em grade parte se deveu a ele. Em
segundo, a histria da Ordem com os inquisidores. Afinal, eles j foram
parceiros na luta contra o mal da magia em outros tempos e eram o mais
prximo de aliados que a Ordem teve em sua longa existncia.
    E em Terceiro, o prprio dilema pessoal do bispo. Ele tinha batalhado
tanto pela Ordem e agora se via sendo jogado no lixo. A nsia de se auto-
provar o fez arriscar por esse terreno duvidoso. Assim, ele conseguiu
aproximar Rauch do Bispo. Todos aparentando estar preocupados com o
sonho do velho homem. Nessa loucura, os nicos que se mostraram
realmente interessados foram a louca da Cassandra e o moleque do
ngelo.
    ngelo, essa foi a maior pedra no sapato de Henrique desde ento. A
curiosidade dele colocou em risco sua misso sagrada. Ele ainda
                              ~ 391 ~
transpira ao lembrar-se do dia em que pegou o garoto usando a magia do
Flashback na sala do bispo. O lugar onde tantos interrogatrios haviam
ocorrido.
    Se ele visse um deles que fosse, no tardaria a correr para contar ao
bispo. E tudo ruiria como em um castelo de cartas. Ele ainda tentou, por
via de dvidas, apagar as lembranas dele, mas o garoto se mostrou um
mago mais habilidoso do que esperava.
    ngelo, o prodgio. Lembrava com raiva. Aquele garoto havia
neutralizado seu golpe com muita facilidade. Ele no conseguia evitar
sentir seu ego ferido.
    Mas agora ele est morto. Que Deus o tenha e julgue seus pecados.
    Acalmou-se. E foi quando escutou a porta principal do templo se
abrir e levou as mos ao bolso das vestes e se virou para encarar seu
visitante, imaginando ser Rauch que vinha para acabar com o servio.
    - Demorou muito. - disse se virando e foi quando viu que havia se
enganado.
    Na sua frente, uma verso maltrapilha de ngelo se encontrava
erguendo-lhe a arma. Ele parecia horrvel e Henrique no imaginava que
ele pudesse ficar mais feio do que j era. Suas roupas pareciam que no
eram trocadas h dias e o suor deixava sua pele brilhando e seu cabelo
pingando.
    - Eu quero explicaes! - gritava para o frade.
                              ~ 392 ~
   54 - A arma secreta.
    Ian mantinha seus sentidos ligados  procura de qualquer armadilha
posta na entrada da velha casa. Nada. Tudo parecia calmo demais e o
garoto teve um caminho tranqilo at o alapo. Seguia at ento os
passos passados pelo Mensageiro, mas a partir da no saberia o que
poderia encontrar.
    O puxou ento a argola que servia de maaneta para a entrada e um
cheiro de mofo atacou suas narinas. Tentou ver se escutava algum, mas
o tnel parecia deserto. Mas assim que pulou alapo adentro, percebeu
alguma coisa atrs dele e ao se virar para atacar, viu que era Laila.
    - Ian!  A garota parecia assustada.
    - O que voc faz aqui? - perguntou relutante.
    Havia algo de errado. Ele sentia uma presena na garota que no era
comum e foi ento que alguma informao lhe passou pela cabea. Algo
que ele no sabe de onde veio e foi ento que percebeu que se tratava de
uma informao que o mensageiro deixara escapar para ele. Ele via Laila
rindo para Ana e ento soube, no sabe como, que ela no era a amiga, e
sim uma demnio. Satine.
    Ela foi se aproximando do garoto como se fosse abra-lo. Seus olhos
estavam cheios de lgrimas e ela simulava pnico. Sem deix-la se
aproximar mais, o garoto a pegou pelo pescoo num movimento rpido,
pondo-a de encontro com a parede. A demnio soltou um grito
engasgado e quando o garoto ergueu a mo em forma de garra contra ela,
Satine comeou a rir.
    - Cuidado - disse ao meio de tosses - Esse corpo ainda est inteiro - e
riu novamente.
    - Como? -seus olhos se arregalaram
    Satine j se sentia vitoriosa. Ian no iria se arriscar a machucar o
corpo da garota. Ela tinha at se assustado com o golpe brusco recebido,
mas agora via que estava com a situao sobre controle. Quem sabe at
ela mesma no pudesse derrub-lo ali.
    Os olhos dele estavam azuis no tom habitual do cl Garow e uma mo
com garras segurava o seu pescoo bem preso.
    - Isso mesmo queridinho. Esse corpo ainda est vivo - ela sorria
presunosamente - Me matando, voc estar pondo um fim  sua
amiguinha tambm. Assim como matou Adele, - completou - ou
Catarina, tanto faz.
    Seus olhos se arregalaram ainda mais.
                               ~ 393 ~
    -  querido, eu sei - ela riu mais uma vez - No vai querer ser o
responsvel por mais uma morte inocente, vai?
    Ele largou o seu pescoo e ela sentiu o ar entrar de bom grado em
seus pulmes. Ian agora olhava para o cho e Satine se preparou para dar
um golpe de misericrdia. Fcil demais, pensou. Mas ela no esperava o
que estava por vir.
    Tudo aconteceu em poucos segundos. Os olhos espantados do Garow
 sua frente ganharam uma expresso de raiva e suas presas ficaram
visveis, quando ele se virou desferindo um golpe contra a barriga de
Laila. Satine sentiu a carne da garota sendo dilacerada pelas unhas do
Garow e uma dor aguda a fez cambalear para trs com a mo no recente
ferimento.
    Por qu? Por isso ela no esperava. Ento, o medo que ela sentia
antes voltou com toda a fora. Por algum motivo Ian no estava ligando
para a vida de seu hospedeiro. Ana era to importante assim? Ela
comeou a sentir o desespero tomar conta dela. No podia morrer dentro
do corpo de Laila ou seu esprito voltaria ao maldito purgatrio.
    - Eu no vou voltar pra l! - ela berrava - Voc no se importa com a
garota, seu monstro? Vai mat-la!
    Mas ele comeou a se aproximar sem prestar ateno no que ela dizia.
Satine cambaleava tentando se afastar dele e foi quando deu uma olhada
rpida na mo que tampava o ferimento e percebeu que no havia nada.
Nenhuma gota de sangue.
    Mas como? A dor ainda era aguda demais, tinha que estar
machucado. Tinha que estar sangrando. Ela olhou para a barriga e
constatou que nenhum ferimento era visvel. De onde vinha ento a dor?
E quando olhou para as mos do garoto, percebeu uma luz azul fraca na
ponta de cada dedo, envolvendo cada uma das garras. Ele deu mais um
golpe e desta vez ela percebeu o que acontecia.
    As unhas de Ian penetravam a sua carne como se fosse um
holograma, sem ao menos ferir o corpo. Mais uma dor dilacerante fez
Satine cair de joelhos no cho Ela no conseguia mais falar quando
sentia as garras atravessando mais uma, duas, trs vezes seu corpo sem
ferir sua hospedeira. Era uma dor mil vezes maior do que se estivesse
tendo seu corpo de verdade retalhado.
    Ele vai me destruir. Ele est me atacando diretamente no esprito.
Concluiu em desespero. Ela se desesperou quando viu sua mo erguida
ameaadoramente contra seu corao.
    -No! - gritou antes de uma exploso negra sair de seu peito.
                              ~ 394 ~
    Ian teve de levar a mos aos olhos para se proteger da luz negra
emanada. Ao abri-los, pde notar um espectro deslizando pelas paredes
rochosas em direo a um corredor. Ele correria atrs dele se no tivesse
uma prioridade naquele momento.  sua frente ele via Laila. Cada ao
cho, ela no estava desmaiada, pelo contrrio, ela tinha as mos em
frente ao rosto e se encolhia contra a parede rochosa.
    A garota mexia as pernas como se tentando fugir de algo, porm, lhe
faltavam foras ou o nervosismo a deixada desajeitada demais para
escapar. Seu choro soluante ecoava pelas paredes frias e escuras da
caverna.
    - O que est acontecendo? - ela gritava ainda sem coragem de
destampar os olhos.
    Ian se precipitou para junto da garota, segurando seus braos.
    - Laila! - ele a sacudia e depois a abraou. De inicio, a garota tentou
empurr-lo, mas o alvio do toque gentil a fez se agarrar em Ian enquanto
chorava copiosamente.
    Ian a sentia tremer enquanto o segurava com tanto desespero que suas
unhas arranhavam-lhe brandamente a pele.
    - Laila - ele disse com a voz mais baixa agora que ela parava de gritar
- Calma. Est tudo bem.
    - I... Ian? - apesar do alvio, sua voz ainda era muito nervosa.
    - Sim.
    - O que... o que voc est fazendo aqui? O que aconteceu comigo?
Onde estamos... - ela atropelava uma pergunta em cima da outra.
    - Calma - ele apertou os braos em volta dela - Est tudo bem agora.
    - O que esta acontecendo? - ela comeava a se acalmar.
    -  uma longa histria - e a segurou novamente pelos braos
obrigando-a a olhar pra ele - Escuta! Eu no tenho tempo de te explicar,
mas vou te dizer o que tem que fazer. Subindo essas escadas atrs de
mim, voc vai sair na antiga casa abandonada na rua acima da nossa.
Voc vai reconhecer na hora. Quando sair daqui, eu quero que voc
chame a policia pra c. Est ouvindo?
    Ela o olhou com os olhos arregalados.
    - Est me ouvindo?
    Ela balanou a cabea, confirmando
    - E voc?
    - A Ana t aqui tambm. Eu tenho que peg-la e depois te explico.
Vai! - e a largou.
                               ~ 395 ~
    Laila precisou de alguns segundos ainda para conseguir vencer a
paralisia que mantinha seu corpo preso ao cho. Enfim, conseguiu sair e
seguiu as instrues do garoto.
    Menos uma com quem me preocupar.
    Ian preferiria que ela fosse atrs de Solange, mas Laila ia ench-lo de
perguntas e tempo no  uma coisa que ele podia desperdiar naquelas
circunstncias. E depois, no queria ajuda da maga at ter certeza de que
estivesse com Ana. Tinha medo que eles fizessem alguma coisa com ela
se outro mago aparecesse.
    Pelo menos a polcia pode faz-los recuar se for preciso, pensou.
   Apesar de toda a tenso, ele se sentia mais tranqilo. Pelo menos a
garota no tinha sido ferida inutilmente. No fundo, Ian agradeceu os
anos em que furtava conhecimentos dos Xams de sua tribo, pois foi
numa dessas empreitadas que conseguiu as Garras da Morte. Uma forma
de ferir um esprito intruso, sem molestar seu hospedeiro.
   Por essa ela no esperava, pensou sorrindo.
   Mas no tinha tempo de se gabar. Sabia a direo pelo qual o espectro
havia fugido e seguiu.
   *
   Ana esperava cheia de tenso. Satine havia sado h alguns minutos
no corpo de Laila para enfrentar Ian. Apesar de a demnio alegar no ter
poder o suficiente para derrubar o garoto, ela tinha uma vantagem: no
havia como Ian atac-la sem ferir a amiga. E ento, ele teria duas
escolhas: uma, seria atacar o corpo de Laila sem se preocupar com nada.
Mas isso mataria a garota. E a segunda, seria se deixar capturar, ou pior...
Mas ela no queria pensar no fim dessa possibilidade.
   E foi quando percebeu algo muito rpido que havia cruzado seu
caminho. Ele chegara pela passagem em que Satine havia sado e entrou
em uma nova logo  esquerda de Ana. Ela no conseguiu ver o que era.
Parecia um vulto.
   - Eu realmente no esperava por essa - comentou a voz misteriosa que
vinha de dentro do recipiente com um ar divertido.
   O que houve?
   E foi quando uma figura alta e esquia, com longos cabelos prateados
saiu das sombras, por onde o vulto havia entrado anteriormente. Era
provavelmente a mulher mais bonita que Ana j tinha visto na vida.
Parecia uma modelo com seu porte altivo, mas naquele momento, suas
                                ~ 396 ~
belas expresses estavam danificadas pelo desespero que parecia engolir-
lhe o corao.
    - Meu senhor - disse ofegante - eu...
    - Acalme-se Satine - o tom zombeteiro mudou para o paternalista -
Fico feliz que tenha escapado. Eu realmente no esperava que aquele
moleque fosse capaz de tal artimanha.
    O Ian venceu? Ana comeou a se animar. Mas a que preo? E pensou
em Laila.
    - No sei que magia era aquela. - o tom de voz da mulher ainda era de
splica - Ele conseguiu me ferir sem machucar a vadia e...
    - Calma Satine - pediu novamente a voz. Ana ficava mais feliz com o
que ouvia - Eu tambm fui pego de surpresa.
    - Mas ele est vindo pra c  lembrou j alterada - O que pretende?
Usar a garota como escudo? - e apontou pra Ana?
    - No - a voz riu.
    - Ento?
    - Voc por acaso se esqueceu do plano original?  Mas quem havia
respondido no fora o recipiente, mas sim uma terceira voz que fez Ana
olhar para outra passagem naquela gruta que ela nem tinha reparado
existir.
    Um tnel se estendia por trs de onde ela estava. Estava escuro, pois a
luz das tochas ali no chegava e Ana forava a vista para tentar
vislumbrar de quem era aquela voz aveludada que fez sua espinha se
congelar. Quando finalmente a dona da voz apareceu, a garota percebeu
que havia cometido um equivoco. Aquela era a mulher mais bonita que
j tinha visto na vida.
    As sombras comeavam a ganhar forma, revelando uma figura to
alta quanto Satine, s que esta parecia ter mais leveza em seu andar.
Enquanto se aproximava, a figura misteriosa parecia que danava ao som
de uma msica que s ela aprecia ouvir e  medida que foi deixando a
escurido, suas formas desenvolvidas foram se revelando. Parecia uma
mulher de uns vinte e cinco anos, com um corpo bem feito. Cada detalhe
dela parecia ter sido desenhado.
    Seus cabelos formavam uma cascata em sua cabea, como a de
Satine, mas eram negros e volumosos e pareciam possuir luz prpria
enquanto brilhavam a luz das tochas. Seus olhos eram negros, como os
de Ian quando no invocava sua descendncia Garow, e seu olhar era
inexpressivo, mas demonstravam uma fora que fez Ana se encolher.
    Quando esses olhos pousaram sobre Ana, a garota sentiu um
profundo desprezo vindo daquela mulher. Seu rosto era to inexpressivo
                               ~ 397 ~
quanto seus olhos, que realavam os traos bem feitos. Assim como
Satine, ela parecia ter sido esculpida ao invs de concebida.
    - Voc! - ela viu a esperana brilhando nos olhos de Satine, que no
conseguia manter a boca fechada, tamanho era o choque.
    Quem  ela? Ana se perguntava. E a mulher deu um sorriso frio
mostrando uma fileira de dentes perfeitos.
    - Meus parabns Satine. - disse em tom cortante - Conseguiu distrair
Lucien por tempo o suficiente.
    A voz irnica dela demonstrava que estava tirando sarro da loura, que
se irritou, mas no se atreveu a dizer nada. O medo que a mulher morena
provocava em Satine chegava a ser palpvel para Ana. Nem mesmo
quando soube que ia enfrentar Ian ela se mostrou to temerosa.
    E sem dizer mais nada, saiu, se dirigindo sem pressa por onde Satine
havia sado na primeira vez.
    - Como a conseguiu? - perguntou Satine estupefata, quando a outra
desapareceu. A voz riu. Um som de prazer saiu daquele recipiente que
deixou Ana apreensiva.
    - Eu disse que tnhamos uma arma secreta - gabou-se a voz - Ela
mostrou interesse em se reunir a nossa nobre causa h algum tempo. Mas
eu s a chamei agora, pois as circunstncias exigiram.
    - Acha que podemos confiar nela? - perguntou.
    - No tenho certeza  disse com ar divertido  Mas acredito que no
momento ela tenha tanto interesse quanto ns em ver o Garow morto.
    Morto?
    Satine olhou para Ana aparentemente se lembrando agora que a
garota ainda estava ali.
    - Ento queridinha. No faz idia de quem seja?
    Ana no respondeu.
    - S te digo uma coisa - ela a olhou com a expresso superior  Dela,
o Ian no passa.
                              ~ 398 ~
   55 - Acerto de contas.
    - Eu j sei sobre o feitio que usou! Eu j sei sobre a Beladona! Agora
eu quero explicaes - gritava ngelo com a cruz erguida contra o frade.
    Henrique estava surpreso. Pelo que se lembrava, Rauch era mortal
quando se envolvia numa caada, mas por algum motivo, havia deixado
aquela presa escapar.
    O frade alisava a cruz que levava dentro do bolso das vestes que
usava, enquanto dizia em tom de voz casual:
    - Bem, se voc j sabe de tudo, o que quer que eu lhe explique?
    ngelo arregalou os olhos para expresso calma do frade.
    - Eu quero... - disse tentando recuperar a fria - que voc me diga o
que fez. O que voc fez com aquele feitio? Para quem era?
    - Voc no imagina? - disse surpreso  No me diga que toda aquela
fama de Prodgio era mito?
    A raiva do garoto comeava a se tornar incontrolvel.
    - Me diga! - urrava.
    - J que insiste. - e deu de ombros - Mas duvido que voc no tenha
chegado s concluses por si mesmo - Henrique deu um risinho
debochado - Eu usei o feitio proibido de Lucas Levstross. Eu usei a
beladona para armazenar o feitio e fazer com que o bispo o ingerisse
sem perceber. - ele deixou o silncio pairar por uns segundos - E eu
tenho um pacto com os Inquisidores e permiti a sua entrada aqui. - e
revirou os olhos vasculhando a mente  Acho que no sobrou mais nada.
    - Por qu? - A voz de ngelo era to fraca que ele se surpreendeu por
Henrique conseguir entender o que ele dizia. No conseguia acreditar que
o frade pudesse falar daquilo de forma to natural.
    - Cansei de ser hipcrita ngelo - seu tom perdeu o deboche de antes
e agora assumia o ar pedagogo - Durante anos a Ordem dos Iluminados
vem combatendo o que ele considera o mal: a magia. Mas utiliza de seus
meios sujos para faz-lo. Somos to desprezveis quanto os demais
magos que ajudamos a caar.
    - Voc no pode estar falando srio! - ngelo balanava a cabea
descrente - Voc est aqui h anos a mais que eu. Como no consegue
enxergar nossa posio? Ns usamos a magia sim...
    - Usamos um mal para combater outro! - interrompeu o frade - Se
voc leu as palavras do senhor, como se exige nos deveres de casa, vai
perceber que ele jamais concordou com isso: usar um mal para combater
outro.
                               ~ 399 ~
    - Mas a magia no  um mal! E sim quem a usa. Os motivos contam
tudo! Ns nunca usamos a mgica levianamente. Quando participamos
da Inquisio, foi s porque as tribos mgicas tinham perdido o controle.
Espalhavam o caos com suas guerras. Tentamos manter a estabilidade.
    A risada de Henrique ecoou pelas paredes da catedral gtica.
    - Voc realmente acredita nisso?  e balanou a cabea demonstrando
pena - Acho que deve estudar mais prodgio - Apesar do sorriso seus
olhos emanavam uma frieza - Da prxima vez, faa seu dever de casa,
como eu fiz.
    Eles ficaram em silncio, um encarando o outro. ngelo furioso e
Henrique calculista. O garoto havia desperdiado uma grade vantagem
sobre o frade. Ele estava com o bnus da surpresa e o fato de seu
oponente estar desarmado.
    - Desperdiou sua chance - falou Henrique e ngelo o encarou sem
entender - Quando fazemos uma coisa temos que ir com tudo - e apertou
o crucifixo. - No podemos deixar pontas soltas. - E encarou o garoto -
Voc quer proteger essa sua igreja hipcrita, ento no deveria ter
hesitado em destruir algum que esta tentando derrub-la. Desculpe, mas
no vou cometer o mesmo erro...
    E num movimento rpido e preciso, ele sacou o crucifixo e lanou
contra o garoto um impulso invisvel. Mais uma vez, ngelo mostrou
uma habilidade fora do comum conseguindo se esquivar no ltimo
momento, fazendo a magia bater nas portas atrs dele, fechando-as num
estrondo.
    - Realmente voc tem um grande potencial - ele olhava para o lado
onde o garoto havia se jogado. E ngelo j havia se posto de p e o
encarava com a arma erguida.
    ngelo sentia o corpo doer. Estava cansado com certeza. Desde a luta
contra o garoto em Trs Coraes e contra os Inquisidores logo depois
que no descansa. E agora ele sente seu corpo reclamando, mas no era
tempo para isso. O frade, ao contrario, parecia muito bem. Seu olhar
estudioso corria pelo corpo do garoto analisando a vantagem que ele
tinha naquela luta.
    - Bem meu filho - falou o Frade dando um passo em sua direo -
desta vez o Bispo no poder lhe defender. Pena que voc no poder
fazer o dever de casa nunca mais.
    Ento, ngelo une as mos colando-as pelas palmas e uns cinco
bancos prximos se erguem no ar, espatifando-se e formando uma
nuvem de estacas pontiagudas e serragem. Ento, guindo-as com uma
                              ~ 400 ~
mo, as estacas voam em cima do frade que no pareceu se impressionar
com o ataque.
    E da mesma forma que fez contra Ian, ngelo dividiu as estacas em
dois grupos e, enquanto fez um investir no ataque direto, tentou com o
outro uma investida surpresa pelas costas do adversrio. Henrique nem
ao menos se moveu. Assim que a madeira chegou a uma distncia de um
metro dele, ela se transformou em serragem. O ataque surpresa tambm
no surtiu efeito e logo, uma neblina marrom enchia o lugar.
    - Eu me lembro que voc era mais forte - o frade parecia
decepcionado - Deve estar cansado.
    ngelo estremeceu com a facilidade em que seu ataque foi repelido.
Realmente estava mais fraco do que supunha.
    E erguendo a cruz contra ngelo, o Frade fez mais um impulso se
dirigir contra o garoto. ngelo tentou ainda formar uma barreira para
conter o impacto, s que a energia usada no era o suficiente. Sua
barreira estourou como vidro e ele foi arremessado contra a parede
prxima. Um gemido ficou abafado em seu pulmo quando sentiu as
costelas latejarem com o impacto.
    Mais uma vez, Henrique veio se aproximando vagarosamente. Seu
rosto mostrava o quo feliz estava em poder brincar com o jovem mago.
ngelo tentava pensar, mas nenhuma idia lhe vinha  cabea. Estava to
fraco que tinha medo de desmaiar se colocasse fora demais num ataque.
Sabia que deveria ter descansado um pouco antes de chegar  igreja, mas
foi tudo corrido demais. Agora seu corpo cobrava dele a fadiga.
    Ento percebeu que no segurava mais sua arma. Ela havia voado
quando ele atingiu a parede e agora no a encontrava. Olhava em volta,
mas seu crucifixo parecia ter ido pra longe. O desespero comeou a
tomar seus pensamentos e o impedia de raciocinar direito.
    Tudo parecia se mover em cmera lenta, conforme o frade vinha em
seu encontro. Com toda a calma ele ergueu o crucifixo, bem alto e fez
uma das estacas remanescentes voar no peito do garoto. Mais por instinto
do que por raciocnio, ele se jogou contra uma fileira de cadeiras logo 
frente evitando ser empalado. Quando caiu no cho, pde ver sua cruz
cada embaixo de um dos bancos.
    Ele ergueu a mo em direo tentando fazer com que ela voasse em
sua direo, mas esta apenas tremeu um pouco. Calma, ngelo. Ordenou
a si mesmo lutando para regular a respirao. Mas o garoto sabia que
suas chances no eram boas. Talvez o frade tivesse razo e ele perdeu a
nica chance que teve quando hesitou em atacar quando ele estava
vulnervel.
                              ~ 401 ~
    - Ol! - a voz vinha de cima. O garoto olhou num sobressalto e viu o
frade em cima de uma das cadeiras acenando para ele.
    Num novo movimento, fez o garoto se arrastar pelo cho da igreja at
a outra extremidade. Novamente suas costas bateram com fora na
parede fazendo seu corpo deslizar at o cho. Ele tentou se levantar, mas
viu que suas pernas no lhe obedeciam. Estava fraco demais e agora sua
cruz estava mais fora de alcance que nunca. Tentou atra-la com a mente,
mas um novo impacto o fez perder a concentrao.
    Agora estava fincado contra a parede, sentindo uma enorme presso
contra o peito. O frade andava em sua direo com a cruz erguida.
    - Que tal acabarmos logo com isso? - torturar o garoto parecia ter
perdido a graa para Henrique.
    ngelo caiu no cho sentindo o ar bem vindo preenchendo seus
pulmes. O tentar se mexer sentiu a perna arranhar e foi quando
percebeu que uma estaca de madeira o havia cortado quando caiu. No
desespero, agarrou a estaca prxima e tentou se levantar, mas as pernas
falharam e ele caiu de joelhos, fazendo a perna latejar onde havia o corte.
    Ele segurou a nova arma apontando-a em direo a Henrique se
dando conta do ridculo que era aquilo. Eu no tenho a menor chance.
Pensou numa graa desesperadora. No dava para se levantar. Suas
pernas falhavam
    Acho que  melhor acabar logo com isso, pensou. Melhor eu me
matar, para ele no conseguir fazer isso por mim.
    De onde veio isso? ngelo se assustou com o prprio pensamento.
    No tenho mais porque viver. Melhor dar um fim a minha vida de
uma vez.
    O garoto sabia que estava pensando nessas coisas, mas no sabia por
qu. O pensamento vinha dele, mas ele no o escolhia e o pior  que a
idia comeava a ficar tentadora.
    - Para com isso! - gritou para o frade que sorria.
    Vou me matar agora, pensou novamente e sua mo direita comeou a
se erguer contra o prprio pescoo. ngelo no conseguia controlar o
membro. Todo o resto do seu corpo estava paralisado e apenas a sua mo
parecia ter vida.
    - Sabe que suicdio  pecado, no  garoto? - zombava Henrique.
    Foi ento que ngelo percebeu um pequeno fio prateado que ligado a
sua mo e se seguia at um dos dedos de Henrique.
    O frade mexia seus dedos e o brao do garoto avanava
perigosamente em direo ao prprio pescoo. O desespero fez o sangue
se bombear em seu organismo, enchendo-o de adrenalina. Tentava ir para
                               ~ 402 ~
trs, mas as pernas fracas no deixavam. Sentia o corte na perna fisgando
enquanto tentava se levantar. Em alguns momentos, at conseguia fazer a
mo atacante recuar, mas logo ela voltava se aproximando cada vez mais.
Comeou a sentir os dedos tocando seu pescoo, envolvendo-o num
abrao mortal.
    ngelo tentava andar de joelhos para fugir da mo controlada e mais
sua perna ferida reclamava. Ele conseguiu fazer a mo recuar alguns
centmetros novamente, mas logo um novo pensamento lhe ocorreu e um
desejo de morrer veio com mais fora, fazendo-a envolver
completamente o pescoo e comeando a lhe apertar.
    O ar comeava a ficar escasso para o garoto. Tentou controlar a mo
boa para fazer com que ela empurrasse a controlada e foi quando
percebeu que ainda segurava a estava. Mais uma vez ele tentou se
afastar, lutando para ir para trs, mas as pernas no obedeciam. Mais
uma pontada de dor. O sangue de sua perna comeava a fazer daquele
cho mais escorregadio.
    ngelo segurou a estaca com mais fora quando sentiu mais uma
pontada e os dedos que o estrangulavam se afrouxaram por um segundo,
permitindo que algum ar entrasse.
    E foi ento que lhe surgiu uma idia.
     isso, pensou.
   Henrique olhava o garoto lutar contra seu feitio da Marionete. Dava
para ver o desespero que todo o ser humano enfrenta quando h
iminncia de morte. De comeo, estava divertido olhar para ngelo
sofrer. Seu orgulho estava ferido do ltimo confronto dos dois, onde o
garoto, mesmo sendo to jovem, conseguiu subjugar seu ataque e ainda
contra-atac-lo, fazendo-o se lanar para trs.
   Mas agora ele estava na vantagem e j provara para si e para ele que
suas habilidades eram superiores. Podia parar com esse momento de
sadismo. Era hora de realmente dar um fim aquilo. Logo os Inquisidores
chegariam e ele no queria que testemunhassem aquela cena. Ento,
aproximando-se do garoto, ele segurou a cruz abaixada e logo se podia
ver algo mudando na arma. Ela comeava a aumentar de tamanho, tendo
uma urea prateada que a envolvia.
   No minuto seguinte, no era mais uma cruz que o frade Henrique
segurava: era uma espada. Ao ficar a poucos centmetros do garoto que
ainda se estrangulava, Henrique ergueu a nova arma acima da cabea.
Um movimento e fim. Pensou fechando os olhos para no v-lo sendo
decapitado.
                              ~ 403 ~
    Mas algo de inesperado ocorreu e foi quando sentiu duas mos
encostando-se em seu peito e ele no teve tempo de abrir os olhos para
ver o que era antes que seu trax recebesse um impacto que parecia a
coliso de um caminho.
    Henrique voou em alta velocidade contra a parede no outro extremo
da imensa igreja enquanto sentia suas costelas sendo espatifadas com a
fora do golpe. A dor foi to aguda que ele nem mesmo sentiu quando
suas costas se chocaram contra a parede e foram deslizando at o cho.
Um cheiro de sangue comeava a encher suas narinas e ela sentia falta de
ar.
    Como?
    Foi tudo o que conseguiu pensar.
                              ~ 404 ~
   56 - O Reencontro.
    Esses corredores parecem ter quilmetros.
    Mesmo correndo ao mximo, Ian encontrava dificuldades em chegar
 cmara final, onde provavelmente Ana se encontrava. Todas as curvas
eram muito parecidas e o garoto tinha a leve impresso de estar andando
em crculos. Tomando noo de sua condio, ele decidiu parar e estudar
o local.
    Ele se encontrava de frente para um corredor rochoso onde se tinha
duas alternativas: uma passagem a sua direita e outra seguindo a fundo o
escuro corredor de pedras. Achando j ter passado por uma bifurcao
semelhante, ele marcou com as unhas a parede que dava acesso ao final
do corredor, antes de seguir em sua direo.
    Quando foi dar o primeiro passo, porm, ouviu que algum vinha em
sua direo. O som de passo era facilmente reconhecvel naquele silncio
onde se encontrava. Os passos eram vagarosos, mas ritmados. Parecia
que seu visitante andava sem e pressa. Ian olhava o corredor  sua frente
de onde o barulho vinha. Seus olhos tentavam fixar o escuro, esperando
que as trevas revelassem alguma forma. J estava preparado para um
confronto, e foi quando viu que quem vinha era uma mulher.
    As trevas impediam o Garow de ver os traos fsicos da visitante, mas
mesmo assim, no pde deixar de sentir um frio estranho na espinha. Por
alguma estranha razo sabia quem era sem nem poder ver o rosto. Um
grupo de reaes lutava para se aflorar no peito dele: surpresa, pnico,
vergonha, felicidade.
    Seu rosto era inexpressivo enquanto olhava a bela mulher que surgia
na luz das tochas. Com certeza, nunca tinha visto aquele rosto, mas assim
como aconteceu h muito tempo na Frana, isso no fazia diferena. Era
uma pessoa que ele no sabia o porqu, mas que poderia reconhecer em
qualquer poca e sob qualquer forma. Uma pessoa que antes inundava
seus sonhos, mas que nos ltimos tempos, s tem lhe aparecido em seus
mais sombrios pesadelos.
    - Catarina - ele no sabia se sua voz estava forte o suficiente para ser
ouvida.
    A mulher sorriu. Um sorriso, que fez Ian ficar arrepiado. No era o
mesmo sorriso doce da mulher que amou h anos atrs. Era frio e o
garoto no conseguiu interpretar seu significado.
    Um silncio opressor se instalou. O peito de Ian comeou a ficar
pesado demais. Os flashes na noite de sua desgraa nos EUA vieram com
toda a fora. O quarto destrudo, as mos sujas de sangue, a mulher de
                                ~ 405 ~
sua vida morta. Ele no conseguia pensar o suficiente para formular
palavras e torcia para que seus olhos conseguissem expressar toda a
culpa que sentia e que seus lbios no conseguiam pronunciar.
    No sabia por onde comear. Se perguntando como ela tinha voltado,
ou se ajoelhando e implorando seu perdo. Suas pernas estavam bambas
e ele sentia que no conseguiria manter-se em p por muito tempo. Ela
nada falava, mas a sua simples presena o fazia sentir tantas coisas que
ele julgara estar enterradas para sempre em seu interior.
    Ela deu um passo  frente e ele hesitou dando dois pra trs. Agora
seus braos tremiam. Ele sentia suas garras sendo recolhidas sem sua
permisso. Assim como no Canad, quando ele ainda era Kalish, a
simples presena daquela mulher o deixava intimidado. Catarina deu
mais um passo pra frente. Ela parecia feliz em v-lo. Ela erguia os braos
como se quisesse abra-lo, mas Ian sentia seus instintos brigando para
afast-lo daquele que poderia ser o abrao de uma Dama de Ferro.
    Sabia que algo estava diferente nela. Sabia que no era a mesma
Catarina que tinha encontrado em forma de Adele h anos atrs. Essa era
diferente, mortal. Ele sabia que tinha que se defender. Que ela no lhe
faria bem, mas era incapaz de erguer a mo contra ela.
    - C... Como? - foi o mximo que conseguiu falar.
    Ela sorriu novamente.
    - No est feliz em me ver? - sua voz no tinha mais o calor de antes.
No era o timbre que ele conhecia.
    Corre, alguma voz gritava dentro dele.
    - Estou - ele no conseguia mentir. Era timo saber que de alguma
forma ela continuava viva. Mas ao mesmo tempo ficava triste. - O que
aconteceu... com voc?
    Ela no falou nada e continuou se aproximando e Ian no tentava
mais manter uma distncia segura, apesar da voz em sua cabea estar
gritando desesperadamente para que ele sasse dali.
    - A culpa  minha - ele sentia seus olhos ficarem marejados.
    - No faz mal - ela disse com um tom mais prximo do amoroso - Eu
no o culpo.
    Aquelas palavras foram como um blsamo para o peito do Garow.
Por uns leves segundos ele sentiu que toda a culpa que carregava durante
duas vidas haviam sido removidas. Suas pernas no o sustentavam mais e
ele caiu de joelhos no cho. Seus olhos tambm no sustentavam mais a
gua e lgrimas comearam a escorrer pelo seu rosto.
    Ela agora estava muito prxima e o abraou. Apesar de toda a sua
frieza, seu corpo ainda era quente. O mesmo calor que ele se lembrava.
                               ~ 406 ~
Seus braos caiam nele como um lenol fino e suave e Ian sentiu todo o
cansao da corrida.
    Ela agora segurou seu rosto, fazendo seus olhos se fixarem uns nos
outros. No eram os mesmos olhos. Esses eram negros e olh-los dava
em Ian a sensao de vislumbrar um poo sem fundo. A voz em sua
cabea havia se calado. Ela havia desistido de alert-lo. Sabia que ele
estava condenado  forte presena daquela mulher. E foi quando seus
rostos se aproximaram. Ele sentiu certo desespero como aquele que
sempre o tomava quando algum tentava beij-lo. Mas no teve foras
para resistir e seus lbios se tocaram.
    O beijo da mulher era apaixonado. Comeou com toda a intensidade
como se ela, assim como ele, esperasse anos e mais anos por aquele
momento. Mas o surpreendente  que ele no sentiu a mesma coisa.
Durante anos ele viveu lembrando-se dos momentos que tinha passado
junto daquela mulher. Lembrando-se daquele beijo de mil e uma
maneiras diferentes, mas agora que aconteceu, toda a mgica se foi.
    No sentiu toda aquela paixo saindo dele como sentia antigamente.
No era o mesmo beijo. Nem mesmo a besta mostrou sinais de tentar se
apossar, tamanha era a falta de animao que partia dele. Ian se lembrava
do quanto era perigoso aquilo. Sabia o risco que causava sentir tanta
paixo. Mas quanto tinha sentido tanta paixo pela ltima vez? Quando
um beijo foi perigoso pra ele.
    A imagem de um quarto escuro tendo apenas a lua e uma lamparina
como fontes de iluminao veio em sua mente. Na cena, ele tinha outra
mulher em seus braos. Uma garota cheia de problemas, mas que com a
sua ajuda tinha recuperado tudo o que tinha. Uma garota frgil que
poderia ser facilmente destruda por ele, mas que apesar de sua
fragilidade, nunca demonstrou medo dele, como demonstraram at
mesmo os mais poderosos magos do mundo ao lhe conhecerem.
    Algum que o amava quando ele se fingia de uma pessoa normal, mas
que no deixou de am-lo quando descobriu o monstro que era. Ele sabia
o que faltava naquele beijo. Simplesmente no era o beijo de Ana.
    - Ana - disse num sobressalto. Como podia ter se esquecido dela?
    Ele largou Catarina e sentiu que o sangue voltou a circular em seu
corpo. A paralisia havia passado e suas garras voltavam a crescer e ele
podia finalmente reagir se no fosse tarde demais.
    O que aconteceu depois foi muito rpido. O rosto de Catarina, que
parecia sereno, mudou para uma fria insana. A voz dentro da cabea de
Ian comeou a alert-lo que nem uma louca, mas ele no teve tempo de
                              ~ 407 ~
reagir quando uma dor alucinante lhe atingiu na boca do estomago ao
mesmo tempo em que viu uma luz rosa brilhar entre os dois.
    Ian sentiu as energias evadindo de seu corpo rapidamente e sua
pernas ficaram bambas novamente. A caverna foi perdendo suas formas
e tudo ficou escuro.
                            ~ 408 ~
   57 - Dever de casa.
    Provavelmente suas costelas haviam sido feito em migalhas, refletiu
Henrique cuja dor do impacto fora to forte que por um segundo ele
acreditou que no sobreviveria para poder abrir novamente os olhos e se
questionar: Como ele conseguiu fazer isso?
    O cheiro e o gosto de sangue tomavam todo o sentido do olfato e
paladar do mago. Ele sentia o lquido quente inundando seus pulmes
percebendo que logo estaria afogado em seu prprio sangue. A sua
frente, o jovem aprendiz estava cado de cara no cho, completamente
imvel.
    Estar morto? Pensou e um brilho de esperana o iluminou por uns
instantes. Mas no, Henrique conseguia ver que ngelo ainda respirava.
Estava apenas fraco, mas aquilo era uma questo de tempo. O garoto no
tinha mais foras nem para se erguer. Ele usara muita energia para dar
aquele ltimo ataque e agora no conseguiria nem ao menos se manter de
p.
    Tinha sido derrotado, por ele. Um mero estudante.
    ngelo mexeu a cabea e olhou para ele. Um sorriso presunoso
surgiu em seus lbios e Henrique sentiu a raiva ganhar fora em seu
interior.
    - Frade... - ele tentava falar. Parecia que iria desmaiar a qualquer
momento - Eu fiz meu dever de casa.
    Maldito. Trovejou. Queria ter gritado, mas no se encontrava capaz
de emitir palavras. Como? Ele se perguntava. Ele estava fraco e tinha
sido pego completamente pelo meu feitio de Marionete.
    E, ainda se questionando, foi deslizando o olhar pelo corpo do garoto
e foi quando finalmente percebeu. Antes de cair morto, ele viu uma
estaca de madeira, igual s muitas que ele tentava investir contra
Henrique, fincada fundo em sua perna esquerda.
    Foi isso. Esse foi seu ltimo pensamento antes de a luz abandonar
seus olhos.
    ngelo no conseguia mais se manter de p. Tinha economizado suas
ltimas energias para aquele ataque, pois sabia que essa era a nica
forma de derrotar o frade. Com um nico golpe, que teria de ser mortal.
Tentou mover os braos e se arrastar, mas nem isso sua condio
permitia.
                              ~ 409 ~
   A estaca em sua perna o doa profundamente, mas ela o havia
salvado. Trechos de suas anotaes sobre feitios passavam por sua
cabea.
   Feitios tendem a controlar as emoes e o poder de
deciso de seu alvo. Logo, para algum vitima de uma mgica de
controle, a nica sada  conseguir focalizar toda a sua ateno
em algo diferente. O alvo da ateno da vtima tem que ser algo
muito tentador ou completamente impossvel de se ignorar para
que o enfeitiado no possa pensar em outra coisa a no ser
naquilo.
    A dor  alguma coisa que no se pode ignorar.
    ngelo havia percebido, enquanto tentava loucamente se livrar da
mo que o estrangulava, que sempre que sua perna ferida reclamava, ele
era capaz de assumir, nem que por poucos segundos, o controle de seu
corpo. Se um simples arranho j era forte o suficiente para chamar sua
ateno, fazendo-o ignorar os pensamentos emitidos pelo frade, o que
dir um buraco de uns trs centmetros de dimetro.
    Sem pensar duas vezes, ngelo fincou a estaca contra a prpria perna
e a dor foi to grande que ele sentiu recuperar todo o controle do corpo,
instantaneamente. Depois, foi apenas simular at que Henrique abrisse a
guarda.
    ngelo estava satisfeito consigo mesmo. S queria ter foras para ir
ver se o bispo estava bem, mas sabia que seria impossvel, pelo menos
pelas prximas duas horas. At l, seu corpo no moveria um centmetro.
ngelo sabia das conseqncias desse ataque, mas no teve escolha.
    Desde que descobrira sobre a traio do frade, ele tentou vir o mais
rpido possvel de volta ao Rio de Janeiro. Por sorte, havia um nibus
pronto para partir, mas no tinham vagas. Foi quando teve um plano.
    Ele sabia que os Inquisidores eram mestres em rastrear a vida das
pessoas. Telefones, e-mails e cartes de crdito nunca estavam seguros
com eles por perto. Foi ento que decidiu comprar uma passagem para
So Paulo com seu carto esperando despist-los. Depois, entrou como
clandestino, dentro do nibus, ocupando a parte das bagagens. A viagem
foi terrvel e ele no conseguiu descansar nada. E agora seu corpo
cobrava umas horas de repouso.
                              ~ 410 ~
    Infelizmente, ele no dispunha de duas horas. E isso ficou claro
depois de ouvir as portas da igreja rangendo ao se abrirem e ver os
homens de terno preto que chegavam, carregando armas e ostentando o
smbolo de uma cruz preso no bolso do terno como um broche: o
smbolo da morte.
    Desesperado, ele ergueu a mo para frente tentando chamar sua cruz,
mas ela nem se quer mexia. Se no tinha foras nem para se levantar,
jamais conseguiria invocar a arma e muito menos us-la para algo til.
    Estava totalmente vulnervel. Os homens foram em direo ao frade e
um deles ps os dedos em seu pescoo. Depois, se virou para um dos
companheiros que estava de p ao seu lado, aparentemente o lder,
dizendo:
    - Morto - uma voz profissional, sem sentimentos.
    O lder confirmou com a cabea. Todos usavam culos escuros e
ngelo no conseguia ver os rostos com clareza. Mas no faria
diferena. Nunca na vida, at a tarde anterior, tinha se confrontado com
um Inquisidor. No conhecia o rosto de nenhum e com certeza no
reconheceria seu futuro assassino.
    E foi quando um dos homens de preto olhou pra ele. Mesmo por trs
dos culos, ngelo percebeu que o lder tinha se surpreendido por
encontr-lo ali. Sem nada dizer, ele foi se aproximando com a arma
apontada para sua cabea. Tarde demais para se fingir de morto.
    Tudo andava em cmera lenta e ngelo teve tempo de refletir antes
do inevitvel fim. Dizem que quando se est para morrer, toda a sua vida
passa diante de seus olhos. Mas todas as imagens que vinham em sua
cabea tinham haver com aquela igreja e com o seu mestre que ele
tentava inutilmente proteger.
    Sua vida tinha comeado dentro das paredes daquela igreja. Sua razo
de viver, o que tinha nascido para viver. Bispo. Pensou. O homem que
tinha dado tudo isso pra ele estava em algum lugar daquele templo, mas
ele no tinha condies de proteg-lo.
    Se ele tivesse sido mais astuto, poderia ter percebido tudo antes.
Poderia ter contado a seu mestre, que derrotaria Henrique sem pestanejar.
Se tivesse percebido antes, aqueles Inquisidores no sujariam sua
preciosa igreja com aquelas patas imundas.
    E foi quando o homem apontou a arma para sua cabea e seus ltimos
pensamentos foram: Perdo mestre. Ditas numa orao silenciosa.
                              ~ 411 ~
   58 - Conto de Fadas.
    Ana no sabia se era o lugar fechado ou a apreenso, mas estava cada
vez mais difcil de respirar naquele ambiente. Faziam-se alguns minutos
que a bela mulher havia ido atrs de Ian e at agora no se sabia de nada.
    Satine andava de um lado para outro, impaciente, porm, dava para
ver que no estava preocupada com o destino da parceira. Quem seria
essa estranha mulher? Seria to poderosa que a vitria sobre Ian estaria
certa? O que seria dela e do garoto se a demnio estivesse certa? O que
fariam quando pegassem o que queria? Na verdade, o que queriam com
aquele simples pedao de pano?
    Ainda ajoelhada no cho, Ana se sentia completamente intil. No
conseguia canalizar sua energia em direo aos braos para arrebentar as
cordas que a prendiam, e mesmo que fosse capaz o que faria depois?
Como passar pela mulher demnio?
    A nica coisa que conseguia fazer era rezar para que Ian fosse capaz
de vencer seu prximo desafio. Era estranho, mas ela se sentia num conto
de fadas. A princesa presa pela fera maligna, esperando unicamente que
o prncipe viesse em seu socorro. Ana odiava essas histrias. Elas sempre
mostravam a figura frgil da princesa e sua total falta de capacidade de se
cuidar sozinha. Em sua infncia, sempre criticava esses personagens,
dizendo que uma mulher tinha que ser independente e no esperar que
um homem viesse salv-la.
    Infelizmente, ela se encontrava numa posio igual  delas. Estava
presa, sob o domnio de uma demnio e no podia fazer nada a no ser
esperar que Ian fosse capaz de passar por todos os contratempos e chegar
at ela. Estava com vergonha de si mesmo. Ela que queria ser boa o
bastante para andar a seu lado, mas no se mostrava nem ao menos capaz
de cuidar dela mesma.
     Foi s ele deix-la sozinha por uma hora que j conseguiu se meter
em apuros. E agora ele teve que voltar em seu socorro. E no s agora,
mas em toda a sua vida teve de depender de Ian. Quando era criana e ele
a ajudou a superar seu trauma. Quando adolescente, ele teve que proteg-
la das ofensas de Lucas, do demnio do sitio, do mago e dos Inquisidores
em Trs Coraes.
    Minha vida sempre foi um conto de fadas. Ela sempre foi a princesa
que tanto criticava.
    Queria poder fazer algo, mudar sua condio, mas a impotncia a
jogava mais fundo num abismo de melancolia. Olhava seus pulsos e
percebeu que eles comeavam a apresentar feridas de tanto esforo que
                               ~ 412 ~
fazia para se libertar. Quanto mais fora fazia, mais os membros doam e
mais infeliz se tornava. Sentiu vontade de chorar, mas no se permitiu.
No queria dar o gosto quela mulher em saber o quo desesperada
estava.
    Nessa ltima semana j tinha chorado bastante. Mais do que chorou
por quatro anos de vida.
    - No chore beb - a voz aveludada de Satine era carregada de
deboche - Logo, logo seu prncipe encantado vai estar aqui com voc.
    Ana no respondeu, mas parou de tentar arrancar as cordas.
    - Catarina no vai mat-lo, pois meu amo no quer isso agora. Ento,
vocs tero um tempinho para falar algo um para o outro.
    Catarina!
    E foi quando a compreenso a atingiu como uma enxurrada na cabea
e Ana passou a olhar com espanto o nada.
    - Ento voc a conhece? - Satine tinha um sorriso travesso nos lbios
- Ento sabe que seu amado no tem chance com ela.
    Mas como ela voltou? Por que voltou?
    - Aquela mulher tem muito poder - Ana sentiu a pontada de ciume na
voz de Satine - Ian no pode disputar com ela.
    Ela infelizmente tinha razo, mas no totalmente. Era verdade que
Catarina foi uma eximia maga quando viva. E provavelmente seu poder
no diminura com a morte. Mas no era esse o motivo para o qual Ian
perderia a batalha.
    Ela ainda se lembrava da dor e da culpa contidas em cada uma das
palavras do Garow, enquanto narrava os acontecimentos em que ele
colocava fim  vida de Catarina. Ela sabia a culpa que ele ainda devia
carregar e sabia que ela o tornaria incapaz de repetir o gesto. Agora ela
tinha certeza: Ian perderia a luta.
    - Finalmente - Satine se virava saltitante em direo ao corredor
escuro por onde Catarina havia sado.
    Ana olhou e viu que seu medo se confirmara. Nos ombros da mulher,
vinha um corpo inconsciente. A uma cena era bem estranha: Catarina,
uma mulher magra de feies delicadas, sustentando com tanta facilidade
um corpo que devia pesar uns trinta quilos a mais que o dela.
    Sem falar nada, Catarina atirou o corpo inconsciente de Ian ao cho
sem nenhum cuidado e o garoto nem ao menos se mexeu, mesmo com a
brutalidade da queda.
    - Ian! - Ana gritava. Por que ele no se mexia?
    - Catarina, voc no... - comeou Satine com uma voz meio hesitante.
    - No. - Respondeu  No o matei. S est inconsciente.
                              ~ 413 ~
    Ana sentiu um alivio no peito com aquelas palavras. Agora ela olhava
e via que o garoto no parecia muito machucado, a no ser por um
enorme buraco em sua camisa, na parte da barriga. Daquela distncia,
dava para ver o abdome vermelho do garoto. O crculo rasgado dava a
impresso que a camisa foi estilhaada por alguma coisa e sua barriga
apresentava uma srie de arranhes circulares como se o tivesse sido
atingida com uma espcie de broca.
    Satine aproximou-se do garoto e se abaixou alisando seu ferimento.
    - Voc o pegou de jeito.
    Catarina permaneceu muda. Parecia alheia a tudo a que acontecia,
mas quando olhou para Ana, sua expresso mudou. Desta vez, dava para
ver a raiva que a mulher sentia da garota. Ela fitava Ana com uma fria
assassina nos olhos. Mas apesar da fora daquele olhar, Ana no sentiu
medo, pois a preocupao com Ian tomava todo o seu pensamento.
    - Ian! - Gritou novamente. Queria que ele acordasse. S assim ficaria
mais tranqila.
    - Ele est vivo, queridinha  lembrou Satine, mas Ana continuou
tentando chamar Ian sem resultado.
    Satine agora alisava o rosto do garoto com uma doura que fez Ana
sentir raiva.
    - Larga ele! - rosnou fazendo a mulher rir.
    - Ou voc vai fazer o que? - desafiou - Vai me encher com sua voz
irritante? - e comeou a acariciar os cabelos dele. - To bonitinho -
comentou - Pena que no pode se divertir. Desperdcio.
    - Acho que seria bom prend-lo e pegar logo o que queremos - cortou
Catarina - Ou ele pode acordar e degolar voc. Eu no impediria -
completou com um sorriso forado.
    - Vejo que algum est com cimes - zombou Satine  No vai me
dizer que voc tambm no queria tirar uma casquinha?
    Nenhuma resposta foi dada, mas o simples olhar de Catarina foi o
suficiente para fazer Satine calar a boca e recolher seu sorriso
zombeteiro. Se ponto de p, ela sussurrou uma serie de palavras
incompreensveis para Ana e no segundo seguinte, um conjunto de
grilhes negros prenderam Ian nos pulsos, no pescoo e nos tornozelos.
    Depois, comeou a tatear os bolsos dele e no se atreveu a fazer mais
nenhuma brincadeira, nem com Catarina e nem com Ana, at finalmente
pegar o pequeno pedao de tecido.
    - Achei.
    - timo - quem respondeu foi a voz no clice. Ana tinha at se
esquecido dele.
                              ~ 414 ~
   - Senhor. Podemos comear - falou Satine. Dava a impresso que a
mulher queria levar o crdito pela captura.
   Ana olhava para Ian jazido inconsciente no cho e tinha a pssima
sensao que aquela histria no teria um final feliz.
                            ~ 415 ~
   59 - O segredo dos Garows.
   - Ian! - ele ouvia uma voz que fez seu corao acelerar de alegria ao
reconhecer. Tudo estava escuro e as coisas comeavam a ganhar forma
muito vagarosamente  medida que recuperava a conscincia.
   Ian sentia uma dor aguda em seu estmago como se o tivessem
perfurado. Aos poucos, seus olhos se abriam e ele comeava a
reconhecer o ambiente. Viu Ana e sentiu um alvio que logo foi
substitudo por uma tristeza.
    frente, enxergou uma bela mulher loura e a reconheceu como sendo
Satine. Viu tambm Catarina e teve o mpeto de rosnar tamanha era a ira
que aquela imagem lhe causava. Um dio, que na verdade tambm sentia
dele mesmo, pois sua hesitao provocara sua captura e agora sua vida e
de Ana estavam nas mos daquelas duas.
   Mas no eram apenas elas. Havia uma terceira pessoa ali. Ian podia
sentir sua presena medonha em torno deles. Uma presena que fazia
seus pelos se ouriarem. Notou crescerem suas garras e as presas
enquanto um rosnar incontrolvel comeava a se forma em se peito.
Aquela presena o deixava em profundo alerta, mas no sabia identificar
de onde vinha.
   Tentou se levantar, mas percebeu que estava preso. Correntes negras
que no pareciam estar presas a nada o envolviam com grilhes no
pescoo e tambm nos pulsos e tornozelos. Eram pesadas e o mximo
que ele conseguiu, com toda a sua fora, foi ficar de joelhos.
   - Ian - ele ouviu a voz alegre de Ana e olhou para a garota a uns seis
metros a sua frente. Amarrada, mas no parecia ter sido ferida a no ser
por alguns cortes nos pulsos.
   A presena daqueles cortes fez uma onda de raiva passar por ele
como um impulso eltrico, que ele teve que reprimir.
   - Vejo que acordou meu filho - ouviu uma voz dizer, mas no sabia
de onde. S sentiu a apreenso aumentar dentro dele.
   Logo as duas mulheres se viraram para o Garow. Notou que a loura
segurava nas mos o braso de seu cl, mas aquilo no importava pra ele
na hora. A voz tinha o feito ficar de prontido. Queria localiz-la ao
mesmo tempo em que tentava controlar o medo que tal presena lhe
causava.
   Olhou mais uma vez para Ana e seus olhos se cruzaram com os da
garota.
   - Desculpe - disseram os dois ao mesmo tempo.
   Agora ele olhou para as duas mulheres.
                              ~ 416 ~
    - Acho que vocs j me tm. - disse - agora podem...
    - Soltar a garota? - completou Satine e riu depois - Acho que a vida
no  igual aos filmes cachorro.
    - Como  nobre esse meu filho - escutou a voz dizer mais uma vez e
foi quando notou o pedestal que se encontrava em um dos cantos da
gruta onde estavam.
    Em cima dele, havia um recipiente e era dali que vinha a presena
que tanto o atormentava.
    - Quem  voc? - perguntou ao jarro.
    - Algum que conhece toda a sua vida, meu filho.
    A maneira como a voz o tratava comeava a irritar o garoto.
    - Para de me chamar assim! - Mas levou uma bofetada na cara da
loura. Ele sentiu uma louca vontade de mord-la, mas por algum motivo,
ela foi reprimida
    - No fale assim com meu senhor - ameaou Satine.
    - No precisa querida. Ele no sabe de nada. - a voz parecia calma.
    - O que vocs querem de ns? - desta vez foi Ana quem perguntou.
    - De voc? - olhou a loura com desprezo - Nada. S isso. - ela
balanou o pequeno pedao de pano - Mas como nem pra isso voc
serviu, tivemos que ir atrs dele. Agora ele - olhou para Ian - Poderia vir
a ter grandes utilidades. Se ele quisesse.
    Satine foi se aproximando de Ian at ficar cara-a-cara com ele
estudando-o com os olhos cor de avel.
    - Uma pena que ele no vai querer - disse por fim se levantando.
    - Uma pena - concordou a voz - Voc foi uma das minhas melhores
criaes, meu filho.
    - Do que est falando? - Ian tentava manter a voz o mais fria que
conseguia, mas aquele recipiente lhe causava tanta apreenso que cada
palavra proferida saia com um rosnado.
    - Meu jovem Ian - disse a voz - ltimo descendente do cl mais
poderoso que j pisou na terra - ele se deliciava com as palavras - Nunca
se perguntou de onde vieram as habilidades incomuns de sua tribo?
Nunca se perguntou como elas acabaram por desaparecer da face da
terra?
    O garoto ficou em silncio. Ana sentiu a mesma surpresa que Ian
parecia demonstrar. O que aquela voz teria de relao com a famlia de
Ian?
    - Voc me pergunta por que te chamo de meu filho, pois lhe direi.
Voc, assim como todos os membros da famlia Garow so meus filhos.
Vocs foram criados por mim. Seus dons, seus instintos, sua maldio.
                               ~ 417 ~
Tudo. Essa foi a minha maior obra de arte. Meu maior feito. - agora sua
voz tinha uma revolta contida  E tambm a minha maior decepo.
    - Est mentindo - disse num riso que tentava esconder a pontada de
desespero.
    - Repita isso at acreditar - zombou a voz - A verdade, meu filho, 
que voc e todos os Garow nada mais so do que frutos de um pacto com
um demnio. Frutos de um pacto comigo.
    - Mentira! - ele gritava. Ana via que ele tentava se mostrar descrente
e escarnecer do que o demnio falava, mas no conseguia.
    - Ian - Ana o chamava, tentando faz-lo manter a calma.
    - E por terem se rebelado - continuou como se no houvesse tido
interrupes - Foram condenados. Por isso Ian, voc no pode aproveitar
da companhia de sua donzela. Por isso voc  um monstro. Isso 
conseqncia da traio de seus descendentes. Isso  o preo que se paga
por tratar mal um pai to devoto e to bondoso.
    Era a primeira vez que a voz parecia alterada. Suas palavras ecoavam
e as luzes das tochas pareciam ganhar mais fora a cada aumento no tom.
Satine chegou at mesmo a se encolher, diante da fria. Catarina, porm,
continuou indiferente.
    - Quando seu cl chegou at mim. Implorando pelo meu poder, eu era
um dos maiores demnios que j tinham feito contato com os vivos. Um
dos mais antigos. Seus antepassados tinham medo do lugar onde viviam.
O ambiente era hostil, os animais os atacavam, havia outras tribos
ameaando sua permanncia nas terras do norte do Canad. - fez uma
pausa - Eu me comovi. Eu vi o potencial de vocs. Magos habilidosos,
mas que precisavam de um empurro e eu cedi-lhes a mo. Eu lhes dei o
dom de controlar as criaturas que tanto os atormentavam e assim fazer
com que fossem capazes de jog-las contra aqueles que tentavam
expuls-los de suas terras. Eu lhes dei o dom de moldar o clima hostil em
que viviam e faz-lo trabalhar para vocs. Eu lhes dei conhecimentos
sobre a vida e a morte que nenhum outro mortal jamais sonhou. E como
vocs me pagaram? Escondendo o que eu mais desejava. Deixando de
revelar ao seu to querido pai, a coisa que ele mais queria saber no
mundo. A coisa que ele mais procurava.
    Ele se calou e as luzes voltaram a seu tom normal. Satine continuou
de onde ele parou:
    - Para todo o demnio, a coisa que ele mais sonha  ser vivo de novo
- e olhou bem nos olhos dos seus prisioneiros, dava para ver que ela
estava realmente comovida com o estado de seu mestre - Vocs nunca
morreram e no sabem o tormento que . Descanso eterno? - ela riu -
                               ~ 418 ~
No. Infelizmente, aquilo  tudo, menos descanso. A vida no purgatrio
 um verdadeiro inferno e o inferno muda a gente.
    "Vivemos com fome, mas no h comida que nos satisfaa,
Morremos de sede, mas no podemos morrer, pois j passamos por isso.
Sentimos desejos, mas somos incapazes de tocar no corpo quente de um
ser vivo. Sonhamos com o dia em que podemos andar de novo com os
vivos, saciando nossa luxuria e nossa gula. E s conseguimos isso
atravs de um corpo humano. Mas apesar de eficiente, esse mtodo no 
o suficiente. Podemos comer, podemos beber, podemos amar, mas
sempre de forma incompleta. No  um corpo nosso. Ento nunca
podemos nos entregar completamente a ele. O hospedeiro sempre tenta
nos expulsar e isso nos obriga a sermos maus com eles. No! Possuir um
ser-vivo no nos satisfaz completamente. Nunca nos fez. Nunca nos far.
Ter um corpo que fosse verdadeiramente nosso, sempre foi nosso sonho
maior."
    Ela ficou em silncio olhando para o jarro. Seus olhos mostravam a
profunda compaixo que sentia.
    - Para meu senhor tambm  assim. - disse com a voz amorosa -
Assim como todos os outros demnios, ele no sente mais nada. No
ama e no vive. Mas ele ainda sofre mais que todos ns, pois ao contrario
de mim e de Catarina, ele j passou por isso por muito tempo. Meu
senhor  o mais velho demnio que eu conheo. Anos, dcadas, sculos,
milnios de existncia, nessa profunda agonia de estar entre a vida e a
morte.
    "E essa idade  uma faca de dois gumes. Pois alm de aumentar o
poder de um esprito e dar-lhe experincia, tambm o enfraquece. Todos
ns temos uma ligao com a vida. Mesmo depois de mortos, existem
coisas capazes de nos impedir de fazermos a passagem completa. Mas
infelizmente nada  to forte que possa nos prender ao purgatrio por
muito tempo. No fim, todos os demnios acabam que por morrer
completamente. No sei como acontece, eles simplesmente desaparecem.
Morrem. Meu amo  o mais velho de ns. Durante anos vem lutando
contra a morte final. Ele viu outros demnios perecerem na sua frente.
Ele tambm testemunhou os avanos do planeta. Ele adquiriu poder e
conhecimentos inimaginveis para qualquer mortal ou demnio
existente. E agora essa  sua sina. Devido a tanto poder acumulado, ele
no consegue mais possuir nenhum humano, pois seu poder mgico 
grande demais e nenhum corpo o suporta.
    - Ao contrrio de ns  disse apontando para Catarina  que somos
jovens e podemos saciar nossas necessidades mesmo que de forma
                              ~ 419 ~
parcial. Meu amo no pode  ela se mostrava muito triste  Ele no pode
por que nenhum corpo suporta tamanha grandiosidade. Todos os
hospedeiros morrem.
    "E assim ele vive um paradoxo. Forte demais para o mundo dos vivos
e fraco demais para o mundo dos mortos. Pois ao mesmo tempo em que
vem ganhando poder e experincia, ele tambm vem passando tempo
demais na fronteira entre a vida e a morte. A morte final est cobrando
dele seu descanso eterno. Quanto mais ele fica no purgatrio, mais sua
ligao com a vida vai se esvaindo e mais ele desaparece at sumir.
    - H alguns sculos,  A voz falava - ns demnios descobrimos uma
forma de criarmos nossos prprios corpos. Foi uma revoluo. A magia
do Gnesis, como ns a chamamos, era muito complexa, mas os mais
capacitados de ns conseguamos. Era um sonho se realizando, mas eu
no pude desfrutar dessa utopia. Assim como os corpos humanos, os
corpos feitos com essa magia no suportavam meu enorme poder e
dentro de, no mximo, vinte e quatro horas, explodiam.
    "Naquele tempo, s os Garows ainda eram meus fieis seguidores.
Todos os bruxos me abandonaram, pois sabiam que eu no conseguia me
manifestar no mundo dos vivos mais com tanta fora. Seus Xams eram
meu grupo de elite. Com eles dividi todo meu conhecimento e esse meu
investimento sempre trazia retornos. Como eu disse, tinha enxergado um
grande potencial em seu cl e no nunca me enganei. Com meus
conhecimentos, vocs revolucionavam a cada dia. Descobriam novas
frmulas, novas magias, novas tcnicas e assim os Garows cresceram at
se tornarem o que a histria conta deles. Graas aos meus ensinamentos,
eles foram capazes de criar a magia da Garra da Besta, capaz de ferir um
espirito encubado em um corpo alheio. Magia essa que voc usou to
covardemente contra minha querida seguidora. Todo esse conhecimento,
seu cl adquiriu comigo e em troca eles me mantinham informado de
suas descobertas. Mas tinha uma coisa que eles no queriam dividir
comigo.
    "De alguma forma, eles conseguiram uma maneira de aperfeioar a
mgica da Gnesis. Tinham alcanado um novo nvel para ela. Um nvel
que poderia criar um corpo forte o bastante at para receber minha alma
imortal. Mas esse conhecimento, eles no queriam dividir comigo. O que
eu mais desejava, eles esconderam de mim. Mas logo os Garows
aprenderam que quando se assina um contrato com o diabo, sempre tem
uma aplice de seguro que garante sua priso a mim."
    Todo o ambiente estava to dominado pelo silncio, que Ana
acreditava at mesmo poder tocar a tenso ali presente. Ela olhava para
                              ~ 420 ~
Ian e via o quanto ele lutava para no dar ouvidos ao que a voz dizia,
mas por algum motivo tudo estava fazendo sentido pra ele. E agora, a
histria chegaria ao pice. A razo pela qual o cl mais poderoso do
planeta foi desgraado.
    - E da teve o inicio da desgraa de vocs. - continuou - Suas
habilidades animalescas tinham um preo, meu caro Ian. Sua ligao
com os lobos era mais profunda do que vocs imaginavam. Essa ligao
era to ntima, que dentro de vocs uma besta tambm estava
adormecida. Cada Garow tinha uma parte de mim dentro dele. Uma
natureza inumana, uma besta incontrolvel que, na verdade, todos os
seres viventes possuem, que  a sua natureza animal, mas que em vocs
estava muito mais intimamente ligada.
    "Esse Monstro se mantinha preso dentro de vocs graas a mim. Eu
tinha as coleiras que prendiam suas bestas, mas a sua traio me obrigou
a solt-las. E foi ento que seu cl sucumbiu num mar de sangue. Amigo
matando amigo. Esposa matando marido. Me matando filho. Irmo
matando irm. Vocs se tornaram os animais desprezveis que eram, mas
no queriam ver. Voc escapou do massacre Ian, por ter usado a Magia
da Ressurreio. Mgica muito boa, tenho que admitir, mas que no me
interessa, j que j estou morto. Mas foi apenas uma questo de tempo
para o demnio que h em voc despertar. E foi numa noite, num hotel
em Michigan que voc o sentiu pela primeira vez. Naquela noite, voc
sentiu na carne tudo o que seus antepassados experimentaram".
    O silncio se instalou no lugar. Ian olhava o cho com seus olhos
azuis em carne viva, trincando os dentes de tal forma que pareciam
prestes a despedaarem pela presso de sua mandbula. Ana olhava para
o lado e viu que Catarina, pela primeira vez, demonstrava certa
apreenso pela histria. Por um leve momento, ela se abraou. Um gesto
que mais demonstrava uma tentativa de se consolar do que amenizar um
frio.
    E por um segundo apenas, Ana foi capaz de sentir compaixo com
relao a ela, mas no conseguiu nutrir esse sentimento. Independente
dos motivos, eles agora estavam em perigo e isso, em parte, era culpa
daquela mulher.
    -  isso que voc  Ian. - completou a voz - A cria de um demnio.
Um monstro que, como eu, no pode mais sentir o que  estar vivo. Por
isso que digo que voc  meu filho.
                              ~ 421 ~
   60 - O arrependimento do velho mago.
    Que baguna.
    O tenente de operaes, Ronaldo Lima, olhava a cena de destruio
da Igreja da Iluminao, vislumbrando as marcas de luta nas paredes, nos
mveis, em tudo. Havia muita serragem pelo cho e duas poas enormes
de sangue onde estavam os corpos de ngelo e de Henrique.
    Foi quando olhou o moleque magricela cado no cho e, tomado pela
raiva, apontou a arma em sua cabea deu um tiro que fez o som ecoar
pelas paredes da catedral
    Ele e seus trs companheiros haviam sido enviados para a Igreja com
duas misses bsicas: a primeira, matar Csar, pois este comeava a
perder a utilidade, e a segunda, levar o frade Henrique at o QG. Na
verdade, Ronaldo no gostou da segunda idia, mas o comandante Rauch
havia deixado essa deciso bem clara. De acordo com ele, o frade ainda
tinha muita utilidade para os Inquisidores, devida  sua ampla
experincia com inmeras irmandades mgicas alm da Ordem dos
Iluminados. Muitos nomes poderiam ser conseguidos com o incentivo
certo.
    O soldado olhava o corpo inerte de Henrique no cho prevendo o
perigo naquilo. Rauch vai me matar. Pensou desolado. Conhecia bem o
comandante e sabia que ele no tolerava falhas. No foi nossa culpa,
Ronaldo tentaria explicar, chegamos l e o homem j estava morto. Mas
no daria certo. Se vocs tivessem chegado antes, ele ainda estaria vivo,
ele responderia.
    Estava ferrado, mas pelo menos completaria o segundo passo do
plano. De acordo com suas informaes, o Bispo se encontrava numa
cmara secreta, cuja passagem ficava atrs de um grande quadro com a
imagem da Virgem Maria, logo aps o altar principal da Igreja. O
problema era que Henrique abriria a porta para eles e Ronaldo s
esperava que ele tivesse feito isso antes de morrer.
    Ento, andando em direo do quadro, torceu para que Deus o tivesse
auxiliado nesse ponto. E foi quando viu um soldado ir em direo ao
garoto.
    - Como est ele est? - perguntou em tom profissional.
    - Morto senhor - informou o oficial.
    - De mais um tiro, s de garantia. - ordenou.
    - Sim senhor.
                              ~ 422 ~
    Ronaldo se dirigiu at o quadro e, colocando a mo na imagem,
sentiu-o deslizar. Perfeito. Pelo menos alguma coisa de boa naquilo tudo.
Agora poderiam continuar.
    Mas algo estranho aconteceu. No foi nada do que viu ou ouviu, mas
sim o fato de no ouvir nada que o deixou suspeitoso. J estava na hora
de escutar algum tiro sendo dado.
    - Ainda no ouvi o som de tiros sargento  Ronaldo foi se voltando
para o grupo enquanto falava, mas ficou mudo ao ver que todos os seus
homens estavam petrificados.
    Todos em suas posies originais, com armas em punho. No
mexiam um msculo e pareciam nem ao menos respirar.
    - O que houve soldados? - ele tentava disfarar a apreenso crescente
que sentia.
    Nada aconteceu. Nenhuma resposta ou reao. Comeou a andar em
direo aos homens tentando faz-los sarem de seu transe. Balanou um,
esbofeteou o outro, mas nada aconteceu. Olhou para o corpo inerte do
garoto. Ele ainda est vivo? E avanando em sua direo com o fuzil em
punho, mirou para atirar. Tinha que acabar com ele, s podia ser ele o
autor daquilo.
    Mas quando disparou, porm, algo estranho se passa. O longo cano
do fuzil comeou a se entortar no segundo em que ele puxou o gatilho.
Ento o cano se envergou num ngulo de cento e oitenta graus fazendo
com que o orifcio da arma ficasse apontado para ele.
    No teve tempo de largar a arma e um tiro o atingiu no ombro.
Apesar de usar sempre um colete, sentiu o projtil perfurando-lhe o
corpo. Depois de atravessar-lhe o ombro, a bala atingiu uma esttua de
Jesus crucificado atrs dele, que se espatifou.
    Como? Ele tentava pensar, mas a dor no deixava.
    A arma foi ao cho e Ronaldo caiu logo depois, sentado, tentando
assim mesmo sair de perto do corpo do garoto. Tinha que fazer algo, mas
foi quando sentiu o cho quente. Olhou para o piso de taco da igreja e
notou que ele parecia todo em brasa.
    - Ah! -gritou quando uma labareda subiu rapidamente, devorando seu
brao. Tentou rolar para o lado e apagar o fogo, mas logo as chamas se
alastraram envolvendo-o totalmente.
    Estava sendo queimado vivo. Nunca imaginara que uma dor to
alarmante pudesse existir. Estou no inferno. E a ltima coisa que
conseguiu vislumbrar antes de desmaiar, foi uma imagem um tanto
estranha para aquele ambiente. Uma mulher idosa, vestida de forma
extravagante, estava de frente para a porta da igreja.
                              ~ 423 ~
   Como ela entrou? Mas no houve tempo para respostas. Logo as
chamas tamparam sua viso e a ltima cena vista antes de partir foi a do
olhar furioso que a estranha mulher lhe lanava.
    Quatro sons ocos soaram quando os corpos dos Inquisidores caram
no cho. Esmeralda, imvel diante da cena, estava com o que acabara de
testemunhar. Ela acreditou ter entrado com a mestra na igreja, mas agora,
era como se a Cassandra original tivesse permanecido do lado de fora e
quem adentrou com ela fosse outra mulher. No estava mais risonha, no
parecia louca. Estava sria e com um brilho mortal nos olhos.
    A jovem tentava repassar tudo o que havia ocorrido em sua cabea
para ver se compreendia melhor o que acabava de acontecer.
    Assim que elas chegaram  porta da Igreja da iluminao, ouviram
um barulho de disparo. Esmeralda ficou apreensiva imaginando o que
poderia ter acontecido e foi quando olhou para sua mestra. Cassandra j
despertou muitas sensaes em Esmeralda. Seu ar alegre e aluado,
sempre causou espanto, ternura ou vergonha na garota, mas esta era a
primeira vez que ela olhava para a mestra com medo.
    Esmeralda via a raiva em seu rosto, era como se de fato ela soubesse
exatamente o que aquele disparo significasse. E sem nada dizer. Ela
agarrou o brao de Esmeralda e, juntas, atravessaram as portas da igreja
sem nem ao menos abri-las. Era noite no Centro e no havia movimento
nas ruas. Quando entraram, Esmeralda viu a cena to terrvel.
    Uma cena que ela sabia que Cassandra j havia visto antes. Uma cena
que era a responsvel pela mudana de humor em sua mestra: Jazido no
cho, estava o Iluminado. Deitado, morto. Seu assassino andava em
direo a um quadro que ficava atrs do altar e mandara um de seus
subordinados dar um ltimo disparo contra o morto.
    Quando Esmeralda pensou em tomar alguma atitude contra eles,
percebeu que era tarde. Cassandra j havia tomado medidas. Ela viu uma
urea no tom laranja envolver o corpo da mulher. As chamas eram vivas
e Esmeralda se espantou com o brilho que emanavam. Nunca tinha
testemunhado o verdadeiro poder da Sonhadora, mas na verdade, no
tinha o que ver. Foi tudo to estranho. De repente, os homens comearam
a gritar, a chorar, a espernear de dor.
    Parecia que algo invisvel os molestava e lhes provocavam tanta dor
que homens adultos se transformavam em crianas, implorando para que
alguma divindade os ajudasse ou que os deixasse morrer. Esmeralda
nunca sentiu tanto medo vindo de algum em toda a sua vida. Sabia que
eles estavam desesperados, mas ela no entendia com o que.
                              ~ 424 ~
    Foi quando finalmente caram. Mudos no cho, mortos talvez.
Cassandra saiu de sua inrcia e se dirigiu ao garoto no cho. Esmeralda
via seu rosto vermelho e seus olhos marejados. Quando falou, sua voz
era engasgada:
    - Perdoe essa velha meu menino.
    Esmeralda se conservou muda.
    - No consegui chegar a tempo. Na verdade no acreditei em voc a
tempo. - ela pedia perdo.
    A garota andava vacilante em direo aos dois.
    - Mestra - ela colocou a mo no ombro de Cassandra. Por mais triste
que fosse o momento, no conseguia chorar. Sentia-se apreensiva
demais.
    Sabia que o garoto estava morto, mas pelo que sua mestra havia lhe
contado, a Igreja estava condenada. Em sua viso, Cassandra viu a igreja
em chamas e elas tinham que sair dali e levar o bispo, se possvel.
    - Eu sei querida - falou a mulher.
    Foi quando escutaram o gemido de dor que vinha de um pondo 
frente. Nem ela nem Cassandra precisaram olhar para saber de quem se
tratava. Por detrs da imagem da Virgem Maria, o Bispo Csar vinha a
toda velocidade. O homem parecia esgotado e suas investidas acabaram
lhe rendendo tropeos e quedas. Esmeralda fez meno de ajud-lo, mas
foi impedida por sua mestra.
    - Deixe-o - falou a mulher - Ele quer fazer isso sozinho.
    Esmeralda olhava o velho homem  sua frente. Estava abatido, mas
emanava uma fora incomum. Uma fora causada pela dor. Ele vinha se
arrastando para junto do corpo do discpulo jazido no cho e lgrimas
corriam de seus olhos, engasgando-o e o impedindo de formar palavras
em sua boca.
    Ele gemia enquanto se aproximava vagarosamente apesar do esforo
que fazia para ir rpido. Quando finalmente conseguiu alcanar o corpo
de ngelo, agarrou-o. E ao sentir o frio de sua pele, no pde segurar a
emoo que j sentia e ps-se a chorar. As duas ficaram caladas,
deixando aquele momento para o mestre e discpulo.
    Por qu? Era tudo o que ele conseguia pensar. Csar tentava cham-
lo, acord-lo com gritos, sacudidas e at mesmo socos. Preso com todas
as esperanas naquela tarefa intil, ele demorou a ver que suas investidas
de nada adiantariam. J era tarde. Quando caiu em si, voltou a chorar,
com o rosto encostado no tronco do garoto.
                               ~ 425 ~
    - Por que Deus? - falou para o cu e foi quando finalmente notou as
duas mulheres postadas diante dele
    - Deus no tem culpa disso meu caro Csar. - falou Cassandra.
    O bispo olhou com surpresa para as duas mulheres.
    - O... o que esto fazendo aqui? - gaguejou.
    - Tentamos ajudar - respondeu Cassandra triste - Mas chegamos um
pouco tarde. Sinto muito  completou sinceramente.
    - Quem fez isso? Quem fez isso, eu mato.
    - J  tarde - continuou Cassandra ignorando o tom alterado do velho
bispo.
    Csar olhava em volta e viu os corpos dos inquisidores no cho e do
Frade Henrique e se assustou mais uma vez.
    - Henrique tambm? - se alarmou. - Foram eles! - gritou olhando para
os inquisidores - Eu os mato. Eles me traram.
    - Eles nunca lhe traram Bispo - Interveio Cassandra. Esmeralda ainda
se impressionava com a calma de sua mestra falando com aquele homem
em clera. - Eles so caadores de magos e estavam caando magos. No
h traio. Voc sabia com o que estava lidando.
    - Do que voc esta falando bruxa?
    Cassandra deixou aquela passar.
    - No acho que voc deveria descontar em mim sua raiva. -
aconselhou - Se quer culpar algum, se quer chamar algum de traidor eu
lhe recomendaria aquele cadver ali - e apontou para Henrique.
    Csar olhou sem entender.
    - ngelo descobriu h algum tempo a traio de Henrique. Como no
conseguia falar com o senhor, pediu minha ajuda. Pelo menos de certa
forma. Ele o estava enganando bispo. Ele era um agente duplo e
enquanto dizia servir de intermdio entre voc e os Inquisidores, era a
ponte que colocava esses homens em sua igreja.
    - Voc est mentindo. - ele balanava a cabea descrente.
    - Acho que voc pode conferir se quiser.
    O bispo ficou calado.
    - Mas no quer - completou - Sabe que estou lhe dizendo a verdade.
Sei o quanto voc  bom para analisar as pessoas.  uma pena que seu
caminho se cruzou com o de algum com uma habilidade ainda maior
para dissimular. - e olhou para o corpo de Henrique.
    - Eu vou mat-los - bufou bispo.
    - Quem? Os Inquisidores? - perguntou incrdula - Boa sorte. -
continuou em desprezo - Eles so milhares e esto em toda a parte. O
                              ~ 426 ~
senhor sabia disso o tempo todo. Vai ficar o resto de seus poucos dias
tentando e no vai conseguir nem a metade.
    O homem a olhava com clera e Esmeralda estremeceu. Era incrvel
ver aquela batalha psicolgica entre dois magos de to alto nvel. O bispo
estava em fria e Cassandra parecia  vontade.
    - Pare de se enganar bispo - continuou num tom srio, porm amvel
- Voc no pode contra eles. H muito perdemos essa guerra e no ser
um homem que mudar isso.
    O bispo baixou a cabea olhando o corpo do aprendiz.
    - Sei que di  completou  mas no h como mudar. E se quer culpar
algum, culpe a si mesmo.
    - Como? - ele olhou descrente para a mulher.
    - ngelo morreu tentando seguir seu sonho. Ele queria completar a
misso em seu nome, pois via que voc no apresentava condies para
isso. Mas voc desvirtuou to sagrada misso.
    "Seu sonho foi um pressagio terrvel. Uma questo importante que
voc desvirtuou em nome de sua posio dentro da Ordem. O fato de no
ter comentado isso com mais ningum e tentar resolver um caso desta
gravidade confiando apenas em inimigos e excluindo os aliados foi um
erro terrvel e que lhe custou  morte de ngelo".
    - Do que est falando? - sua voz agora era fraca. Apesar da pergunta,
Esmeralda sentia que ele sabia exatamente do que sua mestra estava
falando, mas preferia parecer no entender. A verdade devia ser dolorida
demais.
    Nesse momento, o velho mago parecia querer voar em direo de
Cassandra e Esmeralda se precipitou entre eles, mas nada aconteceu de
grave. Ele se deteve e olhou o cho envergonhado.
    - ngelo abraou seu sonho. Abraou sua causa aceitando suas
escolhas considerando-as as mais sbias. Mesmo que fosse contra tudo o
que ele acreditava, ele foi atrs do demnio, mas era jovem demais para
conseguir sozinho. E como no tinha o apoio da sua prpria Ordem, que
preferiu delegar a misso a seus algozes, ele pereceu.
    Mais silncio. As lgrimas escorriam volumosas pelo rosto enrugado
de Csar. Ele no conseguia encontrar argumentos para discutir.
    - Escute bispo - pediu Cassandra  No se lance numa caada insana
contra os inquisidores. Voc no tem chance. ngelo no ia querer que o
senhor arriscasse sua vida em vo. Uma vida que ele morreu para
proteger.
    - O que eu poderei fazer ento? - perguntava o bispo olhando o cho.
                               ~ 427 ~
    - Algo que ngelo gostaria. - respondeu  Ele morreu correndo atrs
daquela criatura. Ele sentiu a urgncia por trs de seu sonho. Sabia o
quo importante era  e fez uma pausa - A presena do demnio continua
aqui e eu sinto que seu ressurgimento  uma questo de tempo. Pouco
tempo pra ser mais sincera.
    Ela se calou por uns segundos e ningum disse nada durante esse
tempo. Esmeralda no queria falar nada, no se sentia digna de entrar
naquela conversa.
    - ngelo tentou fazer isso por voc. Ele realmente acreditava que era
importante. Confiou em seu sonho como ningum e se arriscou muito
para impedir que aquilo voltasse. Acho que gostaria que voc terminasse
sua obra e no se colocasse em uma caada insana contra seu assassino
para vingar-lhe a morte - ela respirou antes de continuar e quando falou,
seu tom era despreocupado - At porque ele j fez isso.
    - Como? - o bispo a olhou com curiosidade.
    - Quando chegamos aqui, apenas os Inquisidores estavam vivos. E ao
ver pelo ferimento no corpo do frade, acredito que quem lhe deu um fim
foi o prprio ngelo. Ele era realmente um mago esplendido. Voc o
ensinou muito bem.
    A mulher tinha um sorriso amvel e Esmeralda pde respirar de novo
ao constatar que a tenso tinha ido embora.
    - ngelo derrotou o frade?
    - Ou isso ou Henrique cometeu suicdio apontando um impulso para o
prprio peito. - comentou sorrindo e depois ficou sria ao voltar a falar -
Eu tenho uma segunda noticia ruim para voc bispo. Essa igreja est
condenada - falou com pouco caso. Seu humor natural parecia estar
voltando e Esmeralda comeava a reconhec-la de novo - No sabemos
quantos magos foram descobertos pelos inquisidores graas  traio de
Henrique. Eu, por via de dvidas, vou mudar de endereo e espero que
voc faa o mesmo.
    Ela pegou um carto e lhe entregou.
    - Esse ser o nosso novo endereo. Passe por l se no tiver aonde ir
e, principalmente, se quiser terminar o que comeou. Essa  sua chance
de cumprir sua misso direito bispo. - e se virou para pupila - Vamos
querida.
    E saram. Esmeralda deu uma ltima olhada para trs antes das portas
da igreja se fecharem atrs dela.
    Agora, sozinho, o bispo ps-se a pensar. No imaginava que havia
feito tanta coisa ruim. Cassandra tinha-lhe dito palavras duras, mas todas
                               ~ 428 ~
verdadeiras. Tinha uma misso importante em mos e ps tudo a perder.
E para que? Para provar aos membros do conselho que ele no estava
acabado. Provar pra que?
    A nica coisa que ele tinha provado  que realmente no passava de
um velho esclerosado. Graas a ele, no sabia quantos membros da
ordem e quantos magos em si corriam perigo.
    E foi quando se ps de joelhos diante frente do corpo de ngelo.
    - Perdo filho - disse do fundo do corao - Voc era a nica pessoa
que eu queria preservar. O nico em que pensei antes de fazer tudo o que
fiz e foi quem mais prejudiquei.
    Ele deixou cair  cabea no tronco do garoto e ps-se a chorar, como
desde criana no fazia.
    - Me perdoe!
                              ~ 429 ~
   61 -  procura da Nova Gnesis.
    Meu Deus. Ana olhava para Ian sem saber o que falar. No sabia se
devia deixar o garoto sozinho com seus pensamentos ou tentar encontrar
palavras de apoio.
    Ento, esse era o motivo de sua maldio. Ela ainda se lembrava do
orgulho que o garoto sentia de seu cl. Ian sempre considerava os Garow
como sendo trabalhadores e que seus poderes foram resultado de muito
esforo. Era capaz de imaginar o choque que tal revelao causou nele.
    Ele tinha os olhos marejados, mas as lgrimas ficaram retidas. Seus
dentes estavam selados numa fria assassina e ele no emitia nenhum
som a no ser o da sua respirao descompassada. Ela queria dizer
alguma coisa, mas no sabia o que exatamente. Ela via Satine diante
dele. Seu rosto parecia se deliciar com o sofrimento que estava causando.
    Mais uma vez a raiva brotou no peito da garota. Sentia uma louca
vontade de pular em cima dela. Apesar de serem trs demnios, s
conseguia concentrar toda a sua raiva nela. Como se Satine fosse  maior
responsvel por tudo aquilo. Foi ela quem a enganou, que a manipulou
para fazer Ana e Ian se separarem. Ela era quem mais gozava do
sofrimento que estava causando.
    No tinha como sentir raiva dos outros com ela ali.
    - No adianta chorar garoto - ela zombava - Seu bando de ces
sarnentos traram meu amo. Tiveram o que mereciam - Ela comeou a
brincar com o pedao de tecido - Mas enfim, a recompensa justa.
    Ana ainda no entendia uma coisa: O que aquele simbolo tinha haver
com tudo?
    - Bem, acredito que eles no so mais teis, no ? - era a primeira
vez que Catarina falava em muito tempo. Apesar da voz controlada, era
notvel a ansiedade nela em colocar um fim em tudo.
    O jarro deu uma risada prazerosa.
    - Pacincia minha jovem Catarina. No podemos esquecer as boas
maneiras. De certa forma, esse dois so os responsveis por esse
momento e acho que seria o mnimo justo que eles testemunhassem esse
acontecimento. Satine!
    - Sim senhor - e mulher colocou a ponta do polegar na boca e com os
dentes, abriu uma pequena ferida no dedo. Depois, segurando o smbolo
Garow, deixou que duas gotas de sangue quase negro cassem sobre o
tecido. Ana olhou o que acontecia sem perder um instante. Num
segundo, parecia que nada havia mudado, porm, em seguida, o pano
pareceu comear a ganhar volume. Seu tecido enegrecido pelo tempo
                              ~ 430 ~
comeou a se rejuvenescer. Logo, a demnio segurava uma espcie de
pergaminho entre as mos.
    - Vocs eram bem astutos - comentou para Ian - Escondiam suas
principais frmulas na aparncia de objetos inteis para no chamarem a
ateno.
    Em seguida, abriu o pergaminho. Seus olhos vasculhavam com
esperana o pergaminho, mas comearam a apresentar frustraes com o
passar das linhas.
    - Algum problema? - disse a voz em tom despreocupado.
    - Est em dialeto Garow  disse preocupada - No sei ler.
    - Mas no creio que isso ser um problema para ns. No  mesmo,
Catarina?
    Sem nada dizer, a mulher se aproximou de Satine erguendo a mo
para receber pergaminho e no primeiro instante a loura hesitou,
segurando o papel para mais perto do corpo, como se estivessem
tentando tirar-lhe algum item pessoal, mas depois consentiu.
Provavelmente no estava gostando de Catarina estar se mostrando muito
mais til que ela nesses momentos finais.
    Com um sorriso presunoso, Catarina segurou o papel e se dirigiu a
um canto da gruta.
    - Enquanto nossa tradutora nos revela o contedo do Ritual Nova
Gnesis, eu tenho que agradec-los, principalmente a voc Ian. - falava a
voz, agora muito satisfeita - Afinal, voc o trouxe para mim com tanta
boa vontade.
    O garoto rosnou ao ouvir o caoar do demnio. Ele mexia as
correntes, mas dava para ver que no tinha foras para se livrar delas. E a
voz riu novamente.
    - O que foi meu filho? Achei que ficaria feliz em ter me ajudado.
Afinal, era uma forma de se redimir depois que sua tribo o escondeu de
mim por tantos anos. Voc tem idia de quanto eu esperei por esse
momento? - Agora a voz comeava a subir o tom - Voc imagina como
foi pra mim, pensar que todo o conhecimento do cl estava perdido para
sempre? Quando descobrir que vocs escondiam coisas de mim, minha
raiva acabou por subjugar meu bom senso. Dizimei a todos e
principalmente aos Xams, mas me esqueci de que com essa atitude,
condenei os nicos seres com os quais eu poderia conseguir depois a
Nova Gnesis.
    "Seus Xams eram os nicos detentores desse conhecimento e eu os
perdi. Imaginei que poderia encontrar um ou outro no purgatrio, mas
no. Todos eles nem se quer passaram por aqui, sumiram do mapa, antes
                               ~ 431 ~
de chegaram. Parece que todos aceitaram a morte muito bem e no
ficaram presos como eu fiquei. Eu at encontrei um ou outro Garow, mas
eram todos inteis. No tinham acesso a esse tipo de conhecimento.
    "Durante sculos eu fui definhando. A cada ano que passava eu ia
ficando mais fraco e incapaz de me segurar no purgatrio por muito
tempo. Eu sentia a mo fria da morte me arrastando, querendo me fazer
desaparecer assim como fez com muitas outras almas, mas eu no estava
pronto e minha fora de vontade foi suficiente para me manter aqui.
    "Eu tambm no podia mais possuir outro humano. Minha essncia
milenar matava todos os meus hospedeiros antes que eu pudesse
aproveitar seus corpos.
    "E com o passar do tempo, todos os meus seguidores foram me
abandonando. Todos os demnios que temiam meu poder e todos os
bruxos que me viam como um Deus, foram me deixando. Sabiam que eu
no conseguia mais manter ligaes com o mundo dos vivos e assim no
poderia lhes conceder poderes, ento me largavam. As almas do mundo
dos mortos que tanto me temiam e idolatravam, agora passaram a me
atormentar, a me repudiar. Devido a minha fraqueza no mundo dos
mortos, ningum mais me temia. Malditas. Mas no fim de tudo, algum
se manteve fiel a mim".
    Ana percebeu o sorriso carinhoso surgindo na face de Satine.
    - Eu nunca o abandonaria meu amo - disse toda amorosa.
    - Eu sei minha querida e voc j provou isso inmeras vezes. Quando
viva, era minha melhor bruxa. Desde sempre voc foi to querida pra
mim que nunca me atrevi a tomar seu corpo. E nem mesmo a morte
naquela fogueira, fez sua devoo para comigo morrer. L no purgatrio,
voc me apoiou, ficou comigo. E quando voltou para o mundo dos
vivos, passou a ser meus olhos na terra e foi voc quem descobriu sobre
o truque dos Garows para esconder seus rituais.
    A mulher sorriu satisfeita. Estava muito mais feliz agora que era
reconhecida. Em um momento at lanou um olhar de desdm para
Catarina, como se estivesse a provocando.
    - Voc foi muito astuta, minha menina. E como recompensa, ensinei-
lhe o ritual gnesis. Apesar de ele no servir pra mim, caiu muito bem
pra voc. Com ele, voc conseguia sempre ter um corpo novo - ele riu -
Voc sempre teve um bom gosto para aparncia.
    - Obrigada - ela comeava a ficar convencida.
    A voz riu de novo.
                              ~ 432 ~
    - Voc achou muitos artefatos Garow que continham antigas magias e
rituais, mas nenhum era importante. Eu queria a Nova Gnesis, mas
estava muito difcil.
    - Foi ento que aquelas bruxas apareceram - cortou Satine com dio.
    Ana passou a prestar mais ateno a essa parte.
    - Sim - concordou a voz - Teresa e Samanta tiveram sorte e acabaram
levando o nosso ritual antes de voc. O pior  que elas nem tinham idia
do que levavam.
    - Malditas - gemeu Satine.
    - No fique chateada minha querida - disse com doura - aquelas
solteironas tiveram sorte, s isso. O mais triste era saber que as duas
eram druidas to habilidosas. Em Trs Coraes ,onde moravam, havia
muitas fadas. Voc no poderia entrar l sem ser dizimada.
    Satine baixou a cabea com vergonha.
    - Ento, eu mesmo tive que agir. - falou a voz - Usei a mgica da
Gnesis, mesmo sabendo que meu novo corpo no me sustentaria por
muito tempo. Mas fui assim mesmo.
    "E foi uma boa coisa ter feito isso. Minha simples presena acabou
por espantar aquelas borboletas do lugar e meu caminho estava livre para
as duas.
    "Naquela noite, rumei em direo  casa de Teresa e Samanta, mas
antes, me permiti assustar uma pequena criana que encontrei no
caminho. Era a primeira vez em milhares de anos que eu andava na terra
e me permiti esse pequeno capricho."
    Ana sentiu um solavanco ao ouvir aquilo e aquela noite voltou em sua
mente. Ela se lembrou do caminho que fazia da casa de suas tias at a
casa de seus avs. Lembrou-se do vento, da voz e, enfim, do fogo.
    Agora ela sabia de onde reconhecia aquela voz. Era a mesma de
quatro anos atrs.
    - Voc deve estar orgulhosa Ana. - falava o vaso - Elas foram
oponentes valorosas. Foi difcil matar as duas. Elas no queriam me
entregar o smbolo, mesmo sem saber o que ele significava, e preferiram
lutar. Idiotas - comentou com descaso - Samanta foi a mais difcil. Eu a
matei bem no seu corredor, quando tentava correr pra pegar sua arma.
    Ele falava com tanta calma que Ana no conseguia acreditar que dizia
a verdade. Era simplesmente frieza demais para qualquer um, at mesmo
para um demnio.
    Ana sentia o choro querendo irromper de dentro dela, mas ela o
segurou com mais fora do que nunca. O demnio continuou a falar,
provocando-lhe uma pontada no peito a cada palavra.
                              ~ 433 ~
    - Elas no me disseram onde estava o maldito pergaminho e depois de
mortas eu no consegui ach-lo. A raiva mais uma vez tomou conta de
mim, subjugando meu raciocnio lgico. Eu destru o lugar e foi ento
que eu a vi, pequena e indefesa ao lado de uma velha. No podia permitir
testemunhas, ento decidi mat-las tambm. Voc desmaiou logo de
cara, mas sua av foi mais dura na queda. Insolentemente, ela tentou lhe
proteger. Tal arrogncia despertou meu instinto mais cruel. - ele riu
baixo antes de continuar - Acho melhor no contar o que fiz com sua
pobre avozinha garota, mas infelizmente no consegui matar as duas.
    "Aquele corpo que estava usando no agentava mais. Eu havia
usado muita energia contra as duas druidisas e foi ento que explodi com
tanto poder".
    Ana no conseguia mais sentir-se conectada aquele mundo. Sua
mente havia vagado por todo o passado manchado de sangue, agora
reconhecendo o autor de tudo aquilo. Ento, tudo o que ela viveu nesses
quatro anos era culpa daquele ser. A morte de suas tias, a loucura de sua
av, sua infncia perdida.
    Agora, mais do que nunca, ela queria conseguir se libertar dali. No
sabia o que faria se conseguisse. Ian estava preso e ainda restavam dois
demnios que ela sabia que no conseguiria vencer. Mas ainda assim
queria sair dali, queria fazer algo contra aquela voz. No sabia como feri-
la. Talvez entornando o contedo do recipiente, quem sabe. Ela forou as
cordas mais uma vez, mas nada aconteceu. Apenas seus pulsos se
arranharam mais.
    Desta vez era Ian quem olhava para ela sem saber o que dizer. Ela
chorava de tanta raiva que sentia, mas suas lgrimas continuaram
contidas dentro dos olhos, embaando-lhe a viso. Ela olhava aquelas
duas que a encaravam com desprezo e sentia mais raiva ainda de estar
chorando na frente delas.
    De fato ela sabia que no conseguiria cortar as cordas. Por mais que
pudesse canalizar sua energia como Ian havia falado, ainda tinha um
problema. Havia hesitao nela. Ela sabia que mesmo que conseguisse se
libertar, no seria preo para as duas acompanhantes do demnio. Ela
no conseguiria liberar a energia toda naquele estado. O bom senso a
estava bloqueando. Ela s queria ser louca o suficiente para se soltar dali,
mesmo sabendo que s serviria para encontrar a morte mais cedo.
    Mas ela no era assim.
    - Naquele tempo eu fiquei desolada - Satine se incluiu na conversa -
Meu amo havia desaparecido e eu estava sozinha. No sabia o que tinha
acontecido a ele. No sabia se tinha conseguido seu intento e tambm
                                ~ 434 ~
no podia me aproximar do local para averiguar. Pois as fadas ainda
habitavam aquela regio.
    - Eu tambm estava desolado minha filha - falou a voz - Criar um
corpo foi um esforo por demais arriscado. Eu no sabia que minha frgil
ligao com a vida podia ficar mais fragmentada, mas aconteceu. Eu
estava definitivamente desaparecendo. Nunca mais poderia voltar. Eu
havia gasto tanta energia para o ritual Gnesis que no tinha mais foras
nem para me manter no purgatrio. - Ele fez um minuto de silncio -
Mas foi quando Satine provou mais uma vez sua lealdade.
    A loura ficou radiante.
    - Mesmo depois de quatro anos perdido no purgatrio, lutando
constantemente contra o fim, ela conseguiu me encontrar. Ela conseguiu
falar comigo e eu lhe contei o ocorrido. Neste dia, ela percebeu de cara o
que havia acontecido e eu me senti um estpido por no ter percebido
antes. O smbolo no estava com aquelas duas. Era claro que elas haviam
passado adiante. Mas pra quem? E a imagem da menina chorona me veio
quase que instantaneamente. Ela descobriu que o smbolo havia sido
passado para voc Ana. Aquelas desgraadas nem sabiam o que tinham
em mos e passaram uma das mais potentes mgicas da histria para uma
criana. Satine decidiu vir ela mesma e conseguir a mgica da Nova
Gnesis para mim.
    - Mas, mais uma vez, algum se colocou em nosso caminho -
completou a mulher olhando para Ian.
    - Uma surpresa, eu digo. Nunca imaginei que pudesse haver um de
vocs por aqui. Realmente fiquei pasmo. - comentou a voz.
    - Infelizmente eu percebi de cara que no estava em seu nvel. -
admitiu a mulher - Um combate direto seria arriscado demais pra mim e
Caius pagou caro por tentar.
    - Caius. - a voz parecia achar graa na lembrana - Mais um demnio
que decidiu me seguir. Dava para ver que ele no era muito capaz, mas
nas circunstncias em que estvamos no tive muito que escolher. Eu no
podia mais fazer o mesmo do que fiz contra Teresa e Samanta, ento, no
podia eliminar o Garow eu mesmo. Ento, imaginei que Caius pudesse
ser til.
    - Mas no foi - interveio Satine - Aquele idiota s atrapalhou tudo. Eu
disse para ele, eu falei: no use seu corpo novo, o garoto vai perceber.
Voc no tem chance contra ele. Mas o imbecil no me deu ouvidos. E
no deu outra. - E olhou pra Ian  Voc o percebeu e eu tratei de me
recolher para no ser notada tambm. Mas Caius era prepotente. Achava
que podia contra voc. Mas eu sabia que no era. Por culpa dele, voc
                               ~ 435 ~
fechou o cerco para proteger essa pirralha e a ficou mais difcil de me
aproximar dela.
    Ana olhou pelo canto do olho para Catarina e viu que as feies dela
se endureceram ao ouvir essa parte.
    - As esperanas estavam pequenas e a fim de conseguir conselhos de
meu mentor eu criei esse mecanismo para traz-lo at mim. Uma pena
que no pude fazer mais. - seus olhos ficaram tristes
    - Voc fez um excelente trabalho querida - elogiou o vaso - Graas a
voc, eu sa daquele purgatrio nojento e daquelas almas condenadas e
consegui ficar aqui, mesmo que limitado a esse vaso. Pelo menos assim,
eu podia ficar totalmente a par do que acontecia.  uma pena que tantos
jovens tiveram que morrer para me manter aqui  completou numa falsa
compaixo.
    - As vidas deles no valiam a sua meu amo - defendeu Satine.
    - Eu sei que no. - concordou - Foram um sacrifcio vlido. Com a
morte e o sangue deles eu consegui me manter aqui dentro por pelo
menos um dia para cada sacrifcio.
    Os jovens desaparecidos. Ento esse foi seus destinos.
    - Voc sempre foi muito ardilosa minha pequena Satine -comentou a
voz fazendo a garota corar  Alm de encontrar um meio e me trazer de
volta, tambm encontrou um meio de separar protetor de protegida.
Nunca imaginei que a soluo para nossos problemas fosse to simples. -
continuou - Realmente voc conhece a alma humana minha querida
pupila.
    - Era claro que aqueles dois se gostavam. Eu os observei durante
muitos dias tentando ocultar minha presena e vi que havia algo entre
eles. Algo que no admitiam nem para si mesmos - ela olhava para
Catarina enquanto falava. Satine estava brincando com fogo. - Ento eu
vi que a nica maneira de me aproximar sem demonstrar minha presena
era possuindo algum, algum prxima. Desde sempre eu mostrei
interesse no corpo de Laila. Ela era bonita e eu gosto disso numa pessoa.
Mas ela era to feliz, to alegre e segura de si que no conseguia me
aproximar. A um terrvel acidente ocorreu com seu querido papai - ela
fingia pena.
    - A morte dele foi um golpe duro demais. Coitada.  continuou -
Logo toda aquela alegria se esvaneceu. E eu entrei. - ela olhou para Ana
com os olhos faiscando de prazer - Sinceramente Ana, como sua amiga,
eu pude ver o quanto voc  irritante e eu repito: no sei o que ele viu em
voc. To apagada, to chata e to coitadinha. Vivendo em sua auto-
                               ~ 436 ~
piedade, se lamentando pelos cantos. Voc gostava dele e nunca teve
coragem de dizer. Sempre alegando: ele  meu amigo. Francamente!
    - Voc sabe manipular as pessoas minha querida - comentou A voz -
Nem perceberam que no era Laila quem estava ali.
    - Eu a observei durante poucos dias, mas rapidamente me identifiquei
com a garota. No foi difcil imit-la. - ela fingia modstia - A viagem
at o sitio dos pais dela seria uma boa hora para investir pesado. E ela
acabou me servindo para duas coisas.
    - L eu tomei conhecimento disso  disse olhando para o cordo de
Ana cado no cho  No tive dvidas sobre onde ela poderia guardar
nosso precioso ritual. Mas tinha o problema: Desde que Ian percebeu a
presena de Caius, o garoto fechava o cerco. Eu no arriscaria roubar o
colar dela, pois no queria levantar suspeitas. Ento, eu vi que tinha que
acalm-lo. E qual a melhor maneira se no o fazendo acreditar que a
ameaa estava finalmente morta?
    - Caius - falou a voz  o garoto estava descontrolado. Queria a todo
custo enfrentar Ian. Eu tentei cont-lo, mas ele era irritante.
    - Por isso vi que o eliminando, seriam dois estorvos contidos  falou
Satine  Ento, eu o convenci a vir ao stio. A enfrentar Ian, dizendo que
ele poderia vencer. E ele foi. Sabemos esse ponto da histria  completou
rindo  Assim eu pude voltar a investir em vocs dois  ela falava com
Ian e Ana  comecei a jogar um nos braos do outro e no fim, consegui e
Ana havia dado o primeiro passo.
    Ela olhou maliciosa para Ian.
    - Ento, como foi beijar depois de tantas dcadas, meu amigo  O
garoto rosnou - Eu at imagino. Foi bem, n? Que parte voc mais
gostou? O desejo de querer mat-la ou depois quando ficou sozinho
naquele quarto se flagelando? Acho que as duas so tentadoras.
    Ela riu mais alto. Ana j no agentava mais escutar. Agora estava se
sentindo envergonhada. Foi usada por aquela mulher e forou Ian a
passar por tudo aquilo. No conseguia olhar para ele.
    - Mas no fim o amor venceu - falou Satine num discurso recoberto de
deboche - Vocs dois no resistiram. Por amor, ele teve que ir embora.
Que lindo  completou.
    - Acho que j podem parar com o melodrama - a voz de Catarina
chegou cortando o ambiente - J decodifiquei a lngua e a magia  to
simplista que podemos fazer agora mesmo.
    - Maravilha  exclamou a voz - Ento vamos todos. No agento
mais um minuto neste vaso.
                               ~ 437 ~
   62 - O Retorno.
   Parecia que nada podia ser feito.
   Todos os preparativos foram facilmente arranjados e tanto Ana como
Ian nada puderam fazer h no ser servirem de testemunhas. Estavam
ambos inutilizados. As correntes que prendiam Ian eram resistentes
demais e Ana ainda no era forte o bastante para romper as cordas que a
imobilizavam. Assistir foi a nica opo.
   Assistiram Catarina trazer um corpo, que Ana deduziu como sendo o
de um dos jovens desaparecidos.
   Assistiram Satine envolvendo o cadver num circulo desenhado no
cho, usando seu prprio sangue como tinta.
   Assistiram as chamas vermelhas se tornarem negras.
   Assistiram as duas mulheres recitarem a orao de invocao por
cerca de vinte minutos.
   Assistiram a exploso de energia que ocorreu e a cortina de fumaa
que se formou aps.
   Assistiram um homem alto, forte e careca surgir nu e ser coberto por
Satine com uma roupa que ela mesma conjurou.
   Assistiram o demnio vislumbrando o prprio corpo com estupor.
   S no sabiam se poderiam assistir a muito mais coisas depois disso.
                              ~ 438 ~
   63 - Paixo.
    Alheia a tudo que acontecia bem em seu bairro e segura em sua casa
que ficava a uma distncia segura, Solange se colocava diante de sua
cafeteira para preparar a bebida com a qual enceraria o dia. Sempre foi
amante de caf e nunca atendeu aos alertas das pessoas que alegavam
que este tirava o sono, ou causava lcera e etc., etc..
    Enquanto depositava a gua, caf e acar necessrios na mquina,
sentia o cansao lhe acometer, vindo na forma de leves bocejos. E ali,
paciente, conforme via as gotas negras enchendo a vasilha, ela se ps a
pensar.
    Estranhamente, aquelas gotas caindo, uma a uma, lembravam a ela
uma ampulheta. Lembravam a ela do tempo. O tempo est passando.
Solange j era uma mulher de mais de sessenta anos, embora as pessoas
dissessem que no parecia passar de quarenta e cinco e gostava disso,
gostava de parecer mais jovem do que sua real idade. E esse gosto foi
uma das caractersticas herdada da Irmandade da Rosa: A vaidade
    Gostava de se sentir bonita mesmo j fazendo parte da terceira idade.
Gostava de quando era jovem e desejada. Gostava quando chamava a
ateno nas ruas e os garotos lhe chamavam de gostosa. No era muito a
favor do termo, mas sentia-se bem sabendo o que ele significava: que era
desejada, atraente.
    Na verdade, a vaidade nela se mostrava de muitas formas, alm da
aparncia. Era uma maga talentosa e gostava de ser reconhecida. Era uma
pessoa simptica e gostava que as pessoas notassem isso nela. Era uma
mulher culta e queria que a vissem assim. E h alguns anos, ela no se
lembra exatamente quando, tambm gostava quando os magos a viam
como uma excelente mestra.
    Valria. Pensou com pesar. Sua primeira e nica aluna. Algum a
quem ela dedicou a mais completa aprendizagem. Ela se lembra at hoje
do curso de dana que lecionava at os cinqenta anos. Essa era a forma
que ela encontrara de se manter conectada ao mundo dos adormecidos e,
assim, manter as aparncias.
    E foi numa das aulas que conheceu a menina. Ela era uma garota
linda, cheia de vida e talvez to vaidosa quanto ela. Solange a tornou sua
aluna favorita e em pouco tempo mostrou  menina os mistrios por trs
do Vu. Valria era uma criana de dez anos na poca. Sempre bem
vestida e com uma noo de esttica muito aguada para a sua idade, que
agarrou seu corao.
                               ~ 439 ~
    Mas acima de tudo, a menina era um gnio nas artes mgicas, uma
verdadeira prodgio. A garota bebia das palavras de Solange e aprendia
tudo em extrema velocidade. Quando tinha que apresent-la a outros
membros da Irmandade, todos a parabenizavam pelo timo trabalho que
estava fazendo. E Solange tinha orgulho em chamar a menina de sua
pupila. Sua sucessora.
    A adolescncia de Valria foi chegando e a beleza dela foi apenas
aumentando com o amadurecimento. Era uma menina cobiada. Era uma
maga promissora. Tinha apenas um defeito. Na verdade, Solange no
sabia bem que era um defeito at acontecer a desgraa.
    A nica coisa que faltava na menina era a Paixo. Essa era a coisa
mais cara na Irmandade da Rosa. Para seu culto, o amor incondicional
era aquilo que transformava as pessoas em magos. Para os irmos da
Rosa, era esse sentimento que guiava os seres-humanos a aprenderem
magia. O amor a algum ou a alguma coisa. Era essa Paixo que guiaria
a vida de um mago e o faria crescer.
    Solange amava a magia, e foi esse amor incondicional que a fez ser o
que era. A paixo poderia ser por qualquer coisa, uma pessoa, um
animal, um lugar ou a vida em si, mas sem paixo, nenhum mago poderia
ser formado. Pelo menos, nenhum bom mago. Valria amava as aulas,
aprendia tudo com facilidade e gostava de estar sempre aprendendo e se
fortalecendo. Solange pensou que isso era uma forma de Paixo, pois
assim como ela, a garota tambm tinha seu amor voltado para o
aprendizado.
    Mas foi o seu maior engano. Solange havia confundido uma coisa
muito importante. Havia confundido a Paixo com Ambio. No era a
magia a que Valria amava e sim o poder que esta proporcionava. A sua
aluna no amava o aprendizado, ela o usava. Ela no amava a magia, ela
a cobiava. E no fim, faltando apenas uma semana para ela se tornar uma
maga completa, Valria se rebelou.
    Alegando que a mestra no tinha mais nada a lhe ensinar, largou tudo.
Abandonou a casa onde morava, abandonou sua vida e abandonou
Solange e foi atrs de mais poder. Foi atrs de algum que lhe pudesse
ensinar mais. Disse que seria a maior maga que j existiu e que usaria de
todos os meios para conseguir isso.
    Solange s no imaginava que ela fosse realmente usar de todos os
meios. Logo a garota comeou a ganhar fama entre os magos. Valria
comeava a se tornar um risco para todos os outros praticantes de magia
e seu nome passou a ser vinculado com uma srie de assassinatos e
desaparecimentos de grandes mestres do mundo. E foi quando suas
                              ~ 440 ~
atitudes desmedidas comearam a chamar a ateno dos Inquisidores e a
Irmandade da Rosa comeava a correr um grave perigo.
    O conselho da Irmandade foi implacvel: a garota tinha que ser
detida. Essa poca acabou coincidindo com o perodo em que Ian
despertou. Apesar de muito jovem, Solange reconhecia seu poder e ele
mesmo havia se oferecido a por um fim em sua pupila.
    - Deixa comigo Solange. Sei como  difcil pra voc, ento deixe para
mim. - ele falava. Mas Solange recusou. Sua vaidade fez com que ela
mesma tomasse para si o fardo. Para ela, ningum tinha o direito de
derrotar Valria a no ser ela mesma, mas suas verdadeiras intenes
eram outras. No fundo, ela acreditava poder trazer a garota de volta para
o bom caminho e assim, quem sabe, conseguir com que o conselho a
anistia-se.
    Mas quando se encontraram pela ultima vez, Solange teve a certeza
que no havia volta. Na verdade, no havia quem voltar. Sua aluna j
havia morrido. O que sobrou dela foi uma figura que Solange sente dor
s de lembrar. Toda a beleza juvenil de Valria havia desaparecido. O
desgaste devido ao treinamento pesado e as marcas deixadas pelos rituais
e pactos feitos a deixaram completamente monstruosa. Tinha apenas
dezessete anos na poca, mas parecia mais velha que sua mestra. Seus
cabelos estavam mal cuidados e sua higiene pessoal estava horrvel. Mas
acima de tudo: estava louca.
    Ela havia se tornado uma Catica de corpo e alma. Apesar das
tentativas de Solange de ainda procurar outro caminho, no houve tempo
para diplomacia e Valria avanou com tudo em cima de sua mestra. A
batalha foi feroz. A garota poderia estar muitas coisas, mas fraca no era
uma delas.
    No fim, a experincia venceu e Solange ainda se lembrava bem
daquele dia: Montreal, noite de chuva fina. Num beco deserto de uma das
principais ruas, Solange deu o golpe de misericrdia. Voltou vitoriosa,
mas no conseguia deixar de se sentir uma perdedora. Falhou com o que
para ela, era o mais valioso de sua vida. Falhou consigo mesma por no
ter percebido a garota quem treinava, por no lhe dar a devida ateno.
    Nunca mais quis saber de treinar novos magos.
    Nunca mais, at agora.
    Droga Ian. Por qu?
    Havia conhecido Ian h uns cinco anos e ele acabou sendo um grande
amigo desde ento. Ficou ao seu lado nesses momentos difceis e ela
aprendeu muita coisa com ele e tambm lhe ensinou outras. Solange
tinha receio de sua besta, mas nunca conseguiu julg-lo por isso e ambos
                               ~ 441 ~
acabaram se tornando confidentes um do outro. Solange sabia de toda a
culpa que o garoto carregava por Adele e ele sabia a dor que Valria
havia lhe causado e de sua deciso de nunca mais se envolver com isso.
    E era exatamente por isso que sentia tanta raiva do garoto agora. Ele
sabia que ela tinha essa ferida na alma. Sabia que no se sentia capaz de
treinar mais ningum. Mas mesmo assim lhe ofereceu uma nova
discpula.
    Depois que voltou da viagem, ele encheu a cabea de Solange com
coisas sobre Ana. Narrou todo o seu passado, falando do potencial que
enxergava nela. Alegando que seria bom para Solange tentar novamente
com algum. Para faz-lo calar a boca, a maga teve que lhe mostrar na
integra sua situao. Dando-lhe O beijo nos lbios, passou para ele todos
os fantasmas que a perseguiam, mostrou-lhe tudo o que j havia contado,
s que agora com direito a imagens e sensaes. Pois s assim, Ian teria a
real noo do porque de sua deciso.
    Mostrou Valria quando se conheceram durante sua iniciao e o
terrvel fim que a acometeu. E funcionou, o garoto havia desistido por
um tempo. Mas logo depois voltou com aquela idia. E a trouxe at sua
casa para que a conhecesse. Miservel. Pensava com raiva.
    E foi assim que pde conhecer Ana. Mesmo morando na mesma rua,
nunca tinha falado muito com a garota e grande parte disso era culpa da
prpria Ana, que nunca parava pra falar com ela. Mas conhecendo-a
melhor, de fato Solange enxergou um grande potencial na menina e tinha
que admitir que ela fosse mais interessante do que esperava. De inicio,
acreditou que Ian falasse de seu potencial apenas pelos olhos de algum
apaixonado, mas constatou que estava errada. Enquanto conversavam em
sua casa, ela podia ver a urea da menina e se surpreendeu com o quanto
brilhava. Como o fogo de sua quintessncia era bonito e vivo.
    Isso ela tinha que admitir, mas no era o bastante. Era preciso mais.
Era preciso Paixo. Ana possivelmente nunca se adaptaria  Irmandade
da Rosa. Ela no tinha o perfil de uma maga desse grupo. Solange a
conheceu assim que se mudou. Era uma menina sem brilho, sem vaidade.
Era desanimada, cabisbaixa e essas no eram caractersticas de uma Irm
da Rosa. Mas acima de tudo, ela no tinha paixo. Depois que suas tias
morreram a garota no parecia capaz de amar algo que a fizesse querer a
magia.
    Provavelmente, ela estava deslumbrada com o novo mundo que Ian
havia aberto pra ela, mas isso no era o bastante. Deslumbro poderia
causar o desejo por poder, e tal desejo poderia virar ambio e as
conseqncias disso, Solange no queria testemunhar novamente.
                               ~ 442 ~
    Mas agora, esse problema acabou pra ela. Ian havia lhe contado que
conseguiu quem amparasse a garota e agora ela no era mais problema
dela. E o prprio Ian havia ido embora. Foi fazer o que j queria ter feito
h muito tempo. Fugir, se esconder, morrer. No gostava da idia, mas
no pde o impedir. No sabia como ajud-lo ento achou melhor deix-
lo seguir seu caminho. Era melhor assim.
    O caf ficou pronto e Solange viu que assim como a ltima gota
negra, sua vida tambm estava chegando ao fim. Infelizmente morreria
sem deixar nada. Sem deixar algum que lhe continuasse. Tinha muito a
ensinar, mas ningum para aprender. Pelo menos, ningum que ela
tivesse confiana de ensinar.
    Mas droga. Por que estou pensando nessas coisas? No queria
admitir, mas tinha ficado tentada com a possibilidade. A chance de ser
uma mestra novamente. Tinha medo sim, mas ao mesmo tempo sentia
que no fundo havia nascido para isso. Acreditava que ensinar era uma
coisa que estava morta dentro dela, mas Ian a trouxe de volta quando lhe
deu essa chance. E ela o amaldioava por isso.
    Se pelo menos a garota tivesse paixo por alguma coisa. Se tivesse
desejo por algo. No. Decidiu tirar isso da cabea. Esse pensamento a
deixava triste e isso no fazia parte de sua natureza. Fazer o que, meu
tempo passou. Conformou-se e pegou um copo para depositar uma
quantidade generosa de caf.
    Porm, no teve tempo de lev-lo  boca, pois logo a xcara foi ao
cho. Seus dedos fraquejaram e ela no teve astcia para conseguir pegar
o objeto no ar, pois alguma coisa tomava toda a sua ateno.
    Ela sentia uma gota de suor frio lhe escorrer pela testa.
    Que sensao  essa? E olhava em volta atrs de alguma coisa.
Nunca tinha sentido algo to medonho na vida. Era como uma exploso
de energia. Uma energia profana e muito poderosa. A sensao sumiu
como se nunca tivesse existido, como se no fosse nada alm de fruto da
imaginao. Mas ela sabia que no tinha imaginado.
    Algo aconteceu e de muito srio. Cada nervo de seu corpo avisava
isso. Sem se preocupar em limpar a sujeira, Solange correu at seu quarto
para se aprontar.
                               ~ 443 ~
   64 - Uma pequena esperana.
    - Bem vindo de volta, Nero - saudou Catarina.
    Satine lanou um olhar de reprovao para a mulher. Provavelmente,
no gostava da intimidade com que Catarina tratava seu amo. Mas o
homem no respondeu, permanecendo em silncio enquanto
contemplava as prprias mos como se elas fossem feitas de ouro.
    - Realmente a soluo para Nova Gnesis era muito simples 
comentou Catarina. - Era apenas uma questo de usar um cadver como
recipiente e no um corpo feito de enxofre como se fazia.
    Mas Nero no parecia escutar o que ela dizia.
    - Que bom que corpos no faltavam aqui  disse Satine com um
sorriso malicioso.
    Ana olhava a figura alta e musculosa que surgiu moldada do cadver
de um dos jovens desaparecidos. O homem era amedrontador. Sua altura
e seu porte, somadas  sua cara de poucos amigos, fariam qualquer
pessoa que cruzasse com ele no meio da rua pensar em trocar de calada.
    Satine se aproximou parecendo uma boneca diante da altura de Nero.
Ela se ajoelhou diante dele fazendo Catarina soltar um pigarro de
desaprovao. E sem dar ateno  companheira, ela saudou o demnio
renascido:
    - Meu amo - disse amorosa.
    Com uma delicadeza pouco compatvel com sua aparncia, ele
segurou o rosto da loura.
    - Levante-se minha criana. Voc no precisa de tantas reverncias. -
e deu-lhe um beijo nos lbios.
    Depois de soltar o rosto da loura, ele se virou para os dois
prisioneiros. Andando em passos lentos na direo de Ian, Nero
demonstrava certa dificuldade em se locomover. Em um dado momento,
pareceu que fosse sofrer uma queda.
    - Cuidado meu amo - alertou Satine com toda a delicadeza - O senhor
ainda tem que se acostumar com esse corpo. Afinal, essa magia nunca foi
testada.
    O homem deu uma risada fraca.
    - O pior  que voc est certa. Sinto que minhas energias ainda no
voltaram totalmente e tambm no tenho controle total dos meus
movimentos. No consigo usar com perfeio todos os meus sentidos e
tambm no me sinto muito equilibrado. Uma pena. Mas logo acredito
que voltarei ao normal.
                              ~ 444 ~
    E mesmo com dificuldades, ele continuou se aproximando e Ana
estremeceu quando o homem enorme segurou Ian pelo pescoo,
erguendo-o do cho.
    O garoto comeou a se debater, mas as correntes negras limitavam
em muito seus movimentos. Ento, Nero colocou o rosto de Ian de frente
para o seu, fitando seus olhos azuis com interesse.
    - De fato vocs foram minha maior criao. Um poder to
intimamente ligado a vocs que pde ser transportado at depois da
morte. - ele deu um suspiro e parecia se deliciar com o fato de estar
respirando de novo - Sua alma e a minha so idnticas meu filho. - ele
falava muito prximo do rosto de Ian - Meu poder corre em suas veias e
eu diria que ns temos quase que a mesma quintessncia. No  a toa que
aquele Iluminado lhe confundiu comigo, pois somos feitos da mesma
energia.
    Os olhos de Ian se arregalaram e Ana sabia que ele tambm se
lembrava do garoto que os atacou na floresta. O iluminado que dizia
estar caando um demnio.
    - Sinceramente, seria um desperdcio matar voc. - comentou - No
sei se conseguiria repetir o feito de anos atrs e criar outros como o cl
Garow - ele sorria enquanto falava - Voc poderia se juntar a ns. Seria
uma boa idia, no acha? Pense bem.  e seus olhos faiscaram - Eu
poderia aprisionar de volta a besta que o persegue e voc poderia passar
o resto da vida, e at alm dela, ao lado de sua amada Catarina.  E Ana
estremeceu de raiva - No seria uma boa idia?
    A resposta de Ian foi dada com um cuspe no rosto de Nero, que no
pareceu irritar ao homem, que com a mo livre, limpou o rosto
transbordando calma.
    - Esperava essa resposta - disse em tom tranqilo antes de arremessar
Ian com fora contra a parede. Um estalo oco se fez ouvir quando o
corpo dele se chocou contra as rochas e ele abriu a boca soltando todo o
ar de seus pulmes. Apesar da dor, no conseguiu gritar, sua voz tinha
sido abafada.
    - No! - gritou Ana quando o corpo inerte de Ian caiu no cho.
    Nero olhou para a garota como se s agora notasse sua presena ali.
    - Tinha me esquecido de voc, pequena Ana. No creio que sua
resposta seja diferente da dele.
    Ana no respondeu. Seus olhos estavam fixos no garoto cado. Dava
para ver que ele ainda estava consciente, mas o impacto o deixava com
dificuldades de se mexer. Com muita luta, Ian conseguiu se colocar de
                               ~ 445 ~
joelhos novamente e agora rosnava para o demnio que nem ao menos
dava ateno para as ameaas. Ele ainda mantinha os olhos em Ana.
    -  uma pena. Eu bem que gostaria de mais seguidores. Ian foi minha
melhor criao e eu vejo um grande potencial em voc fedelha. Mas no
creio que voc queira se unir a mim depois que...
    De repente Nero ficou imvel com um olhar estudado na direo do
corredor escuro. Catarina parecia ter percebido a mesma coisa e tambm
encarava a passagem escura.
    - Tem algum chegando - falou.
    - Quem? - perguntou Satine, que no notara.
    - Desconheo - respondeu Nero e um sorriso sombrio surgiu em seus
lbios - Mas me parece ser algum bem poderoso.
    - Concordo  falou Catarina - Acha que devemos intercept-lo?
    - Certamente - respondeu Nero - Essa seria uma boa hora de testar
meu novo corpo. - e se virou para Satine  Voc, minha filha, livre-se
desses dois. E Catarina, venha comigo.
    Satine no pareceu gostar muito de ser preterida e Nero percebeu isso
nela.
    - No  nada pessoal minha querida, apenas sei o quanto voc gosta
dessa parte do trabalho - e depois ficou srio - S peo para que no
brinque muito com esses dois. No corra riscos desnecessrios e mate-os
de uma vez. O garoto primeiro, de preferncia. - completou um tanto
cauteloso.
    Pela primeira vez desde que Ian fora capturado, Ana comeou a sentir
certa esperana. Ficou imaginando quem seria a pessoa que estava
chegando e torcia para que voc algum realmente poderoso e que
pudesse fazer algo por eles, mesmo sabendo que as chances de aparecer
algum capaz de enfrentar Nero e Catarina serem bem pequenas.
    Agora, apenas Satine estava na gruta com eles e Ana continuava a
sentir uma raiva mortal daquela mulher. Ainda culpava a ela por tudo o
que estava acontecendo, mas ainda sentia um dio mais mortal pelo que
fizeram a suas tias. Embora nessa parte o alvo de sua ira foose Nero.
    Queria sair dali. Se pelo menos tivesse alguma forma de Ian
conseguir se soltar, estariam salvos. Quando Nero e Catarina saram,
Satine parecia um pouco mais contente. Ela olhava os dois prisioneiros
com um olhar to divertido que chegava a beirar o macabro. E mesmo
no sabendo o que se passava na cabea da loura, Ana podia ver que eles
corriam um srio perigo se no sassem dali naquele instante. Talvez um
perigo maior que a simples morte. Eu sei o quanto voc gosta dessa
                              ~ 446 ~
parte do trabalho. Lembrava ouvir Nero falar. Mesmo conhecendo ela
apenas por alguns minutos, sabia que Satine era louca.
    - Tenho que admitir - ela falou saltando em direo a Ian - Essa  a
minha parte preferida do trabalho - e segurou o garoto pelos cabelos
fazendo-o gemer - Uma pena Ian, voc no querer se reunir a ns. Eu
adoraria te dividir com a Catarina.
    - Larga ele - gritou Ana.
    - Nossa! - Satine fingiu medo - A leoa criou garras. Que fofo.
Protegendo o namoradinho.
    - Ana no - gemeu Ian.
    - Oh, parem! Por favor. - continuou zombando - Assim vocs me
fazem chorar.  to lindo ver os dois se preocupando uns com os outros,
mesmo sabendo que suas prprias vidas correm perigo.
    Ela ergueu Ian pelo queixo da mesma forma como Nero fez e depois,
chegou o rosto prximo do ouvido do garoto. Ian rosnou, mas continuou
imvel,
    - Quer me morder? - perguntou - Mas no pode. Sabe, uma coisa
legal dessas correntes  que alm de prenderem muito bem, elas inibem
aes agressivas. - e fez um biquinho enquanto balanava a cabea. Cada
palavra da mulher era acompanhada de um olhar penetrante. Ela agora
parecia mais louca ainda depois que seu mestre saiu. - Voc pode at
tentar romp-las, mas eu duvido que consiga, ento - e deu um beijo
rpido nos lbios dele - Eu posso fazer com voc o que eu quiser.  e
repetiu - Voc  como um boneco pra mim.
    - Larga ele! - gritou de novo Ana. A raiva comeava a ganhar mais
fora em seu peito e seu grito havia feito os olhos de Satine faiscarem
com mais intensidade.
    - Cimes querida? S porque voc no teve essa oportunidade que
estou tento? Poder fazer com ele sem o risco de ser trucidada? - e largou
o garoto que caiu de joelhos - Sabe, isso me lembra uma coisa. - e se
dirigiu  Ana - Voc nunca teve medo dele?  e se abaixou de frente pra
ela, fitando-a com curiosidade  Digo. Ficar com ele  como namorar um
co raivoso. Nunca teve medo de lhe acontecer o mesmo que a Catarina?
At porque voc, minha querida, seria destruda com muito mais
facilidade.
    Ela encarava Ana com olhos excitados, mas a garota retribua o olhar
com raiva e coragem. Nesse momento, o medo j tinha se esvado
totalmente e s lhe restava no peito uma fria mortal.
    - Isso me parece um no  por um segundo, ela pareceu
decepcionada, mas logo recuperou o sorriso quando alguma coisa lhe vir
                              ~ 447 ~
 cabea - Talvez, porque voc nunca tenha visto ao vivo o que  seu
namoradinho com raiva. Voc nunca o viu perder o controle, no ?
    Ana teve dificuldades em entender o que se passava na cabea da
demnio, mas percebeu que Ian j o havia notado, pois seus olhos se
arregalaram em espanto.
    - No! - sua voz era de splica.
    Satine se virou para ele, insolente.
    - Ah Ian, qual o problema? No seria a primeira vez que voc
retaliaria a pessoa que voc ama, no  mesmo? Seria divertido.
    A loura se levantou e comeou a andar na direo do garoto que
tentava se arrastar pra longe dela. Ana nunca vira tanto medo nos olhos
dele.
    - Calma garoto, eu no mordo - e o segurou pelo rosto - Mas vai ser
lindo ver voc morder a Ana.
    - No, no - ele tentava inutilmente se livrar dela.
    - Voc conseguiu manter o controle por tanto tempo. No vai ser bom
poder se libertar por um momento? Pensa bem.
    O medo de Ian comeava a contaminar Ana.
    - Sabe que vai ser divertido - ela falou olhando-o nos olhos - Sei que
Nero me alertou para acabar com vocs dois logo, mas... - ela revirava os
olhos tentando procurar uma explicao - eu no resisto ao desafio. - e o
largou no cho - Essas correntes so fortes para te segurar e tudo que eu
tenho a fazer  soltar sua besta e sair. Quando estiver bem longe, eu
libero as correntes  e fez um biquinho -  uma pena no poder ficar para
assistir, mas de onde estarei poderei escutar os gritos dela.
    - Voc  louca - gritou o garoto - Mesmo que voc consiga, quem lhe
garante que eu no vou atrs de voc depois?
    - Nero garantir - respondeu presunosa  Acredito que ele logo
recuperar seus poderes. Sem falar que eu sei muito bem que voc tende
e desmaiar depois que todas as pessoas a sua volta morrem. A eu volto e
te mato - e pensou bem - No. Talvez eu deixe voc acordar de novo para
ver o que fez. Deixar voc se sentir culpado, deixar voc se odiar e a
sim, eu te mato.  completou, encerrando o pensamento lgico.
     medida que ia falando, os olhos Ian se arregalavam e parecia que
ele poderia chorar a qualquer momento. A mulher estava to envolta em
sua idia que seu prazer era palpvel. Ento, se deixou cair em cima do
garoto e olhou em direo ao corredor.
    - Duvido que o nosso oponente seja to forte ao ponto de manter meu
amo ocupado por mais de dez minutos. Ento, - e olhou para Ian com
                               ~ 448 ~
seus olhos arregalados - acho melhor nos apressarmos, ou ele no vai
deixar.
   - Ento Ian? - continuou - Eu vou conseguir fazer voc perder a
calma? Conseguirei fazer voc sentir uma raiva assassina por mim? Ou
melhor... - e aproximou seu rosto do ouvido dele - eu conseguirei fazer
voc sentir desejos por mim?
                              ~ 449 ~
   65 - A segunda viso da histria.
   Catarina seguia Nero de perto ao encontro do misterioso invasor.
Infelizmente, ela preferia continuar na gruta, mas no queria ir contra as
decises do demnio assim to cedo. Segui-lo e o ver em ao poderia
vir a ser til, afinal. Assim, pelo menos, poderia ter uma noo da
tamanha fora dele.
   Ela havia escutado inmeras histrias sobre ele quando esteve no
purgatrio e decidiu se aliar no ltimo minuto. Apesar de Nero ser
odiado pelos demais demnios, ele tinha um coisa que interessava
Catarina: a chance de criar um corpo s para ela e sair daquele inferno.
   Pouqussimos demnios tinham conhecimento de como sair do
purgatrio e, praticamente, apenas Nero conhecia o Ritual Gnesis, mas
o guardava como um tesouro. Mesmo que tal magia no consiga trazer
de volta um demnio to poderoso e com uma ligao to fraca com o
mundo dos vivos, Catarina ainda era jovem e por isso poderia se
aproveitar dela. Por esses motivos no queria discutir. Graas a ele,
conseguiu esse belo corpo que ela mesma ajudou a montar. E tambm,
ainda preferia estudar o poder do reencarnado.
   Era uma pena, pois ainda sentia inveja de Satine, que poderia ficar e
se divertir com os dois. E ficou imaginando o que a loura iria aprontar.
Ela obedeceria s recomendaes de Nero? Duvidava. Mesmo
conhecendo-a loura h pouco tempo, j tinha a certeza sobre uma
caracterstica dela: era completamente louca.
   Satine tornava-se incontrolvel quando tinha que eliminar algum.
Nessas duas semanas, toda a vez em que Satine pegava alguma pessoa
para abastecer de sangue o jarro que mantinha Nero conectado ao mundo
dos vivos, Catarina observava como a mulher transformava uma simples
execuo numa pea de teatro. Ela era uma sdica que sentia um prazer
voraz com o sofrimento alheio. E Catarina sabia que para conseguir esse
prazer, ela seria capaz at de passar por cima das ordens de seu amo, a
quem se devota como que para um Deus.
   Nessa ltima semana, Catarina havia se aliado a Nero, mas ele pediu
para que ela se mantivesse em segredo por quela hora. Queria que
deixasse Satine tomar conta da situao. At que a coisa se tornou
incontrolvel e sua presena teve de ser requisitada.
   Ele no confiava em mim e com certeza ainda no confia, pensou. A
mulher sabia que Nero acredita que ela ainda guarde algum sentimento
para com Ian e que isso poderia fazer com que o trasse. Por isso ele a
manteve em segredo e s a chamou por que no tinha alternativa.
                               ~ 450 ~
Quando estava prestes a por tudo a perder. S ento ensinou o Gnesis a
ela e lhe deu a misso de interceptar Ian. Essa seria a sua prova de
lealdade. Seu Batismo de Sangue.
    Engraado ele ainda no confiar em mim depois disso. Melhor pra
ele. Era incrvel, mas ela podia imaginar exatamente o que se passava na
cabea de Nero. Provavelmente ainda acreditava que, deixando-a sozinha
com os dois, ainda houvesse a chance de ela se render ao garoto. Que
assim, poderia solt-los. Por isso delegou a misso  Satine
    - Do que voc est rindo? - perguntou Nero. Ele olhava para ela pelo
conto dos olhos e parecia estar apreensivo. Catarina achou graa em
poder provocar tal sensao em algum que se dizia to poderoso.
    - S pensando no que est acontecendo l atrs. - respondeu.
    - No... sente pena? - perguntou dando pouco caso.
    - Sinceramente? No. Eles so testemunhas de sua volta e quanto
menos pessoas sarem vivas daqui, melhor.
    - Entendo  mas ele ainda duvidava.
    A grande verdade  que Catarina realmente se importava com o que
acontecia l atrs. Mas no por pena, e sim por decepo de no poder
fazer aquilo ela mesma. Quando teve a chance de finalmente se encontrar
com Ian, ela acreditou que o garoto ia cair aos seus ps. Implorar seu
perdo e se entregar facilmente a sua simples presena.
    No comeo, at foi assim. Ele se arrependeu, pediu perdo e no
hesitou em oferecer seu amor, mas depois... Aquela garota tinha que se
meter. Catarina no entendia como aquela menina sem sal poderia ter
feito Kalish esquec-la. O que ela tinha? Catarina era muito mais bonita
e muito mais poderosa. Era superior em tudo. Ento, porque foi
preterida?
    No era cime que sentia e sim orgulho ferido. Tinha certeza disso.
Afinal, no tinha motivos para ter cimes. Ela nem gostava tanto dele
quando era viva, mas Kalish sempre foi um bom companheiro. Ela ainda
se lembra do dia em que se encontrou com ele, sozinha na floresta perto
das terras de sua tribo.
    Ela no estava perdida naquele dia. Ela sabia realmente o que queria.
Queria encontrar um Garow. Kalish foi apenas o acaso. Poderia ser
qualquer um. Sua famlia havia se mudado para o Canad fugindo da
Inquisio na Rssia quando ela tinha apenas oito anos. Assim, ela
cresceu na Amrica ouvindo histrias sobre aquele cl. De como era
poderoso, como conhecia truques inimaginveis, como era misterioso e
Catarina cresceu com essa obsesso: a de conhecer, de desvendar seus
segredos. E foi quando pensou em tentar algo inusitado, e para muitos,
                              ~ 451 ~
at louco. Teve a idia de tentar ter relaes diplomticas com os
membros daquela tribo.
    E foi ento que conheceu Kalish. Sem querer, o tinha conquistado.
Catarina sempre soube usar seus talentos de mulher e estava acostumada
a usar certos meios de seduo, mas ficou pasma por saber que uma
simples luta havia despertado no garoto uma atrao to forte por ela.
    Ela riu novamente e Nero se virou pra ela, mas nada perguntou.
    A rede tinha sido jogada e ela poderia enfim se aproveitar disso. Sua
famlia era especialista em mgicas do esprito e saber que os Garow
eram considerados os maiores especialistas no assunto, deixou-a
maravilhada. E durante anos absorveu os conhecimentos que Kalish lhe
trazia. Logicamente teve que ensinar coisas tambm, mas no tinha
problemas. A troca era vantajosa para ela.
    E foi ento que tiveram a idia de criar uma magia capaz de enganar a
morte. At ento, esse era apenas uma utopia, mas que com o tempo e
com os conhecimentos adquiridos pelo Garow, foi ganhando forma e
possibilidades. Podia dar certo, e deu.
    Nasceu como Adele, uma jovem burguesa da cidade de Paris. Sua
vida era boa ali, tendo luxo e empregados a sua disposio. Mas sua vida
no era completa. Sentia tdio daquilo e quando as lembranas de
Catarina vieram a ela, a garota percebeu do que sentia falta. Recuperou
seu poder e sua experincia e logo viu a chance de viver com maior
intensidade. Queria fugir dali e correr o mundo.
    Ficou em dvida se Kalish tambm havia conseguido, mas no
acreditava que, se tivesse, nasceria no mesmo tempo que ela. Ela
confessa que sentiu saudades dele, mas podia sobreviver sem. Tinha uma
nova vida num mundo novo. Um mundo onde a Inquisio no era mais
a cu aberto e muitas pessoas nem mais acreditavam na existncia de
magos. Esse novo mundo tinha muitas possibilidades.
    Ento, em uma festa em Paris, aconteceu o que pensava inimaginvel.
Kalish estava ali. Muito melhor que antes, pra dizer a verdade. O ar
europeu tinha feito bem a ele que no era mais o selvagem do Canad.
Agora era um cavaleiro burgus. Lucien, como agora se chamava, props
uma fuga. Uma idia tentadora para uma Catarina que j estava cansada
daquela vida de um pouca mobilidade. Uma aventura faria bem.
    Fugiram os dois, se transformaram em muitas coisas, desde
assaltantes a heris. Viajaram muitos pases e a vida errante at foi boa
no comeo. Principalmente para Lucien. Seu sangue Garow ainda era
muito presente e ele se sentia bem ao ar livre. Mas com o tempo,
Catarina foi se enchendo.
                              ~ 452 ~
    Ela, ao contrrio do companheiro, sempre foi acostumada  boa vida.
Na Rssia, era uma nobre e na Frana, uma burguesa. Foi ento que
comeou a sentir falto do luxo e das festas que julgava to chatas antes.
Admitia que a vida com Lucien fosse divertida, mas ele comeava a se
tornar um p no saco. Sempre querendo conhecer mais lugares e no
parando em nenhum canto.
    Sempre tiveram dinheiro, mas nunca pompa. E com o tempo, sua
relao foi esfriando e o Garow, perdendo a graa. E foi numa noite de
outono que aconteceu: seguindo uma pista falsa, caram na armadilha dos
Inquisidores e quase perderam a vida.
    Para Catarina, o episdio foi um choque, mas Lucien no pareceu
sentir o mesmo. Sua sede de adrenalina era quase insacivel e a mulher
percebeu que era hora de abandonar o barco. Mas para onde ir? Como
viver? No tinham acumulado dinheiro o suficiente para viver na boa
vida de antes e ela no podia mais voltar para o requinte da casa de seus
pais, pois eles jamais a aceitariam de volta.
    Ento, pensou em conversar com Lucien sobre enfim pararem, mas
desistiu. Primeiro, porque ele tentaria convenc-la a no abandon-lo e
segundo, pois no queria parar junto com ele. Lucien era divertido como
aventureiro, mas seria insuportvel como companheiro para vida toda.
    Mas como abandon-lo? Como sobreviver em uma vida comum?
Nesse momento, a oportunidade pareceu na forma de um anncio. Era
uma manh de inverno naquela data e eles estavam na Inglaterra. Ali, na
cidade de York, ela viu um cartaz que mudaria sua vida. Pois nele, havia
uma recompensa. Uma recompensa igual a muitas que serviram para
sustent-los durante a vida. Mas esta, ao invs de significar sua vida,
estava condenando-os  morte. Sabia bem que aquilo era a garra dos
Inquisidores, mas o que mais a tenteou foram os nmeros logo abaixo.
Suas cabeas estavam valendo mais de duzentas libras cada. Uma
fortuna. E no conseguiu pensar em outra coisa depois disso.
    Afinal, ela era ou no uma caadora de recompensas? A proposta era
tentadora e ela sabia como seria fcil conseguir isso. Apesar de no saber
se era poderosa o suficiente para derrotar o companheiro, sempre se
tinham outros mtodos. No comeo, relutou um pouco, pois no
considerava certo trair um companheiro de anos, mas ela tinha duzentas
razes para fazer.
    No fim, acabou optando pela traio. Gostava de Lucien, mas ele
comeava a ficar irritante e ela tambm gostava da idia de ser a nica
conhecedora do ritual da imortalidade. E foi quando tudo aconteceu
                               ~ 453 ~
rapidamente. Conheceram uma irm da Rosa na Inglaterra, souberam do
massacre do cl Garow. E tal choque acabou por adiar sua deciso e eles
foram para a Amrica a fim de tentar saber mais.
    Mas a coisa no podia ser adiada por muito tempo. Catarina sabia que
quanto mais relutasse, mais difcil seria fazer depois e acabou escolhendo
a noite da despedida. Em Michigan, depois de uma festa em um bar,
onde beberam bastante, levou-o para o quarto para terem ltimos
momentos juntos. Catarina se sentiu como uma viva negra que mataria
o macho logo depois da relao e no fundo at gostava da idia. A
adrenalina corria por seu sangue e aumentava seu prazer.
    A coisa ia bem, gostava do sexo. Talvez at fosse sentir falta dele
depois, mas no pensou nisso. E enquanto tirava prazer de cada segundo,
enquanto escutava o arfar de Lucien em seus ouvidos, foi preparando o
golpe final. No sabia exatamente como fazer. Ela podia o atacar com
uma mgica ofensiva, ou usar alguma arma como nas melhores tragdias
teatrais. Mas ainda tinha um inconveniente: Lucien usava o colar da
imortalidade.
    Se ela estava mesmo planejando mat-lo, teria que ser definitivo. No
podia deixar que ele tivesse a chance de voltar e persegui-la em algum
futuro. Ento, no meio da relao, segurou o objeto e o arrancou. Tal
ao nem chamou sua ateno. Provavelmente, o companheiro acreditou
que esse fosse unicamente fruto do xtase.
    Estava na hora, tinha de fazer. Mas foi quando sentiu algo errado. Ele
havia parado, havia ficado em silncio enquanto a agarrava com fora. O
que havia acontecido? Ser que havia percebido algo? Impossvel. A
fora de seu abrao comeava a ficar mais forte e incmoda e Catarina
foi perdendo o controle  medida que o medo se tornava presente.
    - Lucien? - ela estava sem ar  Querido... est apertando forte demais
- deu uma bufada - Est me machucando.
    O que estava acontecendo?
    Catarina nunca imaginaria que fosse aquilo que estava acontecendo.
Naquele instante, sua respirao voltou fazendo-a ouvir seu arfar em seu
pescoo, mas esse era diferente. No eram mais os suspiros de prazer que
antes ele emanava. Esses eram algo parecido com bufes de fria e foi
ento que escutou o rosnar.
    Ela no teve tempo de sentir todo o medo que a situao exigia, no
teve nem tempo de pensar em reao. Foi rpido demais e ela nem teve
oportunidade de sentir dor e estava morta.
                               ~ 454 ~
    Catarina sentiu seu corpo estremecer com a lembrana. Quanto dio
sentiu dele depois disso. Um dio to forte que fez sua alma ficar presa
no mundo nos mortos. Um dio que a impediu de fazer a passagem.
    Seu esprito atormentado ficou retido no purgatrio e anos passados a
transformaram no que  hoje: um demnio. Vagou por dcadas, sculos,
pelo mundo dos mortos, sendo degenerada pelos espritos degenerados,
enlouquecida pelo caos do lugar, contaminada com seu mal.
    Anos depois, conheceu Nero, uma alma renegada no purgatrio,
assim como ela. Sabia que todos os outros demnios o conheciam e o
desprezavam, pois, apesar de muito poderoso, Nero era um demnio
velho demais. Sua ligao com o mundo dos vivos ia se esvaindo e como
conseqncia ele estava cada vez mais fraco no mundo dos mortos. Em
contrapartida, era forte demais para voltar ao mundo dos vivos. Seu
poder destrua qualquer corpo que tentasse tomar posse.
    Definitivamente, ele estava acabado e basicamente apenas um
demnio que se mantinha fiel a ele. Satine, que lutava no mundo dos
vivos para trazer seu mestre de volta. Descobriu tambm que ele tinha
um grande plano para retornar. Soube que ele de alguma forma conhecia
Kalish. Que tinha alguma espcie de ligao com ele, mas s ficou
sabendo exatamente do que era h poucos minutos, quando ele revelou
ter criado o cl Garow.
    A lembrana de Lucien, saber que agora ele vivia como Ian a deixou
descontrolada. Queria vingana. Ento, ela tinha que segui-lo. Conheceu
Nero, ofereceu-se em servios e o demnio a tentou com a possibilidade
de ter um corpo e uma chance de voltar ao mundo dos vivos. Ela no
pensou muito. Apesar de no passar de uma runa naquele momento,
Nero ainda era o demnio mais velho de que ouvira falar e tinha
conhecimentos que muito a interessavam.
    Mas Nero ainda no confiava nela, pois sabia de seu passado. Como
conhecia a histria de Ian, ele sabia um pouco dela. Sabia que ela o
amava, ou pelo menos sabia que Kalish acreditava nisso. Mas tambm
no tinha escolhas. O demnio tinha apenas um nico servo trabalhando
para ele e era arriscado demais continuar assim. E Catarina tinha astcia,
e logo o convenceu do dio que sentia de Lucien, que agora era Ian.
    Ele no acreditou completamente, mas decidiu lhe dar um voto de
confiana e a trouxe de volta. Nesse tempo, ela se manteve escondida at
mesmo de Satine. Apenas observou, esperando o momento em que
atuaria. E ali, soube com prazer da maldio que o garoto carregava e
tambm que ele jamais havia se perdoado pelo que tinha feito. Pelo
                               ~ 455 ~
menos assim ele estava pagando. Mas o pagamento final, Catarina queria
ter a chance de cobrar.
    Queria poder faz-lo se sentir da pior forma possvel antes de mat-
lo. E ento, quando teve a chance de se encontrar com ele, ficou
imaginando como faria: pensou em coloc-lo no cho, tentar reativar
todo o amor que ele tinha por ela e depois jogaria tudo na cara dele.
Cham-lo-ia de assassino, contaria todo o sofrimento que passou no
purgatrio. Nero pediu que ela no o matasse, pois o queria no ritual do
retorno, queria-o como testemunha e ela se sentiu triste com essa
deciso, mas consentiu. Poderia mat-lo depois, mas antes o faria sofrer.
    Tudo ia bem. Tudo conforme o plano. Ele estava de joelhos. Estava
chorando. E foi quando falou aquele maldito nome. Ana. Lembrava-se
com dio. Nero a havia alertado sobre Ana. Disse que ele gostava dela,
mas Catarina no a julgava uma oponente. Imaginava que o que Ian
sentia por ela era uma paixonite qualquer, resultado de anos de solido e
culpa. Afinal, ele tinha matado a mulher que dizia amar e agora tinha
algum para cuidar. Nada estranho ele se sentir atrado por sua protegida.
Mas Catarina era Catarina no corao dele e a garotinha no tinha chance
com ela.
    No comeo, isso se comprovou e Ian no hesitou em beij-la. Ento,
era hora da segunda parte do plano, onde o humilharia, mas foi quando
ele a largou e disse o nome da garota. Miservel. Como pde me beijar
pensando na outra? Ela quase o matou naquele momento. O ataque que
desferiu tinha a inteno disso, mas Catarina o subestimou e no usou
fora o suficiente.
    Ele foi ao cho, gravemente ferido, mas no morto. Pensou em dar o
golpe de misericrdia, mas se conteve no ltimo minuto seguindo as
ordens de Nero.
    Nero. Catarina olhava o demnio  sua frente. De vez em quando ele
ainda olhava para trs, duvidoso com relao a ela. Se ele soubesse da
minha parte da histria, no desconfiaria tanto de mim. Ou desconfiaria
mais? Refletiu. Se Nero soubesse da verso de Catarina, com certeza no
pensaria que ela pudesse se aliar a Ian e Ana. Mas tambm conheceria
com quem estava lidando. Assim como Kalish, Nero era apenas uma
ponte para um poder maior.
    O Garow a havia ensinado muitas coisas e ela sentia que o demnio
poderia mais. E quem sabe, quando ele no fosse mais til...
    E mais uma vez sorriu.
    - Voc anda muito feliz, minha cara - Nero comentou desconfiado.
    - As coisas esto indo bem,  s isso.  respondeu despreocupada.
                               ~ 456 ~
     Mas foi ento que sentiu alguma coisa estranha e parou de andar.
Nero tambm se conteve e fitou Catarina com ar interrogativo enquanto a
demnio tentava perceber o que havia se estranho. Um aroma. Parecia...
perfume?
    - Que cheiro  esse?  comentou.
    Nesse instante, Nero ergue as sobrancelhas e seus olhos se alarmam.
    - Tampe a respirao! - gritou e, num gesto rpido com a mo,
conjurou uma pesada corrente de ar.
    Catarina segurou o nariz com uma das mos e com a outra, prendeu
os cabelos que voavam com a ventania. Ela agora era capaz de ver alguns
pontos cor de rosa no ar, assemelhando-se a uma poeira brilhante, como
purpurina.
    O vento acabou apagando as tochas e entregando o lugar a escurido.
Quando acabou, Catarina no via mais a poeira rosa em lugar nenhum. E
as tochas comearam a se acender novamente sozinhas. Uma a uma o
escuro foi desaparecendo e alm de Catarina e Nero, uma terceira figura
surgiu, como vinda do nada.
    Os dois demnios olham para a menina  sua frente. Ela parecia
jovem, quinze anos talvez. Usava roupas coladas ao corpo num misto de
vermelho e branco. Era muito bonita, com cabelos bem curtos que caiam
muito bem no rosto pequenino, mas seu ar angelical no combinava com
as expresses srias que tinha. Ela encarava os dois com um olhar muito
estudado, mostrando uma determinao pouco compatvel com sua
idade.
    Ela estava muito maquiada e parecia uma ginasta olmpica com
aquelas roupas. Em uma de suas mos ela segurava um longo tecido
vermelho que balanava sob uma brisa que no existia.
    - Meus parabns por interceptarem meu feitio - elogiou. Sua voz era
muito forte para algum to pequena. - Vejamos se podem interceptar
isto.
    Ento, ela sorriu, erguendo o vu que comeou a se abrir assumindo
um tamanho gigantesco conforme envolvia o corpo pequeno de quem a
segurava e balanava num bal hipnotizante.
                              ~ 457 ~
66 - Brincando com fogo.
    Satine parecia se divertir como criana enquanto brincava de alisar o
rosto do garoto. Ian, ao contrrio, se assemelhava a uma vtima de
tortura, mantendo os olhos fechados e os dentes serrados como que para
evitar que um grito irrompesse por sua boca.
    - Ian, no faa isso - Satine tinha se mostrava falsamente constrangida
- Eu no gosto de me sentir rejeitada.
    Com um olhar obsessivo, ela ento d um beijo nos lbios crispados
do garoto e o repete continuas vezes, descendo em direo ao seu
pescoo.
    - Para com isso. - ele a encarou com os olhos azuis em brasa.
    - Pra que, se est funcionando? - ela deu um sorriso maroto -
Engraado que enquanto voc resiste aos meus carinhos est morrendo
de raiva pelo o que estou tentando fazer. Acaba que estou atacando em
duas frentes e me pergunto: a qual delas voc vai sucumbir?
    Ana no se lembrava de sentir tanta raiva de uma pessoa na vida.
Contra Satine, estavam jogadas todas as coisas que mais a prejudicaram
nesses anos todos. Pois foi ela quem descobriu que suas tias haviam
localizado o emblema antigo dos Garow, o que permitiu a ida do
demnio a Trs Coraes e o assassinato de Teresa e Samanta. Graas a
ela tambm, sua av perdera completamente a sanidade e agora vivia
quase como um vegetal. E agora estava obrigando Ian a lutar contra tudo
o que ele controlou durante anos. Queria for-lo a matar Ana.
    - Sabe. - ela atiou - Eu pensei que fosse mais fcil. Meus parabns.
Catarina gostava tanto de voc e voc no hesitou em dilacerar-lhe e
carne. Por que luta tanto por essa garota?
    E deu mais um beijo em seus lbios. Ana via as mos do garoto
fechadas em punho. Suas garras mal colocadas feriam a prpria carne das
mos e deixavam algumas gotas de sangue escorrer pelo cho.
    - Larga ele sua... - praguejou.
    - Desculpe querida, mas voc no faz o meu tipo - ela riu e continuou
- Vamos Ian, eu sei que voc quer isso h muito tempo.
    Ento, passou as pernas em volta da cintura de Ian, chegando seu
corpo para mais junto do dele. Ainda inspirada, segurou bem seu rosto
forando-o a olhar pra ela, mas depois o largou.
    - Ser que eu vou ter que apelar para a sua essncia masculina? - ela
ameaou sorrindo.
    Ana se sentiu como uma leoa naquele momento. Nunca havia
desejado fazer tanto mal a algum como queria a Satine. Ela olhava Ian
                               ~ 458 ~
lutar contra a besta vendo o sangue escorrendo de suas mos numa
tentativa desesperada de tirar a mulher demnio de sua cabea e tal cena
era dolorosa demais para ela.
    Ela queria sair dali, estava com muita raiva e queria socar a cara da
mulher para ver se isso lhe aliviava. E juntando toda a fora que tinha,
puxou as cordas que envolviam seus pulsos.
    Desta vez, algo diferente havia acontecido.
    Elas arrebentaram.
    Satine estava se divertindo muito com a situao e mal podia esperar
a hora de ver aqueles olhos comearem a ficar vermelhos. Nero a havia
contado como era a transformao do garoto, dizendo como ele ficava
sob o domnio da mesma e estava muito curiosa para ver o animal com
seus prprios olhos.
    Depois de conseguir, era s desaparecer e solt-lo como um leo
numa arena. E Ana seria sua gladiadora.
    Mas foi quando escutou o som das cordas arrebentando atrs de si.
Ela se virou descrente e viu a garota de p, encarando-a com os olhos
faiscantes.
    - Filha da... - e se levantou - Eu devia ter amarrado direito.
    A mulher ficou encarando Ana por mais um tempo achando divertida
a raiva que estava estampada na cara da garota, dando de ombros.
    - Pelo visto vou ter que te deixar inconsciente primeiro- e foi andando
calmamente em sua direo.
    Satine vinha em sua direo com seus passos de modelo e Ana deu
um passo pra trs. A demnio sorriu acreditando que se tratava de um
gesto de medo, mas no foi. Ana, na verdade, estava procurando uma
posio para fazer o que tanto desejava.
    Quando for quebrar uma pedra, no hesite, lembrava-se de Ian
falando.
    Ela no hesitaria. No tinha dvidas. Queria extravasar sua raiva e s
tinha um jeito de conseguir isso. E quando Satine se aproximou o
bastante, ela fechou o punho largando um soco contra a face da demnio.
    Ana no tinha muita pratica nisso, ento, fez tudo o que sabia: fechou
o punho e o lanou contra a mulher. Satine ergueu a mo em forma de
garra para segurar o soco da garota com um sorriso presunoso que logo
se desfez ao constatar que havia subestimado a situao.
                               ~ 459 ~
    O soco de Ana se mostrara mais poderoso do que ela poderia supor
atravessando sua defesa e a atingindo em cheio no rosto, fazendo-a
disparar contra a parede rochosa.
    Depois do estrondo, um silncio se instalou no ambiente. Todos
estavam pasmos e nem mesmo Ana conseguia acreditar na sua fora.
Satine bateu na parede e quando caiu no cho, um pouco de entulho a
encobriu.
    A garota ficou maravilhada com sua faanha. Nunca havia se sentido
to leve na vida. Mas o alvio no durou muito e logo uma dor
insuportvel atingiu seu brao agressor. Era como se seus msculos
estivessem sofrendo espasmos, mas ela tentou ignorar isso e se dirigiu
at onde Ian estava preso.
    Ela conseguiu? Ian estava surpreso, mas feliz, apesar de saber que
no era o suficiente. Satine no cairia com um simples soco, mas pelo
menos ela poderia fugir agora e... O que? Ele se assustou quando viu a
garota vir em sua direo. O que ela est fazendo?
    Ele a viu segurar suas algemas, tentando tir-las dali.
    - Como se faz para desfazer isso?  perguntou para Ian. O garoto
olhava para as suas feies e era claro que aquele soco a havia
desgastado por demais. Esse era o resultado de se fazer to poderosa
magia sem experincia.
    - No d! - respondeu - Ana, Ana! - ele tentava chamar sua ateno -
Vai embora daqui. Agora!
    - Eu no posso. - ela falou indignada.
    - Ana, escuta droga! - ele gritava. - Vai embora. Ache a Solange e a
avise sobre isso.
    - Ian... - ela interrompeu.
    - Cala a boca! - cortou - Estamos numa casa abandonada muito
prxima da nossa rua. Eu quero que voc corra at Solange e fale o que
ocorreu, ela vai te proteger.
    - Mas e voc?
    - Se liga. Ela vai acordar logo, vai! - Ian ignorou a pergunta.
    - No vou te deixar sozinho com ela. Eu talvez possa aproveitar que
ela est cada e mat-la - disse esperanosa.
    - Voc no vai conseguir. Olha seu estado. Voc nunca usou tanta
energia antes. Seus msculos esto fatigados. Corre!
    - No! - ela gritou em resposta. Seus olhos estavam cheios de
lgrimas.
    - Droga! - praguejou - No seja burra. Vai!
                              ~ 460 ~
    - No.  Teimou.
    Droga Ana, E foi quando chegou a uma concluso. Me desculpa. E
concentrando toda a sua raiva, praguejou alto fazendo um palavro ecoar
pelas paredes do lugar:
    - #! Ser que voc no v que estando aqui s me atrapalha? - berrou.
Os olhos da garota ficaram espantados na hora - Com voc aqui eu tenho
que me preocupar em proteger ns dois. Me deixa sozinho que eu me
viro melhor. Vai!
    A garota ficou muda ao ouvir aquelas palavras, olhando-o com
espanto. Mas elas no adiantaram, pois logo se escutou o som de entulho
se revirando e Satine surge com seus olhos transbordando fria e sua face
direita um pouco funda aonde Ana a acertou. E foi quando suas belas
feies tomaram um aspecto bestial, mais semelhante  sua natureza.
    - Sua vagabundazinha! - ela urrava - Vou acabar com voc - e veio se
aproximando em seu passo de modelo de sempre. Mas agora, ela parecia
mais inspirada a chegar  garota.
    - Ana, corre! - ele gritou mesmo sabendo ser intil. Satine a
alcanaria facilmente.
    No desespero, ele tentou se levantar, mas as correntes no deixavam.
Eram pesadas demais. Tentando ento concentrar toda a sua fora,
procurou se soltar, mas no adiantou, elas no cediam de nenhuma
maneira. Dessa forma, ele s pode assistir e  medida que via Satine
chegar perto de Ana, seu desespero foi ganhando fora e ele tinha a
sensao que seu corao saltaria pela boca a qualquer instante.
    E foi quando Ana se posicionara de novo. Maluca, pensou em
desespero. Corre droga, corre! Mas ela no correu. Ao contrario, tentou
socar a mulher de novo, mas desta vez, Satine estava pronta. Desviou o
rosto no ltimo minuto com muita graa e prendeu o brao da garota com
a mo.
    - No agora querida  escarneceu e, com um movimento simples de
dedos, ouviu-se um estalo.
    Ana gritou, mas sua voz ficou perdida pela metade. E foi quando tudo
parou para Ian.
    Tudo parecia ter ficado em silncio e apenas o son do osso estalando
e do grito ganhavam espao em seus ouvidos. Foi muito rpido e em
questo de segundos, muitas sensaes se passaram no corao do
garoto: medo, ansiedade, mas principalmente, raiva.
    E essa raiva ia o dominando com muita rapidez. Apenas uma parte
muito pequena dele ainda lutava para manter a calma, mas todo o resto
estava focado em uma nica coisa. Cada sentido seu queria uma coisa:
                              ~ 461 ~
   Queria v-la sofrendo
   Queria ouvir seus gritos.
   Queria sentir o gosto de seu sangue
   Queria ter a sensao de suas unhas cortando sua pele.
   Queria sentir o cheiro do seu medo.
   Ele tinha uma fera presa, mas j no sabia se queria mais segurar as
correntes.
    Satine se deliciou com o grito de dor da menina, que parecia msica
para seus ouvidos que ela curtiu com gozo.
    - Isso  pra voc aprender querida - ela a fitou - Cansei de brincar e
acho que vou comear por voc mesma.
    E, com um empurro, atirou-a contra a parede. No golpe, calculou
bem a fora para no mat-la, pois ainda tinha muitas contas a acertar
com a pirralha pelo dano que fez a seu lindo rosto.
    Mas no teve tempo de fazer mais nada. Pois foi nesse instante,
enquanto voltava a caminhar em direo  Ana, que ela ouviu um som
que fez sua espinha gelar e seu corao acelerar descompassado. O som,
que parecia de vidro explodindo seguido de perto de um rosnado, foi o
suficiente para faz-la se petrificar onde estava.
    A sensao que dava era a de que tinha uma matilha de lobos as suas
costas, tamanha era a ferocidade dos rosnados. Ento, somando toda a
sua fora de vontade para se virar e encarar o que estava ali, ela girou o
corpo vacilante, encarando e desejando que tudo no fosse nada alm de
fruto de sua imaginao.
    Assim, quando se virou para onde estava o garoto, ela pde
contemplar o fruto de sua obra. No ar, viu inmeros pedaos negros que
antes, em conjunto, constituam a corrente que a mantinha segura. Esse
cacos, ao carem no cho, desapareciam e agora que seu olhar pairou
sobre o cho, pode ver o garoto. E seus olhos no eram mais azuis, no
estavam nem negros, e sim vermelhos. Um tom rubro preenchia agora
toa a ris do rapaz.
    Alm de seus olhos, as garras que j eram avantajadas alugaram-se
ainda mais em conjunto com a ponta de seus dedos que se tornavam mais
longas. Satine comeava a sentir seu corpo tremer ao notar como ele ia se
curvando. Ian no parecia mais ser capaz de andar sem que suas mos
dianteiras tocassem o cho e, como um lobo, ele se ps de quatro
rosnando ferozmente.
    O ladrar ecoava pelas paredes rochosas enquanto ele se encolhia mais
o corpo como uma fera pronta para dar o bote.
                               ~ 462 ~
    Satine olhava seus olhos vermelhos na esperana que estivessem
voltados para alguma outra coisa, mas percebeu que o nico foco deles
era ela mesma.
    No havia outros alvos no lugar para o Garow.
                             ~ 463 ~
   67 - Cronos.
    A garota olhava os dois demnios  frente e, apesar de apreensiva,
no demonstrava medo. No queria dar aquele gosto aos seus inimigos,
principalmente por que, expressar profunda confiana, era a principal
ferramenta para conseguir o que pretendia.
    Segurando o seu vu com firmeza, fazendo-o danar em volta de seu
corpo num bal hipntico ela atentava-se para a aura dos dois. A mulher
possua a quintessncia num tom cor de rosa bem forte e a do homem era
negra como a noite. Olhando bem, ela via que a energia emanada da
mulher era muito superior a do companheiro, embora a fora dela no
fosse to impressionante quanto a que sentiu h poucos minutos.
    Talvez no seja nenhum deles, refletiu. Deve haver um terceiro.
    Solange ainda se lembrava bem do momento em que sentiu a
exploso de energia em sua casa. A fora emanada era terrvel, catica e
nenhum daqueles dois parecia demonstrar tamanha energia, embora
reconhecesse que a energia emanada da mulher fosse bastante
impressionante.
    Porm, se ela quisesse chegar ao seu objetivo, teria que passar por
aqueles dois. Ento, era melhor eliminar a garota de uma vez.
   Nero olhava a menina  sua frente que parecia um pouco jovem
demais para conseguir realizar o feitio to requintado. O perfume
lanado era de fato um feitio terrvel. Atravs da eliminao de uma
suave flagrncia, um mago consegue, atravs dos canais olfativos,
adentrar a mente de seu adversrio. A essncia do perfume tende a mexer
com as funes cerebrais da vtima causando alucinaes e at a morte.
   Se Catarina no o tivesse alertado, ambos teriam sido derrubados por
aquela mgica. Era irritante, mas ele ainda no estava totalmente
acostumado com esse corpo, tanto que seus sentidos ainda no
funcionavam bem. Caso contrrio, teria percebido o cheiro do perfume.
   Ele estudava a garota e via seu vu vermelho danar no ar rodeando o
corpo da usuria. Queria saber qual seria seu prximo movimento e fez
sinal para que Catarina ficasse onde estava. Apesar das limitaes, ainda
queria testar seu novo corpo e a garota parecia ser uma boa oponente.
   Solange viu o homem alto se colocar entre ela e a mulher demnio.
Ela deve ser a lder ento. Como suspeitei. E sem dar mais tempo ao
tempo, posicionou-se. Tinha que ser rpida.
                              ~ 464 ~
    No momento, ela estava usando a mgica Cronos. Tal habilidade 
muito til para pessoas em idade avantajada como ela, pois permitia
fortalecer as clulas do organismo ao ponto de fazer seu corpo
rejuvenescer vrios anos. Porm, essa magia tinha uma curta durao,
pois, exagerar na dosagem significava uma fadiga intensa nos msculos,
deixando o usurio impotente, sem conseguir se mexer.
    Levando-se em considerao as circunstncias, Solange teve que usar
esse recurso. No podia enfrentar tal tipo de ameaa contando com seu
corpo envelhecido. Mas no podia se demorar. Tinha que acabar com
aquilo rpido.
    Nero deu um passo  frente em direo da mulher, esperando v-la
hesitar. Porm, ela no o fez. Ao contrrio, num movimento rpido, a
garota girou o vu em volta do seu corpo com muita destreza e num
segundo ela estava ali, no outro no.
    Onde ela est? Ele varria o lugar a procura da garota desaparecida e
foi quando finalmente conseguiu focalizar. Do meu lado. E quase no
teve tempo de colocar o brao para proteger o rosto e ouviu-se um
estrondo enorme quando a perna dela o golpeou. Nero fincou os ps no
cho, mas no foi o suficiente, pois a fora da garota fez seu corpo de
arrastar alguns metros ao lado.
    Tal faanha o deixou pasmo, no com a fora da mulher, mas sim
com a ausncia da sua. Preparou-se para receber um prximo golpe, mas
se surpreendeu quando a garota se virou em direo a Catarina. Num
movimento gracioso, ela ergueu a perna direita formando um ngulo de
cento e oitenta graus com a outra, deixando-a cair em cima da cabea da
mulher demnio logo em seguida.
    Catarina investiu o corpo pra trs como pde, a fim de evitar que seu
crnio fosse atingido pela fora monstruosa da oponente. E
quando o p da menina atingiu o cho, a caverna tremeu e um buraco de
uns dois metros de dimetro se abriu. As paredes soltaram uma densa
poeira e algumas partes da caverna caram. Foi um milagre o teto no ter
desmoronado na cabea dos trs.
    Nero sentiu raiva por estar sendo subestimado, mas estava mais
furioso ainda por no conseguir se mover como antes. Ele avanou
contra a mulher percebendo que no conseguia alcanar a velocidade
desejada.
    Quem  ela?
    Catarina se assustou com a fora demonstrada que quase a esmagou,
mas logo se recomps, olhando para Nero, provavelmente cobrando
                              ~ 465 ~
alguma uma atitude por parte dele. Afinal, ele havia dito que seria
oponente dela.
    Ele corria em sua direo, mas numa velocidade to lenta que
mereceu um olhar de desprezo de Catarina que. Ento, sentindo todo o
dio por estar sendo humilhado, concentrou toda essa raiva e,
direcionando-o para uma bola de energia negra nas mos, arremessou-a
contra a garota, usando o impulso da corrida para aumentar a presso da
magia.
    Mas a menina surpreendeu a todos novamente e num movimento que
parecia uma espcie de bal, girou o vu envolvendo a bola e, quase sem
nenhum esforo, lanou-a de novo ao encontro de Nero.
    Catarina, no teve tempo de ver o que o demnio faria para evit-la,
pois a garota investiu novamente contra ela e desta vez com o punho
fechado. Mais uma vez a mulher lanou seu corpo pra trs a fim de evitar
o impacto, mas caiu numa armadilha. Quando pensou estar livre,
percebeu que o soco da mulher era falso e agora sua mo estava erguida
para frente, aberta contra a demnio. Ento, dela foi conjurado um
enorme tufo de chamas que rumaram em direo  Catarina. Por no
estar com os ps no cho devido ao impulso tomado para evitar o soco,
no conseguiu se esquivar e levou as mos at o rosto e desapareceu no
meio das chamas.
    Nero ouviu o grito de Catarina e, olhando, viu que ela fora engolida
pelo fogo conjurado pela maga. Apesar de saber que aquilo no era o
suficiente para por um fim na demnio, ele no gostava nadado rumo que
as coisas estavam tomando. A guria era realmente forte e ele ainda no
estava cem por cento.
    Olhou para a direo da garota, mas esta havia desaparecido
novamente. Antes mesmo de pensar em procur-la, ouviu um som atrs
de si e virou-se de qualquer jeito para impedir um soco direcionado
contra a boda de seu estmago. Conseguindo agarrar o brao da garota,
ele a arremessou contra o muro a sua frente.
    Mas ela conseguiu se livrar e, lanando o vu que o envolveu na
cintura, evitou o impacto. O demnio precisou fincar os ps para no ser
levado junto e isso a impediu de se chocar contra o muro. Ao cair no
cho, ela fez mais um movimento e o vu se desenrolou do tronco de
Nero.
    E ela j ia preparando uma nova investida, quando o ambiente ficou
tingido de um vermelho vivo. Olhando para o lado, viu Catarina
                              ~ 466 ~
envolvida de chamas, mas ela no parecia mais queimada pelas chamas.
Ela as controlava. Apesar de um pouco chamuscada, no demonstrava
maiores ferimentos a no ser no orgulho.
    Catarina tinha os olhos em brasa quando arremessou o fogo de volta 
Solange. Com reflexos rpidos, a maga ergueu seu vu fazendo-o girar
com toda a velocidade em volta do corpo. O vento criado foi o bastante
para impedir que sasse queimada.
    E foi ento que os trs ficaram de frente, encarando-se.
Aparentemente estavam todos um pouco cansados, mas Solange no
tinha tempo para ficar refletindo sobre sua condio e logo investiu
contra o homem, pensando em nocautear logo aquele que deveria ser o
mais fcil. Depois cuidaria da mulher.
    O homem tentou lanar contra ela mais uma bola negra, mas
executando um giro digno de uma bailarina, a jovem consegue desviar do
ataque, salvando-se. E aproveitando da investida dele, ela foi com tudo
conseguindo atingir o demnio em cheio no estmago com sua fora.
    Nero sentiu seu corpo disparar em contra a parede e s foi impedido
de se chocar com ela por que Catarina o deteve. Ele nunca se sentiu to
irritado na vida. No podia acreditar que estava passando aquele sufoco
todo para derrotar uma simples maga. Com raiva, tentou se levantar, mas
o corpo falhou.
    Maldio.
    Foi ento que percebeu uma sombra pairando sobre ele, e ao erguer o
rosto para olhar, viu Catarina se colocar entre ele e a Mulher. A demnio
estava irada, mas pareci ter percebido que se quisesse vencer teria de
manter a calma. Sua expresso era calculada, embora seus olhos
demonstrassem uma energia que poderia fazer qualquer ser com o
mnimo de raciocnio lgico, correr.
    O demnio sentiu-se humilhado por estar sendo protegido daquela
forma. Tentou se erguer novamente, mas o corpo no obedeceu. Foi
ento que ordenou:
    - No Catarina! Vamos embora.
    - Mas...
    - Vamos embora! - repetiu num tom que dizia: Sem discusses.
   Catarina sentiu muito nojo daquele homem e no conseguiu acreditar
que chamou um verme daqueles de amo em algum momento. Havia se
decepcionado muito com ele, mas reconhecia que ela tambm no era
                              ~ 467 ~
preo para a garota que comeava a lanar labaredas neles. Erguendo as
mos para frente, Catarina conjurou uma barreira que os protegeu do
lana chamas. Foi ento que percebeu algo de errado naquele ataque.
No parecia mais ter a mesma potencia do anterior.
   - Catarina, vamos!  ordenou novamente
   E quando as chamas acabaram ela, mesmo  contra gosto, ergueu uma
das mos em direo ao rosto, que agora aparecia cheia de um p cor de
rosa. Sem esperar novas ordens, soprou aquele contedo, lanando toda
uma nuvem de poeira contra a oponente.
    Solange viu uma neblina espessa encher o ambiente, encobrindo-os
completamente. Prevendo o que pretendiam, correu para mais perto e ali
girou seu vu com toda a fora criando uma nova corrente de ar para
espalhar a poeira. Mas quando conseguiu, no havia mais ningum.
    - Inferno - praguejou
    Mesmo irritada por t-los deixado escapar, tinha de admitir que por
um lado foi bom. Isso por que seu corpo comeava a energia gasta com
aqueles dois. Usar a magia Cronos era muito trabalhoso e todas as
magias que suara na luta haviam contribudo para desgast-la ainda mais.
    Mas ela ainda no havia acabado a misso. Ainda no sabia onde
estava o dono da energia monstruosa que sentiu ainda pouco e precisava
encontr-lo.
    Preparou-se ento para correr pelos tneis a fim de ach-la, mas sua
ateno foi cortada por uma nova exploso de energia. Esta era to
monstruosa quanto  anterior e por um momento Solange at acreditou
que fosse a mesma, mas no era. Havia uma diferena perceptvel,
pequena, mas estava ali. Por um segundo, aquela manifestao a deixou
intrigada, pois acreditava j t-la sentido antes, mesmo que de forma
diferente.
    E foi quando finalmente compreendeu, fazendo seus olhos se
arregalarem e seu corao sair do compasso. No! Sabia de quem era
aquela energia. Estava mais irada e mais catica, mas era ele, com
certeza. No pode estar acontecendo. E torcendo para estar enganada, se
lanou nos corredores escuros em direo da terrvel emanao.
                              ~ 468 ~
   68 - Besta liberada.
   Que energia monstruosa, admirou-se Satine, que tremia da cabea
aos ps. To monstruosa que chegava a ser visvel a olhou nu. A mulher
conseguia ver com total clareza o contorno que as chamas vermelhas
vivas faziam no corpo do garoto e acreditava que at mesmo Ana poderia
enxergar tal emanao.
   Naquele momento, no teve chance de se arrepender, pois o medo
tomava conta de sua cabea e s conseguia faz-la pensar em alguma
forma de fugir dali. A besta no tirava os olhos dela, mas ainda no
avanava, permanecendo em sua posio de ataque e rosnando
ferozmente para ela.
   Por um momento, Satine acreditou que poderia escapar se corresse,
mas foi apenas dar o primeiro passo para trs que pde ver o garoto
desaparecer diante de seus olhos. Ah, como? Ela olhava nervosamente
para os lados a procura do Garow, quando seus olhos o focalizaram bem
 sua frente. Ian estava ali, agachado, e agora levantava a garra contra
suas pernas.
   - No!  e num impulso instintivo, ela lanou seu corpo para trs
conseguindo evitar as garras por uma questo de centmetros. Pelo
menos foi nisso que acreditou.
   Mesmo evitando as unhas, o simples vento produzido pelo golpe
raspou em sua perna e um espirro de sangue sujou a parede ao lado.
Soltando um grito agudo que feria os tmpanos, Satine olhou alarmada
para o estrago e viu trs linhas vermelhas marcando sua coxa branca.
   - No! Meu lindo corpo no! - ela tentava se afastar do garoto que
agora andava lentamente por cima dos membros superiores e inferiores -
Para com isso!
   Ela gritava em vo, pois sabia que ele no podia ouvi-la. Satine
olhava os olhos de Ian e no conseguia enxergar mais nenhuma
humanidade neles, podendo ver neles apenas uma nica mensagem, clara
como a gua, que lhe causou um cesso de pnico: Morte.
   E numa investida rpida, o Garow se lanou contra ela novamente,
correndo sobre os quatro membros numa velocidade alucinante. Como
um animal ele se lanou num ataque direto contra Satine.
   - Sai daqui! - ela urrou erguendo as mos contra ele e disparando uma
chuva de pequenas bolinhas negras.
   Num movimento rpido, a besta se lanou contra a parede ao lado
evitando o golpe e ao mesmo tempo, pegando impulso em direo e ela.
Ele passou de raspo ao lado da mulher demnio, mas, mais uma vez,
                              ~ 469 ~
uma simples brisa j lhe rendeu um novo ferimento. Mais um grito de
Satine encheu o ambiente e ela levou a mo  barriga, onde mais trs
cortes estavam  mostra.
   - No! Para! - ela parecia chorar mais seus olhos no vertiam
lgrimas - Por favor! Eu no quero voltar pra aquele inferno.
   Mais uma vez ele no parecia ouvir nada e investiu novamente. Desta
vez, o movimento foi mais veloz, passando por ela uma, duas, trs vezes
fazendo sangue espirrar em cada uma delas, indo e voltando. Satine
comeou a sentir suas energias abandonando o corpo  medida que sentia
sua pele ser cortada na panturrilha, nas costas e no peito. Seu corpo foi
cambaleando at o cho e seu grito ficou abafado desta vez.
   No. No quero voltar para o l. O desespero tomava conta da
mulher. No queria passar por aquele sofrimento todo de novo. No
queria voltar  companhia daquelas almas atormentadas. No queria
passar cada dia vendo os crimes de seu passado correndo atrs dela por
aonde ia. No queria mais olhar para os vivos e sentir inveja. No queria
no poder sentir nada. Nem o vento, nem o toque dos outros. No queria
morrer de novo.
   Ela tentava se arrastar para longe da fera, mas esta estava diferente.
No avanava mais e agora ele a rodeava como um predador estudando a
presa.
   - Desgraado! - Gritou - Nero! - tentou chamar torcendo para que o
mestre pudesse acudi- na naquele momento desesperador. - Nero! Amo!
   Mas nada. As nicas pessoas que pareciam olhar por ela naquele
momento eram a intil da Ana e seu algoz, com aqueles olhos vermelhos
desejosos. Ela sabia o que eles queriam. Sabia da sede deles. Satine viu
seu sangue em toda a parte.
   No podia abandonar seu corpo naquele estado. Ela sabia que a
Magia Gnesis s a mantinha no mundo dos vivos se ela tivesse um
corpo para habitar. Por isso sempre procurava manter seu verdadeiro
corpo a salvo usando o de outras pessoas. Se sasse para tentar possuir
algum, ele terminaria de estraalh-la. De qualquer forma, estava
perdida.
   E foi quando sentiu as duas listras quentes cortando seu rosto. Ela
comeava a chorar.
   Ana no conseguia reconhecer o ser que atacava to violentamente
Satine. E por mais que tentasse, no conseguia enxergar Ian em nada
daquilo.
                              ~ 470 ~
    Ana sentiu a dor em seu brao quebrado comear a perder o efeito
conforme olhava aquela cena de profunda bestialidade. O desespero da
mulher era palpvel e, por um segundo, a garota foi at capaz de sentir
pena dela. Ningum merecia uma morte daquelas, nem mesmo um
demnio.
    E Ian no parava. No descansava e continuava a retalhar o corpo de
Satine. Em vrios momentos, ela tinha que virar o rosto para no
presenciar a cena. Era forte demais. Por mais que a mulher tentasse lutar
ou esquivar, no conseguia. Ian se mostrava muito mais rpido que
qualquer coisa imaginvel.
    Em vrias situaes, Ana o via desaparecer para not-lo depois, no
mesmo segundo, em outro lugar. Queria se erguer do cho. Queria poder
fazer algo, mas como sempre o medo a mantinha presa ao cho com uma
fora magntica insupervel.
    Pela primeira vez na vida ela sentiu medo de Ian. Olhava suas feies
e no conseguia encontrar o amigo naqueles olhos vermelhos. Ela
conseguia ver tambm a energia que emanava dele e no era do azul
habitual e sim vermelha como seus olhos.
    Satine agora cara e Ian parou com os ataques. Uma fagulha de
esperana surgiu no peito da garota, mas que pouco durou. Ela o via
circular sua vtima como um lobo cercando uma lebre, com seus olhos
fixos tinham carregados do desejo de morte.
    E foi quando a demnio comeou a chorar. Ana no imaginava que a
mulher fosse capaz de um gesto to humano e se espantou ao ver as
lgrimas que brotavam dela. Mas elas no eram feitas de gua. O liquido
que saa dela era vermelho escuro. Um rubro que contrastava com o
branco da pele.
    - Ian. - chamou, mas sua voz era fraca e duvidava que o garoto a
pudesse ouvi-la.
    E as palavras do garoto vieram  sua cabea. Em vrios momentos ele
a avisara da besta, mas Ana nunca levou o assunto to a srio. Julgava
que Ian exagerava nas coisas, mas agora, no tinha duvidas e sentiu-se
envergonhada por um dia ter duvidado daquilo.
    Nesse instante, a energia vermelha que circulava pelo corpo dele
comeou a desaparecer. No, no estava desaparecendo, estava rumando
para outro lugar. Todas as chamas corriam agora para um nico ponto do
corpo dele: seu brao.
    Logo seu brao direito estava envolto de energia, s que mais
intensas. Ana no entendeu o que aquilo significava, mas sabia por
experincia que no devia ser nada de bom para a mulher demnio.
                              ~ 471 ~
    - No! - ouviu Satine gritar e tentar correr como podia para a
passagem da caverna atrs dela. Ian disparou em sua perseguio e os
dois desapareceram no escuro da passagem. Por uma frao de segundo,
houve silncio, que serviu para Ana puxar a maior quantidade de ar
possvel antes de voltar a esquecer como se fazia isso. E foi quando o
grito da mulher pareceu estourar seus tmpanos.
    Ana fechou os olhos e tentou como pde tampar os ouvidos. Depois,
uma nuvem negra saiu da gruta enchendo o lugar com um cheiro forte de
enxofre. Por um momento ela ficou imvel, contemplando a passagem
por onde os dois haviam desaparecido. O silncio agora era permanente.
    Acabou? Estamos salvos?
    O suor frio escorria por sua testa. Ela no conseguia tirar os olhos do
corredor, quando viu uma forma surgir em meio  escurido. Algum
estava voltando. Viu Ian saindo. Ele tinha o corpo curvado, mas j
andava em duas pernas, o que ela pensou ser um bom sinal. Porm,
quando seu olhar subiu mais e ela conseguiu fitar os seus olhos, percebeu
que no estava salva.
    Agora, mais do que nunca, ela corria um perigo mortal. E desta vez
ele no rosnou, nem a cercou, como fez com Satine. Apenas avanou.
    *
    Era to calmo ali. Escuro e talvez um pouco assustador, mas acima de
tudo calmo. No havia sons e tudo parecia preenchido por um liquido
quente, como se estivesse de baixo d'gua. Estranhamente conseguia
respirar o que fez Ian ter a impresso de que, se soubesse como era estar
dentro do tero materno, aquela seria a sensao.
    No conseguia se lembrar de j ter vivido aquela experincia antes.
Na verdade, nem conseguia se lembrar de mais nada. Era um vazio na
sua cabea e isso o ajudava a manter a paz. Mas por algum motivo, sentia
que devia fazer um esforo para se lembrar. Como se alguma coisa
urgente dependesse disso.
    O que estava fazendo ali? Qual era ltima coisa que conseguia se
lembrar? Uma mulher loura veio a sua mente. Satine. Lembrou-se e uma
raiva tomou conta dele. Sim, Satine estava me atiando, queria me fazer
perder o controle. E ao olhar o escuro a sua volta, deduziu que ela havia
conseguido. Mas era estranho.
    Nas outras ocasies em que a besta o havia dominado, Ian no se
lembrava dessa experincia. Ele simplesmente dormia e acordava em
algum lugar para depois vir saber quem fora sua vtima fatal. Satine
havia brincado com fogo. Havia liberado sua besta e ela devia estar no
                               ~ 472 ~
controle de seu corpo naquele momento enquanto ele estava naquele
mundo de trevas.
    O que estaria fazendo agora? Estaria atacando Satine? E um pequeno
contentamento o deixou em paz por algum tempo. Ele se lembra que esse
era seu desejo antes de apagar, mas tambm algo o incomodava ainda
assim. Algo estava passando despercebido pelo retorno de sua memria e
isso poderia ser terrvel. Cada clula de seu corpo lhe cobrava isso. Ele
tinha que se lembrar. E foi quando um estalo de um osso ecoou em sua
cabea, despertando-o para a terrvel verdade: o motivo pelo qual havia
perdido o controle.
    Lembrou-se do grito de Ana no momento em que teve seu osso
partido. Meu Deus.
    E foi quando percebeu que tinha de acordar de alguma forma. Agora
sabia a razo do desespero que sentia. Tinha que se impedir se no fosse
tarde demais. Ele tentava se despertar, como em um pesadelo, mas no
sentia nenhuma diferena e foi quando viu uma luz surgir logo acima
dele. Era branca e o ofuscava um pouco. No sabia o que significava,
mas instintivamente, comeou a nadar em direo a ela. Era a nica coisa
que podia fazer.
    E foi como emergir do fundo do mar. Sentiu como se seu corpo sasse
de um ambiente para entrar em outro no mesmo instante que o ar
penetrava seus pulmes e era como se estivesse sem respirar a muito
tempo.
    Demorou um pouco at que a imagem do local onde estava
comeasse a entrar em foco e at conseguir isso, apenas sentia seu corpo
correndo descontroladamente. Percebeu que tinha vontade irresistvel de
morder alguma coisa, arranhar, estraalhar.
    E quando seus olhos voltaram a ver, viu seu alvo encolhido em um
canto da caverna. A garota o olhava paralisada, segurando um brao
machucado. Ela gritava seu nome e o desespero deixava sua voz mais
aguda que o natural. Mas o que Ian jamais poderia esquecer naquela
cena, era o pavor que via em seus olhos.
    Somando toda a sua fora de vontade, Ian conseguiu fincar os ps do
cho e parar a poucos centmetros de Ana. Seu rosto estava quase colado
ao dela e ele olhava diretamente em seus olhos. Aqueles olhos castanhos
que sempre o viam com carinho, desta vez estava cheios de medo. Um
medo que ele j vira muitas vezes na vida.
    J tinha recebido esse olhar de muitas pessoas, mas nunca dela. Ana
finalmente tinha visto o monstro nele.
                              ~ 473 ~
   Ele parou com a respirao, ofegante, enquanto encarava suas mos e
viu o sangue que sujava suas garras. Ian ainda sentia um gosto de sangue
na boca e se sobressaltou.
   A noite num quarto escuro nos EUA voltou  sua cabea, Suas mos
sujas, o gosto de sangue na boca. Tudo voltou de forma muito real e o
desespero tomou conta de seu corao. Ana parecia ilesa, mas ele
conseguia visualizar perfeitamente a garota estraalhada no cho, no
lugar de Catarina.
    Ana viu o garoto disparar em sua direo. Na hora, o medo tomou
conta dela o que a impediu de se movimentar. Foi tudo to rpido,
permitindo a ela apenas gritar seu nome, tentando desesperadamente
cham-lo de volta. Tentando acord-lo.
    Ele se aproximou muito rpido e em poucos segundos seu rosto
estava colado ao dela. Apesar de estar apavorada, em nenhum momento
ela desviou o olhar. Ainda o encarava fixamente, como que presa numa
v esperana de poder voltar a ver seus olhos na cor azul. Mas agora ele
estava perto demais.
    Ela podia at sentir suas presas encravando em sua carne antes
mesmo do impacto, mas no fechou os olhos e continuou olhando-o.
Nunca sentiu tanto medo na vida. Ana sabia com certeza que era seu fim.
Mas foi quando ele parou. No entendeu o que tinha acontecido ficando
ali, parada diante dele, sentindo seu hlito quente no rosto que cheirava
numa mistura de menta e ferro.
    O que o fez parar? E foi quando viu a cor de seus olhos comearem a
mudar. O vermelho foi dando lugar ao azul claro que ela tanto conhecia.
E a expresso deles tambm mudou. Da raiva incontrolvel, ao pavor
profundo.
    Ele olhou para Ana desesperado e depois fitou as prprias garras
sujas de sangue. Lgrimas alarmadas comearam a surgi em seus olhos e
Ana finalmente conseguia respirar normalmente. Reconhecia agora a
pessoa que olhava pra ela. Ele tinha voltado.
    Sentiu uma pontada de felicidade e at fez meno de se levantar para
abra-lo, mas ele deu um passo pra trs. Ana ficou apreensiva. Tentou
se levantar e ele deu outro, aumentando a distncia. Ana via o medo em
seus olhos. O mesmo medo que ela sentira h pouco agora estava
estampado no rosto de Ian.
    - No - ela gaguejava tentando erguer a mo para alcan-lo. Sabia o
que ele estava prestes a fazer, mas no conseguiu impedir. Mais rpido
                              ~ 474 ~
que sua viso conseguiu acompanhar, o garoto disparou. Sumiu pela
passagem da gruta.
    - Ian! - a maldita voz finalmente resolveu sair, mas j era tarde. No o
via mais, no o escutava mais.
    Ela tentou se levantar mais uma vez e correr atrs dele, mas sentiu o
corpo fraquejando e a cabea ficando tonta. Foi perdendo seus sentidos
pouco a pouco e a ltima coisa que pde ver foi a figura de algum se
aproximando. No pode identificar quem era. Podia ser Catarina, Nero
ou at mesmo Laila, mas infelizmente, sabia que no era Ian.
                                ~ 475 ~
   Eplogo - Novos comeos.
    De fato Cassandra era uma exmia vidente. Em cima de um dos
grandes edifcios da Avenida Presidente Vargas, o bispo Csar conseguia
olhar sua Igreja. O templo que tanto lutou para reerguer estava agora
rodeado pelas chamas. Ele sabia que isso aconteceria. Alm de ser
prevenido pela cigana, sabia que os Inquisidores jamais permitiriam que
aquele lugar continuasse de p depois que se descobriu ser utilizado por
magos.
    Amanh, provavelmente sairiam manchetes no jornal sobre o
ocorrido e a causa do incndio seria atribuda a uma falha no circuito
eltrico, ou algo semelhante. Os Inquisidores dificilmente deixavam
pontas soltas quando o assunto era encobrir os assuntos referentes 
magia.
    Agora, enquanto vislumbrava o bal de chamas, pensava no que a
velha maga lhe disse. Realmente ele sentia uma vontade louca de ir atrs
daqueles infelizes, mas sabia que nunca, nem se levasse toda a sua curta
vida, conseguiria acabar com aquela organizao, que existia por tantos
sculos.
    Infelizmente, no conseguiria vingar ngelo dessa forma. E foi
quando sentiu que algum se aproximava por trs dele.
    - Imaginei que viria - falou sem se virar - O que veio fazer,
Cassandra?
    A velha maga colocou a mo em seu ombro.
    - Sinto muito - Seu ar despreocupado estava ausente naquele
momento, deixando a mulher demonstrar a maturidade que realmente
tinha.
    - Obrigado - respondeu - Mas uma igreja, apesar de tudo, nada mais 
do que uma construo de pedras e madeira. Quando destrudas, podem
se reerguer. Mas infelizmente, h coisas que quando se quebram no se
pode recuperar.
    Cassandra olhou para um lenol no cho que envolvia alguma coisa
grande.
    - Vejo que trouxe o corpo dele.
    - Ele merece um enterro digno.
    - Sei que merece. - respondeu com um sorriso amoroso - Ele lutou
muito por uma boa causa, se sacrificou para salvar sua vida e merece ter
o descanso digno de um heri.
    Os olhos do velho comeavam a ficar marejados.
                              ~ 476 ~
    - Pelo que vejo voc quer logo uma resposta sobre o que me props.
No quer esperar.
    Ela sorriu gentilmente.
    - Voc tambm  vidente?
    - No. - respondeu retribuindo o sorriso - Voc  apenas muito
transparente.
    Ela segurou o sorriso por um tempo, fitando a igreja em chamas. A
brisa vinda do sul acariciava seus cabelos que balanavam ao ritmo do
vento. Quando olhou para Csar de novo, estava seria novamente.
    - Eu senti a presena do demnio h alguns minutos. - fez um breve
silncio - Infelizmente ele despertou. Esse incidente na capela fez
perdermos a oportunidade de impedi-lo.
    O bispo permaneceu em silncio.
    - No sei o que voc pretende fazer de sua vida, mas seria bom que
pensasse bem sobre o que lhe falei. - completou - Infelizmente voc  um
dos poucos no mundo que sabem desse acontecimento. Nossa histria vai
parecer fantstica demais quando contarmos para outros de nosso grupo.
Duvido que as demais organizaes mgicas vo acreditar em ns e
quando finalmente perceberem que alguma coisa muito ruim est entre
ns, eu temo que seja tarde.
    - Entendo bem - interrompeu - Eu no pretendo retornar aos
Iluminados, no me sinto digno deles agora. No tenho condies de
acabar com todos os Inquisidores como voc mesma falou. Ento, no
tenho muito que fazer.
    Cassandra ficou esperando sua resposta pacientemente e o bispo
continuava olhando sua Igreja em chamas.
    - S espero que os estragos feitos por mim no sejam irreparveis.
    - No foi culpa sua confiar em Henrique Bispo, e sim dele no saber
dar valor a ela - respondeu Cassandra solicita.
    O bispo deu um sorriso leve.
    - Obrigado. - e pensou um pouco - Conte comigo  disse por fim 
Vou tentar avisar aos Iluminados para que se mantenham alerta. No sei
quantos foram os que Henrique dedurou.
    - Faz bem  felicitou Cassandra.
    Ele se virou deixando a igreja em chamas pra trs e, com um
movimento de mos, fez o corpo de ngelo, enrolado no pano, flutuar.
    - Acho que meu aluno ia gostar disso e ele merece que sua obra seja
cumprida.
    - Engraados vocs dois  comentou a mulher.
    - Por qu?
                              ~ 477 ~
    - Sempre buscam fazer realizaes um pelo outro. ngelo tentou
encontrar o demnio em seu nome e agora voc tenta completar o
trabalho dele.
    O Bispo no respondeu e juntos deram as costas para a destruio que
significava seu passado.
    Era hora de enterrar os mortos.
    *
    Depois que perdeu os sentidos, o ltimo lampejo de conscincia que
Ana teve foi o de ter sido carregada por uma pessoa. Olhou para a pessoa
que a levava e mesmo com sua viso embaada, conseguiu reconhecer o
rosto maduro da mulher que lhe era familiar.
    - Solange - gemeu.
    - Calma Ana. Vamos sair daqui - falou a mulher e ela apagou
novamente.
    Quando acordou, estava no hospital. Passou dois dias internada l.
No tinha muitos ferimentos, mas suas costelas tinham sido fortemente
atingidas, embora no tenham fraturas, e ela apresentava marcas nos
pulsos e um brao quebrado.
    No geral, o fsico de Ana estava timo. Seu principal ferimento no
era visvel e no se tinha uma cura predefinida para o mal de que sofria.
Ela havia passado aqueles dois dias na mais profunda inrcia. No tinha
nimo para conversar, comer ou fazer qualquer tipo de coisa. Seus pais
vinham constantemente visit-la e vrios amigos tambm, exceto Laila
que nunca apareceu.
    Ana sabia que sua me estava muito preocupada com sua depresso.
Ela provavelmente temia que a filha entrasse no mesmo estado de
insanidade que teve quando perdeu suas tias, pois sabia que o trauma que
Ana havia passado era muito forte. Ou pelo menos achava que entendia.
    Descobriu nesses dois dias o que os jornais estavam falando do
ocorrido. Noticias bombstica estampavam as manchetes dos jornais.
Nelas, apareciam fotos de uma pilha de corpos e de uma gruta
subterrneas macabra.
    As manchetes eram to escandalosas quanto s imagens.
   Culto satnico assombra o Rio de Janeiro.
  Jovens         desaparecidos           usados        em       rituais
macabros.
                              ~ 478 ~
   Satanistas no Brasil.
    A teoria mostrada nos jornais era a da vinda de um culto antigo, que
h muito tempo estava desaparecido, fazendo acreditar que fora extinto.
Em algumas revistas vinham at mesmo histrias detalhadas desse culto,
contando a sua trajetria durante a histria e seus rituais usados.
    Os Inquisidores, pelo visto, usaram uma estratgia diferente para
abafar o caso. Em vez de tentar usar uma desculpa, procurando dar o
menor grau de importncia para o acontecido, eles fizeram totalmente o
oposto. Todos os meios de comunicao investiram pesado no caso e
vrias teorias foram formuladas sobre os supostos satnicos. Muitos
programas mostraram seus pontos de vista e vrias comunidades na
Internet entraram no jogo.
    No fim, seu intento foi conseguido: as pessoas se cansaram do
assunto e o esqueceram.
    Nesse perodo, Ana teve que fazer consultas com uma psicanalista
para tentar superar seu trauma. A mulher parecia muito interessada em
ouvir a verso de Ana dos acontecimentos, mas a garota j tinha uma
dura experincia da ltima vez que tentou dizer a verdade a um
psiclogo. Ento, fez o que achou melhor: mentiu.
    Concordou com as teorias do jornal, dizendo que havia sido
seqestrada por homens num carro preto e levada ao esconderijo deles.
L, eles quiseram realizar rituais macabros com ela, mas foram
impedidos devido  atuao da policia, que chegou ao local graas uma
denuncia feita por uma jovem chamada Laila Correia.
    Na hora de descrever os rituais, ela tentou ser o mais convincente
possvel e, no fim, conseguiu o que queria e a mulher deu alta pra ela em
apenas uma semana de visitas.
    Ana ficou sabendo tambm da lista de pessoas assassinadas pela
suposta seita. Muitos nomes que ela no conhecia e apenas um ou dois
ela j tinha visto no jornal outra vez, quando ainda acreditavam se tratar
de uma ao de traficantes. Mas o que chamou sua ateno foi um nome
em especial contido na lista de falecidos:
   Ian Gomes
   Ela viu essa noticia quando chegou em casa. Sua me tentou fazer de
tudo para esconder isso de Ana, mas no conseguiu e a garota acabou
                               ~ 479 ~
encontrando o jornal que continha a lista de bitos no cesto de lixo.
Ento, mesmo em tais circunstncias ele conseguiu completar seu plano
de fuga.
    Ela estava em seu quarto um dia enquanto passava fotos antigas no
computador, tentando fazer as lgrimas carem de seu rosto e aliviar seu
peito, mas, mais uma vez, elas pareciam ter se secado completamente.
    Depois, passou a olhar as fotos de suas tias que ficavam em seu colar
e sentia uma mescla de tristeza e raiva ou olh-las. Ainda se lembrava do
que Nero disse. Que ele fora o assassino das duas.
    Eu queria tanto poder ving-las.
    Ana sentia o desejo de poder fazer jus  memria de Teresa e
Samanta. Queria muito ir atrs de Nero e faz-lo pagar. Mas quanto mais
pensava nisso, mas se sentia triste. Pois o que ela poderia fazer agora que
conhecia a identidade do assassino? Como poderia se vingar se no
conseguiu nem mesmo derrotar Satine?
    As ltimas palavras de Ian ainda ecoavam em sua cabea. Ser que
voc no v que estando aqui s me atrapalha? Foram palavras duras.
Com voc aqui, eu tenho que me preocupar em proteger ns dois. E
apesar de ela saber que no tinham a inteno de machuc-la. Que eram,
acima de tudo, palavra de amor com a inteno de proteg-la. No
diminuiu o impacto que lhe causaram. Isso por que, apesar de serem
palavras ditas com a melhor das intenes, elas tinham um grave
problema: Eram todas verdadeiras.
    De fato, ela s o tinha atrapalhado desde ento. Por tentar proteg-la,
Ian levou um tiro em Trs Coraes e por ter que voltar para salv-la, ele
foi capturado. Ela olhava para o gesso em seu brao e conseguia
visualizar perfeitamente o momento. Via o quanto foi fcil para Satine
fazer isso com ela.
    E porque tinha conseguido isso to facilmente? Ela  to fraca, ouvia
a demnio falar em sua cabea. Infelizmente era verdade. Ela era fraca.
    Sempre teve que ser protegida de tudo, mas agora no tinha mais
protetor. Ele fugira dela. Teve que v-lo fugir para proteg-la dele
mesmo. Mais fotos foram se passando, mas elas no a ajudavam. Cada
lembrana de Ian ou de suas tias serviam apenas para aumentar a
angustia na garota, sem trazer o alvio esperado.
    E foi quando viu o jornal em cima de sua mesa ao seu lado, que trazia
a lista de mortos e corpos encontrados. E foi ento que se lembrou se um
detalhe. Parecia que algum tinha conseguido um corpo para se fazer
passar por Ian, mas quem?
                               ~ 480 ~
    O garoto havia falado que algum o ajudaria, mas ele no conhecia
muitos magos. Ele mesmo havia falado isso. Ento a resposta bvia a
atingiu. Solange. Compreendeu. Era realmente a nica que podia ter feito
isso. Solange! E uma idia veio  sua cabea.
    Ento, calou os chinelos e saiu de casa sem falar com a me.
    *
    Solange colocava seu caf para preparar. Talvez ele o ajudasse a
pensar melhor, nas inmeras coisas que aconteceram to rapidamente: a
presena, os demnios, a fuga de Ian e a garota encontrada desmaiada.
    Quando ela chegou  cmara onde Ian e Ana estavam, viu o garoto
passar por ela como uma flecha e Solange no teve tempo de segur-lo.
Dava para ver que estava muito atormentado. Ela sabia o que tinha
acontecido e comeou a temer pelo destino de Ana. Porm, quando
chegou, viu-a inteira.
    Graas a Deus.
    Sentiu-se muito feliz na hora. Ento, ele havia conseguido se
controlar. Tinha sido capaz de assumir o controle no ltimo segundo,
mesmo aps a besta j t-lo dominado. Era um feito indito pra ele.
Realmente Ian devia gostar muito da garota.
    Mas mesmo assim, ele quase a matou e isso foi longe demais para ele.
Ian no agentou a sensao de culpe e fugiu.
    Alm do caso da besta, outra coisa a incomodava: a presena que
sentira na primeira vez. Sabia que no era uma coisa a se deixar passar.
Nunca sentiu tanta fora e tanta crueldade em uma energia antes. No
sabia quantos magos tinham sentido o mesmo que ela. Poucos talvez. Ela
s percebeu por que estava muito prxima do local onde tudo aconteceu.
    E quantos acreditariam nela quando resolvesse contar? Como
descrever tudo o que aconteceu? Solange no sabia que passo deveria dar
e sentiu que estava sozinha nessa. Ela sabia que no podia deixar aquilo
passar, mas no sabia como fazer.
    E foi quando som de sua porta se abrindo a tirou de suas reflexes.
Quem ser? Ian era o nico que entrava sem bater. Ento viu a garota
entrar em sua cozinha e ficar parada olhando pra ela. Nenhuma das duas
falou por um minuto. Solange estava surpresa com a audcia dela e fitava
seus olhos atrs do motivo da invaso.
    Viu que Ana tinha um pedido a fazer, na verdade, quase uma splica.
Ento, respirando fundo, aguardou que ela fosse capaz de comear.
                              ~ 481 ~
   Ana no sabia como comear. No tinha grandes chances, ela sabia.
Mas queria muito tentar. Ainda se lembrava das palavras de Ian:
   Solange tem grande potencial em ensinar...
   Aposto que voc seria uma maga muito poderosa se a tivesse como
mestra...
   Ela  melhor que eu em ensinar...
   Estava desesperada e tinha medo de no saber se expressar direito.
Ento, resolveu ir direto ao assunto da melhor forma que conseguiu
pensar.
    Solange viu a garota cair de joelhos  sua frente e por as mos nas
pernas, mantendo a cabea baixa.
    Tal gesto impressionou a mulher ao ponto de faz-la hesitar um
pouco, ficando imvel enquanto a cafeteira avisava que seu caf estava
pronto.
    O que ela est fazendo?
    - Por favor! - ela pediu com a voz suplicante - Eu queria pedir que a
senhora me treinasse.
    Solange no entendia o entusiasmo repentino dela. Achou que as
coisas j estavam bem claras e que Solange no treinaria mais ningum.
E ia abrir a boca para falar quando a garota pediu novamente:
    - Por favor. Eu preciso ser forte. Eu preciso de uma mestra.
    Solange ficou sem ter o que dizer nesse instante, e ambas sentiram o
silncio constrangedor que se instalava. Ento, criando coragem de
destruir os sonhos dela, mais uma vez, tentou colocar os pingos nos is.
    - Porque essa mudana querida? - falou sem muita emoo - Achei
que voc j tinha se conformado...
    - Por favor - ela repetiu - Eu preciso... Ian... Eu...
    Ela no falava coisa com coisa e Solange j estava pronta para dar um
basta naquilo tudo quando levantou a cabea e a encarou. E com isso,
Solange j no queria mais nenhuma explicao. Isso por que, olhando
aqueles olhos cheios de energia, ela sentiu aquilo que sempre esperava
em algum, mas no teve a chance.
    Ela via que a garota estava mudada. Alguma coisa a tinha
transformado profundamente e Solange no sabia o que era, mas na
verdade, nem queria saber, pois aqueles olhos, antes mortos e sem brilho,
estavam agora cheios de Paixo.
                              ~ 482 ~
    *
    No havia mais nenhum desejo na cabea de Ian do que o de correr.
No sabia do que estava fugindo. Tinha muitas coisas para temer. Podia
estar fugindo de si mesmo ou de Ana. Podia estar fugindo de Solange
que devia estar irritada por ele quase ter cometido uma tragdia. Poderia
estar fugindo de tudo ou de nada ao mesmo tempo.
    Mas s queria fugir.
    Quando finalmente parou, estava muito longe de casa. Na verdade,
nem reconhecia onde estava. Parecia que tinha ido parar no interior do
Rio, pois ele via uma estrada de terra cercada de mato que estava bem
mido naquele momento.
    Foi ento que percebeu que estava chovendo. As gotas caiam de leve
em seu corpo e de alguma forma o aliviavam do sofrimento que sentia.
Suas mos agora estavam limpas, mas ele ainda podia v-las com
manchas de sangue. O gosto de ferro continuava em sua boca, mas ele j
no se importava com ele.
    Naquela estrada de terra deserta, havia uma poa d'gua com a qual
ele podia ver seu rosto refletido nela. Olhos azuis o fitavam. Olhos que
deviam estar cheios de dio h algumas horas atrs. Olhos de um
monstro.
    Tirando o rosto da gua. Ele agora contemplava o lugar onde estava.
No sabia pra onde ir, no sabia quem procurar, no sabia se queria fazer
alguma coisa. Ento, ficou de p, imvel na estrada deserta e enlameada.
Ficou assim, deixando algumas poucas gotas carem em seu rosto e
aproveitando o momento para pensar.
    Pensava na guinada que sua vida tinha tomado. Mais uma vez ele
havia destrudo tudo o que tinha de bom na sua vida. Mais uma vez
estava s. E mais uma vez se sentia como um monstro.
    E de quem era a culpa? A primeira resposta caiu sobre o rosto que
estava na poa de gua abaixo dele e nesse momento uma vontade de por
um fim a sua prpria existncia o acometeu. Mas ela no durou muito,
pois logo a imagem de um homem careca invadiu sua mente.
    Ian cerrou os punhos e seus dentes trincaram.
    E foi quando desistiu da idia do suicdio, pois j sabia exatamente o
que queria e precisava fazer.
                                  FIM
                               ~ 483 ~
                      Sobre o autor
Eu sou carioca, nascido no Bairro da Vila da Penha onde a obra
    ocorre em partes. Desde que me entendo por gente sou
fascinado por temticas sobrenaturais e consegui desenvolver
  minha criatividade atravs de horas investidas em jogos de
                     RPG e leitura variada.
No atual momento, curso Histria na Universidade Federal do
 Rio de Janeiro e estou com projetos de outros ttulos que se
               situam no mesmo mundo de O Vu.
                        Abrao a todos.
                      Willian Nascimento.
                          Contatos:
                           E-mail:
willian.nasci@hotmail.com
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